Mostrar mensagens com a etiqueta Curiosidades do Mundo-Cão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Curiosidades do Mundo-Cão. Mostrar todas as mensagens

sábado, 25 de julho de 2026

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXV

O OURIÇO, O FILÓSOFO E A LANTERNA

O ouriço-do-mar é um equinoderme, isto é, um invertebrado cuja pele tem espinhos venenosos que lhe conferem não só protecção mas também a capacidade de locomoção. É uma criatura exclusivamente marinha que pode ser encontrada por todo o mundo-cão, agarrado às rochas ou em poças nas zonas entre-marés ou então em liberdade nos oceanos e até 5000 metros de profundidade! O ouriço não possui olhos mas tem o corpo coberto de células fotossensíveis que ao detectarem luminosidade o leva a proteger-se cobrindo-se de conchas, seixos e algas... Junto à boca, na face inferior do corpo, possui  uma estrutura de cinco dentes que formam um bico e com os quais raspa as rochas para se alimentar de algas e outros invertebrados; esses dentes, que também servem para escavar abrigos nas rochas, estão ligados a um complexo sistema de ossículos e músculos chamado a "Lanterna de Aristóteles"!?

"Ouriço-do-Mar", Praia do Porto da Areia Norte - Jean-Charles Forgeronne

Dele disse Dante na sua "Divina Comédia" ser o "Mestre dos que sabem", e de facto Aristóteles, juntamente com o seu mestre Platão, esteve na origem de toda uma corrente de pensamento que propulsionou e influenciou a filosofia por todos os séculos seguintes, ou seja, fazendo jus à sua "teoria das causas", com o seu conhecimento causou a filosofia moderna... Mas Aristóteles não era apenas um filósofo, era um sábio de vários saberes, da filosofia à retórica, da lógica à política, da psicologia à poesia, da ética à biologia... Sim, à Biologia!  Num dos seus exílios pelas margens do mar Egeu, ainda muito jovem, apaixonado pela natureza e pelo mar, inicia a investigação dos animais, especialmente os marinhos, e onde, ensinado pelo pai, médico, fez as primeiras dissecações... 

"Aristóteles" - Códice medieval

A designação "Lanterna de Aristóteles" surgiu no livro "Historia Animalium" que o filósofo escreveu no século IV a.C. e onde ao dissecar o ouriço-do-mar comparou essa estrutura do animal com as lanternas que então iluminavam Atenas e a Grécia antiga e que também tinham forma pentagonal... Muitos séculos depois, os modernos biólogos adoptaram o termo para denominar essa famosa estrutura dos ouriços-do-mar, os quais, já agora, apesar da sua carapaça de espinhos venenosos, são um petisco apreciado  por estrelas-do-mar, sapateiras e até alguns peixes, como o sargo...

João Abelhudo
(Pesquisador de Valmedo)

sábado, 30 de maio de 2026


 CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXIV

APRISIONADOS NA ILHA NEGRA

Não fosse a fajã lávica na zona sul da ilha e o Corvo seria inacessível, não passaria, nas palavras do escritor-viajante, de um "grande rochedo a pique" cuspido das profundezas do oceano... As costas norte e oeste são demasiado íngremes e ventosas, não permitindo a fixação de gente nem a prática da agricultura, já a costa leste permite semear qualquer coisita mas não tem acesso ao mar, daí ter sido na costa sul que se estabeleceram os primeiros colonizadores, concentrados numa única povoação...

"Chegada ao Corvo" - Jean-CharlesForgeronne

Ainda hoje, passados séculos após a colonização da ilha negra, continua a existir apenas uma localidade em toda a ilha, Vila do Corvo, desde sempre aninhada sobre a falésia que se encosta à baía do Porto da Casa... Uma ilha, uma terra... Hoje, como outrora, Vila do Corvo continua a abrigar todos os habitantes da ilha, cerca de 400, e isso só é possível devido à sua grande densidade habitacional assente num emaranhado de pequenas ruelas, estrutura que foi determinada, desde o início, por duas necessidades prementes dos corvinos: a busca de abrigo para os ventos inclementes e uma fácil entreajuda e protecção contra os ataques dos corsários!

"A vila" - Jean-Charles Forgeronne

Desde o povoamento da ilha os corvinos viviam em reclusão,como se fossem condenados em cela solitária, praticamente sem contactos com o exterior; segundo relatos de 1580 não existia qualquer embarcação na ilha para evitar a fuga dos escravos que faziam parte do contingente de colonizadores, os barcos mais próximos estavam nas Flores e quando havia alguma necessidade eram a eles que se pedia socorro acendendo fogueiras nas pontas da ilha... Curiosamente, também não existiam cães, gatos, coelhos, ratos ou furões! Os cães não eram permitidos para protecção das ovelhas, os gatos eram proibidos porque não haviam ratos e para evitar que assim comessem pássaros, os coelhos eram indesejados para evitar a caça e assim proteger outras fontes de sustento, os ratos eram considerados uma ameaça porque não haviam gatos e além disso porque eram fonte de pestes, aliás eram na altura uma praga nas Flores, e furões também não poderia haver para protecção dos galináceos... Por exemplo, todas as embarcações que aportavam à ilha, mesmo aquelas oriundas das Flores e que demandavam a ilha em missão de socorro eram fiscalizadas por alguém que tinha as funções de "visitador dos ratos"...
 
"Praia da Areia", Corvo - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

domingo, 18 de janeiro de 2026

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃOLXIII

A PONTE QUE VAI E VEM

E se a ponte não for uma simples via de passagem para a outra a margem? E se em vez disso, se em vez de atravessarmos a ponte for a ponte a levar-nos ao colo até à outra margem e depois a trazer-nos de regresso se necessário? Confuso? Pois é mesmo isso que acontece há 133 (!) anos a cerca de uma dezena de quilómetros de Bilbau: a Ponte da Biscaia, inaugurada em 1893, foi a primeira ponte suspensa transportadora a ser construída neste planeta e une as margens do rio Nervíon entre Portugalete e Getxo!  

"Ponte da Biscaia", gravura do séc.XIX 

A ponte em ferro, uma obra de engenharia notável, foi idealizada e construída pelo engenheiro Alberto Palácios, um discípulo de Gustave Eiffel, tem 160 metros de comprimento e 45 de altura e surgiu para dar resposta à necessidade de transporte de mercadorias e trabalhadores entre as duas margens do rio naquela que era a zona central da indústria do país basco, bem como permitir à burguesia do final do século XIX o acesso às maravilhosas praias de Getxo...

"Ponte da Biscaia" - Jean-Charles Forgeronne

O transporte de veículos, mercadorias e pessoas é feito numa cabine suspensa por cabos e essa ideia genial permitiu desde o início que não houvesse qualquer interferência no intenso tráfego de navios e veleiros que demandavam o movimentado porto de Bilbau... Além disso, hoje também é possível a qualquer pessoa ou turista atravessar a ponte caminhando através do tabuleiro superior... Outras pontes suspensas foram depois construídas seguindo o modelo da Ponte da Biscaia, mas esta é, verdadeiramente, a ponte! 

"A Ponte" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXII

LAPAS SOBRE LAPAS

"Lapas" - Jean-Charles Forgeronne
Pode soar a lapalissada mas só para quem conhece, quem não souber que a povoação foi erigida sobre extensas galerias de grutas é que pode não achar óbvio terem-lhe dado o nome de LAPAS... E também pode acontecer, como já testemunhei, que haja quem desconheça o significado abrangente de lapa, pois bem, e excluindo a vertente zoológica que nos levaria aos apreciados moluscos, para esses aqui fica a definição segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa: "grande pedra ou laje que, ressaltando de um rochedo, forma abrigo; denominação dada a cavidades ou grutas que aparecem nas encostas das rochas". Ora bem, a antiquíssima aldeia de LAPAS, encostada à sede do concelho, Torres Novas, tem o seu casario espraiado pela margem esquerda do rio Almonda e aqui entra a primeira curiosidade: o Almonda, embora pequeno na sua extensão, apenas 30 quilómetros desde uma encosta da Serra de Aire até ao Tejo, é o rio com o maior caudal na nascente em toda a Europa!



"Olhos cavernosos" - Jean-Charles Forgeronne

E o rio Almonda é também o grande responsável pela segunda curiosidade e que é, claro, a de estarmos perante uma aldeia secular edificada sobre um labiríntico complexo de grutas com mais de 400 metros de extensão! As Grutas de Lapas, à semelhança de outras da região, foram sendo escavadas desde há cerca de dois milhões de anos em tufos calcários associados aos terraços fluviais do rio... A antiguidade do cenário é atestada pela descoberta feita em 1935, a apenas duas centenas de metros da entrada das grutas, de uma necrópole pré-histórica datada do IV milénio a.C, tendo aí sido recolhidos, entre outros artefactos, pedra lascada, pedra polida e cerâmica!

"Labirinto" - Jean-Charles Forgeronne

A origem e a utilização das grutas, embora continuem envoltas em mistério, deram origem a várias teorias e há quem afirme que foram primeiramente um abrigo dos povos pré-históricos, outros dizem que os cristãos primitivos aí se refugiavam durante a ocupação romana e há até quem ateste que também os mouros por ali andaram... Consensual é a sua utilização como importante pedreira já que o tufo calcário, devido à sua porosidade e à facilidade com que era cortado e trabalhado, foi utilizado na região e desde a era romana até meados do século XX na construção civil, como atesta a sua utilização na vila romana de Cardilium, na muralha fernandina do castelo de Torres Novas e em muitas casas de habitação e muros por aqui espalhados...  

"Mortos por cima dos vivos" - Jean-Charles Forgeronne

E claro, estando o casario velho da aldeia de Lapas construído sobre as grutas, em qualquer obra ou escavação que se faça lá se encontra mais um anexo subterrâneo, não admira pois que muitos moradores tenham aproveitado a "sua" parte de gruta para guardar o gado ou até como adega... E de facto é como disse em 1745 Luís Montês Matoso e se lê logo à entrada: por ali "andão os mortos por sima dos vivos"; é que mesmo por cima, e é literalmente por cima da entrada da gruta, estão casas anexas à igreja e ao cemitério... E foi mesmo por essa entrada, e esta é a terceira curiosidade, que no dia 28 de Dezembro de 1968 ali entrou Zeca Afonso para dar um concerto clandestino, consta que a gruta não chegou para tanto visitante mas o certo é que não se encontraria melhor refúgio, os maus lá por cima e os outros por baixo... 

João Parte-Pedra
(Geólogo de Valmedo)

sábado, 2 de agosto de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXI

QUANDO NEPTUNO ESTEVE NA HORTA...

Entre o meio-dia e as quatro da tarde do dia 15 de Fevereiro de 1986 abateu-se sobre os Açores e especialmente sobre a Horta a maior tempestade do século XX, atingindo o vento 250 Kms/h, a altura das ondas era de 15 a 20 metros e a altura da rebentação chegou aos 60 metros... Quem nesse sábado andou pela baía de Porto Pim a fotografar o acontecimento foi José Henrique Azevedo, filho do Peter e actual gestor do estabelecimento, e quando dois anos mais tarde ao querer mostrar com mais facilidade aos iatistas a dimensão da tempestade e ao passar duas fotografias de diapositivo a papel algo de extraordinário se revelou...



Foi até um empregado do café que ao ver Azevedo de volta das imagens reparou que no momento em que foi tirada uma das fotografias se tinha formado na rebentação da onda uma figura humana, reconhecendo-se o cabelo, os olhos, o nariz, a boca e a barba, só poderia então e a propósito chamar-se-lhe Neptuno, o deus dos mares... O deus parece até estar descansando ou apenas observando, deitado e de cabeça recostada numa das vertentes do Monte da Guia, como se não fosse nada com ele... Foi um momento para a história...

Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LX

O ÚLTIMO CONCERTO DE JAQUES BREL

Nos registos oficiais consta que o último concerto de Jacques Brel ocorreu a 16 de Maio de 1967, no Coliseu de Roubaix, perante uma assistência de 250 espectadores, mas isso não corresponde à verdade pois no dia 12 de Setembro de 1974, o artista, fazendo escala na Horta durante a sua volta ao mundo a bordo do seu veleiro e já doente, ainda cantou para os vinte e oito clientes do Peter's naquela noite! O acontecimento ficou gravado na memória dos presentes e o seu testemunho perdura no tempo...

"Ouvindo Brel no Peter´s" - Jean-Charles Forgeronne

"Azevedo (...) dirigiu-se a um iatista francês versado em algum português, comunicou-lhe que estava ali um artista de dimensão universal e pediu-lhe para perguntar a Brel se podia interpretar uma canção, ali, para todos.
Ao ouvir o pedido, Brel ficou sério, quase melancólico.
Foi para fugir a estas solicitações que havia abandonado os palcos. Para não ter de voltar a trabalhar nas fábricas de cartão do espectáculo.
Todos os iatistas voltaram a olhar para o Grand Jacques e, fazendo o exercício de lhe retirar os adereços, reconheceram-no.
Percebendo a sua hesitação, ergueram as canecas para o incentivar. Brel olhou para eles e sentiu ali um ambiente desinteressado, de uma pureza boémia, uma fraternidade de lobos do mar.
Pediu uma viola."

in "Como um marinheiro partirei", Nuno Costa Santos


"Jacques Brel" - Museu de Scrimshaw, Peter´s - Jean-Charles Forgeronne

"Amsterdam" é a música que todos os dias se ouve quando o Peter's fecha portas por apenas algumas horas, e que melhor homenagem poderia ser feita ao artista-marinheiro? E aí eu arrepio-me um pouco e não é devido à brisa que se levanta do canal, tenho um calafrio porque a primeira vez que ouvi essa extraordinária canção e depois durante muito tempo foi numa versão do saudoso David Bowie, ainda adolescente eu era, e só muitos anos mais tarde descobri o arrepiante original...

                                                                                           Amsterdam - Jacques Brel
João Sem-Dó
(Musicólogo de Valmedo)

sábado, 28 de junho de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LVIX


ÁRVORES LAXANTES E PLANTAS CAGADAS

Manhã cedo íamos subindo a rua e já espreitavam ao fundo os três inseparáveis amigos do jardim de Velas: a palmeira, o candeeiro e a árvore... Mas era a árvore que nos chamava a atenção cada vez que ali passávamos, era ela a rainha do jardim pois apesar de aí existir outro exemplar da mesma espécie ele é bem mais pequeno, talvez seja ainda adolescente e um dia tome a imponência que esta árvore ostenta, um cilindro perfeito de ramagens e folhas verde-escuro, uma obra de arte de poda e embelezamento...
 - Lá está a nossa árvore-mistério, é uma pena que não tenha uma placa a identificá-la... - deixei o que ia dizendo a meio enquanto me ia interrogando mais uma vez qual seria o seu nome, é que alguém andava de volta dela, um jardineiro camarário a julgar pela farda...
 - Não vais... - ia dizendo a N. adivinhando a minha intenção mas eu já tinha acelerado o passo jardim adentro em direcção ao homem...

"A árvore-mistério", Velas - Jean-Charles Forgeronne

 - Bom dia, amigo, desculpe incomodar... - e ele levanta a cabeça demoradamente olhando para mim como se estivesse a ver uma ave rara - mas diga-me uma coisa, se souber, como se chama esta árvore aqui que me encanta?
 - METEROSIL... - disse ele tão rápido quanto lento foi o meu entendimento, mas fosse pelo enrolar da língua fosse pelo sotaque ou pela pouca sensibilidade do meu ouvido naquela manhã a coisa soou-me tão estranha que tive de insistir:
 - Desculpe, METERO... QUÊ?
 - METEROSIL! - novamente de chofre voltei a entender...
 - Ah! Obrigado...
E dali saí pouco convencido a soletrar M.E.T.E.R.O.S.I.L para não me esquecer de anotar no caderno de viagem para posterior investigação....   

"Jardim de Velas" - Jean-Charles Forgeronne

E já sentados na "Suspiro" diante de um sumo de laranja e de uma sandes de queijo da ilha a fazer pesquisa internética pergunta a N.:
 - Então, que árvore é aquela?
 - Pois, continua o mistério, não percebi lá muito bem o que jardineiro disse, ou ele estava a gozar comigo ou então inventou porque aquilo que percebi da boca dele -METEROSIL- não encontro em lado nenhum, nem em sites de botânica, a coisa mais aproximada que me aparece é um medicamento laxante para emagrecer... 
 - Bom, quem sabe, talvez um chá feito com as folhas desta árvore te faça perder essa barriga... 
Ali não achei piada nenhuma mas passados alguns dias, já a nossa migração ia no Faial e com o assunto quase esquecido, a história da árvore misteriosa voltou à baila e então sim tornou-se engraçada...  

"Dragoeiros", Faial - Jean-Charles Forgeronne

Era domingo à tarde, tínhamos descido dos Flamengos e ainda havia tempo disponível antes de rumar  à festa do Peter´s e assim, em boa hora, aproveitamos para explorar o Jardim Botânico do Faial... E de entre as muitas curiosidades que conheci uma me deliciou particularmente: o facto de que cerca de 58% das espécies vegetais dos Açores terem chegado às ilhas através das aves migratórias, grande parte delas vindas de África e que transportam as sementes nas suas fezes... Portanto, é só imaginar, a ave vôa milhares de quilómetros com as sementes no seu intestino e depois, ao pousar nas paradisíacas ilhas da Atlântida alivia-se e assim enriquece a natureza, dando-lhe, por exemplo, vários exemplares de dragoeiro... Ou seja, uma planta cagada...  

"Jardim Botânico", Faial - Jean-Charles Forgeronne

E depois, no final da visita e passando outra vez pela recepção pergunta-nos o simpático anfitrião por detrás do computador:
 - Então, gostaram?
E nós dissemos que sim, claro, e eu dizendo que tinha achado piada a muitas curiosidades e ele, com ar de entendido na matéria (talvez fosse biólogo), ia juntando ainda alguns pormenores interessantes e foi então que me deu a veneta, lembrei-me da árvore misteriosa do jardim de Velas e mostrei-lhe a melhor foto que tinha da árvore:
 - Sabe dizer-me que árvore é esta? - perguntei esperançado...
Ele pegou no telemóvel, olhou e voltou a olhar, e balbuciando qualquer coisa voltou-se e perguntou a um colega que ia a passar, os dois entreolharam-se, talvez fosse isto, talvez fosse aqueloutro, e só quando eu contei a história do jardineiro e do METEROSIL é que eles acordaram...
-Ah! METROSÍDERO! É isso! - disseram ao mesmo tempo e já um deles fazia uma pesquisa e voltava o ecrã do computador para nós com uma foto lindíssima de uma irmã gémea da nossa árvore-mistério...


"Trovisco-explosivo", - Jean-Charles Forgeronne

 - METROSÍDERO! - exclamei! - Que raio de nome para uma árvore!
Afinal, o jardineiro tinha feito o melhor que pudera, entre o METROSÍDERO que ele tentou dizer e o METEROSIL que eu percebera ia pouca diferença, os dois nomes são horríveis e de facto só apetece laxar no assunto e nestes nomes esquisitóides... Mas pronto, honra seja feita ao METROSÍDERO, parece que é a árvore nacional da Nova Zelândia, a árvore que para eles simboliza o Natal...
Ouvem-se então umas explosões e então fico na dúvida: serão já os foguetes a chamar para a festa do Peter´s ou serão apenas sementes do trovisco-macho a explodir? Sim, o trovisco-macho (Euphorbia) tem nos Açores uma subespécie muito curiosa: no final da frutificação, caso as condições ambientais sejam favoráveis, as suas cápsulas explodem para dispersarem as sementes o mais longe possível da planta-mãe...
É caso para dizer que nessas alturas é melhor não estar muito por perto e pelo sim pelo não fomos andando para o Peter´s....

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)   

terça-feira, 3 de junho de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LVIII

AS FEZES MAIS BEM-CHEIROSAS

Se no seu passeio à beira-mar por uma qualquer costa açoreana encontrar uma pequena "pedra" cinzento-escura, porosa, leve e parecendo-lhe bem cheirosa, amigo leitor, não a devolva ao mar nem a ignore, pode ter encontrado âmbar, um verdadeiro e raríssimo tesouro!
Um cachalote médio consome mais de uma tonelada de lulas por dia e as partes indigeríveis da lula, as suas peças bucais também conhecidas por bicos, são vomitadas mas, por vezes, algumas conseguem atingir o intestino e assim constituir um perigo para o animal em caso de perfuração; como defesa, o cachalote produz então no intestino o âmbar cinza, uma substância gordurosa produzida com o intuito de envolver os bicos e assim evitar a perfuração bem como facilitar a sua expulsão através das fezes... Para ter uma ideia, certo dia foram encontrados no estômago de um cachalote 18000 bicos de lulas! 


"Museu do Cachalote e da Lula" - Madalena do Pico

Quando encontrado no interior do intestino de cachalotes mortos o âmbar é uma matéria esbranquiçada e fétida mas se encontrada numa praia depois de anos e por vezes décadas a flutuar pelos oceanos apresenta-se cinzento-escura e com um cheiro único, exótico e transcendental, impregnado de aromas intensos, doces e amadeirados que os perfumistas traduzem em paixão e sensualidade... Desde há séculos pago a peso de ouro pela indústria da perfumaria, daí chamar-se também ao âmbar o "ouro flutuante", nunca ninguém conseguiu reproduzir a sua fragrância em laboratório pois é impossível reproduzir o ambiente intestinal do cachalote bem como a acção da água dos oceanos... Para tornar ainda mais preciosas e raras essas fezes perfumadas acresce que apenas um em cada cem cachalotes produz o âmbar!


Fonte: Ambergris Europe

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

sábado, 31 de maio de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LVII

ANDAR DE CARALHO CALÇADO!

Dizem por vezes caridosas almas, e talvez apenas em situações alheias, que "o tamanho não importa"! Mas claro que importa sim senhor, digo eu a plenos pulmões na "Fábrica da Baleia de Porto Pim" ao olhar para a pele de um pénis de um cachalote: fico então a saber que, em média, o pénis de cachalote mede 1.63 metros! Não importa? Do tamanho de um macho médio da espécie humana?


"Pele de pénis de cachalote" - Fábrica de Porto Pim

Do cachalote aproveitava-se tudo, mas tudo mesmo, e era comum transformar a pele de cachalote em couro para o fabrico de solas de sapatos e de albarcas, uma espécie de sandálias ou alpercatas típicas da ilha do Pico que, pela sua resistência e durabilidade, eram a melhor opção para se usar nos rochedos de basalto e nos caminhos de bagacina da ilha... A pele mais procurada e valiosa do cachalote era mesmo a do seu membro viril, devido às suas excepcionais resistência e durabilidade! Ou seja, nada melhor do que andar de caralho de cachalote calçado!...

 


João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)

sexta-feira, 30 de maio de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LVI

O IMPONENTE CACHALOTE!

Não é o maior animal que alguma vez existiu neste planeta do mundo-cão, esse título pertence à sua prima baleia azul, com os seus 30 metros de comprimento e as suas 200 toneladas de peso, mas o CACHALOTE é, talvez, o animal mais imponente de todos entre os que habitaram e aqueles que actualmente habitam a Terra, senão reparemos nos seus atributos que nos foram transmitidos por Malcolm Clarke, um dos maiores especialistas sobre cachalotes e lulas e que viveu e trabalhou no Pico, tendo-nos deixado um riquíssimo espólio fruto do seu trabalho de investigação: 

"Antigo Museu dos Cachalotes e Lulas", Madalena

- é o maior mamífero com dentes que alguma vez existiu;

- possui mais de 20 pares de dentes, entre os 8 e os 20 cm de comprimento, podendo pesar, cada um, mais de um Kg;

- tem o maior cérebro alguma vez conhecido do mundo animal, chegando a pesar 9 Kgs;

- também tem o maior nariz do mundo animal!;

- o seu coração pesa à volta de 560 Kgs;

- o cachalote é o animal que consegue mergulhar mais fundo nas águas geladas dos oceanos, chegando a atingir profundidades de mais de 2000 metros!;

- respira 2 a 3 vezes por minuto, oxigenando mais de uma tonelada de sangue que lhe circula nas veias; quando mergulha, esse sangue enriquecido em oxigénio permite-lhe permanecer mais de uma hora debaixo de água, coisa que nenhum outro animal consegue fazer!;

"Exposição no actual Museu de Cachalotes e Lulas", Madalena

- apesar de nos Açores também comerem uma espécie de polvo e algumas espécies de peixes, o seu principal alimento são as lulas, chegando um cachalote médio a consumir 1350 Kgs por dia, o que, numa estimativa anual, no mundo inteiro, significa um consumo de lulas pelos cachalotes na ordem dos 200 a 600 milhões de toneladas;

- o bramido do cachalote, que ultrapassa os 230 decibéis, é o som mais poderoso que algum animal consegue produzir! 

"Madalena, Pico"

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

sábado, 19 de abril de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LV

O VIOLINO DE EINSTEIN

- Isso é mesmo verdade? - pergunta o Alvim ao convidado numa das últimas edições da "Prova Oral"... E o convidado, nada menos que o conceituado neurologista Alexandre Castro Caldas, tinha dito:
- Nem Einstein nem a família doaram o seu cérebro à ciência, o anatomopatologista que fez a autópsia roubou o cérebro e não disse nada a ninguém!
Comungo da estupefacção do Alvim, afinal durante décadas nos convenceram da doação do cérebro para investigação e agora isto, decido encostar o carro para ouvir melhor:
- Meteu-o num frasco - continua o convidado - e durante muito tempo teve o cérebro escondido, ninguém sabia que ele tinha lá o cérebro e depois começou a dar bocadinhos às pessoas que iam descobrindo o que ele tinha feito...


"Fragmentos do cérebro de Einstein" - Fonte: SuperInteressante

Eu próprio, amigos, preservo no meu laboratório privado de Valmedo o cérebro de um humanoide conservado em álcool para posterior investigação e claro que quando chego a casa, podre de curiosidade, a primeira coisa que faço é fazer pesquisa sobre o assunto e cai-me em cima uma catadupa de factos e confirmações sobre o roubo do cérebro de Einstein, parece que Thomas Harvey, o tal médico que fez a autópsia, roubou mesmo o cérebro, cortou-o aos bocadinhos e depois foi distribuindo-os assim como quem dá limões aos vizinhos... O certo é que ficou arruinada qualquer investigação credível sobre o genial cérebro, ao conservá-lo em formol ficou estragado depois de tanto tempo e ao desfazê-lo em pedaços invalidou qualquer estudo sobre dimensão ou estrutura, por exemplo...


"Cérebro em Valmedo"- 

Depois, ao longo de várias décadas, algumas manchetes sobre coisas especiais sobre o cérebro de Einstein foram espicaçando o mistério e a controvérsia, por exemplo a de que o cérebro era mesmo especial porque apresentava as vias de transmissão entre os dois hemisférios mais desenvolvidas mas, ouvindo novamente Castro Caldas:
- Nada de extraordinário, Einstein tocava violino, e sabe-se que os violinistas têm essas ligações mais desenvolvidas!
E concluindo, nada melhor do que ter em conta o que dizia o próprio Einstein:
 - "A única coisa de anormal que tenho é a minha curiosidade"!

João Alquimista
(Investigador de Valmedo)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LIV

PORQUE TÊM OS PINGUINS A BARRIGA BRANCA?

Adivinha: qual é o bicho que é ave e não voa e que anda sempre em traje de cerimónia? Pois, é caso para perguntar se o alfaiate inglês que um dia inventou o fraque não terá tido como modelo e inspiração o elegante e aprumado pinguim?! Mas não é fácil, essa indumentária festiva dá muito trabalho ao pinguim já que a cada período de duas a seis semanas ele renova todas as suas penas e se atentarmos na sua longevidade média, 20 anos, imagine-se o número de fraques que ele usa ao longo da sua vida!


Mas esta simpática e curiosa ave, para além da sua icónica indumentária, apresenta-nos outras curiosidades, logo à cabeça o facto de ela, algures no processo evolutivo da espécie, ter optado pela natação em detrimento do voo ao transformar as suas curtas e compactas asas em poderosas barbatanas, e é sabido como o pinguim é um exímio e rápido nadador... Outra característica extraordinária reside nas relações sociais, por exemplo o Pinguim-imperador, o maior de todos os pinguins, é uma espécie monogâmica, reconhece a cara-metade pela voz e a união é para toda a vida! Além disso o macho, ao contrário de muitas outras sociedades animais, não se limita a fazer de chefe-de-família, é ele quem recebe o ovo da fêmea e o transporta sobre as patas e depois o mantém quente ao cobri-lo com uma prega existente na sua pele, assim o ovo é mantido a 42ºC, ainda que a temperatura ambiente possa descer até aos -60ºC!


Quando está na água à procura de alimento e precisa de descansar, o pinguim boia de barriga para baixo, deslizando lentamente à tona, daí a importância de as suas penas ventrais serem brancas, é que os seus predadores submarinos, ao olharem para a superfície, não os conseguem distinguir contra a claridade exterior... Eis a importância de uma camisa branca!
Mas os pinguins ainda são uns verdadeiros especialistas noutra modalidade: caminhar no gelo! Não há pai para eles, verdadeiros mestres do equilíbrio sobre superfície escorregadia, daí a sua postura corporal nos ser aconselhada a imitar quando caminhamos sobre o gelo, mas atenção, convém não ser assim tão perfeito na imitação especialmente quando estamos mesmo à beirinha da água, é que podemos ser mesmo confundidos com um pinguim e acabar na boca de uma foca ou de um tubarão...

João Atemboró 
(Naturalista de Valmedo)

domingo, 5 de janeiro de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LIII

QUEM TEM LATA SAFA-SE!

Já a noite ia caindo quando fugi da Fortaleza de Peniche em direcção ao Cabo Carvoeiro para a obrigatória volta ao redor da península, a Nau dos Corvos resumia-se a uma silhueta escura na bruma, já era preciso um esforço para vislumbrar os contornos das Berlengas e ao passar pela Papôa lembrei-me que tinha que passar pelo supermercado para me abastecer de uns víveres para a confecção do jantar, que essa coisa de ser chef  lá em casa não é fácil...
E agora aqui estou, alheado da azáfama com que uma multidão faz as compras de última hora como se o mundo fosse acabar em breve, tenho uma lata de conserva na mão e penso em quanta história nos pode ela contar; a lata, que contém uma posta de atum selvagem, é da Ramirez, simplesmente a mais antiga conserveira de peixe do mundo, em funcionamento há 171 anos e que é uma empresa bem portuguesa, foi fundada em Vila Real de Santo António por um espanhol, Sebastian Rodriguez, e que hoje, passadas 5 gerações ainda é liderada pela família...



A empresa expandiu depois a sua actividade ao implementar fábricas em Leça da Palmeira e aqui em Peniche, ambas encerradas em 2014 devido à concentração da sua actividade numa fábrica mais moderna e ecológica na Lavra, Matosinhos, e talvez isso tenha contribuído para que hoje se respire por aqui um ar mais saudável, aquela pestilência que nos assaltava os sentidos quando passávamos a rotunda da Nossa Senhora da Boa Viagem deixou de existir...
Depois vem-me à lembrança uma curiosidade que descobri há pouco na visita que fiz ao Museu da Liberdade e Resistência: utilizavam-se latas de conserva para o envio de comunicações clandestinas para os presos políticos detidos no forte! 

Conteúdo: atum e mensagem secreta!

É verdade, as mensagens eram colocadas no fundo da lata, cobertas com o atum ou a sardinha e depois a tampa era soldada... Ao destinatário bastava desacoplar a chave e abrir a lata, coisa que caiu em desuso pois na década seguinte a Ramirez, desafiada por um importante cliente, introduziu a nível mundial as latas de abertura fácil, ou seja, implementou aquela argolinha com que hoje em dia abrimos qualquer lata de conserva... 
E pronto, sigo viagem e com uma ideia para o jantar: atum em conserva!

João Ratão
(Chef de Valmedo)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024


CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LII 

FOI PEIXE QUE SE DERRETEU!

"Foi peixe que se derreteu!"... Tantas vezes ouvi a minha avó bradar isto aos céus quando procurava algo que desaparecera, a última das quais por entre galinhas e coelhos que fugiam alvoroçados do alcance do pau com que ela ia explorando o quintal, e que na inocência da minha juventude me convenci ser uma expressão dos antigos para essas ocasiões apesar de tão estranha me soar, uma parvoíce mesmo, pois onde raio é que o peixe alguma vez se derrete, perguntava-me eu, mas hoje, passado tanto tempo, constato que nunca ouvi mais ninguém proferi-la e interrogo-me se não terá sido mesmo uma expressão inventada pela avó Cotiles para essas intrigantes ocasiões em que parece impossível algo ter desaparecido sem explicação e fugido ao nosso controlo visual e à nossa memória, como se entidades sobrenaturais andassem a mangar connosco...


"Ilusão de óptica"- Jean-Charles Forgeronne

"Foi peixe que se derreteu!" - desta vez fui eu que o disse bem alto passados tantos anos e apenas os pássaros me ouviram, já meio tonto de tanto olhar por entre os troncos e espreitar por debaixo da vegetação rasteira deste labiríntico bosque, "que raio de ideia tive de vir aqui, não havia necessidade", continuo com o desabafo... De facto havia uma razão muito forte para ter regressado a este meu bosque de estimação e que era fotografá-lo a uma determinada luz e de um particular jeito de forma a replicar o máximo possível o bosque de bétulas pintado por Antonin Slavicek e que tinha visto na Galeria Nacional de Praga dias antes... Lá, ao olhar para a tela senti-me transportado para aqui, e agora, fotografias prontas, sinto-me como a Alice em queda livre toca adentro em perseguição de um coelho fantástico que me roubou os óculos e que não consigo alcançar por mais que tente, três dias aqui vim em exaustiva pesquisa e pela terceira vez sairei frustrado e sem compreender, os malditos óculos teriam que estar aqui, não havia outra explicação, no domingo de manhã ainda voltei ao parque de estacionamento do Lidl, poderiam ter caído ao entrar no carro mas nada, nem ninguém tinha entregue algo perdido a alguém da loja, na segunda tinha regressado aqui ao bosque e nova demanda infrutífera, nem na GNR alguém os tinha lá deixado, e hoje, armado de varapau para bater bem o terreno por debaixo das ervas e nova desilusão... 

"Visão turva" - Jean-Charles Forgeronne

A minha cabeça jura-me que cheguei aqui com eles, aliás foi aqui que dei pela sua falta, portanto onde raio se esconderam, só mesmo caindo na toca que leva ao país das maravilhas ou então, porque não, uma daquelas garças além os tenha levado para o seu ninho para ler à noite ou então, ainda melhor, o javali que esgravatou a terra que agora piso anda por aí com a caixa dos óculos trespassada por uma das suas presas, como um troféu... "Estou a enlouquecer", penso ao admitir essa hipótese... E no entanto, volto a dizer: "Foi peixe que se derreteu!"...

"Peixe que derrete"

E no entanto a minha avó tinha toda a razão sem o saber, HÁ PEIXE QUE SE DERRETE! Qual o meu espanto quando descubro que existe um peixe que derrete mesmo, o peixe-caracol, descoberto por cientistas a grandes profundidades oceânicas, entre 6 e 8 mil metros de profundidade e que só aí, nesse ambiente sujeito a grande pressão e temperatura, encontram o seu habitat natural; ora, quando o tentaram trazer para a superfície para o estudar aconteceu simplesmente que ele desapareceu, o seu corpo constituído por uma massa gelatinosa translúcida não aguenta a mudança de pressão e simplesmente derrete! "Foi peixe que se derreteu!" - terão dito os boquiabertos cientistas... 
Não me admira nada que um dia destes se descubra que neste mundo-cão também há óculos que se derretem!

Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo"

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

 

CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO LI


52 HERTZO BICHO MAIS SOLITÁRIO DO MUNDO


Vai chovendo lá fora como há muito não acontecia, estou de comando na mão e esparramado no sofá tentando ignorar um ligeiro sentimento de culpa porque muitas coisas havia para me ocupar o tempo mas indulto-me porque estou derreado após um treino de natação madrugador e agora parei o zapping ao reparar num episódio do CSI que nunca tinha visto e numa cena em que o detective e entomologista Gil Grissom vai contando ao assassino terrorista uma história maravilhosa sobre uma baleia: 

"Há um grande mamífero no oceano, a baleia dos 52 hertz, durante todo o ano ele pratica a canção de amor dele para a fêmea, viaja milhares de quilómetros para encontrá-la, mas quando tem a oportunidade de lhe fazer uma serenata ela não responde. A sua canção de amor é cantada a 52 hertz, uma assinatura sónica uma nota acima do som mais baixo de uma tuba. Uma fêmea ouve entre os 10 e os 15 hertz. Ela não ouve e ano após ano, durante 100 anos, ele canta a sua canção mas nunca tem resposta. Eventualmente, acaba por morrer, sozinho para sempre. Chamam-lhe a baleia solitária."

(CSI, Temporada 16, episódio 2)



Vamos a factos: aquilo que o detective e rosto principal da série afirma é de facto uma curiosidade verdadeira do mundo-cão, a baleia 52 hertz foi descoberta em 1989 no oceano Pacífico por cientistas do Instituto Oceanográfico de Woods Hole, nos USA, é um espécime único de baleia, ou seja, é apenas um único individuo que canta nessa frequência e tem sido rastreado anualmente entre Agosto e Dezembro nas suas viagens entre as ilhas Aleutas e a costa sul da Califórnia; nesses seus passeios nada entre 30 a 70 Km por dia, podendo viajar num só ano mais de 11000 Km! Entre Dezembro e Agosto, embora provavelmente continue a cantar fica em parte incerta e fora do alcance da curiosidade dos cientistas; a baleia nunca foi vista, apenas ouvida, não se sabe sequer se é mesmo uma baleia embora seja bastante provável, mas quem sabe se não será uma espécie desconhecida? Alguns especialistas argumentam que pode ser um exemplar com alguma malformação que lhe afecte o seu canto ou então que possa ser um híbrido de baleia-azul com baleia-comum... Certo mesmo é que é a baleia mais solitária do mundo e durante toda a sua vida, que pode atingir os 100 anos! Já quanto ao facto de na série se aludir à baleia 52 Hertz como um macho romântico e infeliz isso decorre da ficção, havia que explorar os motivos do assassino, uma alma solitária também com uma paixão obsessiva não correspondida...


Realidade e mistério à parte, só depois me ocorreu que estava a ver o último episódio de uma série icónica que perdurou ao longo de 15 anos (!), entre 2001 e 2015, com palco na cidade do pecado, Las Vegas, e que foi preenchendo parte significativa não só da nossa vida como também da nossa relação com a TV, um sucesso estrondoso que levou à produção de dois outros famosos spin-offs, isto é, derivados, CSI Miami e CSI Nova Iorque. É verdade que tanta trama policial levou à exaustão e ao definhamento do modelo mas fica para história o entretenimento, o deleite visual e a descoberta já que braço dado com o crime e o mistério éramos confrontados com muitas curiosidades científicas, ou não fosse a personagem de Gil Grissom inspirada num entomologista e investigador que de facto existiu e que, tal como o detective da série, mantinha larvas e sangue de porco no frigorífico! Para o que desse e viesse...


João Abelhudo
(Investigador de Valmedo)