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| "Os peixes do Aristóteles" - Jean-Charles Forgeronne |
Planando no Mundo Cão
terça-feira, 28 de julho de 2026
sábado, 25 de julho de 2026
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXV
O OURIÇO, O FILÓSOFO E A LANTERNA
O ouriço-do-mar é um equinoderme, isto é, um invertebrado cuja pele tem espinhos venenosos que lhe conferem não só protecção mas também a capacidade de locomoção. É uma criatura exclusivamente marinha que pode ser encontrada por todo o mundo-cão, agarrado às rochas ou em poças nas zonas entre-marés ou então em liberdade nos oceanos e até 5000 metros de profundidade! O ouriço não possui olhos mas tem o corpo coberto de células fotossensíveis que ao detectarem luminosidade o leva a proteger-se cobrindo-se de conchas, seixos e algas... Junto à boca, na face inferior do corpo, possui uma estrutura de cinco dentes que formam um bico e com os quais raspa as rochas para se alimentar de algas e outros invertebrados; esses dentes, que também servem para escavar abrigos nas rochas, estão ligados a um complexo sistema de ossículos e músculos chamado a "Lanterna de Aristóteles"!?
Dele disse Dante na sua "Divina Comédia" ser o "Mestre dos que sabem", e de facto Aristóteles, juntamente com o seu mestre Platão, esteve na origem de toda uma corrente de pensamento que propulsionou e influenciou a filosofia por todos os séculos seguintes, ou seja, fazendo jus à sua "teoria das causas", com o seu conhecimento causou a filosofia moderna... Mas Aristóteles não era apenas um filósofo, era um sábio de vários saberes, da filosofia à retórica, da lógica à política, da psicologia à poesia, da ética à biologia... Sim, à Biologia! Num dos seus exílios pelas margens do mar Egeu, ainda muito jovem, apaixonado pela natureza e pelo mar, inicia a investigação dos animais, especialmente os marinhos, e onde, ensinado pelo pai, médico, fez as primeiras dissecações...
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| "Aristóteles" - Códice medieval |
A designação "Lanterna de Aristóteles" surgiu no livro "Historia Animalium" que o filósofo escreveu no século IV a.C. e onde ao dissecar o ouriço-do-mar comparou essa estrutura do animal com as lanternas que então iluminavam Atenas e a Grécia antiga e que também tinham forma pentagonal... Muitos séculos depois, os modernos biólogos adoptaram o termo para denominar essa famosa estrutura dos ouriços-do-mar, os quais, já agora, apesar da sua carapaça de espinhos venenosos, são um petisco apreciado por estrelas-do-mar, sapateiras e até alguns peixes, como o sargo...
João Abelhudo
(Pesquisador de Valmedo)
quinta-feira, 23 de julho de 2026
PEIXE MORTO, CIÊNCIA VIVA
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| "Laboratório na praia" |
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| "Praia do Porto da Areia Norte" |
Apesar da sua aparente tranquilidade, esta é uma praia arenosa que na maré vaza exibe uma plataforma horizontal rochosa que cria várias poças onde um mundo fabuloso de estranhas e minúsculas criaturas se revela na luta feroz pela sobrevivência, muitas delas sésseis, isto é, que vivem fixas às rochas... Com alguma sorte é possível observar muitas espécies, para além de uma grande variedade de algas e com predominância das verdes que muitas vezes chegam a sufocar a praia, mostram-se ouriços, estrelas e lesmas, todos ostentando o apelido "do mar", cracas, lapas, percebes, mexilhões, camarões minúsculos, burriés, caranguejos, ínfimos chocos, polvos imberbes, pequenos peixes como um caboz de apenas 12cm de comprimento, o peixe-sugador ou até uma solha transparente, de tudo se pode encontrar...
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| "Maravilhoso Mundo-Cão minúsculo"- Jean-Charles Forgeronne |
Mas estava-me destinado, e o destino tem muita força até na biologia marinha, calhou-me em sorte reparar num pequeno peixe inerte numa poça, aproximei-me de balde e camaroeiro para a captura mas não houve resposta, notei então que a criatura estava cadáver, talvez tivesse sido ferida num ataque predatório ou tenha sofrido um despiste contra uma rocha porque a sua barbatana caudal estava desfigurada... Viro-me então para o Paulo e pergunto: "Coitado, que peixe é este?". "Parece-me um peixe-aranha, vamos ali observar melhor" - respondeu-me ele enquanto nos dirigíamos para os microscópios...
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| "O meu peixe-aranha" - Jean-Charles Forgeronne |
E de facto era um peixe-aranha, essa criatura mítica e assustadora, para aí com uns míseros 15 cm de comprimento, e tal ficou comprovado depois de, utilizando uma pinça, se terem posto em evidência os seus espinhos dorsais e o seu dente superior com os quais envenena a vítima ejectando o seu veneno ao ser pisado enquanto escondido sob a areia e apenas com os olhinhos de fora... E acreditam que foi o primeiro peixe-aranha que conheci pessoalmente em toda a minha vida, por sorte morto?...
João Abelhudo
(Pesquisador de Valmedo)
segunda-feira, 20 de julho de 2026
UMA VOLTINHA POR... - IX
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| "Torre dos Relógios"-Jean-Charles Forgeronne |
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| "Templo-Museu" - Jean-Charles Forgeronne |
Normalmente fechada ao público, para frustração de muitos que por ali passam, aproveitando a sorte de o nosso passeio coincidir com um dos escassos períodos de abertura em horário turístico de verão entrámos e a primeira coisa que fazemos por impulso é levantar os olhos para o alto, não para vislumbrar os deuses lá no céu mas para, embasbacados, contemplar o fabuloso tecto em madeira, constituído por 55 caixotões e cada um contendo uma pintura a óleo representando cenas da vida de Cristo e do Novo Testamento...
A juntar a estas pinturas, o tecto sob o coro apresenta ainda seis enormes telas, o que perfaz 61(!) pinturas, cinco delas da autoria da famosa Josefa de Óbidos... E não se olhe apenas para o alto, repare-se nas paredes integralmente revestidas a belos azulejos seiscentistas! Quem não conhece e passa lá fora a caminho de uma esplanada na praça ali ao lado não imagina tamanho tesouro aqui escondido...
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| "Andar às voltas em Peniche" - Jean-Charles Forgeronne |
E à saída, quiçá depois de um gelado na praça contígua ou a caminho de um mergulho numa das muitas praias à volta de Peniche, ainda a sorte nos pode sorrir se encontrarmos a roda gigante a dar voltas e mais voltas...
João Palmilha
(Viajante de Valmedo)
domingo, 5 de julho de 2026
O CLUBE DE LEITURA CANINA - II
Ainda não o consigo descortinar mas pressinto que o J.C vem lá e os meus sentidos não me enganaram, aí está ele saindo da porta da cozinha em direcção ao canto à sombra onde estou refastelado há já algum tempo para me proteger deste anormal calor tórrido que se faz sentir aqui por Verde-Erva-Sobre-o-Mar e ao reparar que traz um livro na mão sei o que se vai seguir, uma sessão de leitura canina... Pensava eu, amigos caninos, que essa coisa já tinha passado à história pois muitas luas tinham passado desde aquela primeira longa e exigente experiência, embora engraçada, admito, mas já estou acostumado a que vários projectos do J.C sejam ou efémeros ou esquecidos, por exemplo aquela promessa adiada de um dia pegar em mim e ir mostrar-me a mítica cidade de Lisboa...
-Pois bem, James - disse ele autoritariamente - voltamos às nossas leituras, aposto que já tinhas saudades, certo? - e eu, para não arranjar sarilhos antes de mais, é verdade, mas também por gostar das leituras, ainda que impostas, respondi com o olhar e com as orelhas que sim...
- Ora, hoje vamos ler um trecho de um livro de Baptista Bastos e que penso que vais gostar... Antes de mais é importante saberes que o autor, já falecido, foi jornalista e escritor e ficou famoso com uma pergunta que fazia a todos os seus entrevistados num programa que tinha na televisão: "Onde é que tu estavas no 25 de Abril?"...
- O que é isso do 25 de Abril? - perguntei de cenho franzido.
- Isso fica para outra altura, o Baptista Bastos e o 25 de Abril, vamos agora ao que interessa, o livro fala sobre as aventuras de um menino nascido na Ajuda, um bairro de Lisboa, aliás como o escritor, e que após uma série de tragédias familiares, especialmente a morte do avô, seu grande amigo e confidente, decide aventurar-se à descoberta da grande cidade lá em baixo, e ouve só esta passagem do romance:
"...o nosso avô era um cão velho entre flores, e morreu assim, como um cão velho a apreciar as flores, e a gente agora lembra-se dele porque era um velho sem deixar de ser homem, sem deixar de apreciar as coisas que fazem a vida de um homem, a valentia, isso era como as flores para os cães velhos, os cães velhos dos campos, quando pressentem que estão à morte, procuram as terras onde há flores, ele sabe que vai morrer mas procura o sítio ideal para morrer..."
James
(Cão de Valmedo)
sexta-feira, 3 de julho de 2026
OBRAS DE ARTE NATURAL - I
Tenho para mim certo que a humanidade não detém nem a exclusividade do génio criativo nem da percepção da beleza, antes pelo contrário muitas e curiosas formas de expressão podem ser encontradas nas paisagens e nos mundos animal e vegetal, senão vejamos, quem, mesmo de entre os mais distraídos, ao deambular por este fantástico mundo-cão nunca se cruzou com obras de arte esculpidas pela natureza sem qualquer intervenção humana?
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| "Formosa e não segura" - Jean-Charles Forgeronne |
De facto, tanto fenómenos biológicos como fenómenos naturais como o vento, a chuva, a erosão, o clima e até a própria passagem do tempo podem criar por vezes autênticas pinturas e esculturas como é o caso deste primeiro exemplo que apresento: um plátano artista e habitante do Jardim da Nossa Senhora dos Anjos com que me cruzei há pouco, ali à beira de um Ankylosaurus, ou não fosse a Lourinhã a capital dos dinossauros... Pois então não é que o plátano, ao descascar-se, criou a silhueta de uma donzela de rabo de cavalo a passear pelo jardim? Tal qual a Leonor formosa e não segura a caminho da fonte?
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| "Donzela de rabo de cavalo" |
Contrapondo com os dinossáuricos milhões de anos esta efémera obra de arte existiria apenas até que alguém distraidamente a pisasse, alheio à sua beleza estética, mas agora, fruto da minha descoberta fortuita está felizmente em segurança no meu museu de Valmedo...
João Plástico
(Artista de Valmedo)
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