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segunda-feira, 13 de abril de 2026


QUANDO OS MOINHOS CONTAM HISTÓRIAS... 

São cinco os moinhos mas para a história contam apenas quatro porque um deles, apesar dos esforços feitos para reverter o processo, foi transformado num anexo de uma habitação, talvez uma questão de vazio legal e de oportunidade e com isso tudo ficou a perder o património histórico e social da região... Mas ganha-se muito mais do que se perde ali no alto da Pinhoa, dali vê-se Montejunto e em dias claros um linha de Atlântico à beira da Areia Branca mas o que interessa mesmo não está na linha do horizonte, está mesmo à nossa frente: quatro magníficos moinhos, todos bem conservados e estimados e de portas abertas a visitas, não só em datas especiais como o Dia do Moinho mas também a visitas de estudo por parte das escolas ou simplesmente por marcação prévia, basta contactar a Vera, que para além ser descendente dos originários moleiros e proprietários dos moinhos é uma apaixonada e dedicada defensora da preservação da historia e da tradição do parque eólico...

"Pinhoa" - Jean-Charles Forgeronne

Recuperados há 25 anos, três dos moinhos estão em funcionamento e um outro foi transformado em bar, por isso mesmo apelidado de "MOINHO BAR" embora hoje já não sirva bebidas e o espaço atrás do balcão seja mais uma loja de artesanato...

"Moinho-Bar" - Jean-Charles Forgeronne

Depois temos o moinho do "Francisco da Antónia", o mais antigo de todos, construído na última década do século XIX, a seu lado está o moinho do "Xico", com 104 anos de idade e depois, mesmo em frente ao bar, o moinho "Santa Maria", da primeira década do século XX e assim baptizado desde 1961 porque reza a história que no mesmo dia em que o paquete Santa Maria foi sequestrado por um grupo armado que queria chamar a atenção internacional para as injustiças perpetradas pela ditadura então vigente o moinho foi seriamente danificado por um temporal e as pessoas da terra, olhando para a desgraça que era ver o moinho destruído, começaram a dizer "parece o Santa Maria", e a coisa pegou... Pormenor curioso, o moinho ostenta hoje na sua parede uma imagem da Santa, considerada a sua madrinha...  

"Molino" - Jean-Charles Forgeronne

Depois, lá mais em baixo na vila de Moita dos Ferreiros ainda há para ver o "Moinho do Boneco" assim chamado porque o moleiro era mesmo pequenino, parecia um bonequinho... E se a fome apertar não seja passarinho, procure conforto no dito cujo, cozinha típica de excelência e em boa conta...

"Moinho do Xico" - Jean-Charles Forgeronne

 João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026


A HISTÓRIA DE PAPEL E A HISTÓRIA VIVA - II 

TORDESILHAS, ONDE METADE DO MUNDO FOI PORTUGUÊS!

"Livro de História de Portugal"
Uma coisa é visionar um documentário ou ler num livro factos sobre determinado acontecimento histórico, neste caso sobre o famoso Tratado de Tordesilhas, e muitos são as enciclopédias, revistas e livros repletos de explicações e teorias detalhadas, fotografias, cronologias, infografias e ilustrações de grande qualidade e apelo visual mas, quero crer, nada se equipara a viver a História, estar onde tudo aconteceu e sentir por dentro o acontecimento com todos os sentidos despertos... Pois bem, quem chega a Tordesilhas depara-se com uma pequena e pacata vila em que, para além da sua pequena mas aprazível Plaza Mayor, uma das principais atracções é o Real Mosteiro de Santa Clara, ali à beirinha do Rio Douro e onde durante 46 (!) anos esteve enclausurada a Rainha Joana Ifilha dos Reis Católicos e mandada prender pelo próprio pai que alegou estar ela louca e incapaz de reinar, daí ter a infeliz criatura passado à História como Joana, a Louca... 



"Casas del Tratado", Tordesilhas - Jean-Charles Forgeronne

"Cópia doTratado" - Torre do Tombo
E ali bem encostadas ao mosteiro-prisão ficam as Casas del Tratado, um palácio humilde onde foi assinado em 1494 pelos Reis Católicos e pelos enviados de D. João II o Tratado que dividia ao meio o mundo que viesse a ser descoberto por espanhóis e portugueses... Hoje o palácio alberga o Posto de Turismo e o pequeno Museu do Tratado de Tordesilhas...
No Museu do Tratado de Tordesilhas, de entrada gratuita, pode ser vista uma réplica do histórico documento e curioso é o facto de o original castelhano se encontrar no Arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa, enquanto que o original português se encontra no Arquivo Geral das Índias, em Sevilha! E para apimentar a história do Tratado há muitos especialistas que salientam a hipótese de D. João aquando das negociações finais do acordo estar na posse de secretos conhecimentos de que haveria existência de terras na parte sul da sua metade, nomeadamente as costas daquilo que mais tarde viria a ser o Brasil, falta saber quem foram os seus misteriosos informadores!


"Cópia do Tratado", Tordesilhas - Jean-Charles Forgeronne

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

sábado, 15 de novembro de 2025

 
A HISTÓRIA DE PAPEL E A HISTÓRIA VIVA - I

ALTAMIRA, A OBRA-PRIMA DA PRIMEIRA ARTE 

Uma coisa é visionar um documentário ou ler um tratado sobre História, neste caso específico sobre a Pré-história, e abundantes são as enciclopédias, as revistas e os livros repletos de explicações detalhadas, fotografias, cronologias, infografias e ilustrações de grande qualidade e apelo visual mas, quero bem crer depois desta minha aventura, nada é melhor do que viver a História, isto é, estar lá onde tudo aconteceu, sentir por dentro, entender o que se sabe e o que se imagina fazendo parte do cenário, reviver o passado com todos os sentidos bem despertos...




De Santillana del Mar ao Museu de Altamira é um instante e por isso fizemos o percurso em ritmo tranquilo até porque tinha no bolso os bilhetes previamente comprados há meses e tranquilo foi o cenário com que nos deparamos quando a estrada acabou: um edifício térreo, simples e encaixado na paisagem, avistam-se os bosques além onde algures se esconde a famosa gruta e ainda se imaginam lá muito mais ao longe os primeiros Picos da Europa...

"O Bisonte" - Jean-Charles Forgeronne

Abençoados os 3(!) euros que se pagam para entrar no museu (comparando com as fortunas que se pedem nas Catedrais Católicas) e especialmente para ter acesso à Neocueva, uma reconstituição fantástica ao pormenor da protegida e praticamente inacessível gruta original de Altamira, umas centenas de metros mais abaixo e onde habitaram vários grupos humanos do Paleolítico, talvez entre 36000 e 12000 a.C, quando uma derrocada de rochas tapou definitivamente a sua entrada principal... Toda a gruta foi utilizada para gravar animais e símbolos misteriosos e quando em 1879 se tornou na primeira caverna decorada a ser descoberta numa aventura digna de um argumento para romance ou filme isso revolucionou a forma como se entendia os nossos antepassados... 

"Animais e Signos" - Jean-Charles Forgeronne

Património da Humanidade desde 1985, à deslumbrante Cueva de Altamira alguém já apelidou de "Capela Sixtina da Arte Rupestre", mas para ter essa noção é preciso ir lá, não se deixar ficar pelas gravuras dos livros, viver a História... E vale mesmo muito a pena!

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

 
O TESOURO DA MISERICÓRDIA


Instituída em 1586 pelo Rei D. Filipe I de Portugal, ou então por D. Filipe II de Espanha conforme a perspectiva, a Misericórdia da Lourinhã, para além do importante papel que teve na intervenção social e espiritual da comunidade ao longo de séculos, alberga hoje em dia no seu remodelado espaço museológico um verdadeiro tesouro: as duas mais importantes obras do enigmático e fantástico pintor conhecido como o "Mestre da Lourinhã"!
Sim, é verdade mesmo, não duvide caro leitor, na pequena mas mui nobre capital dos dinossauros e no seu pequeno mas muito interessante museu da Misericórdia ali estão, lado a lado, as pinturas "São João Baptista no deserto" e "São João Evangelista em Patmos", resgatadas há muito mas muito tempo do original mosteiro da ilha das Berlengas e cuja autoria é daquele que é considerado o mais misterioso, porque se desconhece a sua identidade, mas também o mais importante dos pintores da época de D. Manuel I e D. João III!


"Mestre da Lourinhã, na Lourinhã" - Jean-Charles Forgeronne

Mas o visitante tem mais com que se deleitar, por exemplo a Igreja, pequeno mas lindíssimo templo que com o seu tecto em madeira e o seu retábulo em talha dourada capta a atenção, e depois, já em plena rua da Misericórdia, deixe-se deslumbrar com a porta manuelina e viaje no tempo...

"Rua da Misericórdia" - Jean-Charles Forgeronne

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)
 
LEONOR, A MUI RICA E MISERICORDIOSA

Tendo privado e vivido entre reis, o tio e sogro D. Afonso V, o primo e marido D. João II, o irmão D. Manuel I e o sobrinho D. João III, LEONOR de AVIS, mais tarde rainha, nasceu na mais alta nobreza do reino e a sorte de ser neta do rei D. Duarte e do primeiro duque de Bragança levou a que cedo amealhasse uma fabulosa fortuna, não sendo surpresa que ao morrer em 1525, aos 67 anos de idade, fosse simplesmente uma das pessoas mais ricas de Portugal, ou não tivesse, entre outras cousas, recebido como doação a vila de Sintra, Lagos, Aldeia Galega, Aldeia Gavinha, Alenquer, Alvaiázere, Óbidos, Torres Novas e Torres Vedras...  

"Leonor nas Caldas" - Jean-Charles Forgeronne

Mui rica mas não muito feliz, há que dizer, casada por encomenda aos 12 anos com um primo que se revelou tudo menos perfeito, sofreu as mortes dos dois filhos que teve, uma à nascença e a outra, decerto muito mais dolorosa, a do príncipe herdeiro D. Afonso na sequência de uma queda de cavalo pelas bandas de Santarém, tinha ele 16 anos e era a grande esperança de uma Península Ibérica unificada sob os desígnios de um rei português pois tinha casado ainda criança com uma filha dos reis católicos...
Como se não bastasse, Dona Leonor teve ainda que sofrer bastante com o assassinato do irmão, D. Diogo, Duque de Viseu, morto a golpes de punhal pelo próprio rei, tal fez com que a rainha se recusasse a acompanhar D. João II nos últimos tempos da sua doença e na sua morte, valeu-lhe então o alívio de ter ficado viúva aos 37 anos, ainda jovem e bela, fazendo fé no retrato de Malhoa...  


"Rainha D. Leonor por José Malhoa" - Jean-Charles Forgeronne

Pouco tempo depois de ter enviuvado D. Leonor fundou a primeira Misericórdia portuguesa em Lisboa, outras seguir-se-iam e já antes tinha fundado um hospital termal para pobres nas Caldas da Rainha, e tanto se dedicou na ajuda aos outros que deve ter encontrado aí a felicidade que lhe tinha faltado na vida pessoal, passou o resto da vida a usar a sua própria fortuna para apoiar hospitais, conventos, albergarias e igrejas... E ainda teve tempo e dinheiro para apoiar a cultura, tendo sido, por exemplo, protectora de Gil Vicente...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

 

UMA QUESTÃO DE PALAVRA E DE HONRA

Há muito que na chamada Reconquista os cristãos haviam tomado a Península Ibérica aos mouros, à excepção de um último reduto que ia resistindo até ao limite, a cidadela de Granada, a salvo pelas inexpugnáveis muralhas vermelhas lá no alto da colina... Mas no segundo dia do ano de 1492, devido à fome provocada por um cerco de muitos meses levado a cabo pelos exércitos dos reis católicos D. Fernando II e Isabel I (os tais que estão pomposamente sepultados na Catedral granadina), para evitar um banho de sangue e poupar o Alhambra à destruição, Boabdi, o vigésimo rei Nazari, teve a coragem e o bom senso de se entregar sem luta...


"A rendição de Granada" - Francisco Pradilla

Consta que o rei berbere partiu em lágrimas e de coração apertado, apenas com um consolo: o rei católico prometera-lhe preservar a liberdade religiosa para os mouros de Granada! Afinal, durante  o domínio árabe e ao longo de 250 anos tinha havido uma sã e pacífica coexistência entre muçulmanos, cristãos e judeus, todos com o respeito dos outros e liberdade de culto...
Pois bem, passado pouco tempo, no reinado de Isabel, a Católica, os cristãos fundamentalistas (não o são todos?) expulsaram os mouros e proibiram a liberdade de culto... Surpreendente seria o contrário!


João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

domingo, 1 de setembro de 2024

 

EFEMÉRIDE # 103

DESERTORES E HERÓIS


Embora passem hoje exactamente 85 anos sobre o início da II Guerra Mundial, data que evidentemente nunca deverá cair no esquecimento ou sequer ser menosprezada, é dia de recordar outro evento: no dia 1 de Setembro de 2009, 70 anos depois do início da tragédia, era inaugurado em Colónia o Deserteur Denkmal, o Monumento ao Desertor... Da autoria do artista e designer suíço Ruedi Bauer, o monumento é uma homenagem a todos aqueles que desertaram da Werhrmacht, as forças armadas nazis, recusando-se a lutar por Hitler e por razões erradas e absurdas! As autoridades nazis decretaram 30000 sentenças de morte por deserção, das quais 20000 foram executadas e os outros desertores que não foram capturados, considerados traidores da pátria, só em 2002(!) foram reabilitados pelo Bundestag ao lhes serem retiradas as condenações por deserção que se mantinham desde a era hitleriana... 



"Deserteur Denkmal"


O monumento consiste numa pérgula cuja parte superior é constituída por um entrelaçado de letras em alumínio e que, segundo o autor, representa os motivos que levaram à deserção de tanta gente... Pode haver quem argumente que desertores há que não passam de cobardes que recusam defender os seus e a sua pátria, sempre os houve afinal, mas e aqueles outros que o fazem por não concordar com guerras injustas e absurdas ao serviço de tiranos, recusando-se a matar por isso? Não são eles heróis também?


João Alembradura
(Historiador de Valmedo) 

sábado, 24 de agosto de 2024


O SALVADOR DAS MEMÓRIAS 


O Salvador-das-Memórias poderia ser apenas mais um super-herói saído da fértil imaginação de um escritor ou de um artista gráfico, como o Super-Homem, o Batman ou o Homem-Aranha, mas neste caso trata-se apenas de um herói comum, uma pessoa normal embora dotada de um super-poder, o de salvar memórias do buraco-negro que é o esquecimento e a alienação de acontecimentos marcantes da história deste mundo-cão lusitano...
Quem chega à aldeia do Vimeiro com o intuito de visitar o Monumento Comemorativo do Centenário ou o Centro de Interpretação da Batalha do Vimeiro, ocorrida a 21 de Agosto de 1808, data gloriosa porque a vitória anglo-lusa sobre as forças de Napoleão não só ditou o fim da primeira invasão francesa como também foi fundamental para a independência nacional, depara-se com sete painéis de azulejos espalhados pelo espaço envolvente e assinados por um tal Salvadorretratando várias etapas da batalha, como por exemplo o desembarque das forças inglesas na praia de Paimogo dois dias antes.... 




Este Salvador é então Salvador Ferreira, cidadão nascido e criado na terra e que desde cedo manifestou queda para o desenho, para a pintura e para a banda desenhada, artes que abraçou mas apenas como hobby e paralelamente à sua actividade profissional; acresce ainda que, apaixonado pela história local e pela história militar do país colaborou em vários projectos como ilustrador...




  
Entusiasta pela preservação das memórias do Vimeiro, afinal quando era criança e enquanto jogava à bola e brincava no espaço em redor afligia-o ver o monumento comemorativo da batalha ao abandono e a ameaçar ruína.... Várias pessoas se juntaram então para acabar com o marasmo, dentre elas o nosso Salvador e dessa luta viria a nascer depois a reabilitação do monumento e a construção do Centro de Interpretação... O visitante que não se assuste se der de caras com um soldado do século XIX em plena esquina, fardado a rigor e armado, ele pode até ser o Salvador ou então outro qualquer figurante do Grupo de Recriação da batalha numa das inúmeras actividades que desenvolvem em prol da preservação da memória...  



João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

 

EFEMÉRIDE # 102

AS EFEMÉRIDES DO VIMEIRO


São tantas as efemérides num local só que o melhor é começar pelo princípio! E tudo começou há 216 anos, na manhã do dia 21 de Agosto de 1808 em que se confrontaram no Vimeiro as tropas do exército anglo-luso comandado por Wellesley, 18878 soldados dos quais 2100 eram portugueses, e as forças francesas sob o comando de Junot, com cerca de 14000 soldados... Saldo final: 2000 baixas francesas entre mortos, feridos e desaparecidos, e nas forças inglesas 135 mortos, 534 feridos e 51 desaparecidos, quanto aos portugueses foram registados 2(!) mortos e 7 desaparecidos! Convinha esclarecer a questão dos desaparecidos: ninguém mais lhe pôs os olhos em cima mas será que foram de facto mortos e não foram encontrados os seus cadáveres ou simplesmente fugiram dali para fora como quem não quer a coisa e arranjaram nova vida depois da contenda? Mas o que conta e o que brilha nesta histórica batalha é que foi considerada uma gloriosa vitória sobre Napoleão e que acabaria por ditar o fim da primeira invasão francesa...  




"Recriação da Batalha"


No dia 21 de Agosto de 1908, assinalando o centenário da batalha, com muita pompa e circunstância foi inaugurado por El-Rei D. Manuel II o monumento comemorativo da Batalha do Vimeiro... Pena é e revoltante ainda mais que na chamada "Convenção de Sintra", nome pomposo para a assinatura do armistício, não tenham participado os portugueses e assim, sem rei nem roque nem exército, se tenha permitido aos franceses regressarem a casa carregados com ouro e prata roubados, transportados em navios britânicos!



"El-Rei no Vimeiro"

E finalmente, a 21 de Agosto de 2008, comemorando os duzentos anos do evento e em boa hora foi inaugurado o Centro de Interpretação da Batalha do Vimeiro, um repositório de conhecimento e memória da nossa história enquanto povo e nação...


"Centro de Interpretação da Batalha do Vimeiro"


João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

segunda-feira, 29 de julho de 2024

 

LÉGENDES ET MYSTÈRES AU PETIT-DÉJEUNER



"Palácio de Santos" - J.C.Forgeronne
Imagine o caro leitor a fazer o mesmo que ele fez naquela manhã do dia 25 de Junho de 1578: acordou, até cedo demais, e nervoso e inseguro vestiu-se e dirigiu-se à capela, e de joelhos na pedra fria, com seu fervor religioso orou e pediu graças para ele e para o reino e depois, ao passar pelo anjo do silêncio, despediu-se com um derradeiro olhar daquele ninho de conforto... Depois atravessou o pátio do palácio, calcando as pedras onde outrora assentava a ermida mandada erigir por D. Afonso Henriques, aquando da conquista de Lisboa aos Mouros, para albergar os restos mortais dos três santos miraculosamente resgatados ao rio pelo povo no século IV, daí o nome do bairro, e dirigiu-se então para o jardim...


"O último pequeno-almoço" - Jean-Charles Forgeronne

E então, à sombra de uma oliveira da qual ninguém sabe a idade, olhando o Tejo ao fundo, tomou o pequeno almoço numa mesa de pedra que passados 446 anos ainda resiste, não sonha El-Rei D. Sebastião que aquela será a sua última refeição no Palácio de Santos... Aquele a quem chamaram primeiro "o Desejado" porque evitava-se uma crise de sucessão e depois "o Encoberto" por ter desaparecido, descerá depois por entre os laranjais árabes até ao rio onde o aguarda a frota que o levará para a fatídica batalha de Alcácer Quibir, não sem antes se despedir da célebre colecção de pratos de porcelana chinesa, da dinastia Ming, que decoram um tecto piramidal em madeira talhada de uma sala de aparato, são 267 pratos ao todo mas dizem que já foram mais porque reza a lenda que sempre que ocorre uma catástrofe mundial cai um prato inexplicavelmente!  Não se sabe se caiu um prato quando o rei desapareceu misteriosamente em plena batalha, até porque uns dizem que morreu na peleja que terá durado apenas 4 horas, outros afirmam que só morreu 3 anos depois da batalha após cativeiro, outros relatam que ele apenas desapareceu sem dar nas vistas do campo de batalha, assim de fininho, e, pasme-se, ainda há quem jure tê-lo visto em Itália em 1598! Cá, por este cantinho abençoado, há quem ainda o aguarde com fervor, chegando numa manhã de nevoeiro...


"267 Mings" - Jean-Charles Forgeronne

Mas outro milagre ocorreu pelo Palácio de Santos: resistiu ao terrível terramoto de 1755, sofrendo apenas algumas rachas! Em 2007 e em boa hora, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de França investiu 3 milhões de euros para a recuperação total do palácio, uma das suas mais belas embaixadas em todo o mundo, visitemo-lo pois antes que caia outra porcelana...


João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

terça-feira, 30 de abril de 2024

 

QUANDO A BELEZA UNE...


Que seja a maior mesquita do Ocidente, assim o pediu Abdr-ar-Rahman I, o fundador do emirato independente de Córdoba, e assim se lhe fez a vontade... Embora pouco atraente vista de fora, austera até, o que não estranha para quem sabe que segundo a tradição islâmica o luxo e a ostentação devem remeter-se ao privado e não a exposições públicas, exactamente ao contrário dos costumes europeus e especialmente da Igreja Católica, mas quando nela se entra a respiração pára, o batimento cardíaco acelera e o espírito orgasma tanta é a beleza que esmaga os sentidos...
Somos engolidos por uma floresta de 856 (!) colunas que sustentam arcos em ferradura que por sua vez sustentam outra série de arcos, muitas delas originárias do templo visigodo que existia no local e outras ainda recuperadas aos tempos romanos da cidade, formando-se um autêntico labirinto de deleite visual...





E tal como os muçulmanos respeitaram o que já existia também os cristãos, aquando da conquista da cidade em 1236 por Fernando III de Leão e Castela, surpreendentemente o fizeram apesar da sua tradicional prática de arrasar tudo o que não é conforme a sua fé; certamente que  até tinham essa intenção de arrasar a mesquita para aí construir uma faustosa igreja mas ao entrar no templo devem ter ficado esmagados pela beleza daquele lugar e perderam a coragem de destruir algo tão especial, um verdadeiro milagre...




Construiu-se uma catedral sim, graças aos deuses, mas em harmonia, respeito e união, num diálogo religioso, arquitectónico e cultural único a nível mundial... A catedral-mesquita de Córdoba, hoje oficialmente baptizada como Catedral de Nuestra Señora de la Assuncíon é Monumento Nacional desde 1882, Património Mundial desde 1984 e em 2014 a Unesco declarou-a Bem de Valor Universal Excepcional...



                                                                                                                              (Fotos: Jean-Charles Forgeronne)

João Palmilha

(Viajante de Valmedo)

domingo, 28 de abril de 2024

 

A FANTÁSTICA ODISSEIA DO MELRO


Alboacém Ali ibn Nafi era de origem persa e nasceu por Bagdade em 789 e em boa hora se tornou aluno de Almanci, um famoso professor de música da corte que mais tarde o aconselharia e ajudaria a fugir antes que algo de terrível lhe acontecesse devido às invejas sobre a sua voz absolutamente única e excepcional, especialmente depois de ter ganho um concurso musical na corte e de ter despoletado ainda mais invejas e o desejo de vingança por parte do segundo classificado e então não lhe restou outra solução senão desalvorar dali para fora para salvar a pele e a família...
Ajudado financeiramente pelo seu professor fugiu primeiro para o Egipto onde aproveitou o tempo aí passado para estudar a música popular local mas, não satisfeito, envia uma carta à corte de Córdoba oferecendo os seus serviços e acaba por ser admitido. O seu impacto em Córdoba é de tal ordem que aí, devido à sua voz celestial e à sua tez escura lhe chamam ZIRYIAB, o MELRO... 




Virtuoso do alaúde, Ziryab revolucionou o instrumento ao adicionar-lhe uma corda extra e assim alcançando outros cambiantes melódicos que ensinava no conservatório que fundou e onde, para além da aprendizagem de vários instrumentos, dava aulas de canto... Mas não era só na música que o melro brilhava, tornou-se também uma estrela em várias outras áreas, seja na etiqueta social ao introduzir o uso de copos de cristal em vez dos pesados e antiquados copos de ouro e prata, na gastronomia ao introduzir a sopa como o primeiro prato de uma refeição, seguido de um prato de peixe ou carne e terminando com uma sobremesa, no vestuário ao aconselhar roupa branca para o verão e ainda no que respeita à beleza feminina abriu um salão de beleza onde se fazia depilação e instituiu novos penteados, nomeadamente as franjas... Ziryab foi uma autêntica estrela, um génio que determinava a moda, era a Córdoba e não a Paris ou Londres que as damas de Navarra ou Barcelona encomendavam os seus vestidos...  
Só é pena não ter deixado a receita para a longevidade, ele que viveu 98 anos...


João Alembradura

(Historiador de Valmedo)

 

CÓRDOBA, A ILUMINADA


Em 711 um exército de sarracenos e berberes do Norte de África vieram por aí acima e trouxeram a sua cultura e a sua arte para a Península Ibérica, especialmente para o al-Andaluz, território que assim designaram em homenagem aos seus antigos senhores, os Vândalos... Hoje Andaluzia, o al-Andaluz, foi então um centro de sabedoria e um mundo à parte senão repare-se que, no século X, enquanto em Londres não havia um único candeeiro de iluminação pública as ruas de Córdoba eram iluminadas e pavimentadas! No inverno as casas eram aquecidas por condutas de ar quente construídas sob os mosaicos que revestiam o chão enquanto que no verão, para arrefecimento, empregava-se o mármore nas varandas e contruíam-se jardins repletos de tanques e cascatas artificiais, tudo rodeado pelo perfume e pelas sombras proporcionadas por pomares de pessegueiros, laranjeiras e romãzeiras...



"Pátio de los Naranjos" - Jean-Charles Forgeronne

Há mais de mil atrás Córdoba era uma das mais povoadas cidades do mundo, viviam dentro das suas muralhas 800000 pessoas, existiam 130000 casas, 80 escolas com ensino gratuito, 900 banhos, 100 hospitais e outras tantas bibliotecas, para além de 300 mesquitas! Ao mesmo tempo, "a estrela que ilumina o mundo ocidental", como alguém lhe chamou, era um dos principais centros de erudição que recebia então estudantes e curiosos de França e Inglaterra que vinham aprender medicina, ciência e filosofia com sábios muçulmanos, judeus e cristãos, de entre os quais se salientavam, por exemplo, Averrois, filósofo e médico, e Maimônides, filósofo... 


"Maimônides à porta de casa" - Jean-Charles Forgeronne


João Palmilha

(Viajante de Valmedo)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

 

O TEMPLO ROUBADO À PEDRADA


Há cerca de 6000 anos atrás, muito antes de os Egípcios construírem as suas fantásticas pirâmides, foi erigido um templo funerário no sopé das montanhas que muito mais tarde seriam baptizadas como as serras de Aire e Candeeiros... A anta das Alcobertas, como hoje é conhecida, foi resistindo incólume aos séculos ou não fossem os calhaus destas serras de excelente qualidade, até que no século XVI, a Santa Igreja Católica de Roma, especialista em se apropriar de monumentos, tradições e rituais pagãos para lhes dar uma épica e falsa narrativa cristã, lhe deitou a mão e a transformou numa capela dedicada a Santa Maria Madalena... Bastou substituir a laje que servia de telhado por telhas de barro, colocar-lhe uma sacrossanta cruz em cima e eis uma anta-capela que é uma das dez maiores da Península Ibérica...




A empreitada deu muito jeito porque assim se matavam duas más influências de uma cajadada só, a dos símbolos pagãos dos homens da idade da pedra e depois a lembrança dos mouros cuja indelével e proveitosa presença pela região ainda estava fresca.... Não deixa de ser curioso o facto de o usurpado templo ter sido dedicado a Maria Madalena, aquela suposta pecadora a quem o Cristo salvou das pedradas com o célebre desafio: "Quem nunca pecou que lance a primeira pedra!". 
Afinal, passado tanto tempo, parece que Maria Madalena não era nem prostituta nem adúltera como diziam os cegos e invejosos cristãos de antanho mas sim uma senhora de respeitabilidade insuspeita, a companheira de Jesus, afinal, como aliás o comprovou o Papa Francisco ao canonizá-la como a "apóstola dos apóstolos"! Santa hipocrisia! Pois, apetece questionar quem afinal merece levar com as pedras que se acharem pelas serras de Aire e Candeeiros? E que Deus empedernido é este que teima em não socorrer a agonizante humanidade neste mundo-cão?



"Anta de Alcobertas - Jean-Charles Forgeronne)


João Alembradura

(Historiador de Valmedo) 

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

 

DESCOBERTAS POR ALCOBERTAS


Deixadas as salinas ainda engalanadas com luzes natalícias e presépios de sal para trás e Rio Maior a uma dezena de quilómetros, quando chegamos a Alcobertas não vale a pena tentar encontrar a "pequena torre" perdida no tempo e que lhe deu o nome a partir do árabe "al cobe", a única torre que se acha é a sineira da Igreja Paroquial com a sua famosa anta-capela à ilharga... Mas tanta coisa se pode descobrir por esta terra de tempos imemoriais e marcada de forma indelével pela presença dos mouros que até os que por ali se possam encontrar perdidos ou distraídos não têm desculpa tantas são as placas a indicar os locais de interesse histórico e cultural...
A primeira e agradável surpresa começa logo quando, no largo onde se encontram a Igreja com a anta ao lado e o Pavilhão Susana Feitor, apertadinho me dirijo ao WC público e, espantoso, não só a porta está aberta como ainda por cima as instalações estão imaculadamente limpas, quase me atrevo a dizer perfumadas com essências da Arábia... Parabéns à Junta de Freguesia pelo cuidado e por assim tão bem receber quem os visita e o mesmo constatei nos outros lavabos públicos do jardim! Tomara muita cidade, muito café e muito restaurante!    


"Olho de Água"

E se Alcobertas já foi terra de pedra e de mouros hoje é terra de água, da gralha de bico vermelho e de muita história, comecemos pelo Olho de Água, uma das cinco principais nascentes perenes do Maciço Calcário Estremenho, a par da do Alviela, do Almonda, do Liz e da Chiqueda, aí nasce a Ribeira de Alcobertas que irá desaguar no Rio Maior...  Mesmo ao lado podemos aventurar-nos pelas grutas que atestam que aquelas serras são mais esburacadas que queijo suiço e depois, seguindo o curso da ribeira, descansar um pouco no pequeno mas muito agradável jardim Porto do Rio, ouvindo o barulho dos saltos da água e com a omnipresente montanha ao fundo...


"Porto do Rio"

A próxima descoberta a fazer é a dos Potes Mouros, designados durante a Idade Média como "Covas do Pão" e que são um conjunto de buracos e túneis escavados na argila que os mouros usavam para armazenar cereais e se dos cerca de cem silos descobertos nos anos 60 do século passado a maior parte foram destruídos pelas escavações feitas por uma pedreira da zona, resta uma boa notícia: existem ainda 35, preservados e protegidos, prontos para uma visita... Ainda assim, o achado arqueológico continua a ser o maior conjunto de silos conhecido na Península Ibérica...


"Potes Mouros"

E no regresso ainda somos impelidos a fazer um pequeno desvio e descobrir uma chaminé vulcânica no dorso da Serra dos Candeeiros onde se contemplam as formações prismáticas basálticas, isto é, um conjunto de colunas de basalto verticais com 15 a 20 metros de altura resultantes do arrefecimento e solidificação da lava expelida pelo vulcão...

"Sinais do vulcão"


João Parte Pedra

(Geólogo de Valmedo)

domingo, 24 de dezembro de 2023

 

O PAÇO DA RAINHA DO CHÁ


Depois de nos termos admirado com o Beco do Petinguim e com o Beco do Félix subimos a Rua de Santa Bárbara e chegamos ao Largo do Conde Pombeiro onde impera o belo edifício da Embaixada da Itália e aproveitamos para recuperar um pouco de fôlego enquanto dizemos no melhor italiano que arranjámos e em voz alta que ninguém ouve "questa città è belissima!"...
Do outro lado da Calçada do Conde Pombeiro e a separar-nos do Campo Mártires da Pátria espera-nos o Paço da Rainha, uma rua larga, quase uma praceta assim chamada porque ali está instalado o Palácio da Bemposta, mandado construir por D. Catarina de Bragança quando regressou a Portugal em 1693 depois de ter enviuvado de Carlos II, rei de Inglaterra... 


Apesar de hoje no palácio estar instalada a Academia Militar ainda se sente por aquelas bandas a atmosfera real do tempo da rainha que deu a conhecer e instituiu a tradição do chá das cinco na Inglaterra, quem por ali deambular encontra-a imortalizada num busto que faz lembrar a Pipi das Meias Altas... 


Em contraponto, do outro lado da rua, fruto dos modernos tempos, abundam casas devolutas, prédios em ruínas e outros, muito poucos, em recuperação... E por entre os sem-abrigo que dormitam nos bancos de jardim a única coisa que destoa é o Observatório Astronómico da Bemposta, ainda bem conservado e popularmente conhecido como a Torre do Relógio, construído no século XIX para que os futuros militares complementassem os seus estudos científicos, já então o Palácio servia de sede à Escola do Exército e da Guerra...


João Conde Valbom
(Olisipógrafo de Lisboa)

terça-feira, 10 de outubro de 2023

 

CONTANDO A HISTÓRIA DE PORTUGAL


Encontrei por sorte o artista em cima de um escadote e de pincel na mão a trabalhar no mural da Escola Primária do Reguengo Grande, numa longínqua e solarenga manhã do Fevereiro de 2021... Encostei o carro e entabulei conversa com a personagem, chamava-se José Luís Nascimento e morava nas Cezaredas ia para vinte anos...




Fazia contas de acabar a obra lá para o Natal desse ano, disse ele por detrás da máscara que entretanto tinha colocado mas as contingências que o Covid acarretou, então no auge, iria atrasar a coisa... Tinham-lhe sugerido pintar cenas da História de Portugal numa banda desenhada mas ele, inspirado pelos azulejos das batalhas patentes na estação de São Bento no Porto, tinha antes e em boa hora optado por pintar painéis representativos de cada reinado lusitano...




Figura de simpatia extrema, saltou imediatamente à vista que era um conversador nato cheio de riquíssimas histórias por contar, haja alguém que as mereça ouvir, falou do seu avô algarvio, da luz e de histórias de Cacela Velha e da praia da Manta Rota, por coincidência o meu Algarve preferido... O que lhe dá mais prazer nesta vida é pintar, e é seu o mural do jardim de pedra de São Bartolomeu, no caminho para o Paço...




O que lhe dá mais prazer nesta vida é pintar, tem quadros seus espalhados pela casa e é também seu o mural do jardim de pedra de São Bartolomeu, no caminho que leva ao Paço... Já era tempo de deixar o artista trabalhar e despedi-me até uma próxima vez em que o encontre por aí de pincel na mão contando histórias... Já passaram mais de três anos desde então e nunca mais o vi, mas a sua história de Portugal ali está orgulhosamente exposta para quem a quiser ver...



João Alembradura

(Historiador de Valmedo)