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| "Caldeira", Corvo - Jean-Charles Forgeronne |
Planando no Mundo Cão
sábado, 30 de maio de 2026
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXIV
APRISIONADOS NA ILHA NEGRA
Não fosse a fajã lávica na zona sul da ilha e o Corvo seria inacessível, não passaria, nas palavras do escritor-viajante, de um "grande rochedo a pique" cuspido das profundezas do oceano... As costas norte e oeste são demasiado íngremes e ventosas, não permitindo a fixação de gente nem a prática da agricultura, já a costa leste permite semear qualquer coisita mas não tem acesso ao mar, daí ter sido na costa sul que se estabeleceram os primeiros colonizadores, concentrados numa única povoação...
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| "Chegada ao Corvo" - Jean-CharlesForgeronne |
Ainda hoje, passados séculos após a colonização da ilha negra, continua a existir apenas uma localidade em toda a ilha, Vila do Corvo, desde sempre aninhada sobre a falésia que se encosta à baía do Porto da Casa... Uma ilha, uma terra... Hoje, como outrora, Vila do Corvo continua a abrigar todos os habitantes da ilha, cerca de 400, e isso só é possível devido à sua grande densidade habitacional assente num emaranhado de pequenas ruelas, estrutura que foi determinada, desde o início, por duas necessidades prementes dos corvinos: a busca de abrigo para os ventos inclementes e uma fácil entreajuda e protecção contra os ataques dos corsários!
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| "A vila" - Jean-Charles Forgeronne |
Desde o povoamento da ilha os corvinos viviam em reclusão,como se fossem condenados em cela solitária, praticamente sem contactos com o exterior; segundo relatos de 1580 não existia qualquer embarcação na ilha para evitar a fuga dos escravos que faziam parte do contingente de colonizadores, os barcos mais próximos estavam nas Flores e quando havia alguma necessidade eram a eles que se pedia socorro acendendo fogueiras nas pontas da ilha... Curiosamente, também não existiam cães, gatos, coelhos, ratos ou furões! Os cães não eram permitidos para protecção das ovelhas, os gatos eram proibidos porque não haviam ratos e para evitar que assim comessem pássaros, os coelhos eram indesejados para evitar a caça e assim proteger outras fontes de sustento, os ratos eram considerados uma ameaça porque não haviam gatos e além disso porque eram fonte de pestes, aliás eram na altura uma praga nas Flores, e furões também não poderia haver para protecção dos galináceos... Por exemplo, todas as embarcações que aportavam à ilha, mesmo aquelas oriundas das Flores e que demandavam a ilha em missão de socorro eram fiscalizadas por alguém que tinha as funções de "visitador dos ratos"...
João Palmilha
(Viajante de Valmedo)
quinta-feira, 28 de maio de 2026
A ILHA DOS 2 BORDALOS
Chego ao Corvo e sinto-me como se tivesse chegado ao fim do mundo, ao fim e ao cabo esta é a derradeira ilha e tanto assim é que é a mais difícil de alcançar, geralmente é a última do arquipélago a ser explorada e nem todos conseguem aqui chegar pois é preciso haver uma conjuntura meteorológica favorável e nem sempre se tem essa sorte, aqui acabam os Açores, depois dela apenas a imensidão do oceano...
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| "Cagarro", Bordalo II - Foto: Jean-Charles Forgeronne |
Mas apesar de ser a mais pequena ilha dos Açores e de apenas ter uma localidade, Vila do Corvo, o Corvo tem muito para descobrir e o visitante pode ser surpreendido a cada curva do caminho, basta, por exemplo, dar de caras com 2 obras de Bordalo II feitas a partir de lixo marinho: o cagarro, na vila, e o mero, na Praia da Areia, já em plena Reserva da Biosfera da ilha... E vale muito a pena procurá-los!
(Artista de Valmedo)
sábado, 16 de maio de 2026
ORA BOLAS! MALDITO FUTEBOL...
Tinha sublinhado no programa e até escrito na agenda a data e a hora do evento que não queria perder por nada (ou quase nada) deste mundo: o João Gobern voltava aos Livros a Oeste, depois de anteriores passagens dele por aqui em que não pude estar presente! Seria a minha merecida desforra, teria a oportunidade de lhe agradecer pessoalmente tantas e boas sugestões musicais e literárias que foi dando ao longo de décadas em programas de rádio ou em jornais e claro, já tirei da estante o seu último livro que serve de mote a esta sua visita, "Tira o Disco e Toca ao Vivo", uma interessantíssima, necessária e oportuna abordagem sobre a indústria musical na Lusitânia desde os anos 80 do século passado até aos dias de hoje... E um pormenor delicioso que me agrada de sobremaneira neste ensaio é o facto de que cada capítulo ter tomado o título de uma canção emblemática da considerada música moderna portuguesa no período de tempo em análise, seja, por exemplos, "A vida num só dia", dos Rádio Macau, 1985, ou "Amor digital", de Jorge Palma, 2023...
E com alguma dificuldade também trouxe à luz do dia o CD de Thomas Dybdahl, "One day you'll dance for me, New York", com a fabulosa homónima canção que numa manhã ancestral e de sorte calhou eu ouvir o João sugerir num programa de rádio, penso que num saudoso "Hotel Babilónia", e o meu mundo foi diferente para melhor desde então, uma das canções a eleger para a minha colectânea de vida... Só por isso, mas também por muito mais, obrigado, Gobern! Mas eis senão quando na hora da verdade o Gobern aparece apenas em vídeo, a porcaria do futebol obrigou-o a ficar retido para comentários naqueles painéis de especialistas da bola para os quais já não há ponta de pachorra... Compromissos são compromissos, de acordo, mas logo haveria o último jogo do glorioso ser marcado para este mesmo dia? E ainda por cima com diminutas possibilidades de êxito? Imperdoável, Gobern! E o tão ansiado autógrafo? Vais ter que pagar com juros quando voltares aos Livros a Oeste... Cá te espero...
João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)
sexta-feira, 15 de maio de 2026
O POETA DO JARDIM...
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| "Livros a Oeste" |
O poeta do jardim
não é flor que se cheire
mas dá bom perfume a mim
e amor a quem se abeire...
O poeta do jardim
é uma voz que dá flor
e ecoa ao som do clarim
soprando prosas de amor...
O poeta do jardim
traz ao jardim mais beleza
e o poema não tem fim
se a língua é portuguesa...
O poeta é uma flor secreta
que enche o jardim de cor
porque um jardim sem poeta
é como um jardim sem flor...
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| "Caixa-falante" - Jean-Charles Forgeronne |
E depois, continuando ao longo do parque descubro, ou antes, sou atraído pelo "Psssst! Psssst!" de mais oito caixas idênticas, cada uma em sua árvore e cada qual com o seu poema... Mais tarde descobrirei que tudo faz parte de uma instalação chamada "O poeta no Jardim", inserida no programa dos Livros a Oeste 2026 e cujo autor é David Santos, aka Noiserv, um habitué daquele festival literário... Já em 2024, no Festival que comemorava os 50 anos do 25 de Abril, o artista tinha apresentado outra desconcertante instalação chamada "Três luzes acenderam ao mesmo tempo em três janelas diferentes"...
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| "Parque da Cegonha", Lourinhã - Jean-Charles Forgeronne |
E assim a corrida se transformou em caminhada poética, aliviaram-se os músculos pelo menor esforço mas inspirou-se a alma e ganhou-se o resto do dia...
J.C
(Poeta de Valmedo)
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