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sexta-feira, 8 de maio de 2026

 
LIVROS 5 ESTRELAS - XLIII

À VOLTA DE BORGES...

Em 1964, em Buenos Aires, um escritor cego convidou um jovem livreiro de apenas 16 anos para lhe ler em voz alta. E foi assim que durante quatro anos Alberto Manguel, o jovem, hoje um dos mais conceituados bibliófilos do mundo, frequentou o apartamento de Jorge Luís Borges, o escritor, e com ele conviveu intimamente...


Este maravilhoso livro, pequeno em tamanho mas enorme em essência, é não só um livro de memórias mas também uma homenagem à personagem desconcertante que foi Borges, nele se divulgam  a partilha de momentos domésticos, de leituras, de conversas e reflexões, sobre livros e sobre a vida... E há tantas curiosidades a descobrir sobre sobre o autor de "A Biblioteca de Babel"...

João Vírgula 
(Leitor de Valmedo)

terça-feira, 21 de outubro de 2025

 
LIVROS 5 ESTRELAS - XLII

LATIM EM PÓ + HISTÓRIA = PORTUGUÊS

Continuando por Oppidum, que é como quem diz Óbidos, dou por mim em plena Casa José Saramago e reparo que na parede ao fundo sobressai uma das frases emblemáticas do grande escritor lusitano: "Não temos outra coisa (que palavras). Somos as palavras que usamos. A nossa vida é isso." E que melhor cenário para a apresentação do livro "Latim em Pó", de Caetano Galindo, ele mesmo à minha frente sentado num sofá aguardando para botar palavra e um confesso admirador de Saramago?

"Caetano Galindo no Fólio" - Jean-Charles Forgeronne

Caetano Galindo nasceu em Curitiba, no Brasil, tem 52 anos e é professor da Universidade Federal do Paraná desde 1998 e que, para além de autor de livros de poesia, ficção e teatro, nutre uma paixão pela Língua Portuguesa que o levou então a publicar em 2023 este sedutor "Latim em Pó", só agora editado em Portugal, e mais recentemente, já em 2025, "Na Ponta da Língua: Nosso  Português da Cabeça aos Pés"...


E que maravilha é mergulhar na história da Língua Portuguesa e rebolar no pó do latim, uma leitura deliciosa e enriquecedora, numa escrita encantatória...

"O português que a partir de 1140 começará a se estabelecer como língua do nascente Estado lusitano é, portanto, uma versão alterada dessa fala que se foi formando no norte da península, na antiga província romana de Galécia. Fora, assim, de Portugal. Pois bem. O português, então, não «vem do latim» diretamente. Vem do galego, que - este, sim - veio do latim."

E esta, hã?

João Portugal
(Linguista de Valmedo)

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

 
LIVROS 5 ESTRELAS - XLI

UMA VOLTA A MUITOS MUNDOS...

Foi um autêntico golpe de sorte o modo como descobri este extraordinário livro, talvez aquela sorte pela qual anseiam os marinheiros quanto enfrentam os perigos e desafiam a morte, foi um acaso tão singular que a partir desse momento comecei a ser um pouco menos céptico em relação à existência de um algoritmo superior e misterioso que condicione as nossas escolhas e o nosso percurso de vida, coisas que afinal talvez não dominemos assim tão bem como julgamos... Numa manhã quente de Outubro de 2024 e aos esses pelo esquisito trânsito da A8 íamos a caminho do aeroporto para apanhar o avião para a Terceira quando decido num impulso mudar de estação de rádio, passo da Antena 3 para a Antena 1, "por causa da informação de trânsito", justifico-me à N., e depois de sossegado por não haver acidentes nem transtornos de maior no acesso à grande urbe já o meu indicador se preparava para voltar a mudar quando ouço o pivot do programa dizer: "A seguir, na Zona VIP, João Gobern traz-nos uma história maravilhosa e um livro sobre os Açores, não é João?"...
- "Olha a coincidência! - lembro-me de ter exclamado - Nós em viagem para a Terceira e esta coisa sobre os Açores... 
O resto foi uma grande e maravilhosa descoberta que influenciaria e nortearia, passado quase um ano depois, a nossa exploração da Horta e do Faial em busca de sinais da passagem de Brel pelos Açores e tudo graças àquele mágico segundo em que mudei de posto, se não o tivesse feito o meu mundo e a minha vida não seriam os mesmos, seriam decididamente mais pobres pois quer o livro quer a fantástica vida de Brel me passariam ao largo ...

"O Askoy II" - Fonte: Google

Nuno Costa Santos chamou a esta obra "Como um marinheiro partirei", o primeiro verso da primeira canção do primeiro álbum de JACQUES BREL, de 1954, "Comme un marin je partirai", e como um romancista, um biógrafo e um repórter partiu ele, a partir de um antigo recorte de jornal, em busca da história da passagem da grande lenda da música do século passado pelos seus Açores... Brel, no auge da carreira e com apenas 38 anos, cansado de um ritmo de actuações extenuante, tinha-se surpreendentemente afastado do mundo do espectáculo e decidira dar uma volta ao mundo no seu veleiro Askoy II, com passagem pelos Açores... O resto é história e histórias para ler neste livro, de preferência ouvindo em fundo as magistrais canções do marinheiro...

"Captain Brel - Foto: www.boatsnews.com

João Vírgula
(Leitor de Valmedo"

domingo, 1 de dezembro de 2024

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XL

TANTAS HISTÓRIAS NUMA CIDADE...

Este é um livro de juventude, publicado à sua custa e fruto daquele frenesim sem rodeios que assola o jovem escritor em busca da sua identidade própria, anos mais tarde, já senhor do seu estilo e da sua pena, Rainer Maria Rilke diria que se voltasse atrás o teria escrito de outra maneira ou que não o teria escrito sequer... Reconhece no entanto Rilke que estes dramas compostos quando vivia em Praga corresponderam então a uma necessidade do passado, a de reter da infância e da cidade aquilo que se amou porque ninguém foge ao desejo de possuir tudo o que viveu, e certo é que, digo eu, bastas vezes vive-se melhor nas memórias do que no presente... Por isso, como retrato do escritor enquanto jovem e da cidade já então velha ganha este "Duas Histórias de Praga" outro valor a que nem o autor nem os exigentes críticos lhe deram...


Esta edição, impressa em 1984 pela Editorial Labirinto é ela também uma preciosidade histórica devido quer ao posfácio, onde é explicada a situação social e política de Praga à época em que Rilke aí viveu, quer às notas subsequentes a cada história e que constituem um autêntico dicionário sobre a cidade, sobre as suas ruas que entretanto mudaram de nome, sobre os monumentos que outrora tiveram outro uso, sobre as pessoas de antanho que contribuíram para o ambiente da Boémia...
Não estranhem pois se um dia destes, ao deambular por Praga, derem de caras com o Jean-Charles Forgeronne de máquina numa mão e este livrinho na outra, qual guia de viagens, em busca da Praga de outrora para perceber a cidade de hoje...

"Lá, a Bruckengasse" - Jean-Charles Forgeronne

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXXIX

O ARQUIPÉLAGO DA MEMÓRIA

Avisa-se na capa que é um romance e os avisos, todos sabemos ou julgamos saber, à laia de precaução devem ser levados em consideração para que se evitem consequências desastrosas, mas neste caso, e bastam poucas páginas lidas para isso acontecer, o ávido leitor cedo se consciencializa de que está na presença de algo muito maior do que uma mera trama de ficção, "Arquipélago" pode ser encarado como um romance, sim, mas é na realidade muito mais do que isso, é um testemunho de memórias da Terceira e uma declaração de amor à sua terra por parte de Joel Neto, ele próprio um terceirense inquieto...  




A memória é feita de tempo, de gente e de histórias e nada disso falta neste romance, centrado no terrível terramoto de 1980 que assolou a Terceira e arrasou Angra do Heroísmo mistura num delicioso caldinho o mistério de uma criança desaparecida e o mistério de um homem incapaz de sentir os terramotos com outro mistério maior: a possível ligação dos Açores ao mítico reino da Atlântida! Um grande romance, uma epopeia, uma homenagem à história e às gentes do arquipélago... 

"Sentiu que descobria outra Terceira ainda: uma ilha fechada sobre si mesma, cujo centro de gravidade era já não o mar, mas as próprias entranhas da terra. Atravessou a Caldeira de Guilherme Moniz, tentando sentir as vibrações dos vulcões que respiravam sob os seus pés, e passeou-se pelo Biscoito da Ferraria, perdendo-se até por dar por si no meio de grandes toiros pretos que pastavam entre a laurissilva."

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

quinta-feira, 25 de abril de 2024

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXXVIII


CAFÉ, CONVERSA E REVOLUÇÃO


E porque hoje se celebram por todo o lado os primeiros 50 anos da revolução do 25 de Abril de 1974 falemos então da última parte de uma trilogia fundamental da literatura portuguesa contemporânea, "Café 25 de Abril", da autoria de Álvaro Guerra, escritor, jornalista e diplomata... Editado em 1984, ou seja pela comemoração do décimo aniversário da revolução, apresenta-se-nos como um folhetim do mundo vivido em Vila Velha, cenário talvez equivalente à Vila Franca natal do autor, as vidas e os anseios das pessoas falados em surdina às mesas do café, umbigo do mundo percursor da internet onde tudo ou quase tudo se sabe, onde se noticia, se segreda, se conspira... E entretanto o mundo inteiro a girar... Claro que é obrigatório juntar a leitura dos outros dois volumes: "Café República" e "Café Central", retratos da sociedade portuguesa antes da era democrática...



"Ainda vivi um tempo em que o Café era um abrigo aberto ao conforto íntimo das palavras mais banais, dos odores mais constantes, dos fumos mais inocentemente viciados - a altura da cheia na lezíria, o café a moer, os cigarros a consumirem-se entre os dedos. Nenhum encanto especial naquela sala rectangular, onde o único brilho autêntico era o da máquina de café de saco obstinadamente areada por duas gerações de galegos. Mas, para muitos de nós, era uma espécie de segunda casa."


João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXXVII


À MESA COM ... TEMPO!


E agora que mais um ano se finou e enquanto o colocámos na prateleira das memórias e das estatísticas, depois de o autopsiarmos para fazermos um balanço de expectativas e desilusões, e agora que outro ano reina na nossa organização social e na nossa vida pessoal impondo-nos novos objectivos, os mesmos sonhos de sempre e os inevitáveis fracassos, agora é o tempo ideal para nos dedicarmos à leitura atenta de "OS ANOS", de Annie Ernaux, antes que percamos a nossa memória e antes que se perca a memória de nós...  
A escritora francesa, nascida em 1940 e prémio Nobel em 2022, envia-nos desde a sua Normandia natal não só um relato autobiográfico da sua vida até ao dia em que se reformou da sua carreira enquanto professora mas também as impressões de seis décadas da história de um país, de um continente, de um mundo inteiro, de todos nós afinal que vivemos pelo menos alguns daqueles maravilhosos, terríveis e desconcertantes anos... 
E uma nota também para a capa de muito bom gosto que atesta que é à mesa que melhor se absorve o mundo, comendo, bebendo, rindo, falando, ouvindo, lembrando, reparando, partilhando, às vezes até zangando e perdoando ao mesmo tempo...




"Observando e ouvindo os nossos filhos agora adultos, perguntávamos o que seria que nos ligava, não o sangue nem os genes, mas apenas o presente de milhares de dias passados em conjunto, de palavras e de gestos, percursos de carro, inúmeras experiências comuns sem rasto consciente. Partiam, beijando-nos quatro vezes nas maçãs do rosto. À noite, recordávamos o prazer que eles tinham tido por comer na nossa casa com os seus amigos - felizes por podermos ainda prover à mais antiga e mais importante das suas necessidades: a alimentação. Neste desassossego infundado que sentimos por eles, reforçados pela crença de que na sua idade éramos mais fortes, vemo-los como seres frágeis num futuro informe." 


João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

terça-feira, 14 de novembro de 2023

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXXVI


TERAPIA NA DECADÊNCIA

Chega um dia e a decadência anuncia-se, primeiro com uma dorzita aqui e outra acolá, depois com episódios de fadiga que nos mostram que o organismo já não aguenta tudo como dantes, uns lapsos de memória à mistura e depois, paulatina mas inexoravelmente, sentimo-nos a envelhecer a um ritmo assustador, de há uns tempos a esta parte, por exemplo, quando me levanto depois de mais uma noite meia dormida meia insone os meus ossos desatam a estalar por todo o lado numa sinfonia que até faz levantar as orelhas curiosas do James... Às vezes dou comigo a pensar se não deveria investir numa terapia anti-decadência, à semelhança de Laurence Passmore,  a personagem de "Terapia" de David Lodge que, apesar de ter uma vida invejável, um carro de luxo, dinheiro em quantidade mais que suficiente e um casamento de sucesso e dois filhos bem orientados na vida, e ainda uma amante para momentos platónicos, não consegue lidar bem com a idade nem com o seu aspecto nem com uma dor irritante que lhe apareceu do nada no joelho, sem diagnóstico nem tratamento que resolva, e assim vai sofrendo de uma inexplicável depressão e angústia existencial à boa maneira de Kierkgaard, com o qual se identifica... 
Estas aventuras, descritas com um sentido de humor delicioso, tornam a leitura uma bela terapia para qualquer angústia ou estado depressivo...



 
"O resultado foi ter descoberto em mim uma curiosa e embaraçosa relutância em levar a cabo o objectivo amoroso da minha viagem e, no momento em que a bela Samantha me ofereceu todas as delícias do seu corpo sumptuoso, não consegui aproveitá-las. Havia qualquer coisa a deter-me, e não era o receio da impotência ou de fazer piorar a lesão no joelho. Chamem-lhe consciência. Chamem-lhe Kierkgaard. Tornaram-se uma e a mesma coisa. Acho que Kierkgaard era o homem magro que estava dentro de mim a lutar para sair cá para fora, e em Copenhaga conseguiu finalmente sair."


João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXXV


OS TORMENTOS DA MISÉRIA


"Pois saiba vossa mercê, antes de mais nada, que me chamam Lázaro de Tormes, que sou filho de Tomé González e de Antona Perez, naturais da província de Salamanca, aldeia de Tejares. Nasci no rio Tormes, e daí me veio o apelido. E aqui tem. O meu pai, que Deus lhe perdoe, estava encarregado da moenda de uma azenha que fica à beira daquele rio, onde foi moleiro mais de quinze anos. E estando a minha mãe uma noite na azenha, pejada de mim, vieram-lhe as dores do parto e pariu-me ali mesmo. De maneira que posso em boa verdade dizer que nasci no rio." 
Assim começa "LAZARILHO DE TORMES", a primeira e mais notável novela picaresca da literatura espanhola, datada de 1554!





Numa época de romances de cavalaria e relatos de proezas de bravos guerreiros surgiu esta obra que nos apresenta uma personagem que é um autêntico anti-herói; o autor, anónimo e de baixa condição social, conta-nos num registo autobiográfico as suas aventuras e os seus azares ao longo dos anos em que se vê obrigado a servir sete patrões: um cego que via mais do que parecia, um padre avarento, um escudeiro arruinado, um frade trotador que lhe deu os primeiros sapatos que usou na vida, um proclamador de bulas especialista em falcatruas, um capelão que em boa hora lhe ofereceu um burro e um aguazil que lhe proporcionou uma oportunidade de independência... 



E quem descansa um pouco à sombra e à beira da ponte romana, olhando o magro Tormes e a medieval Salamanca, inevitavelmente é atraído para aquele par de personagens imortalizadas no bronze, o jovem Lázaro guiando o mestre cego...Curioso, caro leitor? Tem bom remédio, pegue na edição dos Livros RTP que tem para lá perdida em casa e conheça toda a história, a leitura revelar-se-á rápida, divertida e gratificante...


João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

segunda-feira, 26 de junho de 2023

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXXIV


AS MEMÓRIAS NÃO AFUNDAM


Manhã de domingo, cumprindo castigo no laboratório porque alguém tem que trabalhar mesmo quando é suposto aproveitar o fim-de-semana para descansar ou apenas vadiar ao sol pela beira-mar, enquanto pausávamos para um café pergunto à Hélia:
- Que andas a ler agora? 
Mostrou-me uma capa da qual já não me lembro porque entretanto ela disse:
- Bem, não sabes mas ontem li um livro espectacular, li-o todo durante a tarde! Sabes quem é a Madalena Sá Fernandes
E eu, por acaso, sabia... 




Uma semana atrás, por acaso, enquanto regressava a casa depois das compras para o almoço, na "Razão de Ser" a Diana Duarte entrevistava a Madalena Sá Fernandes e a entrevista foi tão forte que me reteve uns bons vinte minutos dentro do carro à porta de casa, sem coragem para perder um pormenor que fosse, castigando o James, ansioso e pendurado no muro a abanar-me a cauda e sem perceber porque demorava eu tanto tempo a entrar... E claro, como se de uma troca de cromos se tratasse, a Hélia emprestou-me o livro acabadinho de sair e eu pu-la a ouvir a entrevista, ela depois de a ouvir ficou com vontade de ler o livro outra vez e eu depois de ler o livro fui ouvir a entrevista novamente porque livro e pessoa completam-se...
É um livro pequeno mas cuja mensagem não tem medida, memórias fortes e violentas da infância misturadas com outras memórias felizes que servem de boia de salvação num mar revolto cheio de medos, perigos, obsessões, violência... Primeiro livro, muito autobiográfico e um pouco ficcional, escrito como terapia, deixa água na boca para futuras narrativas de outro teor...
E eu, que pensava ser a única pessoa no mundo a ouvir a Antena 3 num carro velho com pó de estradas de terra e pioneses no tecto... 

  
"O meu pai chegava sempre atrasado, o Paulo chegava sempre a horas. O meu pai conduzia mal e tinha um carro a cair aos bocados, cujo teto estava preso com pioneses. O Paulo orgulhava-se do seu carro imaculado, a cheirar a novo, brilhante. O meu pai tinha um certo orgulho no seu carro velho coberto por uma camada de poeira, o carro de quem se aventurou por estradas de terra.
O meu pai era uma força boa. Lembra-me um poema que li algures: «ele era tão forte que podia ser doce»."



João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

segunda-feira, 24 de abril de 2023

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXXIII


AS MARAVILHOSAS AVENTURAS DE JOÃO SEM MEDO


É um daqueles livros que pode e deve ser lido em tenra idade como depois ser relido já adulto porque apesar de haver quem o catalogue como objecto de literatura infantil isso não faz justiça à riqueza proverbial da obra e isso aconteceu comigo: depois de há muito tempo ser obrigado pela escola a ler as "Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo" acontece que, por curiosidade e nostalgia, voltei a relê-lo recentemente... E se me lembrava apenas vagamente de umas aventuras extraordinárias de um menino agora pasmei com a sabedoria impregnada naquelas páginas, a leitura é tão diferente e tão mais rica que que me frustrou o não ter aprendido então os segredos da vida que agora, já tarde, julgamos saber... Nesta obra, concebida em 1933, José Gomes Ferreira publicava um episódio por semana na revista infantil "Sr. Doutor" e, nas palavras do próprio, por falta de tempo muitas vezes era obrigado a improvisar e que belo improviso lhe saiu já que o seu herói se tornou uma personagem famosa até hoje ao galgar o muro proibido que separa o Mundo Real do Mundo Mágico e assim obrigar o leitor a pensar e a sonhar... E depois, que dizer do surpreendente e desconcertante destino do nosso herói de Chora-Que-Logo-Bebes?

 



"João Sem Medo encolheu os ombros, hesitante:
 - Que sei eu?...  A  verdade é que nestas minhas andanças descobri que, tanto no Mundo da Imaginação Mágica como em Chora-Que-Logo-Bebes impera a mesma Lei tremenda que se pode resumir numa destas palavras à escolha do freguês: Maçada, Repetição, Monotonia, Chatice... Com uma diferença, claro. É que em Chora-Que-Logo-Bebes sofre-se mais. Ou pior ainda: sofre-se menos. Porque lá a pseudodor é tão pífia, tão pilha, tão vil, tão rasca que até se ignora qual a dor verdadeira.
  - Que vais então fazer a essa terra tão seca por dentro e tão húmida por fora, autêntica fábrica de constipações morais?
- Bem... Os homens nunca se contentam... E eu, a falar franco, fartei-me deste Imprevisto-Anárquico do Sonho em que vivi e agora apetece-me voltar a provar aquilo a que chamamos Realidade..."


João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

terça-feira, 18 de abril de 2023

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXXII


Criatividade é coisa que não falta a Afonso Cruz, sem dúvida um dos maiores escritores contemporâneos da língua portuguesa, e para constatá-lo não é necessário enumerar os prémios que recebeu ou os inúmeros elogios que granjeou, basta ler um dos seus livros, por exemplo este "Jesus Cristo bebia cerveja" que já tem onze anos de vida embora não pareça, poderia muito bem ter sido escrito ontem à noite... É um romance desconcertante, uma tragicomédia que aborda com fino humor as coisas fundamentais da vida: o amor, a luta, o sofrimento e, claro, a cerveja, essa bebida sagrada tão do agrado do autor que até a fabrica há décadas bem como deste escriba que enquanto debita estas palavras a vai degustando... Caro leitor, vale mesmo a pena visitar a Jerusalém alentejana e mergulhar na história comovente de uma rapariga que lê westerns... E já agora, caro Afonso, espero revê-lo em breve no "Livros a Oeste"...



"O professor continua de costas a pintar a parede, com a sua arma, o pincel e a tinta, a mais perigosa de todas as armas. Junto à cama, Rosa vê-o pintar o último verso, depois a frase de Harold Estefania, do livro A Morte Não Ouve o Pianista. Vê os caracteres negros a aparecerem na parede como uma confissão, como uma faca espetada no coração.
      "Morro por amor, sem isso não vale a pena estar vivo. A minha vida foi feita para se entranhar na tua, como uma faca espetada no coração."


João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXXI


A SOLIDÃO, A VIOLÊNCIA E OS CÃES...


Que faz um cão no meio do caminho? Espera por nós para o salvarmos do abandono? Ou será que é ele que nos quer salvar da nossa solidão? "UM CÃO NO MEIO DO CAMINHO" é mesmo o título do novo romance de Isabela Figueiredo, ex-jornalista, ex-professora de português no ensino secundário e agora blogger e escritora já com vários prémios e muito êxito...




De leitura escorreita e sedutora a obra debruça-se sobre a solidão, ou melhor sobre as solidões porque nenhuma solidão é igual e sobre como um cão pode ajudar alguém a sair de um buraco negro... O enredo passa-se numa época muito cara à autora, ela própria retornada aos 12 anos de idade e crescendo com os anos da revolução de Abril e a consequente luta política pela democracia...   

"- Moramos num apartamento, José Viriato."
Palmada leve.
- Não temos condições para ter um animal em casa.
Palmada assertiva.
- Ainda não tens idade para saber tomar conta de um cão.
Palmada dupla só com a ponta dos dedos.
- Eu trabalho, a tua mãe trabalha e tu vais para a escola. Quem olha por ele?
Sete pancadas explicativas marcadas com os dedos.
- Mais te digo: um cão prende-nos.
Palmada firme.
- E no final só temos desgostos.
Pancada de punho fechado.
- Eles morrem antes de nós.
Pancada com a mão ligeiramente aberta.
 - Temos de ser racionais quando tomamos decisões.
Palmada pragmática.
- Isso não é uma má ideia: é uma péssima ideia, José Viriato.
Palmada ponto parágrafo.
- Digo-o para teu bem.
Pancada final.
Ficamos em silêncio.
Eu repliquei em voz baixa:
- Quero um cão."


João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

domingo, 16 de outubro de 2022

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXX

AS RAPARIGAS, AS MULHERES E AS OUTRAS...

Bernardine Evaristo, escritora anglo-nigeriana, já tinha agitado as águas anteriormente com romances, poesias e contos mas foi com este livro explosivo que dinamitou as consciências acomodadas deste mundo-cão autista, vencedor do Booker Prize em 2019 "Rapariga, Mulher, Outra", que muito a propósito faz parte do nosso Plano Nacional de Leitura, é um exuberante exercício subversivo que relatando as aventuras de doze personagens retrata a condição feminina e especialmente das mulheres negras na multicultural e esquizofrénica sociedade britânica enferma da herança colonialista... Bernardine obriga-nos através de uma escrita frenética e bem-humorada a ver o mundo com outros olhos, a colocar-nos no lugar dos outros, neste caso das outras e isso não é nada pouco...


"  e também havia a Georgie, a única que não chegou a viver os 

anos 90

vinha do País de Gales e estava atirar o curso de canalizadora,    

os pais eram Testemunhas de Jeová e tinham-lhe virado costas por ela ser 

gay

era uma órfã perdida e então elas adoptaram-na

era a única mulher na sua equipa de canalizadores e tinha de aguentar as  

piadas dos colegas masculinos sempre a falar em 

buracos, brocas, ajoelhar, bicos, válvulas, boias e tanques cheios 

e o que lhes apetecia fazer ao traseiro quando ela estava enfiada 

debaixo de um lavatório a consertar um cano ou de gatas a    

espreitar a uma sargeta   "                                                                                                  


"Bernardine no Folio"

E depois, que delícia foi assistir à conversa entre Bernardine Evaristo e a colombiana Pilar Quintana sobre a condição feminina e as suas lutas femininas, e claro, para acabar em beleza, não poderia deixar de trazer o tão desejado autógrafo para casa...


João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

segunda-feira, 16 de maio de 2022

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXIX


VERGONHAÇAS E REMORSOS... 


Que vergonha, melhor dito, uma vergonhaça, pensei para mim enquanto me deixava escorregar pela cadeira do auditório abaixo numa ridícula tentativa de desaparecer num mágico fumo de ilusionista, seria eu a única alminha ali presente naquela sessão dos "Livros a Oeste" que, vá lá saber-se porquê,  não tinha lido o fabuloso romance de estreia de Valter Hugo Mãe que foi galardoado com o Prémio José Saramago... Todos reconheciam a genialidade em "O remorso de baltazar serapião", até o próprio Saramago que prefaciou a obra e onde afirmou categoricamente que aquele livro era um tsunami! Um marco fundamental na literatura portuguesa contemporânea, todos juravam e mais juras não eram necessárias pois se até o mestre tinha ficado deslumbrado com a obra que melhor atestado de qualidade se poderia obter?

"Basta ler a primeira página, a primeira palavra, sentir a primeira respiração. É um livro diferente. A sensação que esta obra me dá, além do ímpeto arrasador e ao mesmo tempo construtor de algum elo, é a de estar a assistir a um novo parto da língua portuguesa, um nascimento de si mesma." (José Saramago)




E pronto, não dormi sossegado, na manhã seguinte bem cedo era eu o primeiro a entrar na Biblioteca Municipal da Lourinhã e com um único e desesperado intuito, requisitar o famigerado livro... E agora aqui estou sentado no rebordo de um muro antigo da Quinta do Prior, bafejado pela sombra de uma velha árvore e a este abençoado recanto não chega o barulho dos carros apressados ao virar da curva do caminho, aguardo que termine o transplante do pára-brisas do velhinho Corsa, operação delicada e com riscos mas que lhe pode dar mais um ou dois anos de vida e para passar as duas horas de espera devoro os últimos e breves capítulos da aventura do Serapião, esse homem que ao casar com a moça mais bonita da sua terra se deixou corromper até ao tutano pelo preconceito e pela machista tradição... Assim, contas feitas, precisei apenas de dois dias intermitentes para a integral leitura e, de facto, o romance é ainda um tsunami passada década e meia sobre o seu parto... Hoje sinto-me muito melhor, como alguém que ao corrigir um erro enorme do seu passado tivesse agora uma segunda oportunidade, conhecer a obra de uma grande escritor.


João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

sábado, 8 de janeiro de 2022

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXVIII


EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO


Criação de um moralista culto e sensível, "Em Busca do Tempo Perdido" é uma obra imensa não só em tamanho como em conteúdo e é um testemunho muito particular do mundo e da sociedade francesa nos alvores do século XX, um quadro cheio de impressões, sensações e devaneios sobre o amor, sobre a memória, sobre o tempo e sobre tudo aquilo que o autor julgou digno de ser vivido e gravado para a posteridade... Marcel Proust, doente desde tenra idade por ser fraco de pulmões (desde a infância onde cedo foi atacado pela asma até à morte prematura devido a uma bronquite mal tratada) teve a sorte de ter nascido numa família rica que não só lhe abriu os salões da alta burguesia onde se inspirou para muito do enredo da sua criação literária como lhe proporcionou tempo para se dedicar em exclusivo à escrita do seu enorme romance, a obra de uma vida...



Proust retirou-se do mundo para escrever as sete novelas que compõem "Em Busca do Tempo Perdido", empresa gigantesca que lhe viria a consumir 16(!) anos da sua existência e foi já em completa reclusão no seu quarto que nos últimos dois anos de vida, já bastante fragilizado e doente, num esforço prodigioso, escreveu até à morte os últimos volumes do monumental romance... Obra datada, sem dúvida, mas eterna...


João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXVI

MUITO MAIS DO QUE UM RIO...

Há três décadas CLÁUDIO MAGRIS viajou ao longo do DANÚBIO, desde a nascente ao delta num percurso de quase três mil quilómetros e em que atravessou a Alemanha, a Áustria, a Eslováquia, a Hungria, a Croácia, a Sérvia, a Roménia e a Bulgária... Tamanha aventura só poderia resultar numa obra-prima da literatura e que é muito mais do que um livro de viagens, pode ser encarado por esse prisma, sim senhor, mas é também ensaio, roteiro paisagístico e cultural, romance e diário e tudo isso junto constitui um autêntico e maravilhado hino ao segundo maior rio europeu...  

Tal como o Danúbio-rio flui imparável ao longo de vales e planícies, delimitando fronteiras e alimentando e definindo a cultura de diversos povos, também o Danúbio-livro oferece uma fluida e riquíssima viagem pelo centro da Europa e que permite ao leitor uma compreensão da cultura europeia. Além disso, Magris, germanista de formação, demonstra nesta obra toda a sua erudição, ele que para além de um escritor reconhecido e premiado sempre na antecâmara do Nobel é também professor na Universidade de Trieste, a sua cidade Natal...   

"As janelas dão para o Danúbio, assomam sobre o grande rio e sobre as colinas que o sobrepujam, uma paisagem marcada pelos bosques e pelas cúpulas em cebola das igrejas; de Inverno, com o céu frio e as manchas da neve, as suaves curvas dos montes e do rio parecem perder corpo e peso, transformam-se em leves linhas de um desenho, numa elegante melancolia heráldica. Linz, a capital da Áustria Superior, era a cidade que Hitler amava acima de todas as outras e que queria transformar na mais monumental das metrópoles do Danúbio."

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

terça-feira, 13 de julho de 2021

 

LIVROS 5 ESTRELAS # XXV

PESSOAS COMO NÓS, CÃES...

Amigos caninos, aqui estou eu de volta e com alegria redobrada, é que fui incumbido do enorme desafio de apresentar esta rúbrica dos livros imperdíveis da vida do J.C e nem tive opção de recusa, tudo começou quando um dia destes, dormitava eu ali junto ao portão e ele, interrompendo o meu banho de sol matinal, botou palavra sem meias medidas:
 - James, acorda, bicho!
E eu, abrindo os olhos a custo, encarei-o com ar de quem protesta por ser incompreendido, soubesse ele que durante a noite, enquanto ele e restante família hibernam e ressonam, eu apenas dormito por alguns minutos de cada vez porque estou constantemente alerta para qualquer ameaça ao reduto familiar, talvez tivesse um pouco mais de respeito para com o meu descanso, mas já ele lia com voz forte e teatral o livro que trazia aberto entre mãos:

"Não era um cão como os outros. Era um cão rebelde, caprichoso, desobediente, mas um de nós, o nosso cão, ou mais que o nosso cão, um cão que não queria ser cão e era cão como nós"



Ainda tentei dizer qualquer coisa do género "espera aí que fiquei baralhado com tanto cão nessa frase" mas qual quê, o J.C estava tão entusiasmado que me lançou aquele olhar de aviso e continuava a leitura:

"Talvez fosse da raça, épagneul-breton, L.O.P, de manchas castanhas e uma espécie de estrela no meio da cabeça, por sinal muito bonita.
   - Puro demais, dizia o meu pai. Este cão tem a mania que é fino.
   Fino e fidalgo. Lemos livros e revistas sobre a raça, todos sublinhavam o carácter afectivo destes cães que só são felizes quando ao pé do dono.
   Esqueciam o resto, a rebiteza, a dificuldade em obedecer, a irrequietude, o exibicionismo. Ou então era este que era diferente.
   (...) - Este cão tem um problema, disse por fim o meu pai, está convencido de que não é cão." 
   

Não sei quanto tempo humano durou a leitura mas fiquem sabendo que nunca me portei tão bem, amigos caninos, deitado qual esfinge egípcia e quando o leitor lançava um olhar inquisitorial à minha atenção lá eu o encarava embora prestasse mais atenção à capa do livro onde brilhava alguém muito parecido comigo, um épagneul-breton branco e castanho como eu, embora só um pouco mais escuro à volta dos olhos...

 - Este livro poderia ser sobre ti, James, és tão parecido com este Kurika! 

 - Kurika é nome de cão? - perguntei...

- Olha, até nisso se parece contigo, foram os filhos do autor do livro que o baptizaram assim porque andavam a ler as aventuras de um leão chamado Kurika enquanto tu te chamas James porque o M. andava a ler as aventuras de um herói com esse nome... E reparaste que até a história de dormires na cozinha é em tudo igual, o Kurika barafustou tanto por não querer dormir no canil que a família tfoi obrigada a arranjar-lhe um cantinho na cozinha!

Claro que eu tinha reparado, mas não é assim que deveria ser? Afinal se um cão como eu que se acha mais pessoa do que cão não deve dormir na rua isolado da sua família, certo? Por outro lado, ouvir este livro fez-me um bem danado ao meu ego, já repararam, amigos caninos, que eu sou um cão com nome de pessoa? E o J.C leu-me os pensamentos ao dizer:

 - Pois é, James, às vezes olho para ti e desconfio que tu és uma pessoa disfarçada de cão, só te falta falar!

E não se esqueçam, seus cães, peçam lá em casa para vos ler esta obra-prima...


 JAMES
(Cão de Valmedo) 

sexta-feira, 23 de abril de 2021

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXIV

CALUANDAS, XARÁS E MAKAS...

E porque hoje é o Dia Mundial do Livro celebremos um, um pequenino de apenas 140 páginas que me chegou emprestado pelas mãos de um chará e que por sua vez o tinha recebido autografado pelo autor também nosso chará, de rápida e fácil leitura a condizer com estes modernos tempos que padecem da doença da pressa, essa pandemia que nos rouba amiúde a descoberta e a felicidade da leitura mas que depois nos recompensa quase até ao infinito... São sete os contos que compõem " O dia em que Charles Bossangwa chegou à América", obra de JOÃO MELO, caluanda, escritor, jornalista, publicitário, professor universitário e consultor nascido em Luanda, poeta e contista premiado e traduzido em várias latitudes e com fortes ligações à Lusitânia, tendo estudado em Coimbra e sendo actualmente, por exemplo, cronista no Diário de Notícias...


Desde a história de Jorge Kalupeteka, um mulherengo intratável num país desgovernado, ao triste epílogo de um triste ministro que tinha apostado toda a sua vida numa carreira política, passando pela saga da Dona Felismina, angolana de gema com uma visceral aversão a tudo o que era chinês ou vindo daquelas amarelas regiões, passando pela desgraçada vida de Ana Maria, uma bela moçoila que acaba a revoltar-se por causa de cuecas e calcinhas, mergulhando na questão existencialista de um homem refém de um torcicolo ou na aversão que um angolano tem em relação ao verbo malhar, tudo é uma onda de inquietação e fino humor perante a política, a economia e as makas por resolver da sociedade angolana, tudo acabando na odisseia de Charles Bossangwa que um dia decidiu abandonar tudo aquilo e rumar à América...

Boa leitura, caluandas e xarás...


João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXIII


HASHIRU KOTO NI TSUITE KATARU TOKI NI BOKU NO KATARU KOTO...

Para escrever estas linhas tive que ir correr anteontem, ontem e hoje e tudo por causa de um livro que acabei de ler, precisei de várias coisas que a corrida em modo solitário pela natureza me proporciona muitas vezes: falar em voz alta comigo mesmo e ouvir-me, colocar algumas ideias em ordem, descobrir alguma inspiração e ainda desta vez, desvendando o irresistível apelo da curiosidade e como se fosse a primeira vez que corria, ia-me interrogando se tinha as mesmas sensações que aquelas que o corredor da história relatava... Pois é, embora seja cada vez mais raro, o que ainda torna mais encantatória a descoberta, felizmente de vez em quando cai-nos nas mãos um daqueles livros que nos enche as medidas porque literalmente parece que foram escritos a pensar em nós e neste caso até dou a pensar para comigo que se tivesse a arte e o engenho poderia eu próprio tê-lo escrito de tal forma me identifico com a personagem e o enredo... E não serei o único certamente... Chama-se no original "Hashiru koto ni tsuite kataru toki ni boku no kataru koto", que é como quem diz "What I talk about when I talk about running", um título emanado de "What we talk about when we talk about love", livro de contos de Raymond Carver, escritor idolatrado e traduzido para japonês por HARUKI MURAKAMI. Não lembra ao diabo mas coisa que já não surpreende no criativo mundo da tradução para português, vá lá saber-se porquê, o livro que deveria naturalmente chamar-se "O que falamos quando falamos sobre corrida" foi artisticamente transformado em "Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo"... Confesso que desconhecia a outra vida de Murakami, já tinha lido com deleite vários dos seus romances, aliás muitos deles best-sellers em todo o planeta ou não fosse ele um autor traduzido em mais de 50 línguas e sempre falado como candidato ao Nobel, mas não imaginava que também fosse um corredor, como eu... Parem de rir, já explico!


"Ganhar a este ou àquele não me diz rigorosamente nada. Interessa-me, isso sim, alcançar os objectivos que me propus, razão pela qual a corrida de longa distância se revela a disciplina ideal para um indivíduo com a minha mentalidade. Quem sabe o que é correr uma maratona do princípio ao fim, sabe do que falo. De uma forma geral, não se põe a questão de vencer alguém.  Os atletas candidatos à liderança da corrida, naturalmente, esses perseguem o objectivo de ultrapassar o seu rival mais próximo, mas, no caso dos amadores que correm por gosto, a rivalidade não é uma questão de fundo".
Murakami surpreendeu-me pelo universo pessoal paralelo que revela nestas deliciosas memórias, à semelhança das narrativas surreais com que nos brinda nas suas histórias, eles são gatos que conversam com pessoas, soldados que não envelhecem desde a segunda guerra mundial, carneiros do além, jovens munidos do dom da clarividência e tudo o mais de fantasmagórico num caldo onírico e mágico, o nosso herói, embora seja um escritor famoso revela-se uma pessoa deveras normal  e simples, com os seus sonhos e as suas banalidades, ao fim e ao cabo uma pessoa como nós que começou a correr para não engordar depois de ter deixado de fumar e começou a pouco e pouco a ganhar o gosto pela pela corrida! Um dia, quando decidiu ser escritor, descobriu que sem correr não conseguia  escrever! Tal como eu começou a correr pelos trinta e tal, tal como eu adora música e até tem bom gosto, tal como eu teve a curiosidade de saber os seus limites, desde corridas de 5 Km até às ultramaratonas foi uma questão de tempo, tal como eu foi-se desafiando sem nunca desistir, tal como eu pelos quarenta foi sentindo que não melhorava mais as suas performances e tal como eu encarou com naturalidade o declínio e a idade madura, e tal como eu ainda continua a correr e tal como eu ele pratica natação e anda de bicicleta, só que ao contrário dele eu não cheguei ao triatlo, ainda... Tal como ele também escrevo, mas ao contrário dele não escrevo sucessos literários, limito-me a escrever ideias e sensações emanadas pelo mundo-cão, muitas estão na gaveta, outras aparecem no blogue, outras ainda germinam na cabeça mas tal como ele não consigo escrever sem correr, ou antes, escrevo muito melhor quando corro... E também como ele desafiei-me até ao limite, embora eu tenha ficado pelos 42,195 Km e ele tenha ido muito mais além, e não sei sequer se alguma vez nos cruzamos nalguma maratona por aí, perdidos por entre dezenas de milhares de outros corredores, gostaria de o ter encontrado para correr ao seu lado nem que fosse durante um mísero quilómetro, não daria para muito mais porque ele dava-me uma hora de avanço, mas como o que interessa é chegar ao fim e ganhar o nosso desafio...  

"Murakami em Maratona, depois da primeira maratona..." - Foto: M. Kageyama

"A verdade é que estou mais velho e o tempo deixou as suas marcas. Disso ninguém tem culpa. São essas, por assim dizer, as regras do jogo. Tal como o rio corre em direcção ao mar, faz parte da ordem natural das coisas uma pessoa envelhecer e tornar-se mais lenta, não tenho outro remédio senão aceitar essa evidência. Pode não ser um processo muito agradável, e corro sérios riscos de não gostar do que me espera, mas, vistas as coisas, que escolha tenho?"

ARIGATOU GOZAIMASU, MURAKAMI!

João Pena-Seca
(Escritor de Valmedo)