sexta-feira, 3 de julho de 2026

 

OBRAS DE ARTE NATURAL - I


Tenho para mim certo que a humanidade não detém nem a exclusividade do génio criativo nem da percepção da beleza, antes pelo contrário muitas e curiosas formas de expressão podem ser encontradas nas paisagens e nos mundos animal e vegetal, senão vejamos, quem, mesmo de entre os mais distraídos, ao deambular por este fantástico mundo-cão nunca se cruzou com obras de arte esculpidas pela natureza sem qualquer intervenção humana?  


"Formosa e não segura" - Jean-Charles Forgeronne

De facto, tanto fenómenos biológicos como fenómenos naturais como o vento, a chuva, a erosão, o clima e até a própria passagem do tempo podem criar por vezes autênticas pinturas e esculturas como é o caso deste primeiro exemplo que apresento: um plátano artista e habitante do Jardim da Nossa Senhora dos Anjos com que me cruzei há pouco, ali à beira de um Ankylosaurus, ou não fosse a Lourinhã a capital dos dinossauros... Pois então não é que o plátano, ao descascar-se, criou a silhueta de uma donzela de rabo de cavalo a passear pelo jardim? Tal qual a Leonor formosa e não segura a caminho da fonte?

  
"Donzela de rabo de cavalo"

Contrapondo com os dinossáuricos milhões de anos esta efémera obra de arte existiria apenas até que alguém distraidamente a pisasse, alheio à sua beleza estética, mas agora, fruto da minha descoberta fortuita está felizmente em segurança no meu museu de Valmedo...  

João Plástico
(Artista de Valmedo)

segunda-feira, 29 de junho de 2026

 
O CÃODUTOR


"Sabes James, ele tinha razão ao ter tocado ao de leve o cláxon, afinal eu distraidamente tinha parado o carro em segunda fila no parque de estacionamento da concorrida superfície comercial e não me tinha apercebido que a viatura à qual tinha bloqueado a saída se preparava para sair... Até levantei a palma da mão aberta em sinal de tréguas e até cheguei a berrar pela janela aberta um pedido de desculpas mas apenas recebi de troco um breve latido, o suficiente no entanto para perceber que o cãodutor deveria ser um canino de bem..."
Vejam bem, amigos caninos, esta foi a conversa com que o J.C me chegou à bocado, até aí nada de extraordinário, o pior é que agora plantou na cabeça que me há-de dar aulas de condução naquelas máquinas enormes e barulhentas que as pessoas idolatram e usam para se deslocar para qualquer sítio e a qualquer hora e tudo com o intuito de fazer de mim um cãodutor, à semelhança de outros que parece ir havendo por aí...


"Talvez possas ser muito útil quando alguém da família não puder conduzir por qualquer razão!" - diz ele com um ar tão convicto que me dá a certeza de que desta ideia maluca não terei escapatória... E como que para atestar a necessidade insofismável do seu projecto mostra-me a fotografia do cãodutor com que ele se cruzou... E por acaso até tem estilo, não acham amigos caninos?

James
(Cão de Valmedo)

segunda-feira, 15 de junho de 2026

domingo, 14 de junho de 2026

 
A MUJA, A MOLHA E A ARTE

"Poça das Mujas" - Jean-Charles Forgeronne
"Será que sou só eu que tenho esta incómoda sensação de estar num planeta estranho?" - digo em surdina para mim próprio enquanto olho para uma tranquila N. sentada à minha frente e alegremente entretida com o seu repasto, olho disfarçadamente para a mesa do canto e vejo um casal de meia-idade com o ar mais normal deste mundo, analiso a simpática empregada e não lhe consigo apontar nenhuma incongruência, admito então que talvez ela não seja um monstro alienígena encarnado numa aparência humanoide como há instantes equacionei e todos estavam a agir tão normalmente que por um segundo, mas apenas por um segundo, me coloquei a hipótese de ser eu que estava em processo de enlouquecimento galopante... 
"Este pedaço de mundo-cão a que chamam Pico hoje parece o planeta dos enigmas", pensei, o dia tinha começado sob o signo dos mistérios, tínhamos entrado por Calheta de Nesquim adentro e a razão daquela estranha toponímia tinha-a descoberto por sorte na busca matinal obrigatória ao meu blogue preferido, "Planandonomundocão"...

"Molha do Saragaço" - Jean-Charles Forgeronne

Ainda não o disse mas estamos no "Saragaço", simpático restaurante de ótima localização na zona balnear da Poça das Mujas, a uma dúzia de passos da piscina natural e outros tantos do Murricão... Após um delicioso banho tomado na piscina natural viemos até aqui, meio-dia em ponto, os primeiros clientes a chegar, ainda a porta estava fechada mas vendo alguém no interior descaradamente perguntei através duma janela entreaberta qual era o menu do dia, ao que me responderam "Hoje tem molha"! Fiquei impávido mas não sereno, virei-me para a N. e desabafei : "Molha? Que raio é a molha?" 
O dia ia-se tornando cada vez mais estranho, primeiro tinha sido a questão do estranho nome Nesquim, entretanto resolvido, depois vieram as Mujas, "Quem são as mujas?" perguntei-me assim que mergulhei naquelas célebres e cálidas águas, imaginei até serem entidades míticas subaquáticas do tempo da Atlântida, vá lá saber-se, e agora, para compor o ramalhete, surgira outro enigma, a molha... 

"Quebra-cabeças"

Invertendo a natural ordem das coisas solucionou-se primeiro o enigma da molha pois assim que a porta se abriu tomei de assalto o castelo e perguntei: " Vamos lá a vero que é isso da molha?" e ouvi "A molha de carne? É um guisado típico aqui da região..." e o assunto ficou resolvido! A molha é então um prato tradicional dos Açores, típico do Pico e do Faial e consiste num guisado de carne de vaca cozinhado lentamente, como se fazia outrora, com tempo... Bem, a carne desfazia-se ao primeiro toque do garfo e estava saborosíssima de bem temperada com as especiarias da terra, que repasto! Tão delicioso quanto o banho na Poça das Mujas... Mas entretanto, e antes de poder esclarecer a questão das mujas, reparo numa coisa que me baralhou (novamente) os neurónios: algo não batia bem com os dois quadros expostos na parede por cima do buffet e por mais que tentasse entendê-los mais baralhado ia ficando... 
"Nº 3 1967"
Um dos quadros, o mais à esquerda, não tinha cor, parecia estar escondido por detrás do nevoeiro  tão típico dos Açores, mas seria mesmo assim? Tão abstracto? Aproveitei para examiná-lo mais de perto quando me fui reabastecer de molha e surpreendi-me ao verificar que era a reprodução de uma obra de Mark Rothko, considerado o maior representante do Expressionismo abstracto norte-americano e cujas obras se caracterizam pela sobreposição de largas bandas de cores... E de facto, como esclareceu uma breve pesquisa feita após uma dificil espera até que terminássemos a molha, a obra nº3 1967 apresenta cores bem carregadas, nada tendo a ver com aquilo que se vê exposto por cima do buffet... Se a obra original já é bastante abstracta então esta reprodução do Saragaço é abstracta elevada ao quadrado! 

"Autor desconhecido"
Mas o quadro ao lado não era menos intrigante, de autor desconhecido, pelo menos não vislumbrei nenhuma assinatura, parecia-me mais do género impressionista e era também formado por duas bandas de azul, uma mais escura na parte superior e outra mais clara na parte inferior, uns borrões coloridos a meio e por mais que eu olhasse não via a mensagem do artista, se é que a havia, embora percepcionasse uma ideia a pairar no meu juízo não a conseguia agarrar... "Que vês tu naquele quadro da direita?" ainda perguntei mas a N. após um breve olhar respondeu: "Nada. E tu?". "Tal qual!", respondi desanimado e foi já quando nos levantávamos para ir embora que numa última olhadela já de esguelha se fez luz, pelo menos para mim: o quadro só podia estar de pernas para o ar! Só me ocorreu uma forma de confirmar a minha hipótese: tirei uma foto ao raio do quadro, invertia-a e lá estava: ao menos agora os borrões podiam ser barcos, o céu passou a ser o mar e vice-versa! Contente com a minha descoberta  sentei-me ao volante e porque tínhamos pela frente a Poça das Mujas ressuscitou o enigma que faltava: o que raio era uma muja? E só arrancamos dali quando ficamos a saber que a muja é um peixe também conhecido como taínha ou fataça... Havia necessidade de complicar tanto? E pronto, lá arrancamos e o dia ainda ia a meio, que mais coisas nos iriam espantar ainda?   

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

sábado, 13 de junho de 2026

sexta-feira, 12 de junho de 2026

 
LENDAS E NARRATIVAS - XXVIII

O CÃOMANDANTE NESQUIM

O forasteiro que chega à pequena localidade de Calheta de Nesquim não pode deixar de se interrogar sobre a origem de tão extraordinário nome e se calhetas há muitas ou não fossem elas pequenas enseadas, baías ou angras que servem de porto de abrigo a pequenas embarcações, coisa mais do que comum nestas ilhas açorianas, porque raio esta é de Nesquim? E o que é isso de Nesquim?  
Uma boa pista para decifrar o mistério é observar com atenção o brasão de armas da freguesia e reparar que nele se destacam um cachalote e um cão de fila açoriano, ambos negros; se em relação ao primeiro percebe-se o destaque devido à grande tradição de Calheta de Nesquim na baleação açoreana, note-se que foi aqui que em 1876 foi estabelecida a primeira armação baleeira na ilha do Pico, já em relação ao cão, que raio faz ele ali?

"Calheta de Nesquim" - Jean-Charles Forgeronne

As respostas são dadas por uma lenda que refere que no século XVI um enorme veleiro vindo do Brasil com destino a Lisboa e carregado com madeira preciosa foi assolado por uma forte tempestade ao largo da costa sul da ilha do Pico e depois de ter andado vários dias à deriva acabou por naufragar, talvez pelo excesso de carga de pau-brasil... Do grande contingente de homens apenas três se salvaram e graças à orientação dada pelos latidos de um cão que viajava a bordo, de nome Nesquim, o qual, depois de ter nadado até ter alcançado uma calheta se tinha posto a ladrar para os seus companheiros... 

"Casa dos Botes da Calheta de Nesquim"- Jean-Charles Forgeronne

Em honra do cão, não só o local do salvamento se passou então a chamar Calheta do Nesquim como depois o brasão da freguesia integrou o Nesquim em lugar de destaque... E agora que o forasteiro está saciado porque viu os seus enigmas serem desvendados pode aproveitar para visitar a Casa dos Botes e depois passar pela Poça das Mujas, deleitar-se aí com um belo e especial banho pois foi aí que o Nesquim deu à costa e ali mesmo ao lado e em cima pode visitar o Morro do Cão, também conhecido por Murricão, alto de onde o herói da história, qual cãomandante, guiou os seus companheiros de viagem...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

quarta-feira, 10 de junho de 2026

 
O MUNDO-CÃO PELO OLHO DO ARTISTA - V 

"Lajes", Susana Margarido - Aguarela sobre papel

"Lajes do Pico" - Jean-Charles Forgeronne