Mostrar mensagens com a etiqueta Fotobiografia de um rio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fotobiografia de um rio. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

 

FOTOBIOGRAFIA DE UM RIO - VII

O DANÚBIO - III

"BUDAPESTE é a mais bela cidade do DANÚBIO; uma sábia auto-encenação, como Viena, mas com uma substância robusta e uma vitalidade desconhecida da sua rival austríaca", escreveu Cláudio Magris há três décadas e meia e tal como a cidade essa imagem continua intemporal... E o tempo é relativo em Budapeste, tanto podemos ter a noção de que estamos acelerados em relação ao fluxo cósmico porque a cidade vive a um ritmo agitado e em que se sente a excitação a pairar no ar pronta para nos agarrar como, noutra dimensão, podemos sentirmo-nos parados na história da Europa de tal forma ela respira em cada praça, nos boulevards, nas fachadas, nos passeios ao longo do rio que corre largo e tranquilo e onde a vida o acompanha despreocupada, alegre e gloriosa... Dizem que esse encanto de Budapeste se deve ao seu sangue vadio, fruto da mistura de povos do oriente e do ocidente que as migrações e as conquistas ali fizeram cruzar numa miscelânea cultural ímpar. 

"De Buda para Peste" - Jean-Charles Forgeronne

Budapeste é mais do que uma cidade, de facto são três cidades reféns do Danúbio que ora as separou durante séculos como as uniu numa só a partir de 1873, Óbuda e Buda situadas na margem oeste e montanhosa com as suas nove colinas de onde impera o seu castelo altaneiro e Peste, uma metrópole mercantilista que se estende pela planície da margem leste, e ainda hoje, apesar de juntas, cada uma continua com a sua identidade própria... De uma ou de outra margem o deleite da vista não tem limite, sejam as colinas de um lado ou sejam os icónicos monumentos do outro como o Parlamento ou a Basílica, que serão sempre os edifícios mais altos da metrópole com os seus 96 metros de altura, número transcendente para os húngaros e que honra o ano de 896 em que os magiares ocuparam o território, nenhum edifício poderá ser mais alto!

"Danúbio trágico" - Jean-Charles Forgeronne

Usufruir do rio é vital em Budapeste e mesmo que cheire a programa turístico torna-se obrigatório um passeio de barco entre a Ponte da Liberdade e a ilha Marguerita, preferencialmente ao entardecer para desfrutar da maravilhosa vista do Parlamento iluminado...

"Danúbio nocturno" -Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

terça-feira, 2 de novembro de 2021


FOTOBIOGRAFIA DE UM RIO - VI 

O DANÚBIO - II

Talvez seja a cidade em todo o mundo que seja conhecida por ter tido mais nomes, os gregos chamaram-lhe Istrópolis (literalmente "Cidade do Danúbio"), depois passou a ser  Posonium para os romanos e que aí construíram um castro e posto avançado sobre o DANÚBIO e por isso ainda hoje os húngaros lhe chamam Poznozy, os alemães baptizaram-na como Pressburg, os franceses conheceram-na como Presbourg mas para os eslovacos sempre foi e para sempre será BRATISLAVA, nome com origem em Brezalauspurc, assim se chamava a cidade a partir do século X e que literalmente significa "Castelo de Braslav", um príncipe eslavo que reinou na região durante o século IX... Como se não bastasse, hoje em dia noutras regiões do país tratam a cidade como BLAVA...
 
"Novy Most" - Bratislava, Jean-Charles Forgeronne

Outra característica distintiva de Bratislava é o facto de ser a única cidade e capital europeia que faz fronteira com dois países, Áustria e Hungria, e para isso contribui o Danúbio, ele próprio a fronteira durante grande parte do seu percurso e sendo o rio há séculos uma das principais artérias fluviais da Europa isso tornou a cidade num grande nó de comunicações, não só através do seu porto mas também a nível rodoviário...  Quando chega a Bratislava, o Danúbio é largo, sereno, imponente, belo, nem sempre azul mas sempre mágico, fluindo por entre montanhas e colinas, por entre castelos e séculos de história e aqui chama-se Dunaj... 

"Sereno amanhecer em Bratislava" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

 

FOTOBIOGRAFIA DE UM RIO - V

O DANÚBIO - I

Deixadas as incertas nascentes da Floresta Negra para trás, o DANÚBIO bordeja Viena sem entrar no centro da metrópole, vá lá saber-se porquê, talvez tivesse havido uma razão de força maior para construir a uma razoável distância do rio a imponente Stephansdom, que é como quem diz a Catedral de Santo Estevão, e ao redor da qual se urdiu a cidade medieval... Mas os austríacos são orgulhosos e querendo o rio passar ao largo trataram então de o obrigar a passar pelo centro, vai daí construíram um Danúbio alternativo, o Canal do Danúbio que com os seus mais de 17 quilómetros de extensão, ele sim, beija o coração da cidade...

"Canal do Danúbio" - Jean-Charles Forgeronne

O canal confunde-se com o rio, afinal é tudo Danúbio, o grande alimentador de expectativas da metrópole, afinal quem não precisa de um passeio junto ao rio? Talvez até o grande Freud tenha aconselhado a muitos dos seus pacientes um relaxante passeio ao longo das margens do canal, quem sabe? E não deixa de ser curioso que o rio Wien, um modesto riozinho que desagua no Canal do Danúbio, se tenha tornado tão célebre quanto a ponte Zollamtssteg graças a um célebre filme romântico...

"A ponte do filme" - Jean-Charles Forgeronne
João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

segunda-feira, 19 de abril de 2021

 

FOTOBIOGRAFIA DE UM RIO - IV

DE TODO O MUNDO ATÉ À LAGOA...

Todo o mundo se encontra naquela excrescência vulcânica de 250 metros de altura encostada a Montejunto e bafejada pela aura mística do número 3, ali confluem 3 freguesias (Alguber, Landal e Rio Maior), 3 concelhos (Cadaval, Caldas da Rainha e Rio Maior) e três distritos (Lisboa, Leiria e Santarém) e por isso e a propósito não se achou melhor nome para lhe dar do que SERRA DE TODO-O-MUNDO...

"Serra de Todo-o-Mundo" - Jean-Charles Forgeronne

E é precisamente na encosta da serra virada para a aldeia de Alguber que nasce o ARNOIA, rio pequeno em comprimento mas grande em história e beleza, começando logo pela pequena ponte romana à saída da aldeia e que era passagem da via romana que ligava Collipo (villa romana junto a Leiria) a Eurobrittium (Óbidos) numa via secundária que ligava Rio Maior ao Cadaval e que seguiria no sentido de Lamas onde entroncava na via principal que ligava  Eurobrittium a Olisippo (Lisboa)...


"Ponte Romana, Alguber" - Jean-Charles Forgeronne

Depois de passar por A-dos-Francos, A-dos-Negros e Painho, e a um quilómetro e meio antes de chegar a Óbidos foi em 2005 concluída a construção da barragem do Arnoia com o intuito de suprir as necessidades de regadio para as culturas de mais de 900 agricultores e cuja albufeira permite a rega de uma área de 1100 hectares... Aí, nas calmas e melodiosas margens da albufeira, o pequeno ARNOIA não fica nada a dever aos grandes rios deste mundo-cão, vasto, largo, imponente, quem for ali levado de olhos vendados e não souber onde está pode pensar que aquele poderá ser o Reno ou o Danúbio...

"Albufeira do Arnoia" - Jean-Charles Forgeronne

Transpostas as comportas da barragem o ARNOIA volta a ser o estreito mas pujante rio de outrora, há-de passar ali ao lado de Eurobrittium, a capital da civitas romana de outrora e vai beijar ao de leve as muralhas de Óbidos... 

"Arnoia em óbidos" - Jean-Charles Forgeronne

Passado Óbidos o ARNOIA flui calmamente para o seu destino não sem antes, a escassas centenas de metros da foz, receber as águas de um companheiro de aventuras, o rio REAL, que embora por rumo diverso também caminhou desde a serra de Montejunto para aqui chegar ao fim de 33 quilómetros de aventura, apenas mais 3 que o Arnoia...

"À esquerda, o Arnoia, à direita, o Real..." - Jean-Charles Forgeronne

E lá vão depois os dois, irmanados e entrelaçados numa suave entrega à Lagoa de Óbidos ...

"Foz do Arnoia" - Jean-Charles Forgeronne

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)  

terça-feira, 18 de dezembro de 2018



FOTOBIOGRAFIA DE UM RIO - III


O ALMONDA


Tal qual as memórias, os rios não se devem medir nem aos palmos nem a léguas, desse modo o ALMONDA seria um pequeno rio, ridículo até nos seus míseros 30 quilómetros de viagem desde a Serra de Aire até ao Tejo, mas, se a sua medição for feita em beleza, sentimentos, afectos, lembranças e para quem conhece os milenares segredos que as suas margens encerram, então ele revela-se um rio grandioso...





Nascente do Almonda


O encantamento do Almonda começa logo pela sua nascente numa gruta com 15 Km de comprimento conhecido, escondida sob uma uma falésia da serra, mas que, dizem certos entendidos estudiosos do fabuloso carso, deve ser muito maior e deve comunicar com o Algar do Pena e outras grutas,  incluindo a da nascente do Alviela!  Este fabuloso mundo subterrâneo seduziu o espiríto aventureiro deste vosso curioso escriba de tal forma que, muito antes da gruta ter sido declarada Imóvel de Interesse Público em 1993 e da construção do seu Centro de Interpretação, em Vale da Serra, era ainda moço imberbe, se armou de coragem e na companhia do destemido Vítor da Zibreira desafiou as entranhas do monstro, apenas equipados duma pequena mochila com mantimentos, um cordel para marcar o percurso da descida e uma lanterna de bolso, numa operação arriscada que hoje poria em pé os cabelos de qualquer espeleólogo ou familiar vigilante... Felizmente tudo correu bem e entre rastejamentos, saltos, deslizamentos e alguma claustrofia ficou uma esperiência memorável para o resto da vida...




O Almonda nas Lapas


O Almonda volta a encontrar grutas ao passar-lhes por cima na aldeia de LAPAS, que como o nome indica, se construiu sobre terra esburacada pelo rio e pelos romanos... Pouco mais à frente, o rio serpenteia pela cidade de Torres Novas por entre chorões, laranjeiras, jardins e sob a vigilância prazenteira do imponente castelo. Por aqui, entre a Ponte do Raro e o Açude Real, evocam-se memórias das primeiras experiências marítimas a bordo de barcos a remos e, nos miradouros do jardim, abençoadas sobre as ramagens dos salgueiros, as primeiras abordagens românticas...




O Almonda em Torres Novas





Recanto torrejano

Memórias exuberantes do passado são também as das ciclópicas cheias, outrora recorrentes quando se abriam as comportas do céu, era inebriante observar a força do rio quase a galgar a Ponte do Raro enquanto que junto à antiga central eléctrica, alimentada pela corrente, o turbilhão do remoinho era tal que levantava névoa digna das maiores cataratas...
Nessas ocasiões de deslumbramento pela força da natureza, o percurso a pé desde a Garagem dos Claras até à escola demorava o dobro ou triplo do tempo e por mais de uma vez fez-me chegar atrasado a certas aulas, enquanto no sentido inverso fez-me perder uma vez ou outra a camioneta certa, obrigando-me a esperar pela seguinte.
Depois, por recantos e mais recantos, o rio, saindo da cidade, estreita e amansa em direcção à planície, não sem antes, com pompa e na circunstância certa, galgar as baixas margens e dar vida ao Paúl do Boquilobo, um santuário da vida selvagem... 




Depois é apenas um saltinho até à Azinhaga, onde o Almonda faz a fronteira entre casario e planície num cenário de contemplação e pesca, para, passadas poucas centenas de metros e depois de muitas histórias deixadas pelo caminho, abraçar o Tejo... 



O Almonda na Azinhaga


João Atemboró

(Naturalista de Valmedo)

quinta-feira, 19 de abril de 2018


FOTOBIOGRAFIA DE UM RIO - II

O ALVIELA


O rio ALVIELA tem pouco mais de cinquenta quilómetros de extensão mas, em contrapartida, a sua  beleza e importância não têm limites.... A sua nascente (Olhos de Água, em Alcanena) é uma das mais importantes do país, chegando a debitar 17 000 litros por segundo (!), nas épocas de cheia e maior pluviosidade... Uma riqueza ímpar que fez dela durante décadas uma das mais importantes fontes abastecedoras da capital do império.
E de onde vem tanta água? Pois, vem da pedra e das profundezas calcárias da Serra de Aire e Candeeiros, dos lençóis de água e bacias subterrâneas que se estendem sobre os nossos pés por cerca de 200 Km2, mais aqueles que ainda falta descobrir.... Um manancial, um épico brotar de caudais que percorrem algares, grutas, fissuras, poços e gretas e que se juntam numa sinfonia de água abundante...
A descobrir e a preservar...
E depois é um rio sentimental, exalta-se quando conquista a charneca, revela-se humilde nos apertos, assume-se corajosamente nos abismos e entrega-se, inteiro e honrado, num destino maior...



João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

FOTOBIOGRAFIA DE UM RIO - I


Do calcário brota a água... (Olhos de Água)


Nascente do Alviela....


Entusiasmo inicial....


Humilde nos apertos.....


Glorioso nas cataratas de Pernes....



Tranquilo em São Vicente do Paúl


Ponte Romana - Rio histórico....


Reguengo... - Sob os caprichos do Alviela



E depois de tanta aventura... o abraço ao Tejo...



Jean Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)