segunda-feira, 13 de abril de 2026

 ESCRITO NA PAREDE - LII


Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)


QUANDO OS MOINHOS CONTAM HISTÓRIAS... 

São cinco os moinhos mas para a história contam apenas quatro porque um deles, apesar dos esforços feitos para reverter o processo, foi transformado num anexo de uma habitação, talvez uma questão de vazio legal e de oportunidade e com isso tudo ficou a perder o património histórico e social da região... Mas ganha-se muito mais do que se perde ali no alto da Pinhoa, dali vê-se Montejunto e em dias claros um linha de Atlântico à beira da Areia Branca mas o que interessa mesmo não está na linha do horizonte, está mesmo à nossa frente: quatro magníficos moinhos, todos bem conservados e estimados e de portas abertas a visitas, não só em datas especiais como o Dia do Moinho mas também a visitas de estudo por parte das escolas ou simplesmente por marcação prévia, basta contactar a Vera, que para além ser descendente dos originários moleiros e proprietários dos moinhos é uma apaixonada e dedicada defensora da preservação da historia e da tradição do parque eólico...

"Pinhoa" - Jean-Charles Forgeronne

Recuperados há 25 anos, três dos moinhos estão em funcionamento e um outro foi transformado em bar, por isso mesmo apelidado de "MOINHO BAR" embora hoje já não sirva bebidas e o espaço atrás do balcão seja mais uma loja de artesanato...

"Moinho-Bar" - Jean-Charles Forgeronne

Depois temos o moinho do "Francisco da Antónia", o mais antigo de todos, construído na última década do século XIX, a seu lado está o moinho do "Xico", com 104 anos de idade e depois, mesmo em frente ao bar, o moinho "Santa Maria", da primeira década do século XX e assim baptizado desde 1961 porque reza a história que no mesmo dia em que o paquete Santa Maria foi sequestrado por um grupo armado que queria chamar a atenção internacional para as injustiças perpetradas pela ditadura então vigente o moinho foi seriamente danificado por um temporal e as pessoas da terra, olhando para a desgraça que era ver o moinho destruído, começaram a dizer "parece o Santa Maria", e a coisa pegou... Pormenor curioso, o moinho ostenta hoje na sua parede uma imagem da Santa, considerada a sua madrinha...  

"Molino" - Jean-Charles Forgeronne

Depois, lá mais em baixo na vila de Moita dos Ferreiros ainda há para ver o "Moinho do Boneco" assim chamado porque o moleiro era mesmo pequenino, parecia um bonequinho... E se a fome apertar não seja passarinho, procure conforto no dito cujo, cozinha típica de excelência e em boa conta...

"Moinho do Xico" - Jean-Charles Forgeronne

 João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

terça-feira, 7 de abril de 2026


E porque hoje se celebra o Dia Nacional do Moinho...

 

"Moinhos" -  Pinhoa
Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

quarta-feira, 1 de abril de 2026

sábado, 28 de março de 2026




02:41:58

Pelas duas e quarenta
e um e cinquenta e oito
nos Cucos um cuco anunciou
o início da mais bela estação...
E acordam primaveris criaturas.

Plana além a cegonha, lenta,
saltita ali o esquilo, afoito,
num carvalho o pica-pau se fincou
e numa campânula pousa o abelhão,
saem coelhos das suas luras...

Quão efémera é a doce beleza
desta natureza tão exuberante
e aqui todos sabem com certeza
de que a vida é apenas um instante...

J.C
(Poeta de Valmedo)

"Un chalet aux Coucous" - Jean-Charles Forgeronne

 
UMA VOLTINHA POR... - VII

Vale dos Cucos... Assim chamou o povo a este vale verdejante, agora encravado entre a A8 e a Linha do Oeste, porque se acreditava que era ali que se ouvia o primeiro de todos os cucos a cantar no início da primavera... Mas o grande tesouro deste vale não é o primordial canto do cuco que não tive a sorte de ouvir na minha voltinha primaveril mas sim as suas águas quentes muito ricas em sais com cerca de 200 milhões de anos (!) e que outrora brotavam de várias nascentes na margem direita do rio Sizandro e cuja existência já era conhecida dos romanos...

"Estabelecimento Thermal e Hydrotherapico dos Cucos" - Jean-Charles Forgeronne

No séc. XVIII as águas quentes dos Cucos eram usadas com grande sucesso no tratamento de inúmeras maleitas desde sarnas e outras doenças de pele, caquexias, convulsões, paralisias, reumatismos  ou inchações de vária ordem, não surpreendendo que após estas qualidades serem reconhecidas pela medicina o local se tivesse tornado numa grande atracção para banhos populares, embora inicialmente numas poucas precárias barracas de madeira... 

"Fonte Termal" - Jean-Charles Forgeronne

Mas em 1892, a reboque da chegada da Linha do Oeste a Torres Vedras cinco anos antes, foi inaugurada a estância termal dos Cucos, um moderno estabelecimento à época e que fazia parte de um plano gigantesco de construção: 40 chalets, um hotel com 300 quartos, um hospital termal, um mercado, um casino... Ora bem, para além do Estabelecimento Balnear e Hidroterápico apenas foram construídas duas vivendas e o casino, este construído em 1896 e que esteve em funcionamento até meados do século XX... Consta que, para além dos banhos e tratamentos que providenciava, as termas também abasteciam Lisboa de muitos garrafões de 5 litros de água, vendidos na rua dos Fanqueiros...

"Vale dos Cucos" - Jean-Charles Forgeronne

Em 1996 as Termas encerraram, seria então uma coisa provisória já que até se projectava a construção de um novo balneário mas trinta anos passaram e as portas nunca mais se abriram, tantos banhos milagrosos desperdiçados... Mas vale bem a pena rumar aos Cucos, os edifícios, apesar de algum abandono, mantêm o seu charme e depois deambular por aquele vale idílico ou até fazer uma caminhada ou uma corridinha pelos trilhos à beira do Sizandro quase que faz tão bem à alma como os banhos de antigamente faziam ao corpo...

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)