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quarta-feira, 3 de junho de 2026

 
TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXXIX

UM MERGULHO NOS SABORES ATLÂNTICOS

Quem chega a Santa Cruz das Flores a necessitar de repasto, seja petisco ou refeição, pode ser desagradavelmente surpreendido pois a oferta é manifestamente escassa, e então se calhar a um domingo como foi o nosso caso o cenário ainda piora pois vários cafés e restaurantes fecham a esse dia ou encerram cedo, culpa de não haver mão-de-obra, "ninguém quer trabalhar" confidenciou-me um gerente, chef de cozinha e empregado de mesa, tudo ao mesmo tempo e que sozinho no seu café tem que encerrar às 8 da tarde, mas nem tudo está perdido quando o visitante agoniza de sede e fome no deserto de opções, basta procurar "O Mergulhador", um simpático restaurante à beira do Porto das Poças e dar um delicioso mergulho nos sabores atlânticos...


Casa de comida tradicional e simpático atendimento, valem a pena tanto a carne como o peixe, a ementa é variada e merece mais do que uma visita; a hora era já um pouco adiantada para a rotina açoriana mas valeu a pena esperar pela grelhada mista para dois, a carne no ponto, a batata da terra deliciosa e um pormenor inédito na minha experiência gastronómica: a mistura de carnes inclui frango, de grelha irrepreensível e molho delicioso, um toque especial inspirado no "frango da guia", confidenciaram-me, mas que fica bem lá isso fica... A condizer muito bem também estava o vinho branco da casa, à temperatura certa... 


João Ratão
(Chef de Valmedo)

quinta-feira, 31 de julho de 2025

 
TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXXVIII

PETER'S, PORTO DE ABRIGO...

Tudo se encontra lá, os marinheiros em escala e os outros marinheiros que dali já não têm vontade de partir, os viajantes como eu que vieram pelos ares mas que agora, encantados, prometem a si próprios ser marinheiros numa próxima vida, os aventureiros dos sete cantos do mundo-cão em busca de novas emoções, os turistas que um dia juraram conhecer todas as ilhas açoreanas e que ali aportam a meio do seu périplo, os habitantes da Horta ou os vizinhos das Angústias ou os dos Flamengos, toda, mas toda a gente a qualquer hora se pode encontrar no PETER'S...  

"Destino incontornável" - Jean-Charles Forgeronne

Porque o PETER'S é muito mais do que um café ou um bar à beira da marina e em que na esplanada com a montanha do Pico no horizonte se petisca algo ou então se bebe o obrigatório e afamado gin, já agora um gin único, talvez nem pela qualidade da bebida, provavelmente não será o melhor gin do mundo, mas uma coisa é certa: em lado algum um gin sabe tão bem e parece tão milagroso como ali, talvez pelo cenário, talvez pelo ambiente, talvez sobretudo pela tradição e pelas histórias maravilhosas que envolvem o estabelecimento, talvez por tudo isso junto, o Peter´s é universal, inevitável destino de romaria e de encantamento...

"Na esplanada..." - Jean-Charles Forgeronne 

No Peter´s bebe-se, come-se, descansa-se, fala-se, ouve-se, olha-se, ri-se, pensa-se, analisa-se, sonha-se, diverte-se, assentam-se ideias, traçam-se rumos futuros, fazem-se amigos, juram-se coisas, limpa-se a cabeça, não é apenas um porto de abrigo para os marinheiros e os outros, é sobretudo um porto de abrigo para a alma... 


João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

quarta-feira, 25 de junho de 2025

 
TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXXVII

AS DUAS SARAS DE SÃO JORGE

Em São Jorge duas Saras esperam por nós, uma em cada ponta da ilha, de sorriso e conversa fácil cativam os visitantes e se a curiosidade for bastante desvendam com orgulho segredos e curiosidades da sua gente e da sua terra, coisas maravilhosas que não se encontram nos guias de viagens nem nas pesquisas internéticas, talvez não se conheçam sequer embora seja muito provável que sim pois isto de viver numa ilha com pouco mais de 8000 habitantes leva a que, mais cedo ou mais tarde, se conheçam todos e neste caso em particular ainda mais porque trabalham no mesmo ramo, afinal basta que a Sara de Velas vá almoçar ao Topo e que a Sara do Topo vá tomar um café a Velas... 


Nada melhor do que começar o dia em Velas a subir a Rua Manuel Arriaga, sem dúvida a rua mais bela de toda a ilha, admirando sem pressa a sua lindíssima calçada, passar ao lado do jardim e do edifício da Câmara Municipal e logo aí abancar na Pastelaria SUSPIRO para um pequeno almoço servido com carinho num ambiente acolhedor...

"Pastelaria Suspiro" - Velas

Não esquecendo que a produção de laranja é desde a primeira metade do século XIX um dos pilares da actividade económica de São Jorge torna-se então obrigatório acompanhar a irresistível e majestosa sandes de queijo da ilha com um sumo de laranja tão natural quanto delicioso, apesar dos sedutores bolos em exposição e do bom ar dos galões directos que vão chegando às mesas, tirados com mestria pela Sara e com espuma quanto baste, como convém... 

"O Caseiro", Topo

Despedidas feitas à Sara e com a promessa de regresso na manhã seguinte ala que se faz tarde que era hora de visitar as Fajãs da costa norte e depois ir almoçar ao Topo, no extremo sul da ilha... E é no topo do pequeno largo onde impera o Império do Divino Espírito Santo do Topo que que nos aguarda a outra Sara, no CASEIRO, casa típica e humilde mas que honra as tradições gastronómicas dos Açores, prepare-se amigo leitor para um buffet onde apesar das poucas opções tudo pode acontecer, hoje pode haver cabrito ou panados de polvo, amanhã poderá ser albacora ou feijoada, tudo depende das marés e das circunstâncias, nós tivemos a sorte de ser presenteados com carne de novilho guisada a desfazer-se e ainda com uma deliciosa massada do mar, e tudo, mas tudo caseiro! Vale a pena arriscar... E depois, pormenores importantes, o pão, o queijo da ilha e o vinho, quer branco quer tinto, são óptimos!   



Claro que não há preço que pague a simpatia nem as histórias desta outra Sara e a verdade é que no final a conta sai muito simpática ainda para mais quando já inclui a sobremesa que tanto pode calhar ser uma tradicional espécie ou então uma mousse de manteiga de amendoim, tão equilibrada que não dá para enjoar....

"Espécie e mousse"

João Ratão
(Chef de Valmedo)

sábado, 1 de fevereiro de 2025

 
TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXXVI

UM BURGR DO ÁRTICO AO JEITO DE LISBOA

Chegados ao centro de Troms∅ era hora de comer e com a neve a cair, embora suavemente, ansiávamos por um abrigo confortável e o nosso desejo acabaria por ser realizado no BURGR, uma pequena mas aconchegadora hamburgueria, de boas referências segundo a L., que a tinha pesquisado, e lá entrámos deixando o tempo farrusco atrás das costas...   

"Burgr, aquele bar..." - Jean-Charles Forgeronne

Sentamo-nos em fila ao balcão porque não havia mesa disponível e também porque não nos apetecia ficar à espera, trocámos uns comentários sobre o agradável ambiente do espaço ao mesmo tempo que nos embrenhávamos na complicada tarefa de tirar casacos, luvas, gorros, cachecóis e demais apetrechos, e não sei como explicar mas os meus óculos, presos em qualquer coisa, voaram e aterraram do outro lado do balcão e então não evitei um sonoro "Merda! F*da-se!", mandado para o ar com a segurança de que ali, quase no Polo Norte, ninguém me perceberia...
Mas já a jovem empregada se aproximava, numa mão trazia as cartas do menu e na outra as minhas gafas, felizmente intactas...
 - Thank you! - disse eu, esmerando-me na pronúncia britânica... - I don't know what happened... - ia eu dizendo, quando ela me interrompe: 
 - Não há problema, pode falar português!  

"Bullet Bill" - Jean-Charles Forgeronne

"What the fuck!", pensei eu em português enquanto já ouvia uns risinhos ao lado:
 - Você é portuguesa?
 - Sim, de Lisboa...
E enquanto a refeição decorria sem pressas, sempre que a Sofia se acercava de nós, assim se chama a lisboeta que veio trabalhar para Tromso há cerca de um ano, lá eu aproveitava para um diálogo lusitano, agradável para ela porque raramente tinha clientes portugueses, são mais os brasileiros e espanhóis, e agradável para nós porque encontrar uma alfacinha naquele pedaço de mundo tão distante era um achado extraordinário...

"Aurora do Bugr" - Jean-Charles Forgeronne

Que não, não falava norueguês, é muito difícil e o inglês basta para se safar, não só com os clientes como na vida social, mas claro, Tromso é bonito mas, verdade verdadinha, não há nada como Lisboa, isso sim, lindo, a luz, o calor, conta os dias para o regresso em Maio, para acampar e gozar o mar... Entretanto olha pela janela lá para fora, continuava nevando, e pergunta:
 - Vieram por causa das auroras?
 - Sim, temos excursão marcada para as cinco e meia...
 - Com este tempo?! Boa sorte!
 - Acha que não?
E encolheu os ombros, o que equivalia a um prognostico sombrio...
 - Bem, logo veremos... - respondi, olhando para os efeitos especiais que iam acontecendo no tecto - Sempre teremos estas do Burgr...
Quantos aos hamburgueres, o meu, o "Bullet Bill", com bacon frito em cerveja, queijo cheddar, pickles e cebola crocante, arrisco dizer que é o melhor hamburguer que se pode encontrar mais a norte neste mundo!   

João Ratão
(Chef de Valmedo)

sábado, 25 de janeiro de 2025


TASCAS E ANTROS DE PRAZERXXXV

SALMÃO, O REI DA NORUEGA

Dizem que o melhor bacalhau do mundo é aquele que é pescado nos mares da Noruega, país que sem surpresa é o maior exportador mundial e sem surpresa também o seu melhor cliente é Portugal, de resto os portugueses são os maiores consumidores mundiais de bacalhau, cerca de 6000 quilogramas por ano por habitante... Para os noruegueses, no entanto, o peixe preferido é o salmão! Novamente sem surpresa, a Noruega também é o maior produtor mundial de salmão, cerca de 70% deste peixe que é consumido em todo o mundo provem das águas frias dos mares da Noruega, quase todo de aquacultura! 


Em Oslo, um lugar de culto para os apreciadores de bom salmão é "THE SALMON", fácil de encontrar para quem passeia descontraidamente por Aker Brygge, contemplando o fiorde ao longe... Convém chegar cedo ou então a espera pode ser demorada, mas apesar de ser uma manhã de sábado tivemos sorte e arranjámos mesa em poucos minutos, coisa rara já que o sítio se tornou um local de romaria, especialmente para quem está de visita à cidade... 


Assim que nos sentamos oferecem-nos um jornal com notícias e informações sobre a indústria do salmão e, nas páginas centrais, o menu... Depois é só escolher, há salmão para todos os gostos, fresco ou fumado em várias opções, em salada, em modo tártaro ou então em modo sushi, mas para os apreciadores é obrigatório umas ostras como entrada, e não é preciso exagerar, vêm duas peças para cada pessoa, ao natural ou então com condimentos diversos...


Aqui o salmão é de facto delicioso, quer na vertente fumada como na fresca, vê-se que foi confeccionado com carinho...  Mas o "The Salmon" é mais do que um restaurante, enquanto se espera por mesa ou depois do repasto é possível ter uma experiência interactiva numa sala ao lado, num pequeno auditório onde se passam imagens e conhecimentos sobre a aquacultura e a vida do salmão, e se for necessário há sempre um guia disponível para esclarecer dúvidas...


João Ratão
(Chef de Valmedo)

terça-feira, 12 de novembro de 2024

 

TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXXIV

DE CANADINHA EM CANADINHA... 


Tal como o gigante Anteu, filho de Poseidon, que na sua titânica luta com Hércules cada vez que ia ao chão ganhava para a batalha novas forças ao regressar para os braços da sua mãe, Terra, assim nós, derrotados e expulsos da Grota do Medo, regressamos a casa para ganhar novo ânimo, deixamos para trás aquela canadinha de bagacina que leva ao Outeiro das Pedras e regressamos a Angra para recuperamos forças n' "A CANADINHA", uma casa-de-pasto-e-bem-comer, felizmente situada mesmo ao lado do alojamento e ainda com o bónus de ter o enorme Pantonio mesmo em frente...  A primeira boa impressão que se tem d' "A Canadinha" é a simpatia e eficiência dos seus funcionários, quer de quem gere as mesas como de quem as serve, mas claro que a impressão mais forte que se  leva dali e que perdurará na memória por longo tempo é a qualidade dos repastos que nos são oferecidos... Não seria necessário porque já tínhamos a casa referenciada e também porque graças à sua proximidade mais cedo ou mais tarde lá iríamos dar mas ao pequeno-almoço já a Isabel, simpática terceirense de gema e conhecedora de tudo o que é bem-comer, nos tinha recomendado a alcatra da Canadinha... 

Vimo-la sair várias vezes, vaidosa e a largar aromas celestiais pelo caminho, mas como já tínhamos comido alcatra na véspera optámos por outras ofertas, começando por uma sopa de carne que já ela por si própria seria uma refeição integral em casa, depois vieram as obrigatórias lapas na chapa, que delícia, e depois ainda uns chicharritos fritos, bem servidos, e obrigatoriamente um peixe, boca-negra  grelhado! Que festival... 
Para o fim estava reservada a derradeira e agradável impressão, aquilo que se paga pela qualidade das iguarias leva-me a afirmar que ali se come muito bem e barato, comparando com os carregados menus turísticos que abundam pela ilha... A voltar, sempre que possível...




João Ratão
(Chef de Valmedo)

domingo, 27 de outubro de 2024


TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXXIII

ALIATAR, AQUELE QUE É DIFERENTE!

Passar por Granada e não ir a um dos bares ALIATAR é crime grave, passível de arrependimento perpétuo, afinal foi ali, na Calle Salamanca, que tudo começou há 75 anos!

Em 1947, Salvador Palacios, o fundador, teve uma ideia  revolucionária ao criar um conceito de comida rápida que era então desconhecido em toda a Andaluzia e rapidamente conquistou uma clientela devota... E que melhor nome para o espaço do que Aliatar, nome de origem árabe que significa "aquele que é diferente"?

E só pode haver uma explicação para o facto de, passado tanto tempo, quer granadinos quer turistas continuarem a fazer romarias em busca daqueles bocadillos deliciosos e únicos: é porque eles são mesmo muito bons! E surpreendentemente, para os dias que correm, nada caros!



O conceito do bocadillo parece demasiado simples: recheia-se o pão de trigo em forma de baguete com comidas frias ou quentes, desde presunto, queijo, carnes, peixe, etc, a lista é infindável e continua a crescer mas depois o que faz a diferença é a arte da confecção, a mistura de sabores e a qualidade dos ingredientes... Ou seja, há bocadillos e bocadillos...
E claro que nem só de bocadillos vive o Aliatar, há quem vá para experimentar boas cervejas ou para se deliciar com a descoberta de novos vinhos, e claro, para pôr a conversa em dia que isto de comer e beber calado ou sozinho não tem jeito...
Eu e a N., claro que em homenagem ao espírito de Granada, acompanhamos os nossos bocadillos de presunto serrano com a deliciosa cerveja local...





João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

terça-feira, 24 de setembro de 2024

                      

 TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXXII


O JORGE, O BELENENSES E O BITOQUE...


Corre-se o risco de nem dar por ela tão singela é a sua fachada e muitos que a procuram devem dar meia volta lá em baixo no final da calçada, desorientados... Falamos da tasca do JORGE D'AMÁLIA, um pequeno estabelecimento onde não cabe mais de uma vintena de pessoas mas que ainda preserva o verdadeiro espírito e a autenticidade de tasca e café de bairro, um antro de prazer muito procurado por pessoas da zona e por turistas especialmente pela fama que o seu bitoque granjeou, para muitos o melhor de Lisboa e para alguns o melhor do mundo! Outros pratos ali são servidos, mas o bitoque, de bife fino e de qualidade servido em travessa de inox, com um molho delicioso e de tempero irresistível, é obrigatório, e para aqueles que lá vão apenas de vez em quando, como é o meu caso, não dá para pedir outra coisa!



O segredo? Perguntem à mulher do Jorge, a Maria José, a cozinheira e rainha da tasca há mais de trinta anos, ou então à mãe, a Amália, que passou a tasca para o filho e que ainda vai ajudando na cozinha... De resto, é importante chegar cedo para não desesperar na fila e quando se sentar deixe-se envolver pelo cenário e, muito importante, não se esqueça que é adepto do Belenenses desde pequenino, é que o antro, situado na Calçada da Memória que desce da Ajuda para Belém, com o Tejo ao fundo e o Estádio do Restelo à espreita, todo ele se encontra revestido por adereços e memórias dos azuis, um hino às glórias do clube da cruz de Cristo, deixe-se deslumbrar e será recompensado pela simpatia do Jorge... E no final, o preço será outra agradável surpresa! Para acabar em beleza e para ajudar a digestão, visite depois a Igreja da Memória, mesmo à esquina, mandada construir por El-rei D. José para lembrança da tentativa de assassinato de vítima, ali mesmo naquela calçada, quando regressava duma visita íntima a uma dama da sociedade, e onde se pode encontrar o túmulo do Marquês de Pombal...


"O melhor bitoque de Lisboa?!"

João Ratão
(Chef de Valmedo)

sábado, 8 de junho de 2024

 

TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXXI


MESTRES DO TEMPLO CULINÁRIO


A entrada do templo engana pela sua simplicidade e modéstia, dois degraus dão acesso a uma porta onde cabe apenas uma pessoa, parede estreita sem janelas mas imaculadamente caiada de branco a fazer lembrar as vestes dos cavaleiros da Ordem e assim que entra a surpresa toma conta do iniciado ao deparar-se com o tesouro dos templários perdido há séculos, por entre muita azáfama e duas salas repletas de comensais ali está ele reluzindo transformado em iguarias expostas sobre as mesas ou em bandejas circulantes em precário equilíbrio e depois, como se não bastasse, lá fora uma vista deslumbrante sobre o Alqueva abre o apetite e convida à evasão e ao misticismo...  




À boa maneira dos templários que antes do estômago alimentavam primeiro o espírito com uma oração, afinal antes de serem cavaleiros militares eles foram monges, saciemos a nossa curiosidade com alguns factos históricos: em 1232, D. Sancho II, auxiliado pelos Templários, reconquista definitivamente Monsaraz aos muçulmanos e o rei, grato, doou a povoação e terras circundantes à Ordem do Templo, ficando esta encarregue da defesa do território e do seu povoamento; com o intuito de atrair população construíram então os templários uma nova fortaleza, vários templos religiosos, um hospital, uma albergaria...




Na TAVERNA DOS TEMPLÁRIOS, em Monsaraz, come-se muito bem e em conta, os pratos honram a antiquíssima tradição culinária alentejana e templária, afinal os cavaleiros eram de boa boca e comiam muito bem, três pratos de carne por semana, peixe sempre à sexta-feira por obrigação religiosa e acompanhado por legumes e ervas aromáticas, bom pão, mel, leite, grão com fartura e mais o que houvesse...



Aqui sentado na Taverna viajo no tempo à boleia de aromas ancestrais e não me surpreenderia muito se entrasse por aqui adentro um verdadeiro cavaleiro templário sacudindo o pó da sua túnica, encostando a pesada espada à parede e sentando-se com o intuito de se regalar com uma carne de alguidar, talvez um bom borrego ou então umas bochechas de porco preto, quiçá polvo ou bacalhau à templário, não esquecendo a açorda de cação com migas...



João Ratão

(Chef de Valmedo)

sábado, 30 de dezembro de 2023

 

TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXX 


UM POTE CHEIO DE BOA COMIDA

Ali está ele, o pote, ao lado da porta de entrada e quem o vê do outro lado da estrada que corta os Campelos a meio não imagina o reduzido espaço do interior, pequeno mas acolhedor e sempre cheio, e se mais lugares houvesse... Convém pois reservar porque quem ali abanca gosta de comer, de usufruir com tempo os prazeres da boa comida e de conviver ou não fosse um sítio ideal para jantares de grupo e reuniões familiares, desta vez ali pousaram os Snookerentos que já há alguns anos, em épicas disputas, abrilhantam com tacadas de génio e outras avarias as cálidas noites passadas na Associação do Nadrupe...



E por entre acesos debates e partilha de vivas memórias de aventuras passadas (eles foram os extintos Tálentos que já não correm, ainda são Pedálentos mas têm a bicicleta pendurada na garagem e agora combinam-se projectos de futuro enquanto Radicálentos) lá foram chegando em doses generosas as iguarias para a mesa... No POTE tudo merece ser provado e se o bacalhau à casa me encheu as medidas não pude evitar uns olhares de inveja para as costeletas de bovino com que outros se deliciavam ou para o bacalhau com broa mesmo à minha frente... E claro, várias outras opções ficaram prometidas para futuras visitas...




No final, e depois de um banho de simpatia por parte do António Fortunato, o proprietário e chefe de sala, ainda enderecei os parabéns à sua esposa, Dina, cozinheira e doceira, à conta de um dos melhores pudins que já comi, um fantástico pudim de café! E claro, outras doces opções ficaram por lá à minha espera...



João Ratão

(Chef de Valmedo)

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

 

TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXIX

A TASCA DO ISMAEL


Calha ser domingo e calha estar a passar pelo Reguengo Grande, sinto o apelo e faço um desvio pelo centro da aldeia, passo pelo mural histórico da escola e subo a rua até ao largo da igreja, paro em frente à casa amarela construída em 1947 e com o número 22, ontem perguntara-me o Andarilho: - Sabes quem morreu? - e sem esperar por resposta - O nosso amigo Ismael do Reguengo... 
Apesar de ser uma notícia pouco surpreendente devido à gravidade da sua doença, o impacto é duro, partiu o bom do Ti Ismael, essa alma pacífica e desalinhada que nos recebia sempre na sua tasca com boa disposição e ânimo e isso era exactamente o que aí buscávamos quando regressávamos já cansados das corridas ou bicicletadas pelo Vale da Cornaga...



Apesar da porta fechada parece um dia como os outros, a tasca não tinha horário de abertura, especialmente aos domingos porque dependia como tinha sido o sábado do Ismael e algumas vezes batíamos com o nariz na porta e lá seguíamos desconsolados, sem a ginginha fresquinha ou a mini refrescante, ficava para a próxima... 
Por detrás daquela timidez e simplicidade vivia alguém culto, bem informado, a velha telefonia a pilhas estava sempre sintonizada na Antena 1 para se inteirar do que se passava pelo mundo inteiro, ele a quem bastava o seu cantinho. Um dia, subido eu do vale e ao dizer-lhe que a cascata já tinha água e que merecia uma visita confidenciou-me: "Não vou lá desde os meus oito anos!". "A sério? Não tem curiosidade de lá ir ver como está aquilo agora, passado tanto tempo?". E ele desconcertante: "Não! Está visto, visto está!"...




E se a porta se abrisse agora ali estaria o Ismael sentado a fumar, ouvindo as notícias enquanto aguarda algum cliente, rodeado de posters do Benfica e outras pérolas humorísticas penduradas na parede, especialmente aquela acta do 1º Congresso de Peidos lavrada em folha A4 já com a tinta esmorecida pelo tempo... E várias vezes dali saí à maneira do congressista desportista anunciando: "Bem, Ismael, como atleta que sou vou-me peidar e sair a correr..."
E agora, no regresso a casa ainda longe, desejo que naquele dia em que chegar ao outro lado deste mundo-cão montado na minha Bulldozer por lá encontre o Ismael a servir ginginhas fresquinhas na sua tasca...  




28666

(Atleta de Valmedo)

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

 

TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXVIII


À BEIRA DO CAMINHO DO NORDESTE


À beira do caminho do nordeste, a meio da Lomba da Fazenda, é onde espera por nós um antro de prazer que dá pelo familiar nome de "O CARDOSO"... Ainda é cedo, falta pouco para o meio-dia mas já há muito estacionamento ocupado no largo e isso significa que estão abertas as hostilidades, é hora de rezar por uma mesa quando não se fez reserva...



Sem lugar na sala e abancados na única mesa disponível da zona de café, motivo para alívio, fomos atendidos por gente jovem e simpática que nos sugeriram como entrada um queijinho de São Jorge com geleia de piri-piri, simplesmente delicioso... 



Continua gente a chegar, fala-se muito francês e inglês, a azáfama é grande para o pessoal da casa mas sente-se o ambiente tranquilo e familiar duma casa bem organizada que convida ao relaxamento, é altura de guardar as notas e os mapas e concentrar-me no "bife à regional" e no "espadarte grelhado" que inundaram a mesa de bom aspecto... 



Apesar de talvez não se comer mal em parte alguma por aqui só me resta fazer justiça, declaro que foi o melhor bife que comi em São Miguel, o bife da casa de pasto "O Cardoso"  bate outros turisticamente muito badalados, quer na qualidade quer no preço... E o elogio feito mereceu um convite. "Tem que vir cá em Novembro, é o mês do capão! Vai gostar, mas convém fazer reserva...". Quem me dera... 


João Ratão

(Chef de Valmedo)

domingo, 17 de setembro de 2023

 

TASCAS E ANTROS DE PRAZER- XXVII


COZIDO PELO CHEF HADES


Quando a sombria floresta se mantém silenciosa e ainda falta muito para o sol nascer são as panelas introduzidas nas caldeiras, levam carnes de porco, vaca e galinha temperadas de véspera, batata, batata-doce, cenoura, inhame, morcela, chouriço, repolho, couve e debaixo da terra, sepultadas como os mortos, vão permanecer seis a sete horas recebendo a água e os gases do vulcão que tudo irão cozer a 70-100ºC... Depois, pela hora do almoço e bem cedinho, é só aparecer no TONY'S, mesmo no centro da vila, para degustar o célebre cozido das furnas, uma receita de Hades, o deus do mundo subterrâneo... Para outras ocasiões ficarão outras iguarias que o povo também cozinha nas caldeiras como bacalhau, feijoada e até arroz-doce...  



Mas hoje, até porque era a primeira vez que visitava as Furnas, era obrigatoriamente dia de cozido! E se a curiosidade era saber se o sabor era diferente do cozido à portuguesa que se come pelo continente então a conclusão foi quase imediata: independentemente da qualidade dos ingredientes, o cozido das furnas tem um cheiro e paladar inconfundíveis que lhe são conferidos pelas águas sulfurosas onde é confeccionado, coisa que não se explica, só provando... 



Mas não se pense que os méritos do Tony's se ficam apenas a dever à fama do seu cozido, muito bem servido por sinal, a oferta estende-se também a prometedores pratos de peixe como o atum grelhado ou filetes de abrótea e ainda aos bifes à casa e à regional... E claro, convém reservar ou então chegar ao mesmo tempo que as panelas vindas das fumarolas...



Não é caso para a casa vir abaixo quando se come o cozido das furnas mas atenção que ela bem pode ficar ao contrário... E depois do opíparo repasto nada melhor do que digerir a experiência nas águas quentes do Terra Nostra ou da poça da Beija, com os devidos cuidados, claro...


João Ratão

(Chef de Valmedo)

sábado, 5 de agosto de 2023


TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXVI

   
 VIVEIRO DE BONS AROMAS


Muito estranho seria se não houvesse bastante oferta gastronómica em Porto Dinheiro, terra de mar, e "O VIVEIRO" é um daqueles felizes casos de casas familiares que resistem há décadas e que vão passando de geração em geração mantendo a genuína qualidade de antanho... Quem é do tempo da humilde casa de outrora ao passar hoje por lá pode estranhar o edifício completamente remodelado e com uma bela esplanada quase em cima do oceano mas depois reconhecerá imediatamente que a qualidade continua garantida... A caldeirada que deu fama à casa e que me foi recomendada há anos por boca amiga como sendo a melhor de todo o oeste continua em alta mas hoje a opção recaiu na sardinhada que nunca desilude e para os que não gostem de peixe também há opções de carne que não comprometem... 





É domingo, habitual dia de romaria à praia e por isso recomenda-se reserva antecipada mas também coincide com a Festa do Mar e isso chama uma multidão ansiosamente à espera da tradicional vacada no areal e nada melhor do que mimar estômago e espírito alcandorados sobre o abençoado oceano...





João Ratão

(Chef de Valmedo)

sexta-feira, 9 de junho de 2023

 

TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXV


OS AMIAIS, AS PAPOILAS E O CAPADO...


Há meses que eu e o Andarilho tínhamos sido desafiados pelo Maurício a fazer uma excursão até aos Amiais de Baixo para conhecer e degustar o prato emblemático da terra, o capado, mas a aventura continuava pendente de ocasião apropriada que conviesse aos três, tinha ele ouvido de boca amiga maravilhas sobre o manjar que era servido com extrema simpatia numa casa com o curioso nome TRIBO DAS PAPOILAS...!    

Mas para mim havia ainda um grande mistério a esclarecer: como é que eu nunca tinha ouvido falar nesse tal capado, eu, que vivi até aos vinte anos a poucos quilómetros dos Amiais, que muitas vezes tinha visitado aqueles lados por causa da praia fluvial dos Olhos de Água, que lá tinha disputado clássicos de futebol, que tinha familiares que por lá andavam muito, eu que até tinha privado com alguns amienses colegas de escola como era possível nunca ninguém ter falado nisso ? Quis no entanto o destino que eu fosse obrigado a demandar com urgência e mais cedo do que o previsto as saudosas terras ribatejanas e agora que regressava mais leve por questão resolvida e com o estomago a dar sinal dou por mim a passar pelo cruzamento para os Amiais, "que diabo, os meus compinchas perdoar-me-ão certamente!" ditou-me a consciência e lá guinei em busca das papoilas...

"Hoje temos cozido!" - informou-me a simpática Aline assim que abanquei, como se fosse uma sugestão irrecusável e de facto seria caso para vacilar na escolha tomando como exemplo uma opípara travessa com o dito cujo que era levada com orgulho e como se de um andor se tratasse para uma mesa lá ao fundo... "Não, o cozido fica para outro dia, tem que ser o capado, afinal fiz muitos quilómetros para conhecer essa iguaria! Vai ser o meu primeiro capado!"... "Grelhado ou estufado?"... Optei, claro, pelo grelhado... 
- "Não se vai arrepender!" - alguém lançou da mesa ao lado. - "Acabei de comer capado, venho comer aqui duas três vezes por semana!"... Dois clientes assíduos da casa, já de capado arrumado e a tomar café, amienses de gema e com muita história para contar ou não fosse a conversa e o convívio a melhor coisa que se pode fazer para gozar algum do tempo da reforma, que mais poderia eu desejar naquele momento? 


"A chefe (chef) Sónia espreitando da cozinha


Conversa entabulada, falei do mistério que me inquietava, eu que era natural dos arredores e que nunca tinha ouvido falar de capado na minha vida até agora e a resposta veio célere do amiense mais falador: "Sabe, isto só tem para aí uns quinze, vinte anos, dantes as pessoas daqui comiam o capado apenas em casa! Ia-se ao talho buscar as costoletinhas do cabrito, sabe, na altura era a carne considerada de segunda e a mais barata! Depois alguém se lembrou de começar a servir o capado num restaurante e agora até já há um Festival que dura três dias!"... Mistério desfeito: já eu tinha imigrado quando o capado se mostrou ao mundo!




Entretanto cai na minha mesa a primeira leva de capado e com o solene aviso do simpático empregado: "Como é a sua primeira vez digo-lhe que o capado tem que ser comido quente, por isso, quando acabar estas traremos mais, ok?"... "Muito ok!", respondi inebriado com o aroma das costeletinhas que me inundava os sentidos...
-"E ainda bem que não pediu mal passado, é a pior coisa que se pode fazer, muita gente vem aqui e por ignorância pede o capado mal passado, como se de um bife estivesse a falar, nada disso, estraga tudo, tem que ser bem passado!" - disse o meu amigo amiense da mesa do lado com um gesto de despedida...  E enquanto a chef e chefe Sónia ia espreitando amiúde da cozinha por detrás do campo de papoilas eu ia pegando à mão nas finas costeletas e roendo tudo o que pudesse, carne saborosíssima, afinal o segredo estava em castrar (capar) o cabrito à nascença para que o bicho ganhe mais gordura e peso e perca os odores sexuais...



E agora só me resta, até como acto de contrição, levar os meus compinchas Andarilho e Maurício até à "Tribo das Papoilas", seja num dia ordinário ou então no próximo festival, para lhes apresentar o extraordinário capado grelhado! E depois de repetir várias vezes o modo grelhado também estou curioso e decidido a provar a versão estufada! E ainda fiquei com uma dúvida a esclarecer na próxima visita, será que os capados se alimentam dos campos de papoilas daqueles montes e vales ribatejanos? Afinal tantas razões para voltar aos Amiais de Baixo, ainda por cima neste ano em que as papoilas foram campeãs!
 


João Ratão

(Chef de Valmedo)