sábado, 13 de junho de 2026

sexta-feira, 12 de junho de 2026

 
LENDAS E NARRATIVAS - XXVIII

O CÃOMANDANTE NESQUIM

O forasteiro que chega à pequena localidade de Calheta de Nesquim não pode deixar de se interrogar sobre a origem de tão extraordinário nome e se calhetas há muitas ou não fossem elas pequenas enseadas, baías ou angras que servem de porto de abrigo a pequenas embarcações, coisa mais do que comum nestas ilhas açorianas, porque raio esta é de Nesquim? E o que é isso de Nesquim?  
Uma boa pista para decifrar o mistério é observar com atenção o brasão de armas da freguesia e reparar que nele se destacam um cachalote e um cão de fila açoriano, ambos negros; se em relação ao primeiro percebe-se o destaque devido à grande tradição de Calheta de Nesquim na baleação açoreana, note-se que foi aqui que em 1876 foi estabelecida a primeira armação baleeira na ilha do Pico, já em relação ao cão, que raio faz ele ali?

"Calheta de Nesquim" - Jean-Charles Forgeronne

As respostas são dadas por uma lenda que refere que no século XVI um enorme veleiro vindo do Brasil com destino a Lisboa e carregado com madeira preciosa foi assolado por uma forte tempestade ao largo da costa sul da ilha do Pico e depois de ter andado vários dias à deriva acabou por naufragar, talvez pelo excesso de carga de pau-brasil... Do grande contingente de homens apenas três se salvaram e graças à orientação dada pelos latidos de um cão que viajava a bordo, de nome Nesquim, o qual, depois de ter nadado até ter alcançado uma calheta se tinha posto a ladrar para os seus companheiros... 

"Casa dos Botes da Calheta de Nesquim"- Jean-Charles Forgeronne

Em honra do cão, não só o local do salvamento se passou então a chamar Calheta do Nesquim como depois o brasão da freguesia integrou o Nesquim em lugar de destaque... E agora que o forasteiro está saciado porque viu os seus enigmas serem desvendados pode aproveitar para visitar a Casa dos Botes e depois passar pela Poça das Mujas, deleitar-se aí com um belo e especial banho pois foi aí que o Nesquim deu à costa e ali mesmo ao lado e em cima pode visitar o Morro do Cão, também conhecido por Murricão, alto de onde o herói da história, qual cãomandante, guiou os seus companheiros de viagem...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

quarta-feira, 10 de junho de 2026

 
O MUNDO-CÃO PELO OLHO DO ARTISTA - V 

"Lajes", Susana Margarido - Aguarela sobre papel

"Lajes do Pico" - Jean-Charles Forgeronne

domingo, 7 de junho de 2026

 
A RAIVA DO VULCÃO - XIII

O LADO CERTO DA MONTANHA

Acerca do arquipélago dos Açores escreveu há 100 anos Raul Brandão que "O melhor de cada ilha é a ilha que está em frente" e isso é particularmente notável quando observamos o Pico a partir do Faial e nos apercebemos da realidade que emana das palavras do escritor-explorador a proposito do verdadeiro fascínio que a montanha exerce na Horta: "... tão longe que a luz o trespassa, tão perto que quer entrar por todas as portas dentro. Na verdade, parece um efeito mágico de luz, um fantasma posto aí de propósito para nos iludir e mais nada. Toma todas as cores: agora está violeta, logo está rubro. A cada momento uma nova transformação."

"O Pico desde a Horta" - Jean-Charles Forgeronne

Quem anda pelo Pico e em qualquer instante é sujeito a ser magneticamente atraído para a visão parcial do cume da montanha lá no alto, coisa natural, esteja onde estiver na ilha, seja no lado das Lajes ou na costa de São Roque ou até na Madalena pode ser enganado com a percepção de que aquele cocuruto lá em cima não passa de uma montanha numa ilha, mas o Pico não é apenas uma montanha, é a própria ilha! Porque é preciso ainda fazer outra coisa, como Saramago: "É necessário sair da ilha para ver a ilha"! E neste caso não embarcamos em metáforas, é preciso mesmo sair do Pico fisicamente para conhecer a ilha, é necessário ver a montanha do lado certo para a conhecer, tem que se vir à Horta e vê-la em todo o seu esplendor através do canal, mesmo que esteja mau tempo... Só deste lado, do lado da Horta, é possível ver o vulcão na sua plenitude e as encostas da montanha a espraiarem-se para o oceano... Então o Pico revela-se como a ilha-vulcão...

"O Pico desde a Madalena" - Jean-Charles Forgeronne
João Lava
(Vulcanólogo de Valmedo)

sexta-feira, 5 de junho de 2026

"Diálogo em Porto Pim" - Jean-Chales Forgeronne

 
QUARENTA ANOS DE MARINA!

Inaugurada a 3 de Junho de 1986, a Marina da Horta, localizada no sudeste da ilha do Faial e com capacidade para 300 embarcações, é hoje uma das mais importantes marinas do mundo, sendo a quarta mais visitada em todo o globo! A sua localização permite um excelente abrigo contra os ventos, venham eles de onde vieram, e faz dela uma escala quase obrigatória para os veleiros que cruzam o Atlântico Norte ou aqueles que viajam das Caraíbas em direcção ao Mediterrâneo...

"Marina da Horta" - Jean-Charles Forgeronne

A Horta, apesar de pequena, é uma cidade lindíssima e quem passeia ao longo do passeio à ilharga da marina apercebe-se que está a respirar espíritos marinhos, esta cidade foi feita de lendas que o mar criou... Os muros da marina não têm espaço para pintar, tudo está coberto de pinturas feitas pelos iatistas em busca de boa fortuna para o resto da sua viagem, é que segundo a lenda quem não pinta no molhe fica mais sujeito a sofrer graves acidentes... 

"Rocinante marítimo" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

quarta-feira, 3 de junho de 2026


E porque hoje é o Dia Mundial da Bicicleta...

O cross matinal ainda vai no início, saí nem há dez minutos do hotel em ritmo lento como convém para poder contemplar a baía e, aproveitando as ruas das Angústias ainda desertas, estudar com tempo as pinturas no muro em frente ao Café de Porto Pim em busca de alguma mensagem interessante... Deixei a igreja para trás e agora à minha esquerda jaz a marina adormecida, os mastros das embarcações quase que tocam o nevoeiro que teima em dissipar, por impulso olho em frente e ao longe em busca do Pico mas a montanha hoje acordou escondida...

"Pantónio na Horta" - Jean-Charles Forgeronne

Mais uma centena de passadas e reparo numa meia dúzia de frondosas figueiras ainda estéreis que parecem descer a encosta, questiono-me se o mestre Euclides Rosa aqui terá vindo arrancar-lhes os ramos jovens para deles extrair o miolo e trabalhá-lo com paciência de ourives nas suas delicadas e minuciosas obras... E depois, assim que faço uma curva ganho o prémio do dia, ao longo do muro surgem uns traços esguios, umas linhas entrelaçadas e umas andorinhas tão peculiares que só podiam ser do Pantónio, o artista terceirense que descobri já há alguns anos num moinho no Moledo lourinhanense e agora também presente aqui pela Horta, numa obra sob o signo da bicicleta... E agora, olhando para o alto, hesito em subir ao cimo do Monte da Guia, ainda se tivesse uma bicicleta à mão...

"As bicicletas do Pantónio" - Jean-Charles Forgeronne

João Pena-Seca
(Escritor de Valmedo)