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| "Penedo do Guincho", Santa Cruz - Jean-Charles Forgeronne |
Planando no Mundo Cão
quarta-feira, 1 de abril de 2026
sábado, 28 de março de 2026
02:41:58
Pelas duas e quarenta
e um e cinquenta e oito
nos Cucos um cuco anunciou
o início da mais bela estação...
E acordam primaveris criaturas.
Plana além a cegonha, lenta,
saltita ali o esquilo, afoito,
num carvalho o pica-pau se fincou
e numa campânula pousa o abelhão,
saem coelhos das suas luras...
Quão efémera é a doce beleza
desta natureza tão exuberante
e aqui todos sabem com certeza
de que a vida é apenas um instante...
J.C
(Poeta de Valmedo)
UMA VOLTINHA POR... - VII
Vale dos Cucos... Assim chamou o povo a este vale verdejante, agora encravado entre a A8 e a Linha do Oeste, porque se acreditava que era ali que se ouvia o primeiro de todos os cucos a cantar no início da primavera... Mas o grande tesouro deste vale não é o primordial canto do cuco que não tive a sorte de ouvir na minha voltinha primaveril mas sim as suas águas quentes muito ricas em sais com cerca de 200 milhões de anos (!) e que outrora brotavam de várias nascentes na margem direita do rio Sizandro e cuja existência já era conhecida dos romanos...
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| "Estabelecimento Thermal e Hydrotherapico dos Cucos" - Jean-Charles Forgeronne |
No séc. XVIII as águas quentes dos Cucos eram usadas com grande sucesso no tratamento de inúmeras maleitas desde sarnas e outras doenças de pele, caquexias, convulsões, paralisias, reumatismos ou inchações de vária ordem, não surpreendendo que após estas qualidades serem reconhecidas pela medicina o local se tivesse tornado numa grande atracção para banhos populares, embora inicialmente numas poucas precárias barracas de madeira...
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| "Fonte Termal" - Jean-Charles Forgeronne |
Mas em 1892, a reboque da chegada da Linha do Oeste a Torres Vedras cinco anos antes, foi inaugurada a estância termal dos Cucos, um moderno estabelecimento à época e que fazia parte de um plano gigantesco de construção: 40 chalets, um hotel com 300 quartos, um hospital termal, um mercado, um casino... Ora bem, para além do Estabelecimento Balnear e Hidroterápico apenas foram construídas duas vivendas e o casino, este construído em 1896 e que esteve em funcionamento até meados do século XX... Consta que, para além dos banhos e tratamentos que providenciava, as termas também abasteciam Lisboa de muitos garrafões de 5 litros de água, vendidos na rua dos Fanqueiros...
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| "Vale dos Cucos" - Jean-Charles Forgeronne |
Em 1996 as Termas encerraram, seria então uma coisa provisória já que até se projectava a construção de um novo balneário mas trinta anos passaram e as portas nunca mais se abriram, tantos banhos milagrosos desperdiçados... Mas vale bem a pena rumar aos Cucos, os edifícios, apesar de algum abandono, mantêm o seu charme e depois deambular por aquele vale idílico ou até fazer uma caminhada ou uma corridinha pelos trilhos à beira do Sizandro quase que faz tão bem à alma como os banhos de antigamente faziam ao corpo...
João Palmilha
(Viajante de Valmedo)
quinta-feira, 19 de março de 2026
A ÁRVORE MEDIÚNICA
Porque foi o cedro de Runa eleito a "Árvore do Ano" de 2026? Não foi pela sua idade já que é uma árvore com apenas 75 anos, não foi pela sua altura, apenas 10 metros, pela beleza também não terá sido porque apesar de ser bela muitas outras árvores também o são, talvez tenha sido mais pela sua história e pela sua importância na vida da comunidade, afinal parece ser esse também o espírito do concurso, não valorizar apenas tamanhos e imponências que não passam de números... Agora que estou diante dela tenho para mim que esta árvore é sagrada para os runenses assim como os carvalhos eram para os celtas e debaixo dos quais os druidas comunicavam com o além e com os mistérios, também aqui, à sombra do enorme caramanchão que as suas ramadas formam, muita reflexão e introspecção, muita oração às forças da natureza, muita conversa e desabafo, juras de amor e rezas de ódio, muitos encontros e desencontros, alegrias e desesperos, tudo o o que a humanidade carrega aqui foi conversado com esta árvore, sim, as árvores escutam, as árvores, por vezes, também falam e aconselham, para além de guardarem segredo...
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| "O cedro de Runa" - Jean-Charles Forgeronne |
Afinal estamos em Runa, e runas, afinal, não são apenas caracteres alfabéticos mas são também sinais mágicos que vêm desde os tempos dos vikings e que significam "segredos" e mistérios", uma ligação entre este mundo-cão e o além, entre o passado e o futuro... E só de pensar que esta magnífica árvore chegou a não ter futuro porque rebentou enfezada e fraca e que só graças ao amor e à dedicação de um tal Sr. Alfredo, que não só a plantou como dela cuidou sempre, apetece-me dizer que à beira de um grande homem faz falta sempre uma grande árvore, e vice-versa também...
(Naturalista de Valmedo)
domingo, 15 de março de 2026
EFEMÉRIDE # 112
O DIA EM QUE O POVO DISSE NÃO!
Há exactos 50 anos atrás, a 15 de Março de 1976, Portugal era governado pelo VI Governo Provisório o qual, para além do seu objectivo primordial que era assegurar a estabilidade política e social no período entre a crise do 25 de Novembro de 1975 e a entrada em vigor da Constituição da República Portuguesa, a qual viria a ser aprovada dezoitos dias depois, a 2 de Abril, tinha também sobre os seus ombros a incumbência de preparar em segurança as primeiras eleições legislativas e presidenciais marcadas para os meses seguintes, Abril e Junho, respectivamente...
Mas nessa segunda-feira o centro das atenções desviou-se para oeste e caiu repentinamente sobre o Moinho Velho, uma zona de terrenos baldios na freguesia de Ferrel sobranceira à praia da Almagreira, a meio caminho entre o Baleal e a a praia d'El Rey, em Óbidos, e onde estava previsto o início dos trabalhos de construção da primeira (e quiçá última) central nuclear em território lusitano, um projecto do tal governo provisório, talvez inspirado pela política energética do leste europeu, (Chernobyl ainda era na altura um tranquilo sucesso, só explodiria 10 anos depois), o povo de Ferrel, animado e reunido pelo toque a rebate do sino da igreja e armado de enxadas e forquilhas marchou pelos caminhos de terra batida para enfrentar o inimigo e a coragem foi tanta que não foi preciso derramar sangue, a turba expulsou os trabalhadores encarregados da obra e ali mesmo finou-se o plano de energia atómica nacional, até hoje...
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| "Vista do terraço da Central Atómica" - Jean-Charles Forgeronne |
Hoje ali, à beira da praia e com o Baleal e Peniche no horizonte, nos terrenos que poderiam ser a central atómica cultiva-se o alho-francês, a batata, a batata doce e o repolho, mas, mais importante, crescem flores e ervas e a natureza mantém-se selvagem, não se sabe até quando devido à ameaça dos especuladores imobiliários...
(Historiador de Valmedo)
quinta-feira, 12 de março de 2026
A NATURAL LEVEZA DA VIDA
Com a sua partida a vida fica mais pesada, lembro as suas vindas ao "Livros a Oeste" durante anos seguidos, a noite em que participava era obrigatória para mim, bola vermelha na agenda e se fosse necessário lá trocava eu a escala de serviço para poder estar presente porque quaisquer que fossem os outros participantes na conversa sobre livros e sobre a vida ele era garantia de histórias e curiosidades incríveis, o homem, como alguém disse hoje, era um museu ambulante, memórias e mais memórias, conhecimento e experiência, tudo regado com um sentido de humor desarmante que levava a plateia às gargalhadas e um perene sorriso desconcertante, mesmo quando o assunto era demasiado sério...
Do Mário Zambujal "oficial" sabe-se a sua mestria enquanto jornalista, escritor e, acima de tudo, conversador, um observador peculiar do mundo e da sociedade com um saber estar por vezes desalinhado que o tornou uma figura incontornável da cultura lusitana, especialmente depois da publicação da "Crónica dos Bons Malandros" em 1980, e da qual disse o insuspeito Fernando Namora: "Eis um livro ágil, hábil, matreiro, povoado de enleadoras surpresas - uma lufada de despretensão, quer na escrita, quer no recheio."
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João Vírgula
(Leitor de Valmedo)
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