OCCIDENTALIS PROFUNDIS - IV
A LUZ DO SOL, MUITOS ANOS DEPOIS...
De volta ao Moledo, onde tudo começou e aonde se regressará sempre, eu e a malta, vindos de actividade radical que nos tinha elevado a moral aos píncaros, acomodámo-nos quase na primeira fila da improvisada plateia ao ar livre para assistir a um concerto de jazz, e que melhor programa para acabar o rico e longo dia em beleza? O largo ao lado da igreja estava iluminado e bonito, colorido e alegre, em frente o pequeno palco instalado num recanto junto da entrada para a sacristia revelara-se uma boa escolha, estava tudo pronto para a música dos SOLARIS, um quarteto que desconhecia por completo mas que me levantava boas expectativas ou não me tivesse sido aconselhado pelo amigo Leirão...
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| "Solaris no Moledo" - Jean-Charles Forgeronne |
Aos primeiros acordes a banda mostrou-se afinada e ao que vinha, base rítmica envolvente e brilho no saxofone e no piano e ainda estava eu a ambientar-me e ainda não tinha olhado sequer com pormenor para todos os músicos quando o saxofonista e porta-voz se apresentou e aos colegas, ele João Vaz Pinto, o baixista Pedro Teixeira, o baterista André Mota e por entre sussurros na plateia pareceu-me ouvi-lo dizer Aurélien Vieira Lino ao piano... Iniciaram o segundo tema e só quando o pianista a dada altura começa a desfilar com desenvoltura e olho para ele com mais atenção é que acordo: "Espera aí, ele disse Aurélien? Será o Aurélien da Ana? Só pode!" ia eu pensando, boquiaberto. E até ao final do espectáculo não tirei os olhos daquele que nunca tinha visto até então na vida mas que tanta história tinha ouvido sobre ele durante anos e anos pela boca de uma antiga colega de trabalho, que entre outras coisas o rapaz tinha jeito para o piano, mais tarde que tinha entrado para o conservatório e que queria fazer disso a sua vida e por aí fora...
E agora, passado tanto tempo para que finalmente nos encontrássemos, parecíamos chegados cada um da sua uma viagem interestelar e depois de uma ausência de anos-luz, e ali mesmo, num impulso desavergonhado, botei conversa no final do concerto e sua simpatia desarmante fez juz ao que dele tinha ouvido, atributo aliás extensível aos restantes elementos do Solaris, e quanto à mestria musical: que dizer de alguém que agora é professor no conservatório e que deslumbra nas teclas como se comprovou naquela noite? Para comprovar isso basta ouvir a "Viagem", o primeiro álbum de originais do grupo, acabadinho de sair, e eu saí do Moledo todo contente e de alma cheia porque ainda trouxe o CD autografado...
João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)


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