domingo, 15 de março de 2026

 
EFEMÉRIDE # 112

O DIA EM QUE O POVO DISSE NÃO!

Há exactos 50 anos atrás, a 15 de Março de 1976, Portugal era governado pelo VI Governo Provisório o qual, para além do seu objectivo primordial que era assegurar a estabilidade política e social no período entre a crise do 25 de Novembro de 1975 e a entrada em vigor da Constituição da República Portuguesa, a qual viria a ser aprovada dezoitos dias depois, a 2 de Abril, tinha também sobre os seus ombros a incumbência de preparar em segurança as primeiras eleições legislativas e presidenciais marcadas para os meses seguintes, Abril e Junho, respectivamente... 


"Homenagem à coragem" - Jean-Charles Forgeronne

Mas nessa segunda-feira o centro das atenções desviou-se para oeste e caiu repentinamente sobre o Moinho Velho, uma zona de terrenos baldios na freguesia de Ferrel sobranceira à praia da Almagreira, a meio caminho entre o Baleal e a a praia d'El Rey, em Óbidos, e onde estava previsto o início dos trabalhos de construção da primeira (e quiçá última) central nuclear em território lusitano, um projecto do tal governo provisório, talvez inspirado pela política energética do leste europeu, (Chernobyl ainda era na altura um tranquilo sucesso, só explodiria 10 anos depois), o povo de Ferrel, animado e reunido pelo toque a rebate do sino da igreja e armado de enxadas e forquilhas marchou pelos caminhos de terra batida para enfrentar o inimigo e a coragem foi tanta que não foi preciso derramar sangue, a turba expulsou os trabalhadores encarregados da obra e ali mesmo finou-se o plano de energia atómica nacional, até hoje...  

"Vista do terraço da Central Atómica" - Jean-Charles Forgeronne

   Hoje ali, à beira da praia e com o Baleal e Peniche no horizonte, nos terrenos que poderiam ser a central atómica cultiva-se o alho-francês, a batata, a batata doce e o repolho, mas, mais importante, crescem flores e ervas e a natureza mantém-se selvagem, não se sabe até quando devido à ameaça dos especuladores imobiliários...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

quinta-feira, 12 de março de 2026

 
A NATURAL LEVEZA DA VIDA

Com a sua partida a vida fica mais pesada, lembro as suas vindas ao "Livros a Oeste" durante anos seguidos, a noite em que participava era obrigatória para mim, bola vermelha na agenda e se fosse necessário lá trocava eu a escala de serviço para poder estar presente porque quaisquer que fossem os outros participantes na conversa sobre livros e sobre a vida ele era garantia de histórias e curiosidades incríveis, o homem, como alguém disse hoje, era um museu ambulante, memórias e mais memórias, conhecimento e experiência, tudo regado com um sentido de humor desarmante que levava a plateia às gargalhadas e um perene sorriso desconcertante, mesmo quando o assunto era demasiado sério...  
Do Mário Zambujal "oficial" sabe-se a sua mestria enquanto jornalista, escritor e, acima de tudo, conversador, um observador peculiar do mundo e da sociedade com um saber estar por vezes desalinhado que o tornou uma figura incontornável da cultura lusitana, especialmente depois da publicação da "Crónica dos Bons Malandros" em 1980, e da qual disse o insuspeito Fernando Namora"Eis um livro ágil, hábil, matreiro, povoado de enleadoras surpresas - uma lufada de despretensão, quer na escrita, quer no recheio."    

Quanto ao Mário Zambujal "pessoal", desse dizem os amigos e quem privou com ele coisas boas, da sua simplicidade e autenticidade, alguém disse que até a cumprimentar era ele mais vagaroso e atencioso (ou não fosse um alentejano de gema e um bom malandro para troca de galhardetes), um homem que prezava o convívio entre as pessoas, a proximidade ao outro, desde a conversa na tasca ao simpósio mais ilustre mas que abominava a pressão do tempo e das redes sociais, essa coisa maléfica que põe as gentes em contacto imediato mas que acaba por as afastar... Falei com ele uma única vez, eu de braço estendido com um livro para autografar e ele, de caneta na mão e com um sorriso enorme como se eu lhe fosse um velho conhecido da sua infância em Moura... Obrigado, Mário, por me avisar que a vida é melhor quando levada com leveza e com um sorriso...

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

domingo, 8 de março de 2026

 
O DERRADEIRO POEMA...

Depois de Saramago partiu o outro Nobel da língua portuguesa... É lógico e expectável esta minha afirmação ser imediatamente rotulada de mentirosa, reduzindo-a a um vómito de uma mente ignorante ou então catalogá-la como mais uma fakenew da modernidade, mas, tentando parabolizar a nefasta ocorrência e argumentando em defesa própria mesmo consciente de que chegado a esta linha já muitos ou quase todos desistiram de continuar a ler, até porque cada vez mais rareiam o tempo e a disponibilidade para a leitura de meia dúzia de palavras, quanto mais de um texto como este que já vai longo, não será verdade que foi atribuído pelo mundo da literatura o prémio Nobel honoris causa da Literatura a António Lobo Antunes? Ele que, ao contrário do José da Azinhaga que se viu reconhecido em vida, foi sendo sempre ao longo de meia vida sistematica e injustamente esquecido pelos ilustres notáveis que decidem a coisa, apesar de meio mundo achar que ele merecia a distinção a todo o ano que passava, é para o ano pensava-se todos os anos... Agora é tarde demais e mesmo assim não importa muito, o próprio António, qual cú-de-judas, devia estar-se a cagar para o prémio...


Mais importante para ele do que o Nobel era o BENFICA, esse amor que os dois, tanto ele como Saramago, embora este menos exuberante no que diz respeito às nuances técnico-tácticas dentro das quatro linhas, nutriam pelo "glorioso" e por tudo aquilo que o mítico clube significa a nível social, político ou cultural, o clube de todos, do povo e dos burgueses, dos miseráveis e dos remediados, mas acima de tudo uma casa universal onde se luta pela liberdade, pela igualdade de direitos e pela esperança, por uma sociedade mais justa e inclusiva, um sítio (ou um spot para os mais modernos se se quiser) onde não há excluídos nem elites, et pluribus unum sempre na luta contra a injustiça social e divina, sempre com um abraço pronto para o próximo... Não foi então essa afinal a essência que os dois grandes mestres da língua portuguesa nos deixaram, ambos denunciadores e acusadores da tremenda ditadura social e económica que desvirtua a humanidade?

E que orgulho enorme sinto eu enquanto lampião (mas um lampião esclarecido, afianço!) ao saber que António Lobo Antunes pediu para que fosse tocado o hino do Benfica na sua última viagem, ele que um dia disse que o sonho dele sempre fôra ser o Águas da literatura... Pois bem, António, nunca nos conhecemos pessoalmente nem lá perto mas aqui digo "MUITO OBRIGADO", pela humanidade e pela sabedoria, e depois também pelo derradeiro poema que quis que dissessem no seu adeus a este podre mundo, o seu poema preferido, julgo, do açoriano Antero de Quental e que a partir de agora e mais pelo poema (que não conhecia antes, admito) do que por si, entrou nos meus "poemas de vida", por isso outra vez obrigado...  E já agora, o meu Nobel 2026 vai para si!

JoãoVírgula
(Leitor de Valmedo)
E porque hoje é o Dia da Mulher...


"Feminae" - Paulo Honorato, Óbidos


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026


 
"O velho e o mar..."
João Plástico
(Artista de Valmedo)

 
AS BANDEIRAS TAMBÉM MORREM



"Além disso, diziam, se as bandeiras estão aí para celebrar o facto de que a morte deixou de matar, então de duas uma, ou as retiramos antes de que com a fartura comecemos a embirrar com os símbolos da pátria, ou vamos levar o resto da vida, isto é, a eternidade, dizemos bem, a eternidade, a mudá-los de cada vez que os apodreça a chuva, que o vento os esfarrape ou o sol lhes coma o colorido." 

in "As intermitências da morte", 2005
José Saramago





"Meia-Pátria"- 2026 - Jean-Charles Forgeronne