segunda-feira, 21 de setembro de 2026

 
"Um milhão de anos na história da Terra é uma caganita!"

Prof. Galopim de Carvalho
 
LIVROS 5 ESTRELAS - XLIV

DIREITO DE PERNADA

Sobre "O preço da borrega", o segundo livro de Galopim de Carvalho editado em 1995, disse Natália Correia ao ler o manuscrito ser um tratado de "etnografia ficcional" e tinha a ambição de o levar para o cinema mas a morte não a deixou, para pena do autor... Apesar de descrever a vida no campo, os objectos, as alfaias e os ofícios como se fosse um etnógrafo, Galopim diz que o livro é muito poético para além de dramático, afinal aborda a vivência das pessoas num meio rural alentejano nas décadas de 40 e 50 do século passado e onde ainda pairava a medieval tradição do "direito de pernada" em que o senhor da terra tinha o direito à primeira noite da noiva de outro homem...


É um livro obrigatório para quem, como eu, nasceu e cresceu em meio rural, embora no Ribatejo e décadas mais tarde, mas a sociedade e a alma das gentes estão lá bem explanadas, e muitas memórias do autor coincidem perfeitamente com as minhas experiências de menino e adolescente... Muito mais do que pelo estilo literário este pequeno livro vale sobretudo pelo seu conteúdo.

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)
 
NÃO HÁ CONVERSAS QUE CHEGUEM...

Há vidas tão cheias de histórias, peripécias e acontecimentos que não cabem numa entrevista, numa conversa por mais longa que seja, num livro até, por isso António Galopim de Carvalho, o professor, já leva mais de trinta livros publicados e para além das obras que versam sobre temas científicos muitos deles são de ficção e vão desde romance a ensaio, de memórias à culinária... E hoje, com 95 anos, parece não querer parar, disse-o há um par de semanas que se levanta todos os dias antes das galinhas, pelas quatro da madrugada, cheio de ideias e vontade de escrever, seja no computador seja no facebook, plataforma que considera a sua janela para o mundo e onde tem mais de 50 000 fiéis seguidores ávidos pela sua partilha de histórias e memórias, não admira pois ter sido distinguido com o Prémio Envelhecimento Activo em 2017, e já lá vai quase uma década e a actividade não parou...

"Galopim no Espaço Ciência", 2016 - Jean-Charles Forgeronne

Em 2021, numa entrevista ao Público pela altura do seu nonagésimo aniversário, revelou porque começou a escrever, tarde, sentiu esse apelo em 1991 ou 1992 ao ler um livro de Zélia Gattai, "Anarquistas (Graças a Deus)" e que relata as vivências dos imigrantes italianos em São Paulo, histórias giríssimas, diz ele, e então pensou que também poderia escrever sobre tantas histórias antigas da sua meninice e adolescência, de tantas memórias de uma vida bem preenchida, e ainda bem que o decidiu fazer... Além disso, o professor catedrático jubilado Galopim de Carvalho continua a desenvolver acções de divulgação, defesa e valorização do património geológico e paleontológico nacional... E que deleite foi estar com ele há pouco no Espaço Ciência da Festa, foi um privilégio conviver com um comunicador por excelência e um gerador de afectos...

João Parte-Pedra
(Geólogo de Valmedo)
 
O AVÔ DINOSSAURO

Um dia chamaram-lhe "O Pai dos Dinossauros", epíteto que pegou de imediato, mas hoje do alto dos seus 95 anos de idade prefere ser conhecido como o "O Avô dos Dinossauros", embora teime sempre em dizer que a sua especialidade não são os dinossauros, o Professor Galopim de Carvalho é e sempre foi geólogo... Os dinossauros atravessaram-se no seu caminho quase por acaso corria o ano de 1986, era ele director da secção de Geologia do Museu Nacional de História Natural quando dois alunos seus descobriram as pegadas de Carenque e iniciou então uma luta feroz para sensibilizar os políticos, a comunicação social e a população em geral para a importância de preservar o achado. 

"Histórias da vida do Galopim, pelo próprio", Espaço Ciência, Avante, Setembro 2026 - Jean-Charles Forgeronne

Mais tarde, em 1992 e como forma de reabilitar o Museu de História Natural que tinha ardido quase por completo em 1978 e onde se tinham perdido mais de 70% das suas coleccões, aproveitando a febre dos dinossauros que se vivia então o professor Galopim esteve na organização da famosa exposição de dinossauros robotizados que viria a tornar-se um estrondoso sucesso ao atrair mais de 360 mil visitantes e provocando um monumental pandemónio no trânsito de Lisboa com filas intermináveis... 

"Fila para a Exposição 1992" - Foto: "Público, 11 Agosto 2021"

Mais tarde, em 1994, o geólogo activista da causa dos dinossauros ainda se envolveria na luta pela preservação das pegadas de dinossauro da Pedreira do Galinha, na Serra de Aire... Diz ele, com a humildade que lhe é reconhecida, que nunca foi especialista em dinossauros mas aceita o louvor de ter conseguido que muitos alunos tivessem a possibilidade de estudar dinossauros e a ter bolsas de estudo; foi graças à sua teimosia de alentejano e à sua luta que passou a haver no país projectos de investigação em paleontologia, até então inexistentes, por isso obrigado, professor..  

João Parte-Pedra
(Geólogo de Valmedo)

sábado, 12 de setembro de 2026


 "Pára! Pensa! 
  Mas o que é que tens na cabeça?
  Não é só na construção civil
  que a massa é cinzenta..."

Malabá, Rapper da Margem Sul

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

domingo, 23 de agosto de 2026

 
A SURPRESA DESTE VERÃO

"Ao sol do Oeste" - Jean-Charles Forgeronne
Nas últimas semanas, ao passar pelo Parque da Cegonha a meio do percurso dos meus crosses matinais e à beira do Rio Grande que mais parece um pântano pois nele não corre água e a vegetação impera, tenho-me deliciado com um curioso bando de aves negras que nunca tinha visto por estas paragens, são para aí uma dezena que ora deambulam bicando pelo leito do rio ora descansam ao sol em plena margem mas que assim eu quedo a marcha para tirar a foto de família logo debandam pelos ares num voo de elegantes silhuetas e que após umas voltas e reviravoltas se vão alcandorar nos pináculos dos plátanos que orlam a avenida entupida de veraneantes alheios a estes maravilhoso movimentos da natureza... 

"Íbis Negra" - Foto: Lourambi 

Ao primeiro e impactante encontro com estas aves de majestoso bico longo e curvo pensei tratarem-se de garças mas depois uma publicação da associação ambiental Lourambi esclareceu-me: trata-se da Íbis Preta, de nome científico Plegadis falcinellus, uma ave de médio porte com uma altura de meio metro e uma envergadura de asas à volta de um metro e cujos habitats são locais húmidos como margens de rios, paius, lagoas e outros, desde que a água seja pouco profunda e haja vegetação aquática...  

"O voo das dez íbis" - Jean-Charles Forgeronne

Curioso é o facto de apesar de se chamar Íbis Preta (ou Negra) esta ave, vista ao perto e sob a incidência dos raios solares, reflectir lindíssimos tons de verde, azul e violeta; quanto à sua alimentação ela consta de peixes, rãs e outros animais aquáticos e também, por vezes, de insectos... É uma espécie migratória, rara em Portugal mas que nos últimos anos tem sido avistada com mais frequência e se esta colónia que foi avistada pela primeira vez pelas bandas da Lourinhã veio para ficar ou não há que esperar, quem sabe se constroem ninhos naqueles plátanos onde hoje pernoitam e desatam a pôr ovos, seria bom sinal, por aqui ficariam, nesta terra amena e tranquila... 

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)