terça-feira, 2 de junho de 2026

"Poço do Bacalhau", Flores - Jean-Charles Forgeronne

 
A ILHA DAS MIL CASCATAS

Já nos portulanos genoveses do século XIV se chamava à ilha Insula Corvi Marini, a ilha do corvo marinho, passado um século, quando Diogo de Teive a "descobriu" em 1452 para o reino lusitano foi baptizada de Ilha de São Tomás e só em 1475 é que tomou o nome definitivo de Flores devido à então exuberante abundância de cubres, vegetação que cobria toda a ilha de flores amarelas e que fazia abrir a boca de espanto aos marinheiros... Já nos primórdios do século XX, na sua fantástica viagem exploratória aos Açores descrita em "As ilhas desconhecidas", Raul Brandão chamou às Flores a "Ilha Rosa" por causa das suas azáleas... Já para mim, assim como para muitos certamente, as Flores é a "Ilha das Cascatas", tantas são elas que os florentinos dizem que um dia a ilha se afundará com tanta água que escorre de todo o lado...  

"Cascatas na costa" - Jean-Charles Forgeronne

E se o leitor estiver desconfiado da descrição desta maravilha só tem um remédio que é crer pelos próprios olhos, para constatar basta dar um passeio entre a Fajãzinha e a Ponta da Fajã, só aí existem cerca de vinte quedas de água, pode vê-las de perto a partir do Poço da Alagoinha ou então deixar-se deslumbrar pela vista magnífica a partir do miradouro do Portal... Embora num cenário diferente mas não menos entusiasmante também é imperdível explorar de barco a costa leste e deixe-se deliciar com as grutas e com a água a cair das falésias e ainda pode aproveitar e seguir rota até ao Corvo, se o mar o permitir...

"Poço da Ribeira do Ferreiro" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

segunda-feira, 1 de junho de 2026

 
LENDAS E NARRATIVAS - XXVII

CORSÁRIOS, CORVINOS E MILAGRES

Desde o inicio do século XVI, devido à sua localização isolada e também por estar alinhada com a rota de regresso à Europa de galeões portugueses e espanhóis carregados com riquezas e tesouros de África, Índia e América, a ilha do Corvo foi eleita como o refúgio preferido de corsários oriundos de muitas paragens, eles eram piratas franceses, ingleses, holandeses e até argentinos que não resistiam a atacar frequentemente a ilha e ao mesmo tempo que aproveitavam para se esconder nas suas encostas iam fazendo reféns e saqueando casas...


Ora, apesar de habituados a tantos ataques e depois de terem desenvolvido uma grande capacidade de resistência e até de diplomacia, em 1632 os corvinos sentiram-se mesmo apertados perante um ataque massivo de corsários argelinos, o cenário era mesmo assustador: 10 naus vindas de Argel atacaram em força a ilha com o intuito de levar cativos os seus habitantes! E foi então que 200 corvinos desataram por todos os meios e feitios a arremessar pedras contra os invasores e milagrosamente conseguiram impedir a invasão dos sequestradores! E foi mesmo o que se gritou: "Foi milagre"! E assim ficou para a história...

"Igreja Nossa Senhora dos Milagres", Corvo - Jean-Charles Forgeronne

Passou então a partir daí a rezar a lenda de que foi a padroeira da ilha, a Nossa Senhora do Rosário, a ajudar os corvinos em tão dramática luta, disse-se na altura e ainda se acredita agora que foi ela que, vá lá saber-se se por obra e graça ou se por prodígios de super-heroína, desviou todos os tiros lançados pelos piratas e que, ainda por cima, os devolveu para os barcos causando alarme na bandidagem! Claro que teve de se fazer justiça, a padroeira foi então rebaptizada como Nossa Senhora dos Milagres e uma igreja a ela dedicada se ergueu na Canada da Rocha...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)                                                                                               

sábado, 30 de maio de 2026

"Caldeira", Corvo - Jean-Charles Forgeronne

 

 
ESCRITO NA PAREDE - LIV



João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

 CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXIV

APRISIONADOS NA ILHA NEGRA

Não fosse a fajã lávica na zona sul da ilha e o Corvo seria inacessível, não passaria, nas palavras do escritor-viajante, de um "grande rochedo a pique" cuspido das profundezas do oceano... As costas norte e oeste são demasiado íngremes e ventosas, não permitindo a fixação de gente nem a prática da agricultura, já a costa leste permite semear qualquer coisita mas não tem acesso ao mar, daí ter sido na costa sul que se estabeleceram os primeiros colonizadores, concentrados numa única povoação...

"Chegada ao Corvo" - Jean-CharlesForgeronne

Ainda hoje, passados séculos após a colonização da ilha negra, continua a existir apenas uma localidade em toda a ilha, Vila do Corvo, desde sempre aninhada sobre a falésia que se encosta à baía do Porto da Casa... Uma ilha, uma terra... Hoje, como outrora, Vila do Corvo continua a abrigar todos os habitantes da ilha, cerca de 400, e isso só é possível devido à sua grande densidade habitacional assente num emaranhado de pequenas ruelas, estrutura que foi determinada, desde o início, por duas necessidades prementes dos corvinos: a busca de abrigo para os ventos inclementes e uma fácil entreajuda e protecção contra os ataques dos corsários!

"A vila" - Jean-Charles Forgeronne

Desde o povoamento da ilha os corvinos viviam em reclusão,como se fossem condenados em cela solitária, praticamente sem contactos com o exterior; segundo relatos de 1580 não existia qualquer embarcação na ilha para evitar a fuga dos escravos que faziam parte do contingente de colonizadores, os barcos mais próximos estavam nas Flores e quando havia alguma necessidade eram a eles que se pedia socorro acendendo fogueiras nas pontas da ilha... Curiosamente, também não existiam cães, gatos, coelhos, ratos ou furões! Os cães não eram permitidos para protecção das ovelhas, os gatos eram proibidos porque não haviam ratos e para evitar que assim comessem pássaros, os coelhos eram indesejados para evitar a caça e assim proteger outras fontes de sustento, os ratos eram considerados uma ameaça porque não haviam gatos e além disso porque eram fonte de pestes, aliás eram na altura uma praga nas Flores, e furões também não poderia haver para protecção dos galináceos... Por exemplo, todas as embarcações que aportavam à ilha, mesmo aquelas oriundas das Flores e que demandavam a ilha em missão de socorro eram fiscalizadas por alguém que tinha as funções de "visitador dos ratos"...
 
"Praia da Areia", Corvo - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

quinta-feira, 28 de maio de 2026

 A ILHA DOS 2 BORDALOS

Chego ao Corvo e sinto-me como se tivesse chegado ao fim do mundo, ao fim e ao cabo esta é a derradeira ilha e tanto assim é que é a mais difícil de alcançar, geralmente é a última do arquipélago a ser explorada e nem todos conseguem aqui chegar pois é preciso haver uma conjuntura meteorológica favorável e nem sempre se tem essa sorte, aqui acabam os Açores, depois dela apenas a imensidão do oceano...

"Cagarro", Bordalo II - Foto: Jean-Charles Forgeronne

Mas apesar de ser a mais pequena ilha dos Açores e de apenas ter uma localidade, Vila do Corvo, o Corvo tem muito para descobrir e o visitante pode ser surpreendido a cada curva do caminho, basta, por exemplo, dar de caras com 2 obras de Bordalo II feitas a partir de lixo marinho: o cagarro, na vila, e o mero, na Praia da Areia, já em plena Reserva da Biosfera da ilha... E vale muito a pena procurá-los!

"Mero", Bordalo II - Foto: Jean-Charles Forgeronne

João Plástico
(Artista de Valmedo)