segunda-feira, 20 de julho de 2026

 
UMA VOLTINHA POR... - IX


"Torre dos Relógios"-Jean-Charles Forgeronne
...Peniche... A primeira boa sensação que nos assalta quando chegamos ao centro de Peniche é o estacionamento fácil e gratuito no grande parque junto à Capitania, depois é só atravessar a ponte e descobrir ruelas e travessas e largos impregnados de histórias e de cheiro a mar... Atravessemos então o Largo do Município e enfiemos pela Rua Tenente Valadim adentro e logo após uma meia-dúzia de passadas já é possível vislumbrar lá ao fundo a chamada Torre do Relógio, propriedade municipal e construída em 1697 com o intuito de ostentar ao público passante o primeiro relógio mecânico do concelho... Com mais propósito deveria chamar-se "Torre dos Relógios" já que apresenta dois relógios, um na parede virada a sul e outro no lado poente, por sinal os dois em pleno funcionamento e bem certinhos... Mas o Santo Graal desta nossa demanda é o edifício situado entre a torre e o antigo hospital, a Igreja da Santa Casa da Misericórdia de Peniche, um templo aparentemente singelo visto por fora mas que surpreende e deslumbra com o seu interior absolutamente extraordinário...

"Templo-Museu" - Jean-Charles Forgeronne

Normalmente fechada ao público, para frustração de muitos que por ali passam, aproveitando a sorte de o nosso passeio coincidir com um dos escassos períodos de abertura em horário turístico de verão entrámos e a primeira coisa que fazemos por impulso é levantar os olhos para o alto, não para vislumbrar os deuses lá no céu mas para, embasbacados, contemplar o fabuloso tecto em madeira, constituído por 55 caixotões e cada um contendo uma pintura a óleo representando cenas da vida de Cristo e do Novo Testamento... 


A juntar a estas pinturas, o tecto sob o coro apresenta ainda seis enormes telas, o que perfaz 61(!) pinturas, cinco delas da autoria da famosa Josefa de Óbidos... E não se olhe apenas para o alto, repare-se nas paredes integralmente revestidas a belos azulejos seiscentistas! Quem não conhece e passa lá fora a caminho de uma esplanada na praça ali ao lado não imagina tamanho tesouro aqui escondido...

"Andar às voltas em Peniche" - Jean-Charles Forgeronne

E à saída, quiçá depois de um gelado na praça contígua ou a caminho de um mergulho numa das muitas praias à volta de Peniche, ainda a sorte nos pode sorrir se encontrarmos a roda gigante a dar voltas e mais voltas...

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)
 
APANHADO NA REDE - VII

Alguém chumbou na legendagem...



domingo, 5 de julho de 2026

 
O CLUBE DE LEITURA CANINA - II

Ainda não o consigo descortinar mas pressinto que o J.C vem lá e os meus sentidos não me enganaram, aí está ele saindo da porta da cozinha em direcção ao canto à sombra onde estou refastelado há já algum tempo para me proteger deste anormal calor tórrido que se faz sentir aqui por Verde-Erva-Sobre-o-Mar e ao reparar que traz um livro na mão sei o que se vai seguir, uma sessão de leitura canina... Pensava eu, amigos caninos, que essa coisa já tinha passado à história pois muitas luas tinham passado desde aquela primeira longa e exigente experiência, embora engraçada, admito, mas já estou acostumado a que vários projectos do J.C sejam ou efémeros ou esquecidos, por exemplo aquela promessa adiada de um dia pegar em mim e ir mostrar-me a mítica cidade de Lisboa...


-Pois bem, James - disse ele autoritariamente - voltamos às nossas leituras, aposto que já tinhas saudades, certo? - e eu, para não arranjar sarilhos antes de mais, é verdade, mas também por gostar das leituras, ainda que impostas, respondi com o olhar e com as orelhas que sim...
- Ora, hoje vamos ler um trecho de um livro de Baptista Bastos e que penso que vais gostar... Antes de mais é importante saberes que o autor, já falecido, foi jornalista e escritor e ficou famoso com uma pergunta que fazia a todos os seus entrevistados num programa que tinha na televisão: "Onde é que tu estavas no 25 de Abril?"... 
- O que é isso do 25 de Abril? - perguntei de cenho franzido.
- Isso fica para outra altura, o Baptista Bastos e o 25 de Abril, vamos agora ao que interessa, o livro fala sobre as aventuras de um menino nascido na Ajuda, um bairro de Lisboa, aliás como o escritor, e que após uma série de tragédias familiares, especialmente a morte do avô, seu grande amigo e confidente, decide aventurar-se à descoberta da grande cidade lá em baixo, e ouve só esta passagem do romance:  


"...o nosso avô era um cão velho entre flores, e morreu assim, como um cão velho a apreciar as flores, e a gente agora lembra-se dele porque era um velho sem deixar de ser homem, sem deixar de apreciar as coisas que fazem a vida de um homem, a valentia, isso era como as flores para os cães velhos, os cães velhos dos campos, quando pressentem que estão à morte, procuram as terras onde há flores, ele sabe que vai morrer mas procura o sítio ideal para morrer..."

- "Mas não te preocupes, James, tu já não vais para novo mas ainda não és um cão velho..." - disse o J.C talvez para não me desassossegar mas que fiquei a matutar naquilo lá isso fiquei...

James
(Cão de Valmedo)

sexta-feira, 3 de julho de 2026

 

OBRAS DE ARTE NATURAL - I


Tenho para mim certo que a humanidade não detém nem a exclusividade do génio criativo nem da percepção da beleza, antes pelo contrário muitas e curiosas formas de expressão podem ser encontradas nas paisagens e nos mundos animal e vegetal, senão vejamos, quem, mesmo de entre os mais distraídos, ao deambular por este fantástico mundo-cão nunca se cruzou com obras de arte esculpidas pela natureza sem qualquer intervenção humana?  


"Formosa e não segura" - Jean-Charles Forgeronne

De facto, tanto fenómenos biológicos como fenómenos naturais como o vento, a chuva, a erosão, o clima e até a própria passagem do tempo podem criar por vezes autênticas pinturas e esculturas como é o caso deste primeiro exemplo que apresento: um plátano artista e habitante do Jardim da Nossa Senhora dos Anjos com que me cruzei há pouco, ali à beira de um Ankylosaurus, ou não fosse a Lourinhã a capital dos dinossauros... Pois então não é que o plátano, ao descascar-se, criou a silhueta de uma donzela de rabo de cavalo a passear pelo jardim? Tal qual a Leonor formosa e não segura a caminho da fonte?

  
"Donzela de rabo de cavalo"

Contrapondo com os dinossáuricos milhões de anos esta efémera obra de arte existiria apenas até que alguém distraidamente a pisasse, alheio à sua beleza estética, mas agora, fruto da minha descoberta fortuita está felizmente em segurança no meu museu de Valmedo...  

João Plástico
(Artista de Valmedo)

segunda-feira, 29 de junho de 2026

 
O CÃODUTOR


"Sabes James, ele tinha razão ao ter tocado ao de leve o cláxon, afinal eu distraidamente tinha parado o carro em segunda fila no parque de estacionamento da concorrida superfície comercial e não me tinha apercebido que a viatura à qual tinha bloqueado a saída se preparava para sair... Até levantei a palma da mão aberta em sinal de tréguas e até cheguei a berrar pela janela aberta um pedido de desculpas mas apenas recebi de troco um breve latido, o suficiente no entanto para perceber que o cãodutor deveria ser um canino de bem..."
Vejam bem, amigos caninos, esta foi a conversa com que o J.C me chegou à bocado, até aí nada de extraordinário, o pior é que agora plantou na cabeça que me há-de dar aulas de condução naquelas máquinas enormes e barulhentas que as pessoas idolatram e usam para se deslocar para qualquer sítio e a qualquer hora e tudo com o intuito de fazer de mim um cãodutor, à semelhança de outros que parece ir havendo por aí...


"Talvez possas ser muito útil quando alguém da família não puder conduzir por qualquer razão!" - diz ele com um ar tão convicto que me dá a certeza de que desta ideia maluca não terei escapatória... E como que para atestar a necessidade insofismável do seu projecto mostra-me a fotografia do cãodutor com que ele se cruzou... E por acaso até tem estilo, não acham amigos caninos?

James
(Cão de Valmedo)

segunda-feira, 15 de junho de 2026

domingo, 14 de junho de 2026

 
A MUJA, A MOLHA E A ARTE

"Poça das Mujas" - Jean-Charles Forgeronne
"Será que sou só eu que tenho esta incómoda sensação de estar num planeta estranho?" - digo em surdina para mim próprio enquanto olho para uma tranquila N. sentada à minha frente e alegremente entretida com o seu repasto, olho disfarçadamente para a mesa do canto e vejo um casal de meia-idade com o ar mais normal deste mundo, analiso a simpática empregada e não lhe consigo apontar nenhuma incongruência, admito então que talvez ela não seja um monstro alienígena encarnado numa aparência humanoide como há instantes equacionei e todos estavam a agir tão normalmente que por um segundo, mas apenas por um segundo, me coloquei a hipótese de ser eu que estava em processo de enlouquecimento galopante... 
"Este pedaço de mundo-cão a que chamam Pico hoje parece o planeta dos enigmas", pensei, o dia tinha começado sob o signo dos mistérios, tínhamos entrado por Calheta de Nesquim adentro e a razão daquela estranha toponímia tinha-a descoberto por sorte na busca matinal obrigatória ao meu blogue preferido, "Planandonomundocão"...

"Molha do Saragaço" - Jean-Charles Forgeronne

Ainda não o disse mas estamos no "Saragaço", simpático restaurante de ótima localização na zona balnear da Poça das Mujas, a uma dúzia de passos da piscina natural e outros tantos do Murricão... Após um delicioso banho tomado na piscina natural viemos até aqui, meio-dia em ponto, os primeiros clientes a chegar, ainda a porta estava fechada mas vendo alguém no interior descaradamente perguntei através duma janela entreaberta qual era o menu do dia, ao que me responderam "Hoje tem molha"! Fiquei impávido mas não sereno, virei-me para a N. e desabafei : "Molha? Que raio é a molha?" 
O dia ia-se tornando cada vez mais estranho, primeiro tinha sido a questão do estranho nome Nesquim, entretanto resolvido, depois vieram as Mujas, "Quem são as mujas?" perguntei-me assim que mergulhei naquelas célebres e cálidas águas, imaginei até serem entidades míticas subaquáticas do tempo da Atlântida, vá lá saber-se, e agora, para compor o ramalhete, surgira outro enigma, a molha... 

"Quebra-cabeças"

Invertendo a natural ordem das coisas solucionou-se primeiro o enigma da molha pois assim que a porta se abriu tomei de assalto o castelo e perguntei: " Vamos lá a vero que é isso da molha?" e ouvi "A molha de carne? É um guisado típico aqui da região..." e o assunto ficou resolvido! A molha é então um prato tradicional dos Açores, típico do Pico e do Faial e consiste num guisado de carne de vaca cozinhado lentamente, como se fazia outrora, com tempo... Bem, a carne desfazia-se ao primeiro toque do garfo e estava saborosíssima de bem temperada com as especiarias da terra, que repasto! Tão delicioso quanto o banho na Poça das Mujas... Mas entretanto, e antes de poder esclarecer a questão das mujas, reparo numa coisa que me baralhou (novamente) os neurónios: algo não batia bem com os dois quadros expostos na parede por cima do buffet e por mais que tentasse entendê-los mais baralhado ia ficando... 
"Nº 3 1967"
Um dos quadros, o mais à esquerda, não tinha cor, parecia estar escondido por detrás do nevoeiro  tão típico dos Açores, mas seria mesmo assim? Tão abstracto? Aproveitei para examiná-lo mais de perto quando me fui reabastecer de molha e surpreendi-me ao verificar que era a reprodução de uma obra de Mark Rothko, considerado o maior representante do Expressionismo abstracto norte-americano e cujas obras se caracterizam pela sobreposição de largas bandas de cores... E de facto, como esclareceu uma breve pesquisa feita após uma dificil espera até que terminássemos a molha, a obra nº3 1967 apresenta cores bem carregadas, nada tendo a ver com aquilo que se vê exposto por cima do buffet... Se a obra original já é bastante abstracta então esta reprodução do Saragaço é abstracta elevada ao quadrado! 

"Autor desconhecido"
Mas o quadro ao lado não era menos intrigante, de autor desconhecido, pelo menos não vislumbrei nenhuma assinatura, parecia-me mais do género impressionista e era também formado por duas bandas de azul, uma mais escura na parte superior e outra mais clara na parte inferior, uns borrões coloridos a meio e por mais que eu olhasse não via a mensagem do artista, se é que a havia, embora percepcionasse uma ideia a pairar no meu juízo não a conseguia agarrar... "Que vês tu naquele quadro da direita?" ainda perguntei mas a N. após um breve olhar respondeu: "Nada. E tu?". "Tal qual!", respondi desanimado e foi já quando nos levantávamos para ir embora que numa última olhadela já de esguelha se fez luz, pelo menos para mim: o quadro só podia estar de pernas para o ar! Só me ocorreu uma forma de confirmar a minha hipótese: tirei uma foto ao raio do quadro, invertia-a e lá estava: ao menos agora os borrões podiam ser barcos, o céu passou a ser o mar e vice-versa! Contente com a minha descoberta  sentei-me ao volante e porque tínhamos pela frente a Poça das Mujas ressuscitou o enigma que faltava: o que raio era uma muja? E só arrancamos dali quando ficamos a saber que a muja é um peixe também conhecido como taínha ou fataça... Havia necessidade de complicar tanto? E pronto, lá arrancamos e o dia ainda ia a meio, que mais coisas nos iriam espantar ainda?   

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)