sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026


 
"O velho e o mar..."
João Plástico
(Artista de Valmedo)

 
AS BANDEIRAS TAMBÉM MORREM



"Além disso, diziam, se as bandeiras estão aí para celebrar o facto de que a morte deixou de matar, então de duas uma, ou as retiramos antes de que com a fartura comecemos a embirrar com os símbolos da pátria, ou vamos levar o resto da vida, isto é, a eternidade, dizemos bem, a eternidade, a mudá-los de cada vez que os apodreça a chuva, que o vento os esfarrape ou o sol lhes coma o colorido." 

in "As intermitências da morte", 2005
José Saramago





"Meia-Pátria"- 2026 - Jean-Charles Forgeronne


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

 

"Squirrel dance"

Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

 
ESCRITO NA PAREDE - LI

FLATULÊNCIAS MUSICAIS


Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)
 
O REINO ENCANTADO DO CALHAU

Em plena floresta de Monsanto, ao virar do caminho e deixado o real aqueduto para trás dei por mim desavisado noutro reino e tudo começou ao cruzar-me repentinamente com um estranho caçador de troféu às costas e que nem sequer reparou em mim, mas depois e aliviado por ter evitado um choque imediato de terceiro grau começo a desconfiar que algo não bate certo, paro, escuto e olho em volta com todos os sentidos em alerta e reparo então que fui atraído para outra dimensão porque, quais duendes, gnomos ou fadas, inúmeras figuras de madeira esculpidas com paixão e imaginação, muitas delas camufladas por entre a vegetação, transportam-me para outra dimensão, um mundo encantado de fantasia e poesia...   



Tanto podem ser de Fernando Pessoa ou de Carlos Drummond de Andrade, de António Nobre ou do Jorge Palma, descubro sábias palavras espalhadas pelo bosque que elucidam emoções e que desafiam o entendimento da vida, que alegram a existência feita de momentos como este, centelhas de paz e harmonia que nos fazem o dia feliz, que nos fazem sorrir, e que melhor há para retribuir à natureza do que um sorriso?  E ali ao fundo, debaixo de uma tranquila sombra, imagino eu que só pode ser o Palma a cantar o "Bairro do Amor" para encanto de uma ninfa da floresta...

E depois, ao contrário do Nobre que se viu só e abandonado, primeiro sinto e depois constato que estou a ser observado, por entre os troncos das árvores descortino uma mulher que me observa, tem cabelos brancos e por isso sabedoria, tem também um olhar acutilante, sinal de autoridade, só pode ser ela, penso, por isso pergunto: - Bom dia, quem fez isto? - e ouço uma resposta que não destoa: - Eu e o meu marido... Fico a saber que ela é a Isabel, que o marido é o Manel, e que ambos fazem aquela arte por passatempo reciclando madeira dali de Monsanto, autorizados pela Câmara, claro, não têm atelier nem vendem nada, apenas umas ocasionais exposições de presépios lá em cima no Centro de Interpretação... E já que pelos vistos imaginação e vontade de criar não lhes faltará só me restou desejar-lhes longa vida e saúde para continuarem a obra fazendo jus ao que diz o Palma ali num canto.: "Enquanto houver estrada para andar... a gente vai continuar."


E seguindo adiante passo por um casal de atletas fazendo alongamentos e isso faz-me sentir pesada a consciência por não estar também a fazer exercício, porque raio não trouxe o equipamento, da próxima virei a preceito, hoje também não era boa ideia porque não teria tempo para desfrutar com a tranquilidade e atenção necessárias deste jardim encantado... Envolto nestes pensamentos devolvo a saudação de um velhote sorridente que passeia um cão irrequieto e entretanto já um curioso insecto além pousado me chama a atenção, pôs-se mesmo a jeito para um retrato...


João Plástico
(Artista de Valmedo)

domingo, 15 de fevereiro de 2026


 UMA VOLTINHA POR... - VI


Calhau... Assim chamaram a um canto do Parque Florestal de Monsanto, talvez porque outrora ali tivesse existido um pedregulho de que hoje não há história nem memória... Meia dúzia de casas térreas escondidas atrás do Palácio dos Marqueses de Fronteira e que fazem lembrar uma aldeia provinciana constituem aquilo a que se chama o Bairro do Calhau e cuja joia é o seu Parque, uma ampla zona de recreio e passeio com espaços para a pratica desportiva e ainda um circuito de manutenção...  

"Do lado de cá da cidade..." - Jean-Charles Forgeronne

A barulhenta metrópole entrevê-se por entre as árvores lá em baixo mas somos mais atraídos pela tranquilidade e beleza da natureza, andamos por entre esquilos e rodeados pelos sons de aves tímidas até que sem o esperarmos damos por nós literalmente em cima do real Aqueduto das Águas Livres, essa imponente obra de engenharia mandada construir por D. João V em 1731 e cuja construção demorou 68 (!) anos! O aqueduto resistiu ao grande terramoto de 1755, tem 14 quilómetros de extensão e durante mais de dois séculos abasteceu Lisboa com água potável vinda de Belas, na serra de Sintra...  

"Real Aqueduto" - Jean-Charles Forgeronne)

Mas o melhor ainda está por descobrir, ali perto do aqueduto e tão camuflado na floresta que pode muito bem passar despercebido aos mais distraídos há um reino encantado feito de maravilhosas personagens de madeira envoltas em poesia e outras palavras mágicas que abrem as portas da imaginação... 

"Poesia na floresta" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026