O REINO ENCANTADO DO CALHAU
Em plena floresta de Monsanto, ao virar do caminho e deixado o real aqueduto para trás dei por mim desavisado noutro reino e tudo começou ao cruzar-me repentinamente com um estranho caçador de troféu às costas e que nem sequer reparou em mim, mas depois e aliviado por ter evitado um choque imediato de terceiro grau começo a desconfiar que algo não bate certo, paro, escuto e olho em volta com todos os sentidos em alerta e reparo então que fui atraído para outra dimensão porque, quais duendes, gnomos ou fadas, inúmeras figuras de madeira esculpidas com paixão e imaginação, muitas delas camufladas por entre a vegetação, transportam-me para outra dimensão, um mundo encantado de fantasia e poesia...
Tanto podem ser de Fernando Pessoa ou de Carlos Drummond de Andrade, de António Nobre ou do Jorge Palma, descubro sábias palavras espalhadas pelo bosque que elucidam emoções e que desafiam o entendimento da vida, que alegram a existência feita de momentos como este, centelhas de paz e harmonia que nos fazem o dia feliz, que nos fazem sorrir, e que melhor há para retribuir à natureza do que um sorriso? E ali ao fundo, debaixo de uma tranquila sombra, imagino eu que só pode ser o Palma a cantar o "Bairro do Amor" para encanto de uma ninfa da floresta...

E depois, ao contrário do Nobre que se viu só e abandonado, primeiro sinto e depois constato que estou a ser observado, por entre os troncos das árvores descortino uma mulher que me observa, tem cabelos brancos e por isso sabedoria, tem também um olhar acutilante, sinal de autoridade, só pode ser ela, penso, por isso pergunto: - Bom dia, quem fez isto? - e ouço uma resposta que não destoa: - Eu e o meu marido... Fico a saber que ela é a Isabel, que o marido é o Manel, e que ambos fazem aquela arte por passatempo reciclando madeira dali de Monsanto, autorizados pela Câmara, claro, não têm atelier nem vendem nada, apenas umas ocasionais exposições de presépios lá em cima no Centro de Interpretação... E já que pelos vistos imaginação e vontade de criar não lhes faltará só me restou desejar-lhes longa vida e saúde para continuarem a obra fazendo jus ao que diz o Palma ali num canto.: "Enquanto houver estrada para andar... a gente vai continuar."

E seguindo adiante passo por um casal de atletas fazendo alongamentos e isso faz-me sentir pesada a consciência por não estar também a fazer exercício, porque raio não trouxe o equipamento, da próxima virei a preceito, hoje também não era boa ideia porque não teria tempo para desfrutar com a tranquilidade e atenção necessárias deste jardim encantado... Envolto nestes pensamentos devolvo a saudação de um velhote sorridente que passeia um cão irrequieto e entretanto já um curioso insecto além pousado me chama a atenção, pôs-se mesmo a jeito para um retrato...
João Plástico
(Artista de Valmedo)