terça-feira, 9 de dezembro de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXIII

ALPERGATAS E PÉ DESCALÇO 

No fim do caminho, chegados a Caín, uma pequena povoação à beira de um tranquilo rio e rodeada por imponentes picos calcários, ainda que não conheçamos a história do mítico lugar o nosso olhar é magneticamente atraído para o Pico Urriellu, também conhecido como Naranjo de Bulnes, lá está ele dominando o horizonte, com a lua sobre o ombro, afinal nem é o pico mais alto com os seus 2519 metros de altura mas devido às suas paredes lisas e verticais com mais de 500 metros sempre foi e continua a ser considerada a montanha mais inacessível de toda a Espanha!

"Urriellu com a lua" - Jean-Charles Forgeronne

E foi inacessível até ao dia 5 de Agosto de 1904 quando um aristocrata, Pedro Pidal, marquês de Villaviciosa, um asturiano de gema e então um jovem de 35 anos com a mania e o obcessivo patriotismo de que teria de subir ao cimo daquela montanha antes que algum estrangeiro o fizesse, e o seu companheiro de várias aventuras, Gregório Pérez, pastor de Caín conhecido como "El Cainejo" e já com 51 anos, chegaram ao cume do Naranjo escalando a vertente norte, a partir de Caín...  E percebe-se o porquê da escolha do marquês para seu companheiro de aventura, quem melhor do que o pastor mais experiente e hábil que conhecia todos os caminhos, atalhos, dificuldades, perigos e outra manhas daquelas montanhas, qual cabra montanhesa? Por isso se diz que "Quem é de Caín não morre, cai de penhascos!".

"Escrito na parede em Caín" - Jean-Charles Forgeronne

Consta que para a expedição o marquês mandou vir de Inglaterra a melhor corda de cânhamo e de Paris umas alpergatas, de facto as primeiras sapatilhas de escalada conhecidas, já o nosso pastor de Caín, a quem chamavam também "El Atrevíu", o ousado, aventurou-se descalço!

"O cemitério mais pequeno do mundo?" - Jean-Charles Forgeronne

Outra curiosidade de Caín, aldeia agora deserta exceptuando os cafés e restaurantes que durante o dia recebem os turistas e caminheiros que ali chegam para desafiar a Rota do Cares, é o seu cemitério, uma espécie de quintalzinho mesmo ao lado da pequenina Igreja de S. Tomás e da escultura que homenageia o seu filho mais famoso, e que a ver pela meia dúzia de lápides bem pode ser o cemitério mais pequeno do mundo! Afinal já ninguém morre em Caín, embora ainda haja quem caia dos penhascos...

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

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