domingo, 23 de agosto de 2026

 
A SURPRESA DESTE VERÃO

"Ao sol do Oeste" - Jean-Charles Forgeronne
Nas últimas semanas, ao passar pelo Parque da Cegonha a meio do percurso dos meus crosses matinais e à beira do Rio Grande que mais parece um pântano pois nele não corre água e a vegetação impera, tenho-me deliciado com um curioso bando de aves negras que nunca tinha visto por estas paragens, são para aí uma dezena que ora deambulam bicando pelo leito do rio ora descansam ao sol em plena margem mas que assim eu quedo a marcha para tirar a foto de família logo debandam pelos ares num voo de elegantes silhuetas e que após umas voltas e reviravoltas se vão alcandorar nos pináculos dos plátanos que orlam a avenida entupida de veraneantes alheios a estes maravilhoso movimentos da natureza... 

"Íbis Negra" - Foto: Lourambi 

Ao primeiro e impactante encontro com estas aves de majestoso bico longo e curvo pensei tratarem-se de garças mas depois uma publicação da associação ambiental Lourambi esclareceu-me: trata-se da Íbis Preta, de nome científico Plegadis falcinellus, uma ave de médio porte com uma altura de meio metro e uma envergadura de asas à volta de um metro e cujos habitats são locais húmidos como margens de rios, paius, lagoas e outros, desde que a água seja pouco profunda e haja vegetação aquática...  

"O voo das dez íbis" - Jean-Charles Forgeronne

Curioso é o facto de apesar de se chamar Íbis Preta (ou Negra) esta ave, vista ao perto e sob a incidência dos raios solares, reflectir lindíssimos tons de verde, azul e violeta; quanto à sua alimentação ela consta de peixes, rãs e outros animais aquáticos e também, por vezes, de insectos... É uma espécie migratória, rara em Portugal mas que nos últimos anos tem sido avistada com mais frequência e se esta colónia que foi avistada pela primeira vez pelas bandas da Lourinhã veio para ficar ou não há que esperar, quem sabe se constroem ninhos naqueles plátanos onde hoje pernoitam e desatam a pôr ovos, seria bom sinal, por aqui ficariam, nesta terra amena e tranquila... 

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

domingo, 9 de agosto de 2026

APANHADO NA REDE - VII

Haja paciência! Ainda por cima a Agência Lusa?!!!!!


 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

 
LENDAS E NARRATIVAS - XXIX

A TRAGÉDIA DUMA MORTE ESTÚPIDA

A estranha morte de Ésquilo, o famoso autor de tragédias gregas, para uns não passará de uma lenda mas para outros constituirá um acontecimento histórico credível muito por culpa de Plínio, o Velho, o também famoso naturalista e escritor romano que descreveu a curiosa ocorrência na sua gigantesca obra "História Natural", uma autêntica enciclopédia do conhecimento... Assim, segundo Plínio, andando Ésquilo pela Sicília gozando já em idade de reforma a sua fama de grande dramaturgo, uma águia que tinha capturado uma tartaruga andava em voos circulares pelos ares com o réptil recolhido na sua couraça entre as garras e com uma estratégia em mente: quebrar a carapaça da presa deixando-a cair lá do alto sobre uma rocha e assim bicar o petisco... E assim fez, só que aquilo que lhe pareceu ser uma rocha era a cabeça careca e brilhante de Ésquilo, o qual não resistiu à terrível pancada!



O irónico da história é que Ésquilo evitava estar por casa e andava o mais que podia pela natureza porque queria fugir ao seu destino, é que tempos antes tinha-lhe sido dito numa profecia que o tecto de uma casa lhe cairia sobre a cabeça, nada mais certo então, acabou morto pela casa de uma tartaruga! Ele que foi mestre em criar tragédias, obras em verso em que figuram ilustres personagens e que geralmente acabam com uma morte, talvez nunca tivesse sonhado que a sua própria morte seria digna de uma tragédia surreal...
Mas passados séculos também Plínio acabou os seus dias de forma trágica e irónica, vitima da sua curiosidade infindável e enquanto não só liderava uma missão de salvamento mas também enquanto investigava o fenómeno, acabou por morrer devido à inalação de cinzas e de gases vulcânicos libertados pela erupção do vulcão Vesúvio no ano 79 d.C...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

 

A MISTERIOSA ORIGEM DAS PALAVRAS - XXV 

A TRAGÉDIA DE ÉSQUILO E DO ESQUILO


Foto: Milvoz
Esquilo e Ésquilo estão separados por muito mais do que um mero acento agudo, o primeiro nome designa um pequeno e elegante roedor de longa cauda e que se encontra espalhado por florestas de quase todo o mundo-cão enquanto o segundo se refere ao pai da tragédia grega... Comecemos por esquilo, nome que deriva da palavra grega skíouros e que por sua vez é uma junção de duas outras palavras, skía, que significa sombra, e ourá que significa cauda; ou seja, skíouros literalmente designa "rabo que faz sombra" e isso faz todo o sentido se reparamos na forma como o esquilo se senta...  
Ésquilo, quase careca...

Quanto ao nome Ésquilo ele tem origem no grego aiskhúlos, por sua vez um diminutivo de aiskhos e que significa "vergonha"; assim, o grande dramaturgo era conhecido como o tímido, o envergonhadito... Mas para além do nome muito parecido há uma outra coisa que aproxima o poeta e o mamífero, a tragédia: no caso do primeiro, a quem foram atribuídas mais de sessenta obras, apenas sete (!) se conservaram, quanto ao segundo, especialistas colocam-no na lista de espécies em extinção a curto prazo, o que aliás não seria novidade pois o "Sciurus vulgaris", o esquilo vermelho que vemos por aí, já esteve extinto em Portugal desde o século XVI até cerca de 1990 devido ao corte de árvores e perda de florestas...  

João Portugal
(Linguísta de Valmedo)

 

"Natureza aristotélica" - Jean-Charles Forgeronne

 
OBRAS DE ARTE NATURAL - II

A ARTE DO ESQUILO ARISTÓTELES

Ali, no antigamente designado Pinhal da Câmara e que hoje na sua parte sul alberga o Dino  Parque da Lourinhã, vive há meia dúzia de anos por entre dinossauros e criaturas ancestrais um esquilo já velhote chamado Aristóteles mais a sua segunda companheira de vida, a esquila  Herpília... O esquilo Aristóteles, permitam-me apresentá-lo, é um artista que dá asas à sua criatividade sempre que encontra o seu alimento preferido, qualquer pinha que encontre e onde finque os dentes se transforma numa obra de arte através de uma complexa urdidura de figurada filigrana...


"Obra em evolução" - Jean-Charles Forgeronne

É sabido que o esquilo vermelho que habita os nossos bosques é omnívoro, alimenta-se do que a natureza lhe proporciona conforme as estações mas nutre uma especial preferência por pinhas e pinhões de pinheiro bravo, depois também gosta de avelãs, bolotas e outras sementes, não recusando em época de pouca abundância uns cogumelos, mesmo os venenosos para outras espécies, bagas, flores, rebentos  e até insectos se outra coisa não houver... Mas a pinha é o que o faz feliz, e tanto assim é que a trata com carinho e apurada arte, como é o caso do nosso tímido amigo Aristóteles que dando azo à criatividade usa os seus dentes como incansáveis cinzéis e a obra, quando finalizada, é verdadeiramente digna de um exímio escultor... 

"Obra acabada" - Jean-Charles Forgeronne

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)