domingo, 7 de junho de 2026

 
A RAIVA DO VULCÃO - XIII

O LADO CERTO DA MONTANHA

Acerca do arquipélago dos Açores escreveu há 100 anos Raul Brandão que "O melhor de cada ilha é a ilha que está em frente" e isso é particularmente notável quando observamos o Pico a partir do Faial e nos apercebemos da realidade que emana das palavras do escritor-explorador a proposito do verdadeiro fascínio que a montanha exerce na Horta: "... tão longe que a luz o trespassa, tão perto que quer entrar por todas as portas dentro. Na verdade, parece um efeito mágico de luz, um fantasma posto aí de propósito para nos iludir e mais nada. Toma todas as cores: agora está violeta, logo está rubro. A cada momento uma nova transformação."

"O Pico desde a Horta" - Jean-Charles Forgeronne

Quem anda pelo Pico e em qualquer instante é sujeito a ser magneticamente atraído para a visão parcial do cume da montanha lá no alto, coisa natural, esteja onde estiver na ilha, seja no lado das Lajes ou na costa de São Roque ou até na Madalena pode ser enganado com a percepção de que aquele cocuruto lá em cima não passa de uma montanha numa ilha, mas o Pico não é apenas uma montanha, é a própria ilha! Porque é preciso ainda fazer outra coisa, como Saramago: "É necessário sair da ilha para ver a ilha"! E neste caso não embarcamos em metáforas, é preciso mesmo sair do Pico fisicamente para conhecer a ilha, é necessário ver a montanha do lado certo para a conhecer, tem que se vir à Horta e vê-la em todo o seu esplendor através do canal, mesmo que esteja mau tempo... Só deste lado, do lado da Horta, é possível ver o vulcão na sua plenitude e as encostas da montanha a espraiarem-se para o oceano... Então o Pico revela-se como a ilha-vulcão...

"O Pico desde a Madalena" - Jean-Charles Forgeronne
João Lava
(Vulcanólogo de Valmedo)

sexta-feira, 5 de junho de 2026

"Diálogo em Porto Pim" - Jean-Chales Forgeronne

 
QUARENTA ANOS DE MARINA!

Inaugurada a 3 de Junho de 1986, a Marina da Horta, localizada no sudeste da ilha do Faial e com capacidade para 300 embarcações, é hoje uma das mais importantes marinas do mundo, sendo a quarta mais visitada em todo o globo! A sua localização permite um excelente abrigo contra os ventos, venham eles de onde vieram, e faz dela uma escala quase obrigatória para os veleiros que cruzam o Atlântico Norte ou aqueles que viajam das Caraíbas em direcção ao Mediterrâneo...

"Marina da Horta" - Jean-Charles Forgeronne

A Horta, apesar de pequena, é uma cidade lindíssima e quem passeia ao longo do passeio à ilharga da marina apercebe-se que está a respirar espíritos marinhos, esta cidade foi feita de lendas que o mar criou... Os muros da marina não têm espaço para pintar, tudo está coberto de pinturas feitas pelos iatistas em busca de boa fortuna para o resto da sua viagem, é que segundo a lenda quem não pinta no molhe fica mais sujeito a sofrer graves acidentes... 

"Rocinante marítimo" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

quarta-feira, 3 de junho de 2026


E porque hoje é o Dia Mundial da Bicicleta...

O cross matinal ainda vai no início, saí nem há dez minutos do hotel em ritmo lento como convém para poder contemplar a baía e, aproveitando as ruas das Angústias ainda desertas, estudar com tempo as pinturas no muro em frente ao Café de Porto Pim em busca de alguma mensagem interessante... Deixei a igreja para trás e agora à minha esquerda jaz a marina adormecida, os mastros das embarcações quase que tocam o nevoeiro que teima em dissipar, por impulso olho em frente e ao longe em busca do Pico mas a montanha hoje acordou escondida...

"Pantónio na Horta" - Jean-Charles Forgeronne

Mais uma centena de passadas e reparo numa meia dúzia de frondosas figueiras ainda estéreis que parecem descer a encosta, questiono-me se o mestre Euclides Rosa aqui terá vindo arrancar-lhes os ramos jovens para deles extrair o miolo e trabalhá-lo com paciência de ourives nas suas delicadas e minuciosas obras... E depois, assim que faço uma curva ganho o prémio do dia, ao longo do muro surgem uns traços esguios, umas linhas entrelaçadas e umas andorinhas tão peculiares que só podiam ser do Pantónio, o artista terceirense que descobri já há alguns anos num moinho no Moledo lourinhanense e agora também presente aqui pela Horta, numa obra sob o signo da bicicleta... E agora, olhando para o alto, hesito em subir ao cimo do Monte da Guia, ainda se tivesse uma bicicleta à mão...

"As bicicletas do Pantónio" - Jean-Charles Forgeronne

João Pena-Seca
(Escritor de Valmedo)
 E porque hoje é o Dia Mundial da Bicicleta...

"A verdade é que, por culpa da bicicleta, as mulheres deslocavam-se por conta própria, desertavam do lar e desfrutavam do perigoso sabor da liberdade. E por culpa da bicicleta, o opressivo espartilho, que as impedia de pedalar, saiu do roupeiro e foi para o museu."

Eduardo Galeano
in "Os filhos dos dias"

 A MARAVILHOSA BICICLETA

Comemora-se hoje o Dia Mundial da Bicicleta, instituído pela Organização das Nações Unidas há seis anos com o intuito de lembrar não só a importância da bicicleta na sociedade tanto a nível de transporte como de lazer, por um lado, mas também salientar os benefícios do seu uso regular para a saúde e para o ambiente...
Para mim, que tive a sorte de ter alguém que me ensinou a andar de bicicleta aos cinco anos de idade, desde esses primórdios infantis que a associei sempre a uma sensação e experiência de liberdade...
Por isso partilho da opinião de quem se sentia um herói quando de bicicleta se aventurava à descoberta...

"BD de Luís Louro"
João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)
 
TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXXIX

UM MERGULHO NOS SABORES ATLÂNTICOS

Quem chega a Santa Cruz das Flores a necessitar de repasto, seja petisco ou refeição, pode ser desagradavelmente surpreendido pois a oferta é manifestamente escassa, e então se calhar a um domingo como foi o nosso caso o cenário ainda piora pois vários cafés e restaurantes fecham a esse dia ou encerram cedo, culpa de não haver mão-de-obra, "ninguém quer trabalhar" confidenciou-me um gerente, chef de cozinha e empregado de mesa, tudo ao mesmo tempo e que sozinho no seu café tem que encerrar às 8 da tarde, mas nem tudo está perdido quando o visitante agoniza de sede e fome no deserto de opções, basta procurar "O Mergulhador", um simpático restaurante à beira do Porto das Poças e dar um delicioso mergulho nos sabores atlânticos...


Casa de comida tradicional e simpático atendimento, valem a pena tanto a carne como o peixe, a ementa é variada e merece mais do que uma visita; a hora era já um pouco adiantada para a rotina açoriana mas valeu a pena esperar pela grelhada mista para dois, a carne no ponto, a batata da terra deliciosa e um pormenor inédito na minha experiência gastronómica: a mistura de carnes inclui frango, de grelha irrepreensível e molho delicioso, um toque especial inspirado no "frango da guia", confidenciaram-me, mas que fica bem lá isso fica... A condizer muito bem também estava o vinho branco da casa, à temperatura certa... 


João Ratão
(Chef de Valmedo)