segunda-feira, 3 de agosto de 2026

 

A MISTERIOSA ORIGEM DAS PALAVRAS - XXV 

A TRAGÉDIA DE ÉSQUILO E DO ESQUILO


Foto: Milvoz
Esquilo e Ésquilo estão separados por muito mais do que um mero acento agudo, o primeiro nome designa um pequeno e elegante roedor de longa cauda e que se encontra espalhado por florestas de quase todo o mundo-cão enquanto o segundo se refere ao pai da tragédia grega... Comecemos por esquilo, nome que deriva da palavra grega skíouros e que por sua vez é uma junção de duas outras palavras, skía, que significa sombra, e ourá que significa cauda; ou seja, skíouros literalmente designa "rabo que faz sombra" e isso faz todo o sentido se reparamos na forma como o esquilo se senta...  

Quanto ao nome Ésquilo ele tem origem no grego aiskhúlos, por sua vez um diminutivo de aiskhos e que significa "vergonha"; assim, o grande dramaturgo era conhecido como o tímido, o envergonhadito... Mas para além do nome muito parecido há uma outra coisa que aproxima o poeta e o mamífero, a tragédia: no caso do primeiro, a quem foram atribuídas mais de sessenta obras, apenas sete (!) se conservaram, quanto ao segundo, especialistas colocam-no na lista de espécies em extinção a curto prazo, o que aliás não seria novidade pois o "Sciurus vulgaris", o esquilo vermelho que vemos por aí, já esteve extinto em Portugal desde o século XVI até cerca de 1990 devido ao corte de árvores e perda de florestas...  

João Portugal
(Linguísta de Valmedo)

 

"Natureza aristotélica" - Jean-Charles Forgeronne

 
OBRAS DE ARTE NATURAL - II

A ARTE DO ESQUILO ARISTÓTELES

Ali, no antigamente designado Pinhal da Câmara e que hoje na sua parte sul alberga o Dino  Parque da Lourinhã, vive há meia dúzia de anos por entre dinossauros e criaturas ancestrais um esquilo já velhote chamado Aristóteles mais a sua segunda companheira de vida, a esquila  Herpília... O esquilo Aristóteles, permitam-me apresentá-lo, é um artista que dá asas à sua criatividade sempre que encontra o seu alimento preferido, qualquer pinha que encontre e onde finque os dentes se transforma numa obra de arte através de uma complexa urdidura de figurada filigrana...


"Obra em evolução" - Jean-Charles Forgeronne

É sabido que o esquilo vermelho que habita os nossos bosques é omnívoro, alimenta-se do que a natureza lhe proporciona conforme as estações mas nutre uma especial preferência por pinhas e pinhões de pinheiro bravo, depois também gosta de avelãs, bolotas e outras sementes, não recusando em época de pouca abundância uns cogumelos, mesmo os venenosos para outras espécies, bagas, flores, rebentos  e até insectos se outra coisa não houver... Mas a pinha é o que o faz feliz, e tanto assim é que a trata com carinho e apurada arte, como é o caso do nosso tímido amigo Aristóteles que dando azo à criatividade usa os seus dentes como incansáveis cinzéis e a obra, quando finalizada, é verdadeiramente digna de um exímio escultor... 

"Obra acabada" - Jean-Charles Forgeronne

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

terça-feira, 28 de julho de 2026

sábado, 25 de julho de 2026

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXV

O OURIÇO, O FILÓSOFO E A LANTERNA

O ouriço-do-mar é um equinoderme, isto é, um invertebrado cuja pele tem espinhos venenosos que lhe conferem não só protecção mas também a capacidade de locomoção. É uma criatura exclusivamente marinha que pode ser encontrada por todo o mundo-cão, agarrado às rochas ou em poças nas zonas entre-marés ou então em liberdade nos oceanos e até 5000 metros de profundidade! O ouriço não possui olhos mas tem o corpo coberto de células fotossensíveis que ao detectarem luminosidade o leva a proteger-se cobrindo-se de conchas, seixos e algas... Junto à boca, na face inferior do corpo, possui  uma estrutura de cinco dentes que formam um bico e com os quais raspa as rochas para se alimentar de algas e outros invertebrados; esses dentes, que também servem para escavar abrigos nas rochas, estão ligados a um complexo sistema de ossículos e músculos chamado a "Lanterna de Aristóteles"!?

"Ouriço-do-Mar", Praia do Porto da Areia Norte - Jean-Charles Forgeronne

Dele disse Dante na sua "Divina Comédia" ser o "Mestre dos que sabem", e de facto Aristóteles, juntamente com o seu mestre Platão, esteve na origem de toda uma corrente de pensamento que propulsionou e influenciou a filosofia por todos os séculos seguintes, ou seja, fazendo jus à sua "teoria das causas", com o seu conhecimento causou a filosofia moderna... Mas Aristóteles não era apenas um filósofo, era um sábio de vários saberes, da filosofia à retórica, da lógica à política, da psicologia à poesia, da ética à biologia... Sim, à Biologia!  Num dos seus exílios pelas margens do mar Egeu, ainda muito jovem, apaixonado pela natureza e pelo mar, inicia a investigação dos animais, especialmente os marinhos, e onde, ensinado pelo pai, médico, fez as primeiras dissecações... 

"Aristóteles" - Códice medieval

A designação "Lanterna de Aristóteles" surgiu no livro "Historia Animalium" que o filósofo escreveu no século IV a.C. e onde ao dissecar o ouriço-do-mar comparou essa estrutura do animal com as lanternas que então iluminavam Atenas e a Grécia antiga e que também tinham forma pentagonal... Muitos séculos depois, os modernos biólogos adoptaram o termo para denominar essa famosa estrutura dos ouriços-do-mar, os quais, já agora, apesar da sua carapaça de espinhos venenosos, são um petisco apreciado  por estrelas-do-mar, sapateiras e até alguns peixes, como o sargo...

João Abelhudo
(Pesquisador de Valmedo)

quinta-feira, 23 de julho de 2026


 PEIXE MORTO, CIÊNCIA VIVA

"Laboratório na praia"

Ao chegar-se à Praia do Porto da Areia Norte não fica mal um minuto de silêncio e reflexão, afinal foram aqui que foram enterrados, em valas comuns, os cerca de 400 náufragos do navio de guerra espanhol San Pedro de Alcantara, carregado de tesouros e vindo do Peru com destino a Cádiz, afundado ali à frente junto aos rochedos da Papoa a 2 de Fevereiro de 1786, naquele que constitui um dos acontecimentos mais marcantes da história trágico-marítima de Peniche e de Portugal... Mas hoje viemos aqui por outro motivo: viver a ciência! E lá ao fundo, iluminada por um azul celeste imaculado, já vejo montada uma banca com microscópios, é que, inserida no projecto Ciência Viva de Verão está prestes a começar uma actividade intitulada "A Vida na Maré Baixa" e que permitirá conhecer muitos e diversos organismos que ocorrem na zona entre marés e com observação detalhada da sua morfologia com o auxílio de lupas binoculares, tudo sob a orientação de biólogos e professores da Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar...  
"Praia do Porto da Areia Norte"
Apesar da sua aparente tranquilidade, esta é uma praia arenosa que na maré vaza exibe uma plataforma horizontal rochosa que cria várias poças onde um mundo fabuloso de estranhas e minúsculas criaturas se revela na luta feroz pela sobrevivência, muitas delas sésseis, isto é, que vivem fixas às rochas... Com alguma sorte é possível observar muitas espécies, para além de uma grande variedade de algas e com predominância das verdes que muitas vezes chegam a sufocar a praia, mostram-se ouriços, estrelas e lesmas, todos ostentando o apelido "do mar", cracas, lapas, percebes, mexilhões, camarões minúsculos, burriés, caranguejos, ínfimos chocos, polvos imberbes, pequenos peixes como um caboz de apenas 12cm de comprimento, o peixe-sugador ou até uma solha transparente, de tudo se pode encontrar...  

"Maravilhoso Mundo-Cão minúsculo"- Jean-Charles Forgeronne

Mas estava-me destinado, e o destino tem muita força até na biologia marinha, calhou-me em sorte reparar num pequeno peixe inerte numa poça, aproximei-me de balde e camaroeiro para a captura mas não houve resposta, notei então que a criatura estava cadáver, talvez tivesse sido ferida num ataque predatório ou tenha sofrido um despiste contra uma rocha porque a sua barbatana caudal estava desfigurada... Viro-me então para o Paulo e pergunto: "Coitado, que peixe é este?". "Parece-me um peixe-aranha, vamos ali observar melhor" - respondeu-me ele enquanto nos dirigíamos para os microscópios...

"O meu peixe-aranha" - Jean-Charles Forgeronne

E de facto era um peixe-aranha, essa criatura mítica e assustadora, para aí com uns míseros 15 cm de comprimento, e tal ficou comprovado depois de, utilizando uma pinça, se terem posto em evidência os seus espinhos dorsais e o seu dente superior com os quais envenena a vítima ejectando o seu veneno ao ser pisado enquanto escondido sob a areia e apenas com os olhinhos de fora... E acreditam que foi o primeiro peixe-aranha que conheci pessoalmente em toda a minha vida, por sorte morto?... 

João Abelhudo
(Pesquisador de Valmedo)

segunda-feira, 20 de julho de 2026

 
UMA VOLTINHA POR... - IX


"Torre dos Relógios"-Jean-Charles Forgeronne
...Peniche... A primeira boa sensação que nos assalta quando chegamos ao centro de Peniche é o estacionamento fácil e gratuito no grande parque junto à Capitania, depois é só atravessar a ponte e descobrir ruelas e travessas e largos impregnados de histórias e de cheiro a mar... Atravessemos então o Largo do Município e enfiemos pela Rua Tenente Valadim adentro e logo após uma meia-dúzia de passadas já é possível vislumbrar lá ao fundo a chamada Torre do Relógio, propriedade municipal e construída em 1697 com o intuito de ostentar ao público passante o primeiro relógio mecânico do concelho... Com mais propósito deveria chamar-se "Torre dos Relógios" já que apresenta dois relógios, um na parede virada a sul e outro no lado poente, por sinal os dois em pleno funcionamento e bem certinhos... Mas o Santo Graal desta nossa demanda é o edifício situado entre a torre e o antigo hospital, a Igreja da Santa Casa da Misericórdia de Peniche, um templo aparentemente singelo visto por fora mas que surpreende e deslumbra com o seu interior absolutamente extraordinário...

"Templo-Museu" - Jean-Charles Forgeronne

Normalmente fechada ao público, para frustração de muitos que por ali passam, aproveitando a sorte de o nosso passeio coincidir com um dos escassos períodos de abertura em horário turístico de verão entrámos e a primeira coisa que fazemos por impulso é levantar os olhos para o alto, não para vislumbrar os deuses lá no céu mas para, embasbacados, contemplar o fabuloso tecto em madeira, constituído por 55 caixotões e cada um contendo uma pintura a óleo representando cenas da vida de Cristo e do Novo Testamento... 


A juntar a estas pinturas, o tecto sob o coro apresenta ainda seis enormes telas, o que perfaz 61(!) pinturas, cinco delas da autoria da famosa Josefa de Óbidos... E não se olhe apenas para o alto, repare-se nas paredes integralmente revestidas a belos azulejos seiscentistas! Quem não conhece e passa lá fora a caminho de uma esplanada na praça ali ao lado não imagina tamanho tesouro aqui escondido...

"Andar às voltas em Peniche" - Jean-Charles Forgeronne

E à saída, quiçá depois de um gelado na praça contígua ou a caminho de um mergulho numa das muitas praias à volta de Peniche, ainda a sorte nos pode sorrir se encontrarmos a roda gigante a dar voltas e mais voltas...

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)