quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

"Santuário de Covadonga" - Jean-Charles Forgeronne

 

 
A RUTA DEL CARES

O caminho acaba em Caín, dali em diante não há carro ou mota que passe e quem quiser continuar só caminhando por caminhos de cabras ou então, o principal objectivo de quem demanda este fim-de-mundo, fazer a famosa Ruta del Cares, um desafiante percurso pela chamada "Garganta Divina", um impressionante desfiladeiro que acompanha o curso de água, atravessando túneis e passando pontes a 1000 metros acima do rio... A rota liga Caín, na província de Léon, a Poncebos, nas Astúrias, e tem 12 Kms de extensão mas como é linear  muitos são obrigados a fazer ida e volta, o que valerá a pena pois o deslumbramento será a dobrar... A Ruta del Cares, à semelhança do seu irmão do sul, o Caminito del Rey, foi aberta na rocha em meados do século XX com o intuito de permitir a manutenção do canal de abastecimento de uma central hidroeléctrica, neste caso a de Camarmeña... 


"Por entre falésias..." - Jean-Charles Forgeronne

Aqui entalados nestas paredes abruptas de calcário sentimo-nos noutro mundo, como se tivéssemos atravessado um portal para outra dimensão, aqui não há tempo nem espaço para notícias de guerra, da economia ou de mais catástrofes ambientais ou humanitárias, aqui, com excepção das cabras montanhesas que por aqui vivem, somos só nós literalmente dentro da majestosa e incrível natureza...  Aproveite-se então este cenário magnífico para o deslumbramento e para a reflexão, talvez até para calibrar e priorizar o que é mais importante nesta nossa muito breve passagem por este planeta ainda magnífico... 

"Obrigado, Natureza!" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

"Picos da Europa"- Jean-Charles Forgeronne


 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXIII

ALPERGATAS E PÉ DESCALÇO 

No fim do caminho, chegados a Caín, uma pequena povoação à beira de um tranquilo rio e rodeada por imponentes picos calcários, ainda que não conheçamos a história do mítico lugar o nosso olhar é magneticamente atraído para o Pico Urriellu, também conhecido como Naranjo de Bulnes, lá está ele dominando o horizonte, com a lua sobre o ombro, afinal nem é o pico mais alto com os seus 2519 metros de altura mas devido às suas paredes lisas e verticais com mais de 500 metros sempre foi e continua a ser considerada a montanha mais inacessível de toda a Espanha!

"Urriellu com a lua" - Jean-Charles Forgeronne

E foi inacessível até ao dia 5 de Agosto de 1904 quando um aristocrata, Pedro Pidal, marquês de Villaviciosa, um asturiano de gema e então um jovem de 35 anos com a mania e o obcessivo patriotismo de que teria de subir ao cimo daquela montanha antes que algum estrangeiro o fizesse, e o seu companheiro de várias aventuras, Gregório Pérez, pastor de Caín conhecido como "El Cainejo" e já com 51 anos, chegaram ao cume do Naranjo escalando a vertente norte, a partir de Caín...  E percebe-se o porquê da escolha do marquês para seu companheiro de aventura, quem melhor do que o pastor mais experiente e hábil que conhecia todos os caminhos, atalhos, dificuldades, perigos e outra manhas daquelas montanhas, qual cabra montanhesa? Por isso se diz que "Quem é de Caín não morre, cai de penhascos!".

"Escrito na parede em Caín" - Jean-Charles Forgeronne

Consta que para a expedição o marquês mandou vir de Inglaterra a melhor corda de cânhamo e de Paris umas alpergatas, de facto as primeiras sapatilhas de escalada conhecidas, já o nosso pastor de Caín, a quem chamavam também "El Atrevíu", o ousado, aventurou-se descalço!

"O cemitério mais pequeno do mundo?" - Jean-Charles Forgeronne

Outra curiosidade de Caín, aldeia agora deserta exceptuando os cafés e restaurantes que durante o dia recebem os turistas e caminheiros que ali chegam para desafiar a Rota do Cares, é o seu cemitério, uma espécie de quintalzinho mesmo ao lado da pequenina Igreja de S. Tomás e da escultura que homenageia o seu filho mais famoso, e que a ver pela meia dúzia de lápides bem pode ser o cemitério mais pequeno do mundo! Afinal já ninguém morre em Caín, embora ainda haja quem caia dos penhascos...

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

 
FINALMENTE! OS PICOS DA EUROPA!

Após uma noite tranquila e um retemperador desayuno, animados pelo dia límpido e solarengo e pela simpatia e hospitalidade dos caseiros do El Caserío, uma tradicional casa de montanha a meio caminho entre Potes e Fuente Dé, lá iniciamos a etapa tão aguardada: em busca dos majestosos Picos da Europa! Estes, formando a parte central da cordilheira Cantábrica, estendem-se por três províncias: Astúrias, Cantábria e Castela e Leão.

"Memórias teleféricas"- Jean-Charles Forgeronne

Chegados a Fuente Dé é hora de controlar a ansiedade e as vertigens pois o teleférico que nos aguarda para subirmos ao Miradouro do Cabo, a 1800 metros de altitude, supera um desnível superior a 700 metros em apenas 4 minutos!

"A pique" - Jean-Charles Forgeronne

Lá em cima as vistas são simplesmente sublimes, sentimo-nos literalmente nas nuvens, no topo do mundo, e à nossa frente estendem-se incontáveis Picos até perder de vista, alguns deles com mais de 2500 metros de altitude! Olho em volta e sinto que valeu a pena o esforço para aqui chegar, como será a visão deste horizonte recortado com neve, interrogo-me...

"Picos e picos e picos..." - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

 
BELEZA E ENCANTO A POTES!

Santillana del Mar e Altamira visitadas lá fomos descendo por curvas e contracurvas cantábricas até chegarmos em boa hora a POTES, era tempo de o sol se pôr e os contrastes entre a luz já mortiça e as sombras contribuíam para realçar a beleza e o encanto da pequena vila aninhada no sopé dos Picos da Europa... Rodeada de montanhas e abençoado ponto de convergência de quatro vales, a vila medieval de Potes é um paraíso escondido da modernidade, por ali, pelas suas seculares ruas empedradas, um pequeno e descontraído passeio pode muito bem significar uma maravilhosa viagem no tempo...

"Potes" - Jean-Charles Forgeronne

Potes é atravessada pelo rio Quiviesa, um dos muitos cursos de água que abundam por estes vales e não é de espantar que os ex-libris da vila sejam as suas pontes medievais, atravessá-las e mirar os picos ao longe foi qualquer coisa que me soube a místico, e garanto-vos, para isso, para alcançar a transcendência, não é preciso pensar nem em deuses nem em mitologias, basta olhar, respirar e sentir...

"Potes e Picos" - Jean-Charles Forgeronne

E que melhor forma de acabar o dia do que reconfortar o estômago e a alma no El Trenti, um abençoado bar-tasca à beira do rio e cujos petiscos nos deixam simplesmente à beira do paraíso...


João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

sábado, 15 de novembro de 2025

 
A HISTÓRIA DE PAPEL E A HISTÓRIA VIVA - I

ALTAMIRA, A OBRA-PRIMA DA PRIMEIRA ARTE 

Uma coisa é visionar um documentário ou ler um tratado sobre História, neste caso específico sobre a Pré-história, e abundantes são as enciclopédias, as revistas e os livros repletos de explicações detalhadas, fotografias, cronologias, infografias e ilustrações de grande qualidade e apelo visual mas, quero bem crer depois desta minha aventura, nada é melhor do que viver a História, isto é, estar lá onde tudo aconteceu, sentir por dentro, entender o que se sabe e o que se imagina fazendo parte do cenário, reviver o passado com todos os sentidos bem despertos...




De Santillana del Mar ao Museu de Altamira é um instante e por isso fizemos o percurso em ritmo tranquilo até porque tinha no bolso os bilhetes previamente comprados há meses e tranquilo foi o cenário com que nos deparamos quando a estrada acabou: um edifício térreo, simples e encaixado na paisagem, avistam-se os bosques além onde algures se esconde a famosa gruta e ainda se imaginam lá muito mais ao longe os primeiros Picos da Europa...

"O Bisonte" - Jean-Charles Forgeronne

Abençoados os 3(!) euros que se pagam para entrar no museu (comparando com as fortunas que se pedem nas Catedrais Católicas) e especialmente para ter acesso à Neocueva, uma reconstituição fantástica ao pormenor da protegida e praticamente inacessível gruta original de Altamira, umas centenas de metros mais abaixo e onde habitaram vários grupos humanos do Paleolítico, talvez entre 36000 e 12000 a.C, quando uma derrocada de rochas tapou definitivamente a sua entrada principal... Toda a gruta foi utilizada para gravar animais e símbolos misteriosos e quando em 1879 se tornou na primeira caverna decorada a ser descoberta numa aventura digna de um argumento para romance ou filme isso revolucionou a forma como se entendia os nossos antepassados... 

"Animais e Signos" - Jean-Charles Forgeronne

Património da Humanidade desde 1985, à deslumbrante Cueva de Altamira alguém já apelidou de "Capela Sixtina da Arte Rupestre", mas para ter essa noção é preciso ir lá, não se deixar ficar pelas gravuras dos livros, viver a História... E vale mesmo muito a pena!

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

 
ESCRITO NA PAREDE - XLVIII

SARAMAGO, CIDADÃO DO MUNDO...



Primeiro fico surpreso, depois inquieto, estou à porta de Santillana del Mar, uma das aldeias históricas mais belas de Espanha, na Cantábria, a 800 Kms de Lisboa e a 700 da Azinhaga, e as boas-vindas são dadas por José Saramago! Que orgulho...

"Torre de Don Borja" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

terça-feira, 11 de novembro de 2025

"Gijón" - Jean-Charles Forgeronne

 
UMA VOLTINHA POR... - V

Gijón... Ou Xixón, como dizem os asturianos locais... E a primeira boa dica a seguir é estacionar a viatura o mais perto possível do centro histórico e aí a experiência correu bem, atravessámos a cidade e estacionamos no parque junto ao porto desportivo, não confundir com o porto comercial, ali ao lado e um dos mais importantes de Espanha e que deu a fama de grande cidade marítima a Gijón ou não fosse ela abraçada pelo mar Cantábrico...

"Árbol de la Sidra" - Jean-Charles Forgeronne

E meia dúzia de passos dada à beira dos barcos e deparamo-nos com uma gigantesca escultura que se tornou um símbolo da cidade, chamam-lhe "Árbol de la Sidra", é formada por 3200 garrafas de sidra usadas, tem 3 metros metros de altura por 5 de largura e pesa 8 toneladas! É uma homenagem às nobres macieiras que alimentam a produção e consumo de sidra, a bebida por excelência das Astúrias e que se tornou num marco cultural e económico da região... Dizem que deslumbra à noite, iluminada...

"Plaza Mayor de Gijón" - Jean-Charles Forgeronne

Mais uns passitos, atravessámos a movimentada avenida e passando debaixo de uma das suas muitas arcadas deparamo-nos com a Plaza Mayor, pequeno mas sedutor coração da cidade com os seus edifícios do século XIX muito bem conservados e dos quais sobressai o do Ayutamiento de Gijón; aqui tudo pode acontecer e acontece, desde espectáculos musicais a mercados de Natal, desde feiras a outras manifestações... E claro, ali bate forte a gastronomia, em cada esquina e em cada ruela abundam restaurantes, bares e sídrerías,  prontos para a prova de tapas, petiscos e claro, da omnipresente sidra, servida do alto de um metro bem medido por cima do ombro e que, para não ofender a tradição, deve ser bebida de um trago...  E já que está na hora de almoço...

"Tapas & Sidra" - Jean-Charles Forgeronne

E é com o estômago e alma regalados que se deve enfrentar a segunda parte deste breve mas intenso passeio, atravessa-se a praça em direcção ao Paseo del Muro de San Lorenzo, aí chegados contemplamos à direita a formosa baía e a famosa praia mas não é para aí que vamos, pelo menos desta vez, tornamos à esquerda e atravessando o bairro de pescadores de Cimavilla subimos ao Cerro de Santa Catalina para mirar e elogiar o horizonte cantábrico... E lá está ele, o "Elogio do Horizonte", uma monumental escultura com 10 metros de altura e que apesar das 500 toneladas de peso será talvez mais leve do que a maravilhosa impressão que provoca... Agora, depois de saciados os olhos, resta descer pela outra encosta até ao porto...  

"Elogio do Horizonte" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

domingo, 9 de novembro de 2025



"A luz em Cudillero"- Jean-Charles Forgeronne

 
LA SEXTO TERRE ESTÁ EN ASTÚRIAS!

E se numa cena de suspense digna de um filme de Woody Allen, armados em Javier Bardem,  colocarmos uma venda em alguém e transportarmos em segredo essa nossa vítima de rapto emocional até Cudillero, na costa asturiana, o que é suposto acontecer? Claro que o "rapto" foi consentido e evidentemente que o desafio foi aceite sem reservas, de outra forma não valeria a pena nem surtiria o efeito desejado, mas quando devolvermos a luz à nossa cobaia e o mundo lhe voltar a entrar pelos olhos adentro, por supuesto, o mais provável é que ela ache que se encontra numa das famosas Cinque Terre da Riviera Italiana!


"Cudillero" - Jean-Charles Forgeronne

Às Cinque Terre, um conjunto de vilas da Ligúria que se caracterizam pelas suas casas coloridas e vinhedos dispostos pelas encostas íngremes formando belos anfiteatros e cada uma com o omnipresente porto lá em baixo, repleto de barcos, é justo juntar uma sexta parte, a bela e encantadora vila de Cudillero... E se tiver dúvidas, amigo leitor, experimente descobrir o circuito de miradouros lá no alto e a cada passo lento que der vai ficando cada vez mais extasiado, nem que seja pela inebriante baía de águas azul-turquesa... 

"La Plaza" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

domingo, 26 de outubro de 2025

 

"Oviedo" - Jean-Charles Forgeronne

 
O QUE FAZ WOODY ALLEN POR OVIEDO?

Muito bem, esclarecido o mistério do RUFO, o cão mais amado de Oviedo, uns poucos passos mais à frente sou confrontado com outro enigma: ali bem perto da estátua realizada por iniciativa popular e que homenageia todos aqueles que se esforçam a ajudar os animais abandonados, quase choco com alguém parecido com o WOODY ALLEN, mas vendo melhor é ele mesmo, de bronze e à escala natural, afinal o homem é mesmo pequeno, e aqui vem ele de mãos nos bolsos e ar descontraído passeando pela calle, enfrentando-me com aquele seu olhar psicanalítico, mas que raio faz ele aqui?


"Woody em Oviedo" - Jean-Charles Forgeronne

A explicação é simples: em 2002 Woody Allen foi premiado com o Prémio Príncipe das Astúrias das Artes e ele, apaixonado pela cidade e pela região chamou a Oviedo "O Paraíso"; a cidade, grata, no ano seguinte erigiu-lhe uma estátua que é hoje local de visita obrigatória a qualquer turista que se preze... Mas a coisa não ficou por aí...

Em 2008 Woody retribuiu ao filmar algumas cenas de "Vicky Cristina Barcelona" por Oviedo e Avilés; essa comédia dramático-romântica é o meu filme favorito de Allen ou não contasse com belas actuações de Javier Bardem, Penélope Cruz, Rebecca Hall e de uma Scarlett Johansson então no auge da carreira... O que as viagens fazem ao trazer-nos memórias à tona! E que tamanhas ganas me deram agora de rever as Astúrias no filme...

João Película
(Cinéfilo de Valmedo)

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

 
RUFO, O CÃO DE OVIEDO...

Saídos da Ópera e porque passeando o mais lentamente possível na Calle Uría, a principal rua pedonal de Oviedo, a rua das lojas e que leva esse nome em homenagem ao político José Francisco Uría y Rego, vou cantarolando baixinho a "2000 A.D" enquanto me interrogo sobre a hipótese de um dos meus preferidos cantautores lusitanos, o Samuel, dever o seu invulgar apelido a ancestrais raízes asturianas:

                                                "Dormi no feno crasso da cidade,
                                                 um sono justo, sono urbanizado.
                                                 Desincho.
                                                 Relincho."

Mas eis que algo me chama a atenção, estanco o passo, observo com mais atenção, ali numa esquina está um cão, imóvel, sentado, de ar humilde mas simultaneamente nobre como todos os cães podem ter, aproximo-me, tenho de o conhecer...

"A RUFO, el perro de Oviedo" - Jean-Charles Forgeronne

É o RUFO, aqui eternizado nesta estátua de bronze desde 2015, 18(!) anos depois do seu falecimento, o que diz bem como marcou os cidadãos de Oviedo ao ponto de nunca ter sido esquecido; era um cão vadio, fruto de um cruzamento de pastor alemão com mastim, desconhece-se a sua origem, talvez tivesse sido abandonado, o certo é que viveu em liberdade pelas ruas de Oviedo nas décadas de 80 e 90 do passado século, especialmente nesta esquina e no Campo San Francisco, ali agora onde a Mafaldinha se senta, e tornou-se o cão mais amado da cidade, um verdadeiro ícone...
RUFO adorava as pessoas e participava em tudo o que era evento ou festa, assistia aos jogos de futebol do Real Oviedo, chegou a participar em cerimónias públicas e de vez em quando dava umas voltas pelas ruas dos bares e da animação nocturna, talvez gostasse de sidra, quem sabe? Houve várias tentativas de adopção mas ele sempre fugia e regressava às ruas e quando um dia foi capturado e levado para o canil houve um levantamento popular exigindo a sua libertação, e assim aconteceu... Consta que a este herói canino que cativava as pessoas nunca faltou alimento, nem cuidado, nem carinho...  O mundo, de vez em quando, não é assim tão cão! 

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)
 
TURISTA BAFEJADO PELA SORTE...

Visita a Oviedo programada há meses, alojamento tratado e pontos de interesse referenciados que essa coisa de improvisar à última da hora não é para o meu jeito, umas boas semanas antes da viagem descubro que nos dias em que por aqui estaríamos o Teatro Campoamor, que é como quem diz a Ópera de Oviedo, iria levar à cena "Romeu e Julieta", de Charles Gounod! Depois de uma pequena saga para conseguir ingressos, tarefa conseguida com alguma sorte, o mais difícil foi desde então manter o segredo, é que a N. há muito que ansiava por uma ida à ópera e neste caso a surpresa era fundamental para o sucesso da noite e para dar encanto à viagem... 

"Teatro Campoamor" - Jean-Charles Forgeronne

Felizmente tudo correu dentro do planeado, e finalmente ali estávamos nós, viajando no espaço e no tempo, num belíssimo teatro fundado em 1892 e a 800 Kms de casa, para desfrutar de uma ópera estreada no Théatre-Lyrique de Paris em 27 de Abril de 1867, há 158 anos! E pelos vistos a ópera democratizou-se, pelo menos aqui pelas Astúrias, claro que ainda se encontram pessoas vestidas a rigor e senhoras abanando-se com o tradicional leque, a ida ao teatro continua a ser um acontecimento social onde se vai para saber novidades, para ver e para ser visto, especialmente para os locais que se conhecem de gingeira e ainda bem que ninguém reparou nas pobres vestes de viajante com que nos apresentámos... De resto, muita gente nova e vestida informalmente... Quanto à ópera, divinal! Os dramas shakespearianos continuam a fazer sucesso...

"Romeu e Julieta", Oviedo - Foto: Melómano Digital

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)
 
AS VIAGENS DA MAFALDINHA

Foliava eu tranquilamente pelo Fólio quando, a caminho da Casa José Saramago para a apresentação do "Latim em Pó", dou de caras com a Mafaldinha, essa mesma, a menina irreverente e contestatária criada em 1964 por QUINO, sentada em pose bem comportada num banquinho à beira das portas da vila... Desde então a Mafaldinha haveria de se tornar um ícone à escala global, traduzida e publicada em dezenas de países graças ao sucesso do seu humor e pertinência ao questionar o estado doentio deste mundo-cão, alertando para as injustiças e desigualdades sociais, coisa que parece não ter mudado muito nas últimas seis décadas...

"Mafaldinha em Óbidos" - Jean-Charles Forgeronne

E é sabido que para conhecer o mundo não basta receber notícias vindas de longe, nem sempre fiáveis, é deveras importante viajar e estar lá, ver com os próprios olhos e apreender a realidade e foi então que, passada uma meia dúzia de dias, constatei que a sabedoria da Mafaldinha também nasce das suas viagens pois voltei a encontrá-la bem longe de Óbidos, em Oviedo.. 

"Mafaldinha em Oviedo" - Jean-Charles Forgeronne

E ali está ela em pleno Campo de San Francisco, parece que desde 2014, novamente sentadinha num banco de jardim, observando e analisando quem passa mas também homenageando QUINO que nesse ano não só recebeu o Prémio Princípe das Astúrias de Comunicação e Humanidades como também teve o ensejo de inaugurar a pequena estátua... 

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

 
ESCRITO NA PAREDE - XLVII

UM MERGULHO NA POESIA

Descobri que os poemas gostam de nadar, que gostam de mergulhar na água, que gostam das braçadas de crawl, que gostam das chapinhadas de bruços ou do alívio de costas, desconfio que, tal como eu, não gostarão tanto assim do estilo excêntrico da mariposa, que é tudo menos suave como o adejar das borboletas, mas garanto-vos, há um sítio onde a poesia vai prazenteiramente ao banho...  


"Nas Piscinas Municipais de Óbidos" - Jean-Charles Forgeronne

E a cada braçada, a cada borbulhante expiração e a cada sôfrega inspiração, deparo-me com palavras e mais palavras que constituiriam um belo poema mas que chegado ao balneário já delas não me recordo... Poesia instantânea que desaparece num ápice, mas que não deixando de ser poesia me parecem mais poemas em pó aos quais seria preciso juntar mais água ... 




J.C
(Poeta de Valmedo)
 
OCCIDENTALIS PROFUNDIS -VI

UHF, FINALMENTE NA ONDA CERTA...

Formados na Costa da Caparica em 1978, os UHF são a mais antiga banda portuguesa de rock em actividade e são o melhor exemplo de quem faz jus ao seu nome, de facto António Manuel Ribeiro e camaradas andaram este tempo todo sempre numa frenética Frequência Ultra Alta, senão repare-se nalguns números avulsos captados nas ondas de rádio:  
 - até 2006 tinham 700 mil Kms percorridos em digressões;
 - até 2017 tinham 1.5 milhões de discos vendidos;
 - até 2017 tinham dado 1700 concertos, em Portugal e no estrangeiro;
De lá para cá, se existem, não são conhecidos números mas sei eu que anteontem actuaram no Oeste, na Festa das Adiafas no Cadaval, e posso testemunhar que continuam em grande forma...

"UHF no Oeste"- Jean-Charles Forgeronne

Aliás, até me envergonho de dizer que foi a primeira vez que os vi ao vivo, até agora, nos seus 47 (!) anos de existência nunca os UHF e eu nos tínhamos cruzado, vá lá saber-se o porquê de caminhos tantos anos desencontrados, eu que menino e moço soletrava a "Rua do Carmo" e os "Cavalos de Corrida" a caminho da escola, mas pronto, almejei um objectivo de vida: assistir a um concerto de quem há muito muito tempo fez as primeiras partes de muita gente ilustre como os Dr. Feelgood, Elvis Costello, Uriah Heep, Ramones ou os Dexys Midnight Runners, só para citar alguns... Resta agradecer-lhes por tanta história...

"The Man" - Foto: João Andarilho

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

terça-feira, 21 de outubro de 2025

 
LIVROS 5 ESTRELAS - XLII

LATIM EM PÓ + HISTÓRIA = PORTUGUÊS

Continuando por Oppidum, que é como quem diz Óbidos, dou por mim em plena Casa José Saramago e reparo que na parede ao fundo sobressai uma das frases emblemáticas do grande escritor lusitano: "Não temos outra coisa (que palavras). Somos as palavras que usamos. A nossa vida é isso." E que melhor cenário para a apresentação do livro "Latim em Pó", de Caetano Galindo, ele mesmo à minha frente sentado num sofá aguardando para botar palavra e um confesso admirador de Saramago?

"Caetano Galindo no Fólio" - Jean-Charles Forgeronne

Caetano Galindo nasceu em Curitiba, no Brasil, tem 52 anos e é professor da Universidade Federal do Paraná desde 1998 e que, para além de autor de livros de poesia, ficção e teatro, nutre uma paixão pela Língua Portuguesa que o levou então a publicar em 2023 este sedutor "Latim em Pó", só agora editado em Portugal, e mais recentemente, já em 2025, "Na Ponta da Língua: Nosso  Português da Cabeça aos Pés"...


E que maravilha é mergulhar na história da Língua Portuguesa e rebolar no pó do latim, uma leitura deliciosa e enriquecedora, numa escrita encantatória...

"O português que a partir de 1140 começará a se estabelecer como língua do nascente Estado lusitano é, portanto, uma versão alterada dessa fala que se foi formando no norte da península, na antiga província romana de Galécia. Fora, assim, de Portugal. Pois bem. O português, então, não «vem do latim» diretamente. Vem do galego, que - este, sim - veio do latim."

E esta, hã?

João Portugal
(Linguista de Valmedo)
 
OCCIDENTALIS PROFUNDIS - V

O EXPRESSO PASSOU POR ÓBIDOS

Óbidos, ou antes Oppidum, termo em latim que designava uma cidadela ou cidade fortificada e que era aplicado à principal povoação de uma área administrativa do Império Romano, recebeu um dia destes um concerto dos EXPRESSO TRANSATLÂNTICO, englobado no festival literário Fólio... A banda dos irmãos Varela e de Rafael Matos não defraudou as expectativas e brindou o público jovem e entusiasta que lotava a sala com um show a transbordar de energia e que apelava à dança, tudo embrulhado nos timbres maravilhosos da guitarra portuguesa... 


"Expresso Transatlântico no Fólio" - Jean-Charles Forgeronne

Parece que o segundo álbum da banda irá sair no início de 2026 mas por Óbidos já se ouviram ao vivo os dois primeiros temas conhecidos, "Flor trovão" e "Avalanche", e a coisa promete, aguardemos portanto que o expresso volte a passar pelo Oeste, nem que seja apenas na próxima estação... 

                                                                                           "Flor Trovão" - Expresso Transatlântico

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo"

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

 
OCCIDENTALIS PROFUNDIS - IV

A LUZ DO SOL, MUITOS ANOS DEPOIS...

De volta ao Moledo, onde tudo começou e aonde se regressará sempre, eu e a malta, vindos de actividade radical que nos tinha elevado a moral aos píncaros, acomodámo-nos quase na primeira fila da improvisada plateia ao ar livre para assistir a um concerto de jazz, e que melhor programa para acabar o rico e longo dia em beleza? O largo ao lado da igreja estava iluminado e bonito, colorido e alegre, em frente o pequeno palco instalado num recanto junto da entrada para a sacristia revelara-se uma boa escolha, estava tudo pronto para a música dos SOLARIS, um quarteto que desconhecia por completo mas que me levantava boas expectativas ou não me tivesse sido aconselhado pelo amigo Leirão... 

"Solaris no Moledo" - Jean-Charles Forgeronne

Aos primeiros acordes a banda mostrou-se afinada e ao que vinha, base rítmica envolvente e brilho no saxofone e no piano e ainda estava eu a ambientar-me e ainda não tinha olhado sequer com pormenor para todos os músicos quando o saxofonista e porta-voz se apresentou e aos colegas, ele
João Vaz Pinto, o baixista Pedro Teixeira, o baterista André Mota e por entre sussurros na plateia pareceu-me ouvi-lo dizer  Aurélien Vieira Lino ao piano... Iniciaram o segundo tema e só quando o pianista a dada altura começa a desfilar com desenvoltura e olho para ele com mais atenção é que acordo: "Espera aí, ele disse Aurélien? Será o Aurélien da Ana? Só pode!" ia eu pensando, boquiaberto. E até ao final do espectáculo não tirei os olhos daquele que nunca tinha visto até então na vida mas que tanta história tinha ouvido sobre ele durante anos e anos pela boca de uma antiga colega de trabalho, que entre outras coisas o rapaz tinha jeito para o piano, mais tarde que tinha entrado para o conservatório e que queria fazer disso a sua vida e por aí fora...

E agora, passado tanto tempo para que finalmente nos encontrássemos, parecíamos chegados cada um da sua uma viagem interestelar e depois de uma ausência de anos-luz, e ali mesmo, num impulso desavergonhado, botei conversa no final do concerto e sua simpatia desarmante fez juz ao que dele tinha ouvido, atributo aliás extensível aos restantes elementos do Solaris, e quanto à mestria musical: que dizer de alguém que agora é professor no conservatório e que deslumbra nas teclas como se comprovou naquela noite? Para comprovar isso basta ouvir a "Viagem", o primeiro álbum de originais do grupo, acabadinho de sair, e eu saí do Moledo todo contente e de alma cheia porque ainda trouxe o CD autografado...

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

 
OCCIDENTALIS PROFUNDIS - III

EM MIRAMAR OU NOUTRO LADO QUALQUER...

Não conheço a pequena praia de Miramar em Vila Nova de Gaia e que deu origem ao nome do projecto e onde tudo começou mas começo pela minha conclusão: a geografia e a distância nada impedem, antes podem influenciar e aproximar, assim haja vontade! Agora é que ele enlouqueceu de vez, alguns de vós provavelmente pensarão mas se vos falar de MIRAMAR talvez a coisa ganhe algum (muito) sentido...  Peixe e Frankie Chavez, meus velhos conhecidos, um pelos Ornatos e outro pela carreira a solo e colaborações, conheceram-se há uns dez anos e a admiração recíproca foi tal que, felizmente para os melómanos, iniciaram uma intensa relação à distância! Um do Porto e outro de Lisboa, cada um com a vida instalada na sua cidade, lá vão comunicando e interagindo através de mails e whatsapp ou então encontrando-se a meio caminho ou nem tanto para residências criativas e tudo para nos oferecer autênticas pérolas, não fossem eles dois dos maiores guitarristas da Península Ibérica e arredores...

"Miramar em Torres Vedras" - Jean-Charles Forgeronne

E agora, que acabam de lançar o seu terceiro álbum, com o título original de "Miramar III", o que é obra para música instrumental, este duo desaguou um destes dias no Oeste, em pleno Cine-Teatro de Torres Vedras, para nos assombrar com música e com muita geografia, eu que o diga que me apaixonei pelo "Café Planície", pelos vistos um café que existe algures no Alentejo...  

                                                                                                    MIRAMAR - Café Planície

João Sem-Dó
(Musicólogo de Valmedo)