quarta-feira, 3 de junho de 2026

 E porque hoje é o Dia Mundial da Bicicleta...

"A verdade é que, por culpa da bicicleta, as mulheres deslocavam-se por conta própria, desertavam do lar e desfrutavam do perigoso sabor da liberdade. E por culpa da bicicleta, o opressivo espartilho, que as impedia de pedalar, saiu do roupeiro e foi para o museu."

Eduardo Galeano
in "Os filhos dos dias"

 A MARAVILHOSA BICICLETA

Comemora-se hoje o Dia Mundial da Bicicleta, instituído pela Organização das Nações Unidas há seis anos com o intuito de lembrar não só a importância da bicicleta na sociedade tanto a nível de transporte como de lazer, por um lado, mas também salientar os benefícios do seu uso regular para a saúde e para o ambiente...
Para mim, que tive a sorte de ter alguém que me ensinou a andar de bicicleta aos cinco anos de idade, desde esses primórdios infantis que a associei sempre a uma sensação e experiência de liberdade...
Por isso partilho da opinião de quem se sentia um herói quando de bicicleta se aventurava à descoberta...

"BD de Luís Louro"
João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)
 
TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXXIX

UM MERGULHO NOS SABORES ATLÂNTICOS

Quem chega a Santa Cruz das Flores a necessitar de repasto, seja petisco ou refeição, pode ser desagradavelmente surpreendido pois a oferta é manifestamente escassa, e então se calhar a um domingo como foi o nosso caso o cenário ainda piora pois vários cafés e restaurantes fecham a esse dia ou encerram cedo, culpa de não haver mão-de-obra, "ninguém quer trabalhar" confidenciou-me um gerente, chef de cozinha e empregado de mesa, tudo ao mesmo tempo e que sozinho no seu café tem que encerrar às 8 da tarde, mas nem tudo está perdido quando o visitante agoniza de sede e fome no deserto de opções, basta procurar "O Mergulhador", um simpático restaurante à beira do Porto das Poças e dar um delicioso mergulho nos sabores atlânticos...


Casa de comida tradicional e simpático atendimento, valem a pena tanto a carne como o peixe, a ementa é variada e merece mais do que uma visita; a hora era já um pouco adiantada para a rotina açoriana mas valeu a pena esperar pela grelhada mista para dois, a carne no ponto, a batata da terra deliciosa e um pormenor inédito na minha experiência gastronómica: a mistura de carnes inclui frango, de grelha irrepreensível e molho delicioso, um toque especial inspirado no "frango da guia", confidenciaram-me, mas que fica bem lá isso fica... A condizer muito bem também estava o vinho branco da casa, à temperatura certa... 


João Ratão
(Chef de Valmedo)
 CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXV

A LENTA VIAGEM DO CAMIÃOZINHO

Estamos no extremo noroeste da ilha das Flores, na Ponta do Albarnaz, atrás de nós impera o farol construído há 101 anos e à nossa frente vislumbramos através do nevoeiro o recorte da costa e dois ilhéus, um mesmo aqui à beira, o Ilhéu de Maria Vaz e ao longe outro que daqui parece bem mais pequeno, talvez por estar a cerca de 1,6 milhas náuticas de distância, o Ilhéu de Monchique e que na realidade é um enorme rochedo com 30 metros de altura!... Ouvi com graça a um florentino de gema chamar a este último "o nosso camiãozinho" e de facto, reparando bem, a silhueta do calhau faz lembrar um camião estacionado sobre as águas...
Ora sendo a ilha das Flores o extremo europeu mais ocidental daí decorre que o Ilhéu de Monchique, sendo o ponto mais ocidental da ilha, é simultaneamente o ponto mais ocidental da Europa e curiosamente a cada ano que passa mais ocidental vai ficando! 

"O camiãozinho" - Jean-Charles Forgeronne

O que acontece é que, viajando à boleia da placa tectónica americana, as Flores e o ilhéu de Monchique se vão afastando não só da Europa como do resto do arquipélago, sendo esse afastamento de alguns centímetros por ano... É uma viagem muito lenta esta da ilha e do seu camiãozinho mas, quem sabe, daqui a uns milhões de anos talvez deixem de ser europeus!

"Farol de Albarnaz" - Jean-Charles Forgeronne

Mas desengane-se quem pensar que o Ilhéu de Monchique não passa de um calhau perdido no oceano, ele não se resignou a esse papel tão modesto e o certo é que serviu como ponto de referência para acerto das rotas e calibração dos instrumentos náuticos...

João Palmilha
(Viajante de Valmedo) 

terça-feira, 2 de junho de 2026

"Poço do Bacalhau", Flores - Jean-Charles Forgeronne

 
A ILHA DAS MIL CASCATAS

Já nos portulanos genoveses do século XIV se chamava à ilha Insula Corvi Marini, a ilha do corvo marinho, passado um século, quando Diogo de Teive a "descobriu" em 1452 para o reino lusitano foi baptizada de Ilha de São Tomás e só em 1475 é que tomou o nome definitivo de Flores devido à então exuberante abundância de cubres, vegetação que cobria toda a ilha de flores amarelas e que fazia abrir a boca de espanto aos marinheiros... Já nos primórdios do século XX, na sua fantástica viagem exploratória aos Açores descrita em "As ilhas desconhecidas", Raul Brandão chamou às Flores a "Ilha Rosa" por causa das suas azáleas... Já para mim, assim como para muitos certamente, as Flores é a "Ilha das Cascatas", tantas são elas que os florentinos dizem que um dia a ilha se afundará com tanta água que escorre de todo o lado...  

"Cascatas na costa" - Jean-Charles Forgeronne

E se o leitor estiver desconfiado da descrição desta maravilha só tem um remédio que é crer pelos próprios olhos, para constatar basta dar um passeio entre a Fajãzinha e a Ponta da Fajã, só aí existem cerca de vinte quedas de água, pode vê-las de perto a partir do Poço da Alagoinha ou então deixar-se deslumbrar pela vista magnífica a partir do miradouro do Portal... Embora num cenário diferente mas não menos entusiasmante também é imperdível explorar de barco a costa leste e deixe-se deliciar com as grutas e com a água a cair das falésias e ainda pode aproveitar e seguir rota até ao Corvo, se o mar o permitir...

"Poço da Ribeira do Ferreiro" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

segunda-feira, 1 de junho de 2026

 
LENDAS E NARRATIVAS - XXVII

CORSÁRIOS, CORVINOS E MILAGRES

Desde o inicio do século XVI, devido à sua localização isolada e também por estar alinhada com a rota de regresso à Europa de galeões portugueses e espanhóis carregados com riquezas e tesouros de África, Índia e América, a ilha do Corvo foi eleita como o refúgio preferido de corsários oriundos de muitas paragens, eles eram piratas franceses, ingleses, holandeses e até argentinos que não resistiam a atacar frequentemente a ilha e ao mesmo tempo que aproveitavam para se esconder nas suas encostas iam fazendo reféns e saqueando casas...


Ora, apesar de habituados a tantos ataques e depois de terem desenvolvido uma grande capacidade de resistência e até de diplomacia, em 1632 os corvinos sentiram-se mesmo apertados perante um ataque massivo de corsários argelinos, o cenário era mesmo assustador: 10 naus vindas de Argel atacaram em força a ilha com o intuito de levar cativos os seus habitantes! E foi então que 200 corvinos desataram por todos os meios e feitios a arremessar pedras contra os invasores e milagrosamente conseguiram impedir a invasão dos sequestradores! E foi mesmo o que se gritou: "Foi milagre"! E assim ficou para a história...

"Igreja Nossa Senhora dos Milagres", Corvo - Jean-Charles Forgeronne

Passou então a partir daí a rezar a lenda de que foi a padroeira da ilha, a Nossa Senhora do Rosário, a ajudar os corvinos em tão dramática luta, disse-se na altura e ainda se acredita agora que foi ela que, vá lá saber-se se por obra e graça ou se por prodígios de super-heroína, desviou todos os tiros lançados pelos piratas e que, ainda por cima, os devolveu para os barcos causando alarme na bandidagem! Claro que teve de se fazer justiça, a padroeira foi então rebaptizada como Nossa Senhora dos Milagres e uma igreja a ela dedicada se ergueu na Canada da Rocha...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)