domingo, 18 de outubro de 2026

 
APANHADO NA REDE - VIII


Querem ver que um dia destes ainda descobrem que o Rio Almôndega alimenta o Paúl do Hambúrguer e que desagua no Rio Rolo de Carne Picada, o qual, por sua vez, desagua em pleno estuário de Lisboa?



 
TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XLI

VIAJAR NO ELÉTRICO DO MARQUES

Não havendo tragédia no Teatro D. Maria II nem sequer muito drama na manifestação no Rossio contra o caos da habitação, trocados os planos e orfãos de cultura, decidimos sair de cena pela porta dos fundos e afogar as mágoas à mesa do Restaurante Marques, na Travessa do Forno, mesmo por detrás do teatro, a salvo da algazarra e da confusão, sugestão da Leonor e do Tom que já conheciam o antro... 

"O elétrico" - Jean-Charles Forgeronne

É inevitável chegar a pé, lá não chegam os carros, embora noutros tempos já tenha passado por ali o elétrico 15, os carris ainda lá estão no interior do Marques e a paragem é absolutamente obrigatória! O espaço é pequeno e embora quando em dias secos e amenos se instalem umas mesas cá fora em plena rua é sempre aconselhável chegar bem cedo ou fazer reserva ou não tivéssemos nós, nesta visita não programada, ter esperado quase uma hora por mesa, embora fruto também da presença de alguns manifestantes inflamados em pausa reaccionária... 


Casa de comida tradicional e popular portuguesa servida generosamente e à boa maneira antiga, embora houvessem outras opções deliciamo-nos com as boas carnes, por exemplo o Bife à Marques, de molho ímpar, houve quem optasse por bife grelhado e até bitoque ou naco na pedra, tudo a preceito... Quanto a sobremesas o bolo de bolacha fez sucesso... Experiência a repetir em dia menos agitado, o Marques é um segredo bem escondido no coração da capital... 

"Enquanto isso..." - Jean-Charles Forgeronne

João Ratão
(Chef de Valmedo)
 
A TRAGÉDIA DA MALFADADA CULTURA

Desconfio bem que esta tragédia só ocorreu por maliciosa interferência das três feiticeiras pois tudo neste sábado 17 de Outubro estava programado segundo as leis normais do universo para que fosse um dia perfeito, bilhetes comprados com larga antecedência porque desde o início se antevia que os espectáculos iriam esgotar, viagem precoce desde o longínquo Oeste devido aos esperados e propalados constrangimentos previstos para a baixa pombalina por causa das manifestações populares contra o custo de vida e contra o caótico estado do acesso à habitação, senão quando, já chegados a boa Lisboa e apenas a uma hora do início do evento, somos confrontados com a recepção de um mail por parte da organização a informar que a peça MacBeth que iria ter lugar na Sala Garret do Teatro Nacional D. Maria II tinha sido cancelada devido a uma greve convocada pelo CENA-STE, um sindicato dos Trabalhadores de Espetáculos, do Audiovisual e dos Músicos, e para piorar o trágico cenário ainda éramos alertados para o facto de, visto que a carreira da peça estava esgotada até ao seu final a 31 de Outubro, não seria possível trocar os ingressos para outra sessão! E depois mais nos solicitava a missiva a nossa melhor compreensão para o facto...   
Pois não compreendemos, apesar de nos termos esforçado para isso, a tal greve por certo que estava anunciada algum tempo antes, pelo menos assim diz a lei, e apelando à razão e ao respeito pelos espectadores não teria ela nascido por geração espontânea no próprio dia, então porque raio saiu o comunicado apenas em cima do evento, a apenas 1(!) hora do início do espectáculo?! Como diz o outro, também artista: "Isto é gozar com quem trabalha!", ou, pelo menos, com quem fez 200 Kms de viagem ao preço a que estão os combustíveis e com portagens incluídas... E depois ainda dizem que ninguém liga à cultura, que o povo não se interessa, blá, blá, blá... Ou será que a greve, para quem a decretou, quiçá por profecia das feiticeiras, teve impacto mínimo no seu orçamento porque tinham a bilheteira esgotada até ao final da peça? No mínimo é uma malvadez macbethiana! E que belo enredo seria este para a genial pena de Shakespeare...
Mas entretanto, teatro  fechado e de fachada embelezada pelos carros da polícia de intervenção, ali mesmo defronte já decorria a manifestação contra o estado da habitação em Portugal e, meus amigos, diz quem vive o caso na pele, essa tragédia não fica a dever muito ao drama de MacBeth...


"Tragédias no Teatro" - Jean-Charles Forgeronne

João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)

terça-feira, 13 de outubro de 2026

"Fragas de São Simão" - Jean-Charles Forgeronne

 

ESCRITO NA PAREDE - LVI


"Tomar", Convento São Francisco - Foto: Jean-Charles Forgeronne


 TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XL

116 PEIXES DO RIO

A coisa não tinha corrido bem na véspera, até tínhamos sido os primeiros clientes a chegar, meio-dia quase em ponto, não fosse haver haver constrangimentos por não termos reserva e por causa da fama do café e restaurante, o 116, onde o peixe do rio é rei, mas o despiste de um camião ocorrido de madrugada a duas centenas de metros dali, em plena avenida em Carvalhos de Figueiredo, tinha deixado metade da freguesia sem água e outra metade sem luz, ora sem água torna-se difícil cozinhar e nada de peixe frito, a única opção disponível era entrecosto grelhado acompanhado de arroz, batata frita e uma deliciosa e refrescante salada... Apesar do azar e do desgosto de o peixe frito ficar adiado para as calendas tomarenses, porque iríamos partir para outras paragens na manhã seguinte, o almoço valeu a pena... 


Mas as voltas imponderáveis do destino iriam alterar outra vez os nossos planos, a meio da manhã seguinte, depois uma visita ao Aqueduto dos Pegões, arriscámos uma difícil excursão até à Praia Fluvial do Agroal e aí chegados a custo, pasmados, deparámos com o local transformado num estaleiro de obras... Ora, era suposto depois de uns belos e refrescantes banhos seguirmos viagem para norte mas assim, novamente desconsolados e apelando ao meu optimismo incondicional, e com uma pitadinha de vingança à mistura, confesso, ala que se faz tarde, para salvar o dia rumamos novamente ao 116, talvez já tivessem água e peixe frito! E não é que havia as duas coisas?



Havia até lampreia e enguias das quais sou apreciador mas optei por uma mista-do-rio, ou seja, fataça, achigã, lúcio, truta e pimpão, peixe frito no ponto e sequinho, estaladiço como convém e melhorado ainda com um molho vinagrete do qual não desdenharia ter a receita, acompanhado por batata frita e umas migas ribatejanas de se lhes tirar o barrete... Quanto à N., indecisa na escolha por estar mais habituada a peixe de mar, por sugestão do mestre Delfim, alinhou numa dose de lúcio por ser um peixe com sabor menos intenso que os demais, e não se arrependeu...


Falta referir que os vinhos da casa, quer o branco quer o tinto, servidos a jarro como é de bom tom ali pelo Ribatejo, são uma excelente opção, e quanto às sobremesas, bem, meus amigos, quer a mousse de chocolate quer o pudim da casa são... divinais! Bom apetite para quando passarem pelo 116...

João Ratão
(Chef de Valmedo)

quarta-feira, 7 de outubro de 2026