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sexta-feira, 29 de novembro de 2024

 

ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - XIV

É DE PRAGA, SIM SENHOR!

Assim que saio para a rua cai-me em cima o ar fresquinho da Boémia outonal, componho melhor o cachecol, puxo o fecho do casaco para além do limite e começo a andar pelo ainda quase deserto e amplo passeio da rua 28 Rijna, que é como quem diz a 28 de Outubro, data sagrada para os checos pois nesse longínquo ano de 1918 tanto eles, fartos do domínio dos austríacos, como os eslovacos, há muito subjugados pelos arrogantes húngaros, decidiram formar o estado independente da Checoslováquia... Antes de atravessar a Václavské Námêsti, que é como quem diz a nobre Praça Venceslau, quase que sou abalroado por uma daquelas várias estranhas criaturas com que me tinha já cruzado noutras ocasiões e que perigosamente deambulam pela cidade nas horas matinais com um objecto numa mão levantada à altura dos olhos e espante-se, não é um telemóvel, é mesmo um livro aberto que vão lendo enquanto caminham! E não me pareceram ser estudantes a caminho do exame a ler matéria à última da hora, tentando compensar noites perdidas pela noite de Praga, antes são pessoas que vão a caminho do trabalho e lendo, talvez, Kafka, Kundera ou Hrabal... Esta é, afinal, uma cidade que respira livros e literatura...


E depois, na Rua Na Prikope, mesmo ao lado do Lidl onde iria comprar os croissants para o pequeno-almoço, sou surpreendido com alguém a olhar-me lá de cima, nada mais nada menos do que Rainer Maria Rilke! Mas o que fazia ele ali em Praga, ele que muitos consideram um dos maiores símbolos da poesia alemã do século XX? Não era ele alemão? Pois bem, o poeta nasceu de facto em Praga a 4 de Dezembro de 1875, ali bem perto, na rua Jindrisská, era então a Boémia uma possessão do império austro-húngaro e o busto que agora observo foi montado na fachada de uma antiga escola alemã que o poeta frequentou quando era criança...


E depois do almoço com o M. no seu bairro de Holesovic, deambulando pelas imediações da Galeria Nacional, não é que dou de caras novamente com Rilke? Ali está ele num bloco de granito, imortalizado com os últimos versos da sua Nona Elegia...

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

 
ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - XIII

NEMÉSIO, A CONSCIÊNCIA DOS AÇORES

Pode acontecer antes ou depois da alcatra ao almoço, pode acontecer antes ou depois da obrigatória ida ao miradouro da Serra do Facho onde a vista sobre a marina e a cidade é inebriante, pode ser até sem planeamento prévio mas em qualquer passeio a pé pelo centro histórico da Praia da Vitória é inevitável passar por ali, pela pequena praça onde Vitorino Nemésio nos espera com a sua paciência de ilhéu... Ali está ele, em frente à chamada "Casa das Tias", antigo solar da família onde o escritor passou grande parte da sua infância e adolescência e que hoje, a preceito, alberga a Biblioteca e a sede da Assembleia Municipal, de ar sereno e com os inevitáveis óculos de aro grosso na mão, aqueles de que nos lembramos quando o víamos a preto e branco no "Se bem me lembro...".


"Vitorino Nemésio à porta de casa" - Jean-Charles Forgeronne

Vitorino Nemésio honra a etimologia do seu nome, Vitorino porque da Praia da Vitória e Nemésio porque tem origem no grego nemesis e que significa não só "justa indignação" como também " partilhar, distribuir a cada um o que é seu", e muito partilhou ele da sua sabedoria....

"Sou ilhéu. E tanto ou mais do que a ilha, o ilhéu define-se
 por um rodeio de mar por todos os lados."
                                                          (in "O Corsário dos Mares")

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

terça-feira, 14 de maio de 2024

 

ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - XII


A FIESTA, A VIDA, A MORTE...


Fui de facto surpreendido, sinceramente não estava à espera de o encontrar e muito menos por ali, o que raio faria ERNERST HEMINGWAY por Ronda? E no entanto ali estava ele, olhando para mim desafiadoramente em pleno Paseo de Blas Infante... Demorou um pouco a fazer sentido mas a história ajuda: em 1785 é construída em Ronda a primeira estrutura permanente em pedra para a celebração de espectáculos equestres e touradas, o que faz dela a praça de touros mais antiga de toda a Espanha e que ao longo dos anos e de muitas histórias se tornou o antro espiritual da tauromaquia, muito graças ao matador Pedro Romero, rondeño nascido em 1754 e que inventou as modernas touradas ao dar-lhe uma veneta um dia ao decidir, desafiando todas as convenções e tradições, descer do seu cavalo para enfrentar o touro a pé e assim o matar, dizem que em sinal de respeito para com a fera, ele que dizem ter matado para cima de 6000 touros! 







Não admira, pois, que Ernest Hemingway tenha demandado Ronda em busca da essência e do mistério da tauromaquia, essa arte tão do seu agrado porque cheia dos símbolos complexos da alma humana e também porque teatralizava a sempiterna luta entre a vida e a morte... Ainda jovem, em 1926 o escritor haveria de dramatizar essas vivências por Ronda em "Fiesta", a sua primeira obra, tendo inevitavelmente baptizado o seu toureiro herói como Pedro Romero, o tal...




Mas não foi só pelas touradas que Hemingway se prendeu de amores por Ronda, terá dito ele que " uma cidade que é a ideal para ver a primeira tourada, e mesmo que seja a única tourada que se veja, essa cidade é Ronda!", e ainda que " Ronda é o destino certo quando se planeia viajar para Espanha em lua-de-mel ou para estar com uma namorada; belos passeios, bom vinho, comida excelente, nada para fazer..."... 




                                                             Fotos: Jean-Charles Forgeronne




João Palmilha

(Viajante de Valmedo)

quarta-feira, 6 de março de 2024

 

ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - XII


MARIA NOTÁVEL LAMAS


Deixo a escola que também foi a minha e que tem o seu nome para trás, descubro o seu pequeno e ondulante jardim e ali está ela, a MARIA LAMAS esculpida por Armando Ferreira, artista plástico alpiarcense...  A primeira e estranha impressão que tenho é que a estátua não se parece nada com a imagem que tenho da ilustre torrejana mas também não era essa a intenção, disse o autor logo em 1993 aquando da sua inauguração, antes quis ele alegoricamente dar à obra a alma que aquela grande mulher simbolizou para todas as mulheres! E que bela saiu a encomenda, ademais quem preferir um retrato mais realista basta ir quanto antes à exposição "As mulheres de Maria Lamas" patente na Gulbenkian e deleitar-se com o busto em gesso que Júlio Sousa fez em 1929...

  

"Maria Lamas"- Jean-Charles Forgeronne



Segundo alguns a mais notável mulher portuguesa do século XX, e mesmo que não seja consensual esse louvor terá sido certamente uma das mulheres mais proeminentes do nosso país, MARIA LAMAS foi escritora e jornalista, pedagoga, investigadora, tradutora, fotógrafa e especialmente uma intrépida lutadora pelos direitos humanos e cívicos e um símbolo na luta pela dignidade e pelos direitos das mulheres durante o regime do Estado Novo! Presa por várias vezes e exilada em Paris na década de sessenta onde apoiou os refugiados políticos que se opunham à guerra colonial, mesmo assim conseguiu construir uma obra literária que vai desde a literatura infantil à poesia, da ficção à antropologia social e foi neste campo que a descobri, através da fantástica obra "Mitologia Geral - O Mundo dos Deuses e dos Heróis", comprada em boa hora juvenil com os trocos amealhados na apanha do figo preto de Torres Novas pois agora dizem que muito poucos dos seus livros se encontram disponíveis no mercado... Devo ter aqui um tesouro em casa, querem lá ver?!




João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

 

ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - XI


DESAYUNANDO NA PLAZA MAYOR


Entrar no Novelty é um mergulho em mais de um século de História e histórias ou não fosse o café mais antigo de Salamanca, fundado em 1905 e que ao longo dos seus 118 anos de existência foi testemunha privilegiada da vida social, cultural e política da cidade e do país, desde sempre ponto de encontro de artistas, escritores, intelectuais e políticos...  E de entre todos esses fregueses há um que não arreda pé e que imediatamente chama a atenção, sentado à espera de companhia para uma boa conversa vai mirando a Plaza Mayor, rodeado de grandes espelhos e pinturas ali encontramos Gonzalo Torrente Ballester... 



Galego de nascimento e após várias moradas, Ballester assentou definitivamente em Salamanca em 1975 para leccionar História e escrever compulsivamente, aqui vivendo até à sua morte em 1999. Foi professor, escritor, crítico literário e jornalista, publicou romances, peças de teatro, crónicas, ensaios e diários, elevando-se a um dos maiores expoentes das letras castelhanas...



Mas não se vai ao Novelty apenas para ver o escritor, vai-se essencialmente pelos deliciosos desayunos e desta vez, a conselho de voz amiga e pondo qualquer vontade de dieta de parte, a escolha foi uns soberbos churros com chocolate quente, sumo de laranja e café, irresistível! Mas também consta que os gelados são qualquer coisa do outro mundo e a qualquer hora que demandemos a belíssima Plaza Mayor é uma bela desculpa para os provar...




Jean-Charles Forgeronne

(Fotógrafo de Valmedo)

quinta-feira, 4 de maio de 2023

 

ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - X


ROUBARAM A AVE AO POETA!


Algo não batia certo mas eu não enxergava o quê e nem umas voltas à cabeça me deram a resposta... Ali estava eu na agradável Plaza de Santa Ana especado, tinha acabado de dar de caras com o poeta mais popular e influente que o século XX teve em Espanha, ali estava ele mesmo à minha frente, em tamanho real, de ar sereno e mãos estendidas em concha como que a pedir, e no entanto... E então lembrei-me vagamente de ter lido há tempos qualquer coisa sobre um incidente com esta mesma estátua, claro, agora vinha-me à ideia, tinha sido vandalizada, para escândalo tanto dos madrilenos como dos turistas curiosos...  


"Lorca em Madrid" - Jean-Charles Forgeronne

Claro! Faltava a ave nas mãos do poeta, após 29 anos em que a estátua ali sempre esteve quase em paz e sossego a cumprimentar os passantes, em Agosto de 2002 alguém a roubara e nunca mais aparecera! E quando a estátua estiver novamente completa, seja com a ave original eventualmente recuperada ou com uma cópia convém esclarecer qual a sua espécie pois ninguém se entende, se para uns se trata de uma paloma para outros é uma alondra e que raio, é muito diferente se for uma pomba ou então uma cotovia!


Federico García Lorca foi fuzilado pelos franquistas no início da Guerra Civil, na madrugada de 18 de Agosto de 1936, tinha apenas 38 anos de idade e o seu cadáver foi lançado para uma vala comum... Além de notável poeta, Lorca tornou-se uma das principais figuras da dramaturgia espanhola, conseguindo como ninguém transformar as tradições e as vivências conservadoras da sociedade espanhola em autênticas obras universais, num caldo de tragédia, emoção e ambiente poético, sendo disso grande exemplo a peça "A Casa de Bernarda Alba" onde expõe o drama das mulheres das aldeias espanholas... 

SINTO

Sinto
que em minhas veias arde
sangue,
chama vermelha que vai cozendo
minhas paixões no coração.

Mulheres, por favor,
derramai água:
quando tudo se queima,
só as fagulhas voam
ao vento.


in "Poemas esparsos"



João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

segunda-feira, 24 de abril de 2023

ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - IX


O POETA MILITANTE



Braço esquerdo colado ao corpo e mão aninhada no bolso do casaco, braço direito levantado e mão a aconchegar a nuca significando uma atitude firme perante as injustiças da vida, olhar firme e incisivo, certamente perscrutador, eis o JOSÉ GOMES FERREIRA que encontrámos no Parque dos Poetas, em Oeiras... A estátua em pedra Branco de Lioz da autoria de Francisco Simões pretende homenagear o carácter e a moral integra do poeta militante, como se autodenominava... Nascido no Porto mas lisboeta desde os 4 anos, licenciou-se em Direito aos 24 anos e no ano seguinte abalou para a Noruega para assumir o cargo de cônsul em Kristiansund... Regressa a Portugal cinco anos depois abandonando a carreira diplomática e as leis para as quais achava não ter vocação para se dedicar ao que mais lhe servia: a música, a escrita, o jornalismo, a intervenção política...



De entre poesia, ficção, crónicas, diários, contos e ensaios escreveu dezenas de obras e ganhou em 1961 o "Grande Prémio da Poesia" da Sociedade Portuguesa de Escritores e hoje é consagrado como um dos maiores poetas lusitanos do século XX...


João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

quarta-feira, 25 de maio de 2022

 

ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - VIII


O INFERNAL DANTE...


Nunca houve título de uma obra tão glorioso e feliz como "A Divina Comédia" do visionário e exaltado DANTE e já passaram mais de sete séculos neste mundo-cão que cada vez mais parece uma comédia criada por deuses perversos... Em FLORENÇA, esse belo berço do renascimento cultural da humanidade e destino de qualquer amante da arte que se preze, viaja-se pela história à procura de um sentido para a existência, por entre riquezas e misérias humanas, afinal a comédia poderá não acabar no paraíso e nunca ter um fim... Enfim, poderemos sempre viajar com Dante pelo inferno e pelo purgatório guiados por Virgílio, poeta romano e sua maior inspiração, e também pelo paraíso agora conduzidos por Beatriz, a musa e amada do nosso poeta... E nesta fantástica viagem não estaremos todos nós agora em pleno Inferno? Eis a questão que me caiu mesmo agora do estrelado céu toscano... 



"DANTE" - Florença, Jean-Charles Forgeronne


Mas enquanto deambula pela magnífica cidade pejada de turistas o paciente viajante acabará por parar defronte da Basílica Santa Croce, conhecida como o panteão de Florença porque aí e entre centenas de ilustres sepultamentos repousam Miguel Ângelo, Galileu ou Maquiavel, por exemplo... Apenas uma estátua impera cá fora na praça, a de DANTE! O poeta dos poetas e percursor da moderna língua italiana também poderia estar lá dentro mas repousa eternamente em Ravenna, local da sua morte após 20 anos de exílio decretado por razões políticas e durante esse tempo nunca voltou à sua amada Florença porque, singelo pormenor histórico, se o fizesse seria imediatamente queimado vivo...  


João Palmilha

(Viajante de Valmedo)

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

 

ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - VII

HANS CHRISTIAN ANDERSEN E A CIDADE ENCANTADA


A praça tem um nome impronunciável para um latino, Hviezdoslavovo, e chama-se assim em homenagem a Pavol Országh Hviezdoslav, um dos maiores vultos da poesia eslovaca e não estranha pois que uma imponente estátua sua domine o centro do vasto espaço... Estamos em pleno centro de Bratislava, na chamada parte velha da cidade, a poucos passos da margem esquerda do Danúbio e o curioso caminhante que por ali rondar depois de admirar pela centésima vez a magnética alvura do Castelo lá no alto da colina não deixará de ser surpreendido por outra estátua, mais pequena mas não por isso menos bela e interessante, arrumada a um canto da tranquila praça e que quase passa despercebida aos mais distraídos, "Que faz aqui o Hans Christian Andersen?" poderá interrogar-se, afinal estamos muito longe do reino da Dinamarca...   

"Hans Christian Andersen" - Tibor Bartfay - (Foto:Jean-Charles Forgeronne) 
  
Reza a história que o grande escritor e contista dinamarquês visitou Bratislava apenas uma vez na vida, em 1841, mas que para além da inspiração que daqui levou  terá ficado tão impressionado com a beleza da cidade ao ponto dos seus elogios terem corrido o mundo... Terá alguém então lhe perguntado se não iria escrever um conto de fadas que tivesse como cenário Bratislava ao que o mestre terá respondido: "Não é preciso, se quer um conto de fadas a sua cidade já ela é um autêntico conto de fadas"... A cidade retribuiu-lhe a homenagem em 2006 pela mão do escultor Tibor Bartfay, a célebre estátua em que o autor de tantos contos imortais como "A Pequena Sereia", "O Soldadinho de Chumbo" ou "O Patinho Feio" nos aparece acompanhado das pequenas criaturas personagens dos seus contos... E reza a lenda que dá sorte tocar-lhe na mão, quem sabe a vida não se tornará um conto de fadas a partir desse momento!


João Palmilha
(Viajante de Valmedo) 

sábado, 30 de outubro de 2021

 

ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - VI

GOETHE

Quem atravessa o Burggaten em demanda do Opernring e vira à esquerda não consegue evitar ser esmagado ao dar de caras com a imponente estátua de GOETHE, o poeta, romancista, dramaturgo e cientista que foi o mais importante dos escritores românticos e máximo expoente da literatura alemã... Embora ali esteja ele confortavelmente sentado a olhar o mundo que corre a seus pés pregou-lhe uma partida o irónico destino: os pombos e os corvos desta cidade que não é a sua, talvez influenciados pela magia negra do Mefistófeles, tratam de o presentear sempre que podem com insultuosas defecações! Ainda assim, desrespeitado e esquecido, de alvos rios de dejectos a escorrerem-lhe pela nobre face abaixo, mantém o nosso GOETHE a postura de enorme carácter enquanto continua tentando descobrir sobre as cabeças dos comuns mortais apressados o sentido último da existência, tal qual o seu Fausto...  

"Goethe em Viena" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

segunda-feira, 9 de março de 2020



ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - V


RAMALHO ORTIGÃO


Foi mesmo um encontro imediato e intenso, depois de um turno da noite razoável e por isso mesmo surpreendente porque navegamos à vista num mar repleto de exacerbados alertas epidemiológicos, decidi no último instante atalhar caminho para evitar a estúpida rotunda-cruzamento (ou será antes um estúpido cruzamento-arrotundado?) da Rainha e enveredei pelas "traseiras", pela rua que do Hospital Termal me leva para fora da cidade... Desculpem a farpa mas adiante fará ela sentido! E foi ali, ao passar ao lado da Fábrica Bordallo Pinheiro que o meu dia mudou, ao passar resvés ao muro do Parque D.Carlos reparo na azáfama de muita gente, uns a entrar de carrinha, outros a montar banca e ainda alguns de cócoras a mexer em inúmeros objectos dispostos no chão: "Ah!" - exclamei, era dia de feira dos usados, e não hesitei, encostei na primeira oportunidade e lá fui à descoberta dalguma pechincha que valesse a pena, afinal a desculpa da falta de tempo não valia nesta manhã... 

"Ramalho Ortigão" - Leopoldo de Almeida, Caldas da Rainha

Aos mais distraídos é hora de lhes dizer que estamos nas CALDAS DA RAINHA e que, por isso mesmo, estranhei encontrar um RAMALHO ORTIGÃO imponente e orgulhoso numa curva do caminho enquanto mirava livros fora de circulação, discos que já não se ouvem, curiosidades domésticas que já não devem funcionar e outros ferrugentos objectos que fogem ao entendimento prático...  Que encontrasse o José Malhoa, o Zé Povinho ou até a Rainha D. Leonor a sair de um jacuzzi sulfuroso e não estranharia eu, agora o que fazia ali o Ramalho? 

Lá tive eu que ir ao baú dos velhos livros à procura das célebres "FARPAS", essa magistral colectânea dos folhetins mensais que Ramalho Ortigão publicava nos jornais e que desassossegava o país puritano com a sua mordaz crítica à sociedade da época e opinando sobre todos os temas possíveis e imaginários, desde a política à economia, da cultura aos costumes, da religião às artes e numa prosa de alto nível que mereceu então a opinião (neste caso suspeita) de um grande amigo e colaborador, Eça de Queiroz, para quem as "As Farpas" eram então "a obra mais viva da literatura portuguesa"! Mas Ramalho também era um cronista de viagens, como se pode comprovar pela leitura do primeiro volume da obra e foi numa das suas deambulações pelo país que, talvez a convite de outro amigo seu e parceiro de lides artísticas, Rafael Bordalo Pinheiro, se deixou encantar de tal modo pelos ares das Caldas que lhe dedicou o seguinte hino:



     "Caldas da Rainha é o centro da mais histórica, da mais   
     pitoresca região de todo o país"


Mas Ramalho Ortigão também escreveu sobre a faiança das Caldas, sobre as águas termais e sobre os caldenses, e estes, gratos, trataram este portuense de nascimento como se de um honroso filho da terra se tratasse... Não admira agora que encontremos por aqui colégios e ruas com o seu nome, e quanto à estátua de Leopoldo de Almeida só lhe falta uma coisa, a meu ver, para honrar a ironia e a caricatura caldenses: no lugar da bengala em que o nosso herói se apoia deveria estar um florete como aquele com que andou à espadeirada com Antero de Quental num célebre duelo para lavagem da honra em plena questão coimbrã!


João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

terça-feira, 2 de abril de 2019



ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - IV


JORGE LUÍS BORGES


A ironia era um dos inestimáveis atributos de Jorge Luís Borges que não se cansava de dissertar sobre a a surrealidade deste mundo cão e não se coibia, antes pelo contrário, de abordar os assuntos mais sensíveis, como a sua cegueira por exemplo, ao afirmar aos quatro ventos que Deus possuía uma magnífica ironia pois o tinha abençoado com «os livros e a noite»...  Mas a ironia não tem fim, tal qual a Biblioteca infinita de Borges, e quem hoje deambular pelas Avenidas Novas da capital portuguesa acabará por avistar um pequeno mas simpático jardim no exacto local onde existiam há anos as oficinas da Carris, chamam-lhe, a propósito, o Jardim do Arco do Cego, por se situar no bairro também assim misteriosamente chamado, Arco do Cego, e o que se encontra no centro desse jardim? Jorge Luís Borges, ou melhor, o seu memorial! Macabra ironia, poder-se-á pensar ao primeiro impulso, mas é aquele um monumento à cegueira ou ao escritor? Não havia melhor sítio do que aquele cego jardim para honrar a memória do cego escritor? Deliciosa ironia geográfica, amigo leitor de Borges, é que por coincidência a Embaixada da Argentina, pátria do escritor e de onde tinha saído anos antes a ideia de criar o memorial, fica ali mesmo na esquina e então que melhor local para honrar o grande vulto das letras argentinas do que este, afinal?




Mas, gostaria Borges da ironia, não é uma estátua do escritor que ali podemos encontrar mas sim a sua imaginação, a sua mão e as suas palavras! Uma NUVEM em mármore simbolizando a imaginação encima a obra que mede dois metros de altura e pesa duas toneladas e onde, no meio da estrutura, se logra a MÃO do escritor retirada de um molde feito pelo escultor argentino Federico Brook no tempo em que com Borges conviveu, e ainda há lugar e tempo para a leitura de um excerto do poema "Os Borges" onde o poeta alude com orgulho às suas origens lusitanas, o bisavô era natural de Torre de Moncorvo e daí emigrou para a América do Sul... E fica bem a todos saber que o material principal utilizado na obra foi o granito português cinzento escuro! E também ficaria Borges imensamente feliz e orgulhoso se soubesse que no dia da inauguração do seu memorial em terras lusas no longínquo ano de 2008, lá esteve, numa das suas últimas aparições públicas, o nosso SARAMAGO...



OS BORGES

Nada ou pouco sei dos meus ancestrais
Portugueses, os Borges; vaga gente
Que na minha carne, obscuramente,
Prossegue os seus hábitos, temores e rituais.
Ténues como se nunca houvessem existido
E alheios aos trâmites da arte,
Indecifravelmente fazem parte
Do tempo, da terra e do que é esquecido.
São Portugal, são a famosa gente
Que forçou as muralhas do Oriente
E se deu ao mar e a outro mar de areia.
São o rei que no místico deserto
Se perdeu mas jura estar perto.

(Tradução de José Mário Silva)


João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019



ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - III


EÇA DE QUEIROZ


Quem descer a Rua das Flores desde o Camões em direcção ao  Cais do Sodré e com o Tejo à vista, ao admirar chiques lojas e sedutores restaurantes talvez não saiba que aqueles edificios centenários albergavam dantes antigas cavalariças e vacarias e que, calcorreadas  escassas dezenas de metros, à sua esquerda, encontrará o tranquilo e pequeno largo do Barão de Quintela, que poderia muito bem lhe passar despercebido não fosse a ilustre personagem que habita o seu centro...  
O largo era propriedade privada do barão, mais tarde marquês, (ainda não havia à época congelamento de carreiras) e tendo ele terminado a construção do seu palácio em 1790, decidiu oferecer à Câmara o espaço fronteiro mediante a condição de nada se construir nele e assim facilitar o acesso de carruagens e outros veículos ao pátio interior da sua fidalga casa...


Que encontra então o viajante naquele singelo mas ilustre largo? Nada menos que EÇA DE QUEIROZ, um dos maiores vultos literários lusitanos, numa belíssima estátua de TEIXEIRA LOPES, datada de 1903, e em que o grande escritor se vê a braços com a nua VERDADE, um alegórico e belíssimo corpo feminino, tão real e pungente que derrota toda e qualquer visão romântica ou fantasiosa da realidade, o paradigma queirosiano... E na base da estátua pode-se ler, retirado de "A Relíquia", a célebre frase "Sobre a nudez forte da verdade o manto diáphano da phantasia"... 

E que melhor local haveria para Lisboa homenagear o grande homem das letras do que aquele singelo largo, apesar de ter morado durante anos na casa paterna ao Rossio e de possuir há muito uma pequena rua com o seu nome que entronca na Duque de Loulé, foi por ali, pelo Camões, pelo Chiado e pelo Bairro Alto que deambulou, que escreveu, que viveu... Era assíduo frequentador do Teatro da Trindade e tascas vizinhas, da Havaneza do Chiado, da Rua Garrett, da Rua do Loreto, da Rua das Flores... Era um cidadão daquele mundo! Portanto, a estátua não foi ali erigida por causa de uma obra genial que Eça escreveu sobre aquele ambiente único de Lisboa e que passou oito décadas na gaveta, apenas editada postumamente em 1980: "A Tragédia da Rua das Flores"... Consta que Eça, que viveu emigrado a maior parte da sua vida e que matava saudades da pátria com a leitura dos jornais que lhe conseguiam fazer chegar, terá deparado um dia com a notícia do aparecimento de um cadáver no passeio da Rua das Flores e isso foi a ignição para a escrita de um romance, nunca editado porque, segundo os especialistas queirosianos, foi sendo adiado e serviu de gérmen e esboço para os posteriores e maiores romances "Os Maias" e o "O Primo Basílio", ao qual foram buscar personagens e ocorrências...


E começa assim:

"Era no Teatro da Trindade. Representava-se o Barba Azul."

João Conde Valbom
(Olisipógrafo de Lisboa)

terça-feira, 29 de janeiro de 2019


ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - II


FRANZ KAFKA

Poucos escritores se podem identificar tanto com um lugar como Kafka e PRAGA, cidade onde nasceu, onde viveu toda a vida e onde morreu, numa relação tão intensa e estranha que saltava de um ápice da paixão ao ódio, da exaltação à depressão, tal qual as suas histórias sem enredo nem heróis que narram o absurdo da existência... Quem se perder pelo antigo bairro judeu de Praga, o Josefov, acabará fatalmente por encontrar o nosso herói numa pequena praça, e onde poderia ser senão ali, pertinho da casa onde morou, das sinagogas e do famoso cemitério, por entre ruelas intrincadas e vielas outrora escuras que serpenteavam desde a Praça da Cidade Velha e a celebérrima Ponte Carlos, na fronteira entre o que era o gueto opressor e a cidade livre dos sonhos, sob o signo da corrente libertadora do Moldava...

Franz Kafka - por Jaroslav Róna

KAFKA, que despudoradamente nem sequer se arvorou em herói defensor das causas judias, ele, judeu antes de tudo mas um apátrida e um desenraizado deste mundo, e depois uma mente atormentada, é certo, mas livre de qualquer apego a ideologias políticas ou sociais, tem a coragem de gritar a um mundo esquizofrénico: "O que é que tenho em comum com os judeus? Nem sequer tenho nada em comum comigo próprio."
Fantasista, bizarro, esquisito, de um ténue mas dilacerante humor, corajoso ao expôr as suas mais profundas misérias interiores ao ponto de se ridicularizar, Kafka abriu-se qual caixa de Pandora de tal forma que os seus conhecedores e amigos de então diziam que ele vivia por detrás de uma parede de vidro... 

E ali vem ele, às cavalitas de uma enorme e vazia personagem, uma estrutura sem cabeça nem mãos nem pés, apenas um fato suspenso, alegoria da dupla existência  do ser humano, entre o mundo material e o mundo espiritual, entre o ego e a essência;  tal qual a curiosa personagem que fez passear por Praga aos ombros de alguém no seu juvenil conto "Descrição de uma luta", alguém ao mesmo tempo frágil e inseguro quanto ufano e triunfal,  o nosso escritor, ainda desconhecedor de que muito tempo depois iria mudaria os paradigmas da escrita universal e dos significados, nem sequer repara em nós, o seu olhar sobrevoa-nos, desprendido do solo, fixo num horizonte longínquo ...
Hoje, kafkiano significa algo ilógico, estranho, absurdo, incompreensível, e, afinal de contas, quantos escritores se tornaram importantes ao ponto de se tornarem adjectivos? Pois é, kafkianamente, muito poucos...


João Pena Seca
(Escritor de Valmedo) 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018



ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - I

JOSÉ SARAMAGO



AZINHAGA, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, é um termo que deriva do árabe az-zinaiqa, rua ou caminho estreito, e que na actual linguagem lusitana significa um atalho entre muros, casas de campo, sebes ou propriedades rústicas, fora dos povoados... E nada melhor do que essa imagem para descrever a povoação, uma singela aldeia nas imediações da Golegã, a meio caminho do Pombalinho, e que, embora grande, de casas térreas e vistas largas para os campos e para o rio Almonda, encerra em si mesma esse grande mistério da compatibilidade entre uma pequena origem e um grande destino, tão do agrado do seu mais ilustre cidadão, JOSÉ SARAMAGO, defensor da ideia de que tudo deve ser acessível, mesmo aos mais miseráveis e humildes como ele próprio se orgulha de ter sido, ele que, por sinal ou sina, vá lá saber-se, se tornou simplesmente o nome maior das nossas letras neste e noutros mundos....




José Saramago - Azinhaga



Encontrámo-lo ali no largo da terra, de ar satisfeito e tranquilo, de livro bem aberto na mão esquerda (que outra poderia ser?), talvez depois de um café no Central mas, enigmáticamente, de olhar perdido e sonhador, muito para além das páginas esquecidas de quaisquer memórias ribatejanas...  Sempre grato por todos os pequenos prazeres e grandes alegrias que a vida lhe deu, e em especial aqueles relacionados com a sua difícil mas feliz infância, Saramago retribuiria à Azinhaga tudo o que dela tinha recebido, afinal, que aldeia deste mundo foi alvo de tanto amor e atenção como aqueles que lhe foram dedicados em "As Pequenas Memórias"? 

Os grandes homens são-no porque nunca esquecem as suas origens, não por menos ilustres que o sejam mas porque em dignidade o mereçam... E Saramago deixou isso bem claro ao lavrar em epígrafe o seguinte conselho: "Deixa-te levar pela criança que foste"...



Saramago menino - Fundação José Saramago - Azinhaga


João Vírgula

(Leitor de Valmedo)