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domingo, 7 de junho de 2026

 
A RAIVA DO VULCÃO - XIII

O LADO CERTO DA MONTANHA

Acerca do arquipélago dos Açores escreveu há 100 anos Raul Brandão que "O melhor de cada ilha é a ilha que está em frente" e isso é particularmente notável quando observamos o Pico a partir do Faial e nos apercebemos da realidade que emana das palavras do escritor-explorador a proposito do verdadeiro fascínio que a montanha exerce na Horta: "... tão longe que a luz o trespassa, tão perto que quer entrar por todas as portas dentro. Na verdade, parece um efeito mágico de luz, um fantasma posto aí de propósito para nos iludir e mais nada. Toma todas as cores: agora está violeta, logo está rubro. A cada momento uma nova transformação."

"O Pico desde a Horta" - Jean-Charles Forgeronne

Quem anda pelo Pico e em qualquer instante é sujeito a ser magneticamente atraído para a visão parcial do cume da montanha lá no alto, coisa natural, esteja onde estiver na ilha, seja no lado das Lajes ou na costa de São Roque ou até na Madalena pode ser enganado com a percepção de que aquele cocuruto lá em cima não passa de uma montanha numa ilha, mas o Pico não é apenas uma montanha, é a própria ilha! Porque é preciso ainda fazer outra coisa, como Saramago: "É necessário sair da ilha para ver a ilha"! E neste caso não embarcamos em metáforas, é preciso mesmo sair do Pico fisicamente para conhecer a ilha, é necessário ver a montanha do lado certo para a conhecer, tem que se vir à Horta e vê-la em todo o seu esplendor através do canal, mesmo que esteja mau tempo... Só deste lado, do lado da Horta, é possível ver o vulcão na sua plenitude e as encostas da montanha a espraiarem-se para o oceano... Então o Pico revela-se como a ilha-vulcão...

"O Pico desde a Madalena" - Jean-Charles Forgeronne
João Lava
(Vulcanólogo de Valmedo)

domingo, 20 de julho de 2025

 
A RAIVA DO VULCÃO - XII

CAPELINHO, CAPELO, CAPELÃO...

    No dia 27 de Setembro de 1957 teve início no Faial um dos acontecimentos mais importantes da história da vulcanologia do planeta mundo-cão, perto do ilhéu dos Capelinhos, então situado a 1 Km da costa da península do Capelo, deu-se uma violenta erupção vulcânica submarina que a grande altitude projectou uma colossal quantidade de cinzas e vapor de água! O depois chamado Vulcão dos Capelinhos só terminou a sua actividade no dia 24 de Outubro de 1958 e durante esses intermináveis 13(!) meses foi, como nenhum outro até agora, observado, documentado e estudado... Felizmente ninguém morreu mas o impacto da erupção foi tal que aumentou a ilha em 2.4 Km2 e devido à destruição de casas, terrenos agrícolas e pastagens obrigou ao êxodo de metade da população da ilha para a América!  

"Capelinho" - Jean-Charles Forgeronne

O Capelinho do Capelo transformou-se então num Capelão e debaixo de toneladas de cinzas e areias vulcânicas ficaram então soterradas outras toneladas de memórias e vivências das gentes que desertaram, como aquelas do Porto Comprido por onde passavam os homens originários de várias ilhas e que depois de pernoitar na Casa dos Botes abalavam com coragem para a caça à baleia... O farol, esse, que também deve ter muitas histórias por contar, ali continua de pé, como devem estar os faróis mortos...


"O farol" - Jean-Charles Forgeronne

João Lava
(Vulcanólogo de Valmedo)

sexta-feira, 8 de novembro de 2024


A RAIVA DO VULCÃO - XI 

DENTRO DE UM VULCÃO!

O que não falta nos Açores são vulcões, só na ilha de São Miguel contabilizam-se cerca de 500(!) e em todo o arquipélago 26 estão activos, 8 dos quais submarinos e apesar de não darem sinal há séculos podem entrar em erupção a qualquer momento... Na Terceira e desde 2022 tem o Vulcão de Santa Bárbara dado sinais de reactivação colocando em alerta os cientistas e a população, a ele se deve a actividade sísmica registada nos últimos tempos, felizmente com fraca intensidade...


"Cratera do Vulcão de Santa Bárbara" - Jean-Charles Forgeronne

Aos amantes da vulcanologia não faltam motivos de interesse para uma exploração da ilha Terceira, não pela quantidade de vulcões mas sim pela sua variedade e beleza, no meu caso o prazer da descoberta começou logo aquando da chegada a Angra do Heroísmo ao levantar o olhar para a imponente montanha a que chamaram Monte Brasil e que domina lá do alto a baía e a cidade, e é bem possível que os mais distraídos não sonhem sequer que estão a olhar para um vulcão submarino, é necessário subir lá acima e descobrir a cratera para tirar as dúvidas....

"Cratera do Monte Brasil" - Jean-Charles Forgeronne

Para encontrar sinais de outro vulcão submarino basta olhar para leste e contemplar o Ilhéu das Cabras, um conjunto de dois rochedos e que, sendo a parte visível das paredes da cratera, é hoje uma zona de nidificação de aves marinhas...

"Ilhéu das Cabras" - Jean-Charles Forgeronne

Mas o clímax acontece quando entramos  Algar do Carvão adentro, um dos poucos vulcões visitáveis no mundo inteiro! A cratera do vulcão é a céu aberto e deixa entrar a luz natural, e que sensação e que deslumbramento é depois a descida pela chaminé do vulcão até aos 100 metros de profundidade, por entre paredes revestidas a vegetação, estalactites e estalagmites, até encontrar lá no fundo uma lagoa de água cristalina... E dá para imaginar se ali não estamos em pleno Agartha, esse mítico reino subterrâneo...  

"Algar do Carvão" - Jean-Charles Forgeronne

João Lava
(Vulcanólogo de Valmedo)

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

                                            A RAIVA DO VULCÃO - X

O ACORDAR DA VELHA MONTANHA...

Há vinte e seis dias atrás e após décadas de disfarçado sono a velha montanha decidiu acordar e fazer prova de vida, o Cumbre Vieja desatou a expelir cinzas e lava como se não houvesse amanhã e, pensando bem, que amanhã teremos se as forças subterrâneas deste planeta se unirem para um grande apocalipse? Afinal, por estes dias, três vulcões se revoltaram em simultâneo na Europa, nas Canárias, na Sicília e na Islândia, será uma conspiração vulcânica? Por enquanto a importância do fenómeno que ocorre nas Canárias limita-se a um parco minuto no alinhamento dos telejornais e é apresentado como uma curiosidade excêntrica da natureza, um fait-divers para encher tempo de antena e quota de mercado audiovisual... Ainda assim, os rios de lava incandescente embora lentos mas imparáveis queimam tudo à sua frente e já cobriram 600 hectares de terra e aumentaram a ilha em 20 hectares, para além dos mais de 1300 edifícios destruídos, muitos deles casas de habitação, para não falar das mais de 6000 pessoas retiradas da zona de catástrofe... E se pensarmos que os especialistas admitem que a erupção do complexo vulcânico pode durar ainda mais dois meses então é caso para perguntar: até onde pode descambar o fenómeno?

Mas acontece que o até agora tímido e desconhecido vulcão das Canárias tem sido desde há muito referenciado como o possível epicentro de uma catástrofe de consequências apocalípticas e que afectaria todo o planeta... E tudo começou há cerca de vinte anos com os estudos de dois cientistas, Stephen Ward e Simon Day, que concluíram  que o futuro colapso do flanco ocidental do Cumbre Vieja poderia causar um mega-tsunami que atingiria o litoral oeste da Europa, ou seja nós, mas também a África e a América, afinal seria toda a vertente sudoeste da ilha estimada em 500 mil milhões de toneladas a colapsarem mar adentro! Podem alguns sossegar porque os peritos do Instituto Vulcanólogo das Canárias têm vindo também há muitos anos a desmentir esse cenário, acham eles impossível que tal tragédia ocorra mas, porque não duvidar, alguém pode mesmo garantir a segurança de um planeta ameaçado?

Yellowstone, inferno disfarçado?

Estão referenciados 20 supervulcões no planeta, sistemas vulcanosos gigantescos que podem a qualquer momento entrar em convulsão e extinguir a vida deste mundo e onde apenas algumas bactérias poderiam sobreviver, afinal outro recomeço, certo? Exemplo célebre é o vulcão de YELLOSTONE, situado no parque nacional homónimo e que se sabe ter uma cratera a rondar os 100 quilómetros de extensão, afinal toda aquela natureza superficial e exuberante do parque disfarça uma caldeira que pode explodir a qualquer momento! As profecias nem sempre se cumprem, felizmente, teorias do fim do mundo fracassadas já se contam às dezenas mas cada vez mais há gente convencida de que o Apocalipse não virá do céu, nem sob a forma de meteorito nem por invasão alienígena, nem sequer será provocada por um vírus mortal arrasador mas sim virá das profundezas, uma revolução vulcânica global... Talvez seja exagero ou ansiedade mas fiquei um pouco preocupado ao saber que no passado sábado desabou o cone norte do Cumbre Vieja, e se tivesse sido o ocidental, como alertou a teoria do mega-tsunami? Aguardemos, mas já agora e como isso pode mesmo vir a acontecer, com vagas de 50 a 100 metros na Madeira e 10 a 20 metros na costa oeste lusitana, já decidi, amanhã não me aproximarei muito da Praia da Areia Branca nem de Vale de Frades...


João Lava
(Vulcanólogo de Valmedo)

quinta-feira, 5 de novembro de 2020


A RAIVA DO  VULCÃO - IX


E SE A TERRA TREMER A SÉRIO?


Dou comigo a desejar que quando a Terra tremer a valer neste sísmico país seja eu apanhado como estou hoje, em campo aberto e a correr por entre estes frondosos pinheiros, de câmara fotográfica armadilhada e à mão de semear e de olhos apontados para a copa das árvores, cabeça em movimento de radar na busca da mais ínfima agitação que denuncie a presença dos dois esquilos com que me cruzei um par de vezes há semanas em encontros imediatos de terceiro grau e que, por tão surpreendentes que foram, nem me deram tempo para lhes tirar um retrato... E durante este tempo que passou para aqui tenho vindo à caça dos esquivos bichos, sem sucesso até agora mas animado de uma romântica esperança de que eles, por já me considerarem um amigo, uma grata persona que apenas os quer fotografar, baixem a guarda e me façam uma bela pose...



 Muita gente tem a mania de desvalorizar tudo o que são acções, campanhas e treinos de sensibilização para os comportamentos a ter em caso de calamidade, como se fossem brincadeiras a fazer de conta porque isso de grandes sismos ou outras catástrofes naturais só acontecem de séculos a séculos ou em filmes e, regra geral, especialmente aos outros, lá pelas Filipinas, pela América latina ou pela esquizofrénica quinta do Trump, mas depois, quando algo de trágico acontece e nos toca de perto, logo levantamos vozes para aquelas instituições que deveriam ter feito isto e aquilo, que deveriam ter prevenido e informado, que deveriam ter feito alguma coisa, afinal para que servem, pergunta-se logo em catadupa... Pois bem, e para memória futura, a AUTORIDADE NACIONAL de EMERGÊNCIA e PROTECÇÃO CIVIL está de parabéns pela iniciativa que promove neste exacto instante: um singelo minuto de treino e reflexão simulando a reacção a ter perante uma eventual catástrofe sísmica de grandes dimensões, e certamente não foi por acaso que foi escolhido o mês de Novembro, afinal é incontornável a memória do grande sismo de 1755 que destruiu Lisboa e assustou toda a Europa!


"O terramoto de 1755" - João Glama, MNAA

Ora bem, como estou na rua, manda o protocolo que não deva correr ou vaguear por aí sem destino, por isso interrompi no segundo exacto o meu treino e encontro-me aqui parado, calmo mas não sereno como mandam as instruções porque de tão ofegante que estou vou-me curvando de mãos apoiadas nos joelhos e cuspindo os bofes, nem tudo pode ser perfeito, certo? Estou em plena natureza, afastado de qualquer edifício, longe de muros, taludes, chaminés ou postes de alta tensão, estou a cumprir escrupulosamente as instruções e parece que o mundo parou, tudo está em suspenso, o silêncio é aterrador, até o vento amainou e no entanto a terra não treme, apenas um ramo se agita sobre a leveza de um esquilo em movimento... Claro, os primeiros a se aperceberem de que algo de anormal está para acontecer são os animais e se este anda para aqui aos saltos de pinheiro em pinheiro é porque ainda não é hoje que a catástrofe anunciada irá acontecer! Procuro a máquina, disparo de instinto e catastroficamente sai-me esta imagem:




Não ficou grande coisa, reconheço, mas pelo menos fiquei a saber como agir perante um grande sismo em plena natureza, quanto a outros cenários, seja em casa, noutros edifícios, no carro, nos transportes públicos, é só perder um minuto e pesquisar no sítio da Protecção Civil, pode valer uma vida...  E continuo esperançoso de que ainda consiga tirar um retrato de jeito aos esquilos antes que um grande terramoto nos leve a todos!

Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

 

A RAIVA DO VULCÃO - VIII

OU

EFEMÉRIDE # 77


O VESÚVIO, A BAÍA E A PIZZA...


O dia tinha amanhecido tranquilo como era usual mas aquela manhã de 24 de Agosto de 79 ia ser muito diferente para POMPEIA HERCULANO, duas prósperas cidades graças ao comercio de vinho e porcelanas, no primeiro caso, e à pesca, no segundo; situadas no sopé do vulcão VESÚVIO e à beira de uma bela baía hoje chamada de Nápoles eram como que um paraíso para os seus felizes habitantes mas pelas 10 horas daquela fatídica manhã toda a gente foi surpreendida por violentas explosões vindas do cimo da montanha há muito adormecida e de repente foi como se o inferno lhes tivesse caído em cima, pedaços de rocha voam do alto, nuvens de gases sufocantes abafam as cidades, rios de lava invadem as ruas e chuvas de cinzas e pedra-pomes sepultam todos os edifícios matando 20 000 pessoas!


"O último dia de Pompeia" - Karl Bryullov


Em menos de três horas as duas cidades desapareceram e durante os três dias seguintes a escuridão foi total, e quando o sol voltou a brilhar POMPEIA E HERCULANO estavam enterradas vivas sob uma camada de 4 a 7 metros de matéria vulcânica e assim ficariam esquecidas do mundo durante 1600 anos... Voltariam a ver a luz do dia em 1594 quando, por acaso, ao escavarem um canal para uma conduta de água uns trabalhadores deram de caras com uns frescos numa parede onde estava escrito o nome da cidade de Pompeia... E ficaram para a posteridade os corpos petrificados das vítimas em aflição, mortos por asfixia, debaixo de rochas ou sufocados nas ruas estreitas pela multidão descontrolada.



Hoje, passados quase 20 séculos, o VESÚVIO lá continua, dominando Nápoles e a sua baía, sereno por enquanto como na véspera do histórico cataclismo e essa memória parece não tirar o sono aos napolitanos que vão confiando na longa sesta do vulcão e na monitorização exaustiva a que a montanha é sujeita. Enquanto isso, tal como em Pompeia e Herculano outrora, a vida corre feliz cá em baixo ou não fosse NÁPOLES o berço da pizza e do ragu... Pena é já não parar pelo San Paolo o Maradona, o eterno rei dos napolitanos que deslumbrava o mundo, bem que se poderia trocar pela Camorra!



"Baía de Nápoles sob o Vesúvio" - João Plástico


João Lava

(Vulcanólogo de Valmedo)

quarta-feira, 27 de setembro de 2017



EFEMÉRIDE # 26

A RAIVA DO VULCÃO - VII


Os Capelinhos eram dois pequenos ilhéus situados a 200 metros da ponta da costa, na freguesia do Capelo, Faial... E de repente, em Setembro de 1957, deixaram de ser apenas uma curiosidade tranquila para quem por ali se perdia na contemplação do vasto oceano ou de visita ao farol  para se tornaram numa atracção mundial... É um caso único na história da vulcanologia, a actividade do vulcão dos Capelinhos foi observada, filmada, fotografada e estudada pelos cientistas durante 13 meses(!), desde a emissão dos primeiros gases a 12 Setembro até ao adormecimento ocorrido em Outubro do ano seguinte...







Ao longo desse tempo ocorreram duas grandes erupções, a primeira das quais há precisamente 60 anos, no alvorecer do dia 27 de Setembro e que iria transformar para sempre a realidade física e social da ilha do Faial.... Enquanto a lava submarina ia ligando os ilhéus à terra, terríveis explosões desencadeavam a emissão de toneladas de cinzas e outros materiais que destruíram sem apelo habitações e campos de cultivo, levando ao êxodo das populações para o interior da ilha...







Enquanto a ponta dos Capelinhos crescia mar adentro e se transformava numa península, por entre correntes de lava e um cenário apocalíptico, receando o fim do mundo e o futuro pintado de negro, já muitos açoreanos debandavam em busca de paragens mais tranquilas... Calcula-se que cerca de 17000 pessoas (metade da população da ilha na altura) emigraram então para os Estados Unidos, naquela que foi a primeira grande vaga de emigração da história dos portugueses.  







E tudo um vulcão pode mudar....


João Breve

(Cronologista de Valmedo)

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A RAIVA DO VULCÃO  -  VI


       Neste preciso momento, para fugir ao inverno que se aproxima, milhões de BORBOLETAS-MONARCA já iniciaram a viagem que as irá levar desde o sul do Canadá e norte dos Estados Unidos até ao México. É um dos mais fascinantes acontecimentos que ocorrem na natureza deste planeta, afinal como pode um insecto efémero tentar essa façanha só ao alcance das aves mais poderosas?


       É um grande mistério... ainda por resolver! Enquanto a esmagadora maioria dos insectos HIBERNA, para fugir ao frio ameaçador e letal, a borboleta MONARCA teve um sonho e decidiu arriscar: imitar os pássaros e voar para além da imaginação, transcender a realidade e a cruel existência e tornar-se imortal, ultrapassar todos os limites...


       O mais extraordinário desta aventura é que nenhum destes milhões de insectos alguma vez a viveu na sua plenitude, quanto mais para a contar....  A viagem de cerca de 4000 Km é feita por várias gerações de borboletas; uma monarca, na melhor das hipóteses de sobrevivência, não vive mais do que umas semanas e à velocidade média de 70 Km por dia significa que as borboletas que iniciaram a viagem nunca a terminarão e que aquelas que a finalizarão não a iniciaram... esta migração (ida e volta) exige 4 (!) gerações....



   Como é que um frágil insecto de 70 mm de envergadura e que pesa menos do que uma grama é capaz de uma façanha destas?
    Instinto de sobrevivência? Sacrifício em nome da espécie? Seja o que for, é transcendental...
    E o quente paraíso e local de recolhimento das MONARCHA no retiro mexicano são as florestas de Abetus Oyamel, as mesmas árvores onde gerações anteriores viveram, no sopé dos vulcões mexicanos....

   
     
      A PIEDRA HERRADA, o santuário das Monarca, muitos turistas ocorrem para assistir ao magnífico espectáculo de milhões de asas laranja com riscas pretas a esvoaçar por entre os abetos....
          Enquanto isso os vulcões de JALISCO e VERACRUZ dormem....
   

      E desde sempre as borboletas monarca chegam aos vulcões do México no final de Outubro, quando os mexicanos começam  a celebrar o Dia de los Muertos; as famílias ornamentam os lares com malmequeres, comem doces em forma de caveiras e alumiam tudo para guiar os espíritos dos antepassados para casa.... E acreditam que cada borboleta laranja a esvoaçar por ali naqueles dias é um antepassado seu que voltou à Terra para os visitar...
   
                  Lá para Março, quando o sol se aproximar do hemisfério norte, recomeçará a viagem de volta e muitos milhões de asas laranjas voltarão a inundar o horizonte....              
     


       



            

sábado, 20 de agosto de 2016

A RAIVA DO VULCÃO - V

Quando as cerejeiras florescem...


         O MONTE FUJI, com os seus 3776 metros de altitude  não é apenas o ponto mais alto de todo o arquipélago japonês, é também um vulcão activo, um dos símbolos mais importantes do país e um dos locais turísticos mais visitados do mundo. É famosa a enorme atracção que esta imponente montanha exerce no povo japonês e nos muitos turistas que a visitam, sejam eles pessoas comuns, alpinistas (200 000 escaladas feitas anualmente), viajantes de comboio (a melhor forma de apreciar a paisagem) ou mentes desesperadas.... 


    





  E se por acaso alguém sofrer o infortúnio de ficar retido em Tóquio nem tudo perderá, o Fuji, apesar dos 160 quilómetros de distância, em dias límpidos é visível da capital... 
   Por ser considerado um lugar sagrado e uma enorme fonte de inspiração artística, o Monte Fuji foi reconhecido como Património da Humanidade pela UNESCO em 2013, para o qual contribuiu decerto o grande  HOKUSAI com a sua série de gravuras " 36 vistas do Monte Fuji ".


"A grande onda de Kanagawa" - HOKUSAI
       
      Outra razão que leva muito boa e perdida gente a procurar as imediações do vulcão é o "MAR DE ÁRVORES", nome pelo qual é conhecida a floresta de Aokigahara, situada na base nordeste da montanha e que é o segundo local do planeta onde se cometem mais suicídios, apenas atrás da Golden State em S. Francisco. Devido à densidade do arvoredo e à ausência de fauna, naquele ambiente reina o absoluto silêncio, sente-se uma estranha energia e diz-se que por ali vagueiam os espíritos de quem por lá pôs termo à vida (mais de uma centena suicídios por ano)... 

Mar de Árvores


       Quem por lá andou recentemente foi MATTHEW MCCONAUGHEY, o recém-oscarizado de Hollywood, não porque quisesse pôr termo à existência mas antes para dar vida à personagem suicida que interpreta no já polémico e último filme de GUS VAN SANT, como não poderia deixar de ser intitulado "THE SEA OF TREES", sendo melhor não arriscar a tradução que irá ser feita para português tendo em conta a liberdade criativa e a excentricidade do pessoal que legenda os filmes por cá... 
         A película tem estreia marcada na América para a próxima semana e depois da celeuma que levantou no Festival de Cannes promete cativar e dividir opiniões..






TRAILER - The sea of trees



João Lava
(Vulcanólogo de Valmedo)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A RAIVA DO VULCÃO - IV
                                                         

        Dizia-se de JOHN HUSTON que era tão genial como teimoso e ainda bem que assim era pois foi a sua famosa persistência em realizar filmes a partir de romances considerados por muita gente do show business como impossíveis de transpor para a tela que permitiu o aparecimento de " Debaixo do Vulcão" ou "O Falcão de Malta", por exemplo.

  
 Debaixo do Vulcão - trailer




         E se é verdade que a sua profícua obra é irregular pois, apesar de ter produzido várias obras-primas e muitas obras de interessantes, também realizou filmes medianos e até alguns de fraca qualidade, o que Huston nos deixou foi um legado ímpar na 7ª Arte. "Debaixo do Vulcão" (1984) não será das suas maiores realizações mas teve o condão de nos presentear com uma das mais fantásticas interpretações de sempre: ALBERT FINNEY, corporizando de uma forma magistral a complexa e autodestrutiva personagem  do Cônsul George Firmin, um alcoólico-suicida por desgosto de amor!  E o maior elogio que lhe pode ser feito é que parece impossível Finney ter conseguido interpretar os exageros alcoólicos do Cônsul sem estar bastante alcoolizado!...  É caso para dizer, actor a mais para um filme curto, evidência aliás reconhecida pelos seus pares pois foi nomeado para o Óscar de melhor Actor Principal.... Não ganhou nesse ano (F. Murray Abraham ganhou por Amadeus), como não ganhou nas outras três nomeações anteriores  ("As aventuras de Tom Jones", 1963 - "Crime no Expresso do Oriente", 1974  e "O Fiel Camareiro", 1983), injustiça cruel para um dos melhores actores da sua geração! Finney seria ainda nomeado para  Melhor Actor Secundário por "Erin Brockovich", 2000, mas voltou a não ser distinguido....

          É daqueles casos em que ganhou o Óscar sem lhe terem dado a estatueta, quem vir o filme entenderá....


Popocatepl
     Do romance de LOWRY à realização de HUSTON e passando pela genialidade de FINNEY, eis um vulcão de emoções a descobrir....  E como curiosidade, a Yvonne é interpretada por Jacqueline  Bisset, por muitos considerada uma das mais belas actrizes de todos os tempos...
     






        E a estes ingredientes junte-se ainda a beleza das colinas de Cuernavaca e o respirar da alma mexicana...




João Película

(Cinéfilo de Valmedo)

sábado, 2 de janeiro de 2016

A RAIVA DO VULCÃO - III


          Muitas podem ser as razões que nos levam a encontrar as obras que marcam o nosso imaginário pela vida fora e foi a leitura casual da badana do volume 60 da "Colecção Dois Mundos" que me levou até "DEBAIXO DO VULCÃO" de Malcolm Lowry, era a década de 80 ainda recém-nascida e havia que ocupar o muito tempo livre das ribatejanas e abrasadoras férias grandes. Não foi conselho amigo, não foi crítica literária, não foi obrigação académica, não foi oferta, não foi por conhecer o autor, foi mesmo um acaso, uma fatalidade do destino à boa maneira mexicana....

         "Um romance extraordinário, uma das obras mais notáveis publicadas no século XX...", assim era apresentada a obra, e não era exagero pois passados 30 anos continua a figurar em todos os rankings que se fazem por esse mundo fora como uma das 100 melhores até agora escritas. Para aqui pouco interessa essa publicidade dos críticos e especialistas que muitas vezes endeusam romances que, embora porventura técnica e linguísticamente sublimes, são uma seca complexa e que se tornam aborrecidos e incompreensíveis  (no meu caso não consegui ter qualquer prazer na leitura de "Ulisses", de James Joyce, outra obra considerada  prima e inigualável pela nata dos especialistas e académicos ).
           E enquanto, pela mesma altura, consegui heróicamente ler todas as 844 páginas de "Ulisses" numa única tentativa e tendo chegado ao fim com a sensação de não ter sido capaz de captar a erudição que todos atribuem à obra (mea culpa, obviamente), a leitura de "Debaixo do Vulcão", embora não se tenha revelado nem mais fácil nem mais rápida ofereceu muito mais prazer. É um romance que tem uma aura especial e porque em parte autobiográfico indissociável da invulgar história de vida do seu autor, para ser descoberto e redescoberto a cada nova leitura (já o li aos 20, aos 30 e aos 40, e preparo-me para o ler novamente, e a cada nova abordagem novos prazeres se revelam, às vezes basta ler umas páginas ao acaso e algo de encantador se revela naquelas palavras magicamente entretecidas....
       
            Afinal, o que é que a obra tem assim de especial (ou talvez não para alguns)? Não é apenas um romance sobre o México,  não é apenas um romance sobre o sentimento trágico com que os mexicanos encaram a vida, não é apenas um romance sobre o amor pungente, não é apenas um romance sobre a luta incessante do homem contra os seus remorsos e a fatalidade do destino, não é apenas a história do último dia de vida do Consul George Firmin e do seu suícidio alcoólico, é tudo isso e muito mais....  Como diria Gunter Grass, (vá lá saber-se se gostou da obra ou sequer se a leu) há que descascar a cebola para captar a essência das várias camadas da existência....

         
      Para Malcolm Lowry foi o romance de uma vida, demorou dez anos a escrevê-lo enquanto errava pelas bodegas de Cuernavaca e bebia nas esplanadas à sombra do Popocatepetl, e mais tarde, quando expulso do México por actos menos próprios, enquanto vivia numa cabana no Canadá. Além disso, o romance foi recusado inúmeras vezes pelos editores, o manuscrito foi milagrosamente salvo de um incêndio e só depois da morte do autor a obra alcançou o sucesso!

           "NON SE PUEDE VIVIR SIN AMAR..." dirá com extâse o leitor que se aventurar num mergulho sobre os recônditos da alma humana e não será descabido (honrando a memória de Lowry e do consul) acompanhar o desafio com mescal  porque a tarefa não é uma leitura light, requer compromisso e perseverança, mas não são feitas promessas em vão e após cada capítulo são recompensados todos os minutos investidos....



Malcolm Lowry

João Lava

(Vulcanólogo de Valmedo)

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

                                                               A RAIVA DO VULCÃO - II

         Há 3000 anos, por entre as sombras gigantescas dos vulcões Popocateptl e Iztaccíhuatl e no território que agora é o México, já os antepassados dos Astecas celebravam a vida e a memória dos seus ancestrais em rituais de intensa expressividade. Essa tradição mantém-se ainda hoje como uma das maiores festividades da América do Sul e chamam-lhe a Festa dos Mortos porque se acredita que eles têm, neste dia 2 de Novembro, permissão divina para visitar os seus parentes. Enfeitam-se as casas e os cemitérios com flores, milhões de velas tornam a noite em dia e incensos perfumam o ar; são confeccionados as refeições e bolos preferidos dos mortos para se comer em casa e junto às campas e o resto é animação com muita música, dança, animações teatrais e desfile de mascarados de MORTE... e claro, bebe-se até cair de MORTO!

      E se os adultos se divertem até à exaustão então as crianças adoram esta alegria contagiante e em especial as caveiras de açúcar, o doce mais apreciado da festa. E desde pequenino, que melhor forma de lidar com a morte e de lembrar os entes queridos se poderia imaginar, honrados ficam os defuntos por tanta alegria em sua memória e aliviados ficam os vivos porque exorcizam a tristeza das suas perdas; que contraste com a tradição ocidental em que os finados são lembrados na mais austera, cinzenta e triste lembrança, cunho repressivo e característico da Igreja Católica neste como em muitos outros casos em que sonegou as festividades pagãs para as moldar ao seu jeito severo. Felizmente ainda houve paganismo que resistisse...

       E honrando a lenda até Iztaccihuatl (Mulher Branca) e Popocateptl (Montanha Fumegante) dão tréguas durante estes festejos, ela uma princesa que se apaixonou pelo bravo guerreiro ao serviço de seu pai. Um dia o rei enviou o amante de Iztaccihuatl para a guerra prometendo-lhe a mão da sua filha se de lá regressasse vitorioso, coisa que não lhe parecia possível. Entretanto outro guerreiro ciumento espalha o boato sobre a morte de Popocateptl e a princesa acaba por definhar de desgosto. Quando o herói regressou vitorioso  a casa e soube da tragédia morreu também de desgosto e aí os Deuses (aqueles que ainda se incomodam com as injustiças) cobriram os amantes de neve e transformaram-nos em montanhas e ainda hoje o Popocapetepl faz chover fogo na terra devido à RAIVA imensa que dele se apoderou por ter sido privado da sua amada....
       Quem sabe se não foi por aqui que Shakespeare se inspirou para as aventuras de Romeu e Julieta? Certo é que muito tempo depois deambulará por estes sítios um cônsul desgraçado...



João Lava

(Vulcanólogo de Valmedo)

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A RAIVA DO VULCÃO - I

       
   " A raiva só é má quando a alma é má também"
                                                                         - Prana, "Raiva"


                                                                                                                  Raiva - PRANA

                                                                              
          Quem nunca sentiu RAIVA? De algo, de alguém, de si próprio ou apenas porque sim? Diz o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa que raiva é um acesso de fúria, arrebatamento violento, cólera, ira, sentimento de irritação, agressividade, rancor ou frustração, todos esses gradientes de exaltação motivados por aborrecimento, injustiça ou rejeição sofrida...
          Bom, aborrecido só anda quem quer, tanta e tanta coisa por fazer neste mundo que basta uma meia dúzia delas para ocupar muito e bem qualquer espírito aberto! Quanto a rejeição, embora muitas vezes possa ser dolorosa e descontadas aquelas em que se merece a rejeição, haverá sempre inúmeras outras oportunidades para sermos aceites... basta melhorar e apresentar outros argumentos! Resta a injustiça, e aí sim não há nada a fazer senão sentir raiva, a injustiça nem sempre é premeditada por alguém ou provocada, simplesmente acontece... (azar, predestinação, Karma negativo, seja o que for...)

            Mas, atenção, a raiva é um sentimento fundamental  para a acção humana, é ela que provoca uma reacção a tudo o que nos repulsa e que apela a uma acção de confronto e mudança da nossa parte e que inevitavelmente nos conduzirá a um estado superior de consciência e auto-estima.

              E quem nunca perdeu o controlo e a CABEÇA num acesso de raiva?  Ora, o caso não é assim tão grave se tivermos em conta que a raiva também é, inquestionavelmente, um sentimento divino. Por acaso, alguém duvida do exaspero dos Deuses ao olharem para este mundo que eles próprios, na sua omnipotência, criaram e que nunca imaginaram que viria a tornar-se neste inferno? Quanto a mim, todos eles devem acordar, trabalhar e deitar com um sentimento de grande raiva...
               
             VULCANO, o deus do fogo e dos vulcões, (representado como um ferreiro) foi talvez o primeiro dos deuses a sentir raiva, coisa natural, digo eu, se tivermos em conta que a pobre criatura foi rejeitada e expulsa do Céu pela própria mãe devido à sua fealdade e disformidade (era coxo). O ressentimento nunca o abandonou e o desejo de vingança também não e questiono eu, quem não faria o mesmo? Bendita raiva! E não é que, apesar destas afrontas, Vulcano não se torna o Deus mais trabalhador, engenhoso e amado do Olimpo? Acaba até por desposar a mais bela das deusas, Afrodite, a deusa do amor, pelos vistos tão bela quanto cabra porque o irá trair inúmeras vezes.... (assim no céu como na Terra). Vulcano bem poderia ser também o Deus dos Cornudos....

       
             E já repararam no modo curioso como sempre se associam os episódios de raiva com o ciclo de um VULCÃO? (adormecimento/ erupção/ acalmia)  Basta que alguém nos diga "estou quase a explodir", "deitar tudo cá para fora", "exteriorizar toda aquela tensão acumulada" ou "qualquer dia rebento"....
             A questão fundamental não é a raiva em si, a qual só é má se for mal gerida e canalizada, é o modo como se está apto ou não para controlar a sua erupção, a boa gestão do ciclo de energia, afinal é isso que o planeta Terra faz através do vulcanismo!   Pudera, com tantos humanos à superfície...
                 
    
               
João Lava

(Vulcanólogo de Valmedo)