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domingo, 5 de julho de 2026

 
O CLUBE DE LEITURA CANINA - II

Ainda não o consigo descortinar mas pressinto que o J.C vem lá e os meus sentidos não me enganaram, aí está ele saindo da porta da cozinha em direcção ao canto à sombra onde estou refastelado há já algum tempo para me proteger deste anormal calor tórrido que se faz sentir aqui por Verde-Erva-Sobre-o-Mar e ao reparar que traz um livro na mão sei o que se vai seguir, uma sessão de leitura canina... Pensava eu, amigos caninos, que essa coisa já tinha passado à história pois muitas luas tinham passado desde aquela primeira longa e exigente experiência, embora engraçada, admito, mas já estou acostumado a que vários projectos do J.C sejam ou efémeros ou esquecidos, por exemplo aquela promessa adiada de um dia pegar em mim e ir mostrar-me a mítica cidade de Lisboa...


-Pois bem, James - disse ele autoritariamente - voltamos às nossas leituras, aposto que já tinhas saudades, certo? - e eu, para não arranjar sarilhos antes de mais, é verdade, mas também por gostar das leituras, ainda que impostas, respondi com o olhar e com as orelhas que sim...
- Ora, hoje vamos ler um trecho de um livro de Baptista Bastos e que penso que vais gostar... Antes de mais é importante saberes que o autor, já falecido, foi jornalista e escritor e ficou famoso com uma pergunta que fazia a todos os seus entrevistados num programa que tinha na televisão: "Onde é que tu estavas no 25 de Abril?"... 
- O que é isso do 25 de Abril? - perguntei de cenho franzido.
- Isso fica para outra altura, o Baptista Bastos e o 25 de Abril, vamos agora ao que interessa, o livro fala sobre as aventuras de um menino nascido na Ajuda, um bairro de Lisboa, aliás como o escritor, e que após uma série de tragédias familiares, especialmente a morte do avô, seu grande amigo e confidente, decide aventurar-se à descoberta da grande cidade lá em baixo, e ouve só esta passagem do romance:  


"...o nosso avô era um cão velho entre flores, e morreu assim, como um cão velho a apreciar as flores, e a gente agora lembra-se dele porque era um velho sem deixar de ser homem, sem deixar de apreciar as coisas que fazem a vida de um homem, a valentia, isso era como as flores para os cães velhos, os cães velhos dos campos, quando pressentem que estão à morte, procuram as terras onde há flores, ele sabe que vai morrer mas procura o sítio ideal para morrer..."

- "Mas não te preocupes, James, tu já não vais para novo mas ainda não és um cão velho..." - disse o J.C talvez para não me desassossegar mas que fiquei a matutar naquilo lá isso fiquei...

James
(Cão de Valmedo)

sábado, 16 de maio de 2026

 
ORA BOLAS! MALDITO FUTEBOL...

Tinha sublinhado no programa e até escrito na agenda a data e a hora do evento que não queria perder por nada (ou quase nada) deste mundo: o João Gobern voltava aos Livros a Oeste, depois de anteriores passagens dele por aqui em que não pude estar presente!  Seria a minha merecida desforra, teria a oportunidade de lhe agradecer pessoalmente tantas e boas sugestões musicais e literárias que foi dando ao longo de décadas em programas de rádio ou em jornais e claro, já tirei da estante o seu último livro que serve de mote a esta sua visita, "Tira o Disco e Toca ao Vivo", uma interessantíssima, necessária e oportuna abordagem sobre a indústria musical na Lusitânia desde os anos 80 do século passado até aos dias de hoje... E um pormenor delicioso que me agrada de sobremaneira neste ensaio é o facto de que cada capítulo ter tomado o título de uma canção emblemática da considerada música moderna portuguesa no período de tempo em análise, seja, por exemplos, "A vida num só dia", dos Rádio Macau, 1985, ou "Amor digital", de Jorge Palma, 2023...




E com alguma dificuldade também trouxe à luz do dia o CD de Thomas Dybdahl, "One day you'll dance for me, New York", com a fabulosa homónima canção que numa manhã ancestral e de sorte calhou eu ouvir o João sugerir num programa de rádio, penso que num saudoso "Hotel Babilónia", e o meu mundo foi diferente para melhor desde então, uma das canções a eleger para a minha colectânea de vida... Só por isso, mas também por muito mais, obrigado, Gobern! Mas eis senão quando na hora da verdade o Gobern aparece apenas em vídeo, a porcaria do futebol obrigou-o a ficar retido para comentários naqueles painéis de especialistas da bola para os quais já não há ponta de pachorra... Compromissos são compromissos, de acordo, mas logo haveria o último jogo do glorioso ser marcado para este mesmo dia? E ainda por cima com diminutas possibilidades de êxito? Imperdoável, Gobern! E o tão ansiado autógrafo? Vais ter que pagar com juros quando voltares aos Livros a Oeste... Cá te espero...

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

sexta-feira, 8 de maio de 2026

 
VIAGEM À LITERATURA GLOBAL...

E ali estava eu, chegado cedo que seria imperdoável não arranjar um lugar nas poucas cadeiras disponíveis, sentado admirando o belíssimo cenário da Livraria do Mercado, esperando pela hora certa para ver e ouvir a lenda... Faltavam ainda uns minutos e a coisa anima, alguém dispõe numa mesinha ali ao lado uns copos e um aparato de chá, claro, tudo a condizer, afinal também todaa gente estava ali para ouvir falar de chá... E à hora certa, só faltou o gongo oriental para a anunciar, duas figuras até então escondidas num canto da primeira fila se levantam e ocupam as duas cadeiras de palestrantes... Uma, com o seu característico chapéu, é Alberto Manguel, a lenda, a outra, que se viria a revelar também um excelente conversador e especialista em chá, é Sebastien Filgueiras, autor das ilustrações do livro que irá ser apresentado...

"Livraria do Mercado, Óbidos"- 19/04/26

Alberto Manguel, escritor, ensaísta e erudito bibliófilo, está ali mesmo à minha frente para apresentar o seu último livro, "Contos do Chá", uma colectânea de contos em que o denominador comum é, obviamente, o chá, essa mítica bebida que acompanha a humanidade há séculos, e onde, entre um sorvo e outro, nos podemos deleitar com pérolas de Agatha Christie, Hans Christian Andersen, Saki ou Anton Tchékov, entre outros... E se juntarmos ao chá um personalizado autógrafo melhor fica a cerimónia...

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

quinta-feira, 30 de abril de 2026

 
UMA VOLTINHA POR... - VIII

ÓBIDOS, em modo aeroporto global... Todas as latitudes convergiram neste Abril para Óbidos, reconhecida cidade literária por excelência e daqui depois viajou-se para qualquer lado ou para outra ponta de mundo através da literatura, era só escolher o destino e a porta de embarque...


De passaporte na mão, apenas necessitamos de dar azo à imaginação e à curiosidade e com elas, ao mesmo tempo que se partilham histórias e experiências com escritores viajantes, tentamos perceber este mundo tão vasto, tão estranho e tão maravilhoso... 



Exposições (com destaque para a de Nadir Afonso), ateliers e workshops, conversas com escritores, animação de rua e música, tanta coisa boa para tornar estes dias mais belos... 


Visito este aeroporto ainda deserto, o sol nasceu há pouco nesta latitude e inspiro ao máximo a serenidade da vila ainda adormecida, logo será bem diferente, especialmente ali na Porta G05, onde um acontecimento extraordinário terá lugar e eu teria vindo de qualquer parte do mundo para estar presente... E sorte a minha, já cá estou e pertinho de casa...


João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

quinta-feira, 12 de março de 2026

 
A NATURAL LEVEZA DA VIDA

Com a sua partida a vida fica mais pesada, lembro as suas vindas ao "Livros a Oeste" durante anos seguidos, a noite em que participava era obrigatória para mim, bola vermelha na agenda e se fosse necessário lá trocava eu a escala de serviço para poder estar presente porque quaisquer que fossem os outros participantes na conversa sobre livros e sobre a vida ele era garantia de histórias e curiosidades incríveis, o homem, como alguém disse hoje, era um museu ambulante, memórias e mais memórias, conhecimento e experiência, tudo regado com um sentido de humor desarmante que levava a plateia às gargalhadas e um perene sorriso desconcertante, mesmo quando o assunto era demasiado sério...  
Do Mário Zambujal "oficial" sabe-se a sua mestria enquanto jornalista, escritor e, acima de tudo, conversador, um observador peculiar do mundo e da sociedade com um saber estar por vezes desalinhado que o tornou uma figura incontornável da cultura lusitana, especialmente depois da publicação da "Crónica dos Bons Malandros" em 1980, e da qual disse o insuspeito Fernando Namora"Eis um livro ágil, hábil, matreiro, povoado de enleadoras surpresas - uma lufada de despretensão, quer na escrita, quer no recheio."    

Quanto ao Mário Zambujal "pessoal", desse dizem os amigos e quem privou com ele coisas boas, da sua simplicidade e autenticidade, alguém disse que até a cumprimentar era ele mais vagaroso e atencioso (ou não fosse um alentejano de gema e um bom malandro para troca de galhardetes), um homem que prezava o convívio entre as pessoas, a proximidade ao outro, desde a conversa na tasca ao simpósio mais ilustre mas que abominava a pressão do tempo e das redes sociais, essa coisa maléfica que põe as gentes em contacto imediato mas que acaba por as afastar... Falei com ele uma única vez, eu de braço estendido com um livro para autografar e ele, de caneta na mão e com um sorriso enorme como se eu lhe fosse um velho conhecido da sua infância em Moura... Obrigado, Mário, por me avisar que a vida é melhor quando levada com leveza e com um sorriso...

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

 
AS BANDEIRAS TAMBÉM MORREM



"Além disso, diziam, se as bandeiras estão aí para celebrar o facto de que a morte deixou de matar, então de duas uma, ou as retiramos antes de que com a fartura comecemos a embirrar com os símbolos da pátria, ou vamos levar o resto da vida, isto é, a eternidade, dizemos bem, a eternidade, a mudá-los de cada vez que os apodreça a chuva, que o vento os esfarrape ou o sol lhes coma o colorido." 

in "As intermitências da morte", 2005
José Saramago





"Meia-Pátria"- 2026 - Jean-Charles Forgeronne


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

 O CLUBE DE LEITURA CANINA

O J.C está sentado à minha frente e não tira aquele olhar fulminante de mim até eu, depois de ter ignorado quatro ou cinco ordens "Senta, James", finalmente me sentei, um pouco aborrecido porque não entendia porque é que era obrigado a sentar-me, primeiro não me apetecia tal coisa e depois não enxergava o objectivo mas, como sempre, havia uma explicação: - "Então, James, hoje é um dia especial para nós: vamos dar inicio à primeira sessão do nosso clube de leitura! Excelente ideia, não achas? Sempre que tivermos um tempinho disponível vamos ler uns livrinhos sobre aventuras com cães, vais adorar, tenho a certeza..." Como devem calcular, amigos caninos, fui apanhado de surpresa, não esperava esta coisa da leitura, não fazia ideia se iria gostar ou não, poderia ser interessante ou então uma grande seca mas só experimentando e depois poderia ser que houvesse uma recompensa no final de cada sessão...
E então o J.C. disse que tinha trazido dois livros de mistérios policiais, qual deles o melhor, de dois autores famosos e que para começar eu é que ia escolher o primeiro com que íamos inaugurar o nosso clube e pôs-me bem à frente do nariz como se eu fosse míope um livro de bonita capa amarela e preta dizendo: - Ora então, James, primeira opção: "Maigret e o cão amarelo", de um escritor belga chamado Georges Simenon e vou fazer-te uma breve apresentação: Maigret é um jovem comissário da Polícia de Rennes, uma cidade no norte da França, e é encarregue da investigação sobre uma série de crimes cometidos em circunstâncias muito misteriosas. Os crimes parecem insolúveis, o tempo vai passando com os polícias à nora e só  quando Maigret se apercebe do papel desempenhado por um certo cão amarelo, que farejara o cadáver de um mendigo assassinado numa noite de tempestade, é que o caso fica enfim resolvido. Promete, hein James
E eu assenti baixando a cabeça, de facto estava curioso em saber mais sobre aquele cão que ajudou a resolver o mistério...

- Mas espera, ainda falta ver o outro... - e mostrou-me um livro com uma capa colorida e que mostrava uma cadela de ar bem cuidado, também amarela como o outro - Chama-se "Resgate por um cão", é de Patricia Highsmith, uma escritora norte-americana e é uma intrigante história sobre "Lisa", uma caniche que pertencia a um casal bem instalado na vida e que desapareceu misteriosamente durante o seu habitual passeio nocturno. Pouco depois, os seus donos receberam quatro cartas anónimas exigindo um resgate e, ocupada com inúmeros casos, como poderia a Polícia de Nova Iorque encarar o rapto de um cão? 
E agora o J.C., de braços abertos e um livro em cada mão, olhava para mim com impaciência:
 - Então, qual vai ser? 

James
(Cão de Valmedo)

terça-feira, 25 de março de 2025

 HÁ LIVROS... E LIVROS!

E pronto, acabada a feira é tempo de desarmar as barracas, desligar os holofotes e regressar a casa, já a fazer contas a quanto tempo faltará para a próxima edição do Festival de Banda Desenhada da Lourinhã... Ficaram excelentes conversas, muitas curiosidades sobre a vivência de autores e leitores, muita expectativa para novas obras que estão a chegar e, especialmente, sugestões de leitura e livros, muitos livros... 


Descobrem-se novos autores, conhecemos e ouvimos artistas há muito conceituados, apercebemo-nos do estado da nona arte em Portugal e no mundo, ao fim e ao cabo divertimo-nos e aprendemos e nessa aproximação entre os criadores e o público traçam-se projectos de futuro para uns e para outros...


E depois há momentos únicos e marcantes, como me aconteceu a mim ao conhecer pessoalmente Miguel Angel Martin, o artista de León, polémico quanto baste mas um dos mais conceituados criadores a nível internacional, distinguido em Roma com o prémio equivalente ao Oscar para melhor autor estrangeiro... Diz o próprio acerca de si que "a graça está na combinação de um traço limpo, um pouco ingénuo com uns conteúdos um pouco escabrosos, ácidos e retorcidos", ao meu gosto, portanto... E depois livros há muitos, mas ter um com um autógrafo magistral de um artista assim é especial, muito especial...



JoãoVírgula
(Leitor de Valmedo)

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

 

OS LIVROS DE PRAGA

Chegámos cedo, antes das dez, a anunciada hora de abertura das portas mas mesmo assim já existia fila, uma vintena de curiosos como nós já aguardava impacientemente à nossa frente... Estamos na Mariesnski Namesti, uma nobre praça rodeada por um palácio, pelo novo edifício da Câmara Municipal, pela Biblioteca Municipal e ainda pela Biblioteca Nacional, esta última aquela onde desejamos ansiosamente entrar para ver o infinito...



O infinito? Sim, tal qual assim o viu o artista eslovaco Matej Krén ao empilhar cerca de 8 000 livros numa torre hipnótica a que deu o nome de "Idiom", também conhecida pela "Coluna do Conhecimento" e que graças a um sistema de espelhos gera a sensação de parecerem muitos mais livros, tantos que parecem ser infinitos, tal qual o infinito a que nos pode transportar a leitura dos mesmos... 


O curioso é que esta obra de arte já está ali no átrio da Biblioteca Nacional de Praga desde 1998, vai para 26 anos, e ali esteve tranquila e quase despercebida durante muitos anos, acessível e de uma forma gratuita já que a Biblioteca é uma instituição pública, mas um artigo publicado no guia de viagens "Lonely Planet" fazendo referência ao local descambou numa viral busca por parte dos visitantes de Praga, especialmente daqueles que gostam de livros... Não admira pois que na minha primeira visita à cidade, há seis anos atrás, com um guia velho e desactualizado na mão, embora da Lonely Planet, nem sequer soubesse da sua existência, hoje é uma atracção turística tão importante e imperdível como os museus do Kafka ou a Galeria de Arte...

JoãoVírgula
(Leitor de Valmedo)

sexta-feira, 17 de maio de 2024

 

E À TERCEIRA FEZ-SE LUZ DE VEZ!


Na primeira vez, logo pela manhãzinha cedo, como gosto, primeiríssima sessão do dia, cheguei a entrar e até me sentei numa das sete almofadas espalhadas pelo centro do espaço, respirei fundo para oxigenar o cérebro e prepará-lo para outra dimensão, olhei em volta para a instalação de lâmpadas ainda inertes que me rodeavam, consultei ansiosamente o relógio, estava na hora, 10:30 em ponto, mas... nada aconteceu, tudo continuava escuro... Um par de minutos passou e a cortina abriu-se um pouco mostrando apenas uma cara em contra-luz, era o João Miguel, funcionário anfitrião e encarregue de accionar os interruptores certos para o início da coisa; "Nada?" - perguntou, e nada eu respondi encolhendo os ombros de mão estendida, e agora o que fazer? Ele não iria mexer no computador, isso era com os responsáveis da obra, ele apenas tinha feito aquilo que lhe tinha sido pedido... Desculpas à parte, teria que ficar para outra hora... 



  
Na segunda vez, no dia seguinte exactamente à mesma hora, lá estava eu a colocar o pé para entrar na Galeria Municipal quando ouço uma voz atrás de mim, era o João Leirão, outro funcionário mas especialmente um animador cultural deste oeste profundo especialmente pelos lados do Moledo onde aí, sim, as coisas acontecem, a dizer-me: "Ainda não vai ser hoje que vais ver isso, ontem a coisa falhou e então à noite a coisa broncou mesmo, o quadro foi abaixo!. Os electricistas andam agora aí a ver se resolvem a coisa." "Não há problema! - disse eu - volto amanhã..." E eu sabia disso porque, na véspera, em plena apresentação de um pequeno vídeo sobre o "Revolução sem sangue", parecia que um morteiro tinha rebentado no anfiteatro tal o estrondo do quadro eléctrico ao ir abaixo...  Manobras da reacção, pensei então...


  


E na terceira vez, ao terceiro dia e à mesma hora, não era só um mas sim 3 Joões, o João Miguel, o João Leirão e eu próprio, à porta ansiosamente esperando que dessa vez é que se veriam "três luzes acenderam ao mesmo tempo em três janelas diferentes",  a instalação de David Santos e Berto Pinheiro, o primeiro conhecido como Noiserv para os musicólogos e o segundo como iluminador na área musical e teatral, sendo uma obra que junta o som, a voz e a luz durante 15 minutos e 57 segundos para nos apresentar o livro "Três-vezes-dez-elevado-a-oito-metros-por-segundos"...  




E é uma história sobre o "Bairro das Quatro Esquinas", onde cada um, à sua janela e à sua luz, vê o mundo de uma maneira diferente, a menina mais pequena do bairro, o menino mais alto do bairro e um velho que colecciona lâmpadas de outros tempos, já gastas, como se com isso pudesse reter os momentos que elas iluminaram outrora...  Nenhum dos três consegue ver o mundo por inteiro apesar das suas janelas se iluminarem no mesmo instante, nem os meninos com a ânsia de ver o presente e o futuro nem o velhote com o desígnio de preservar as memórias, tudo junto resulta numa abordagem deliciosa sobre a luz, o tempo, o espaço, a memória, sobre tudo afinal, cada vez mais à velocidade da luz...


                                                                                                     Fotos: Jean-Charles Forgeronne

João Plástico

(Artista de Valmedo)

sábado, 5 de agosto de 2023

Do tempo à beira do caniçal

 

(...) " Para Porto Dinheiro convergiram muitas atenções nos últimos tempos porque foi aí, numa das suas arribas, que foi exumado há alguns anos o Dinheirosaurus lourinhanensis, lagarto único da sua espécie que veio imortalizar a região. Mas todos os anos, em Agosto, acontece na praia de Porto Dinheiro uma festa especial, tão especial que afasta para longe a memoria da grandiosa descoberta paleontológica do saurópode e o visitante desprevenido que descer qualquer das encostas (mais prometedora a que vem da Atalaia) ficará deveras surpreendido com a encenação que aí terá lugar. Se há cento e cinquenta milhões de anos passavam por ali rios que vinham do arquipélago das Berlengas, nestes dias festivos, a praia, que por efeitos de linguagem já é por natureza uma arena, serena e pequenina, escondida lá no fundo, que por estar tão aconchegada pelas arribas parece um ninho, transforma-se num anfiteatro único ao albergar um redondel improvisado...





Ao pequeno porto, abrigo de meia dúzia de pequenas embarcações, há-de chegar a camioneta com uma garbosa e impaciente vaca brava. Tal como os homens também as vacas não se devem medir aos palmos mas salta aos olhos até do mais leigo em assuntos taurinos que estes exemplares que dão à praça nestes dias de festa não devem partilhar muito do código genético dos terríveis miura sevilhanos, estirpe mítica que até aos mais corajosos toureiros atemoriza. Mas não se pense que esta vaca vai ali fazer tristes figuras, não senhor, será com toda a dignidade que desempenhará o seu papel e de tal modo que ao fim de pouco tempo já conquistou o respeito da assistência.
Assim que o animal é introduzido no recinto começa a agitação da turba. Muitos limitam-se a passar a tarde a largar palavras de ordem, ora para o animal ora para os corajosos aventureiros. Nem que seja só para dar uma corrida pela frente da vaca e fugir imediatamente vale a pena ousar e comungar do susto e da alegria que invadem os corações, o da besta incluído. Afinal, a segurança das barreiras está a um curto passo. Mas há quem opte por fugir a nado pelo mar fora, embora a vaca às vezes não se faça rogada e também vá ao banho. E parece gostar já que de vez em quando torna-se necessário ir resgatá-la à água, cena que por não ser fácil se torna das mais engraçadas e aguardadas da tarde.






Se tudo correr bem, todos se safarão apenas com alguns arranhões e esfoladelas pouco profundas, ou então com algumas contusões sem importância mais devido à confusão da fuga do que às investidas da vaca. Ali não há ferros, nem curtos nem compridos e muito menos touros de morte. A vaca morre sim mas de cansaço e só então, quando exausta já não reage à populaça, é colocada de novo na camioneta. Aí pode finalmente repousar um pouco enquanto os carregadores e demais participantes vão até ao café do Chico Neto emborcar umas imperiais atremoçadas e trocar animados comentários sobre os momentos mais relevantes da lide. Quando o povo dispersa fá-lo já com saudades da vacada do próximo ano...


Excerto de "À beira do caniçal", de João Pena Seca 

segunda-feira, 15 de maio de 2023

 

DIZEM QUE A CULTURA ESTÁ CARA?


E num ápice já se passou outra edição do festival literário "Livros a Oeste" e durante cinco dias respirou-se literatura pela Lourinhã sob a forma de exposições, apresentações, filmes, conversas, debates, declamações, tertúlias...

                                              


E também houve uma Feira do Livro onde era possível encontrar livros a 20 cêntimos! Nunca pensei ser possível, são livros usados, é certo, mas em bom estado e mais baratos do que uma pastilha elástica ou que uma carcaça? E agora que tenho diante de mim  os "Sonetos de Bocage", que comprei exactamente por 20 cêntimos, concluo solenemente que só não lê quem não quer! 




Talvez tudo tenha a ver com espaço, muita gente deve sentir necessidade de se libertar de alguns livros para poder acolher outros e isso eu compreendo perfeitamente agora que tenho dois sacos cheios deles na garagem à espera que lhes arranje um poiso... Dramas de um acumulador de livros!



João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

 

A MISTERIOSA ORIGEM DAS PALAVRAS - XXI

ERRARE HUMANUM EST

É mesmo misteriosa a origem da expressão latina "Errare humanum est..." pois  não se conhece o seu autor e alguns especialistas consideram-na um ditado de origem popular que mais tarde foi celebrado nos seus escritos por vários santos católicos como Jerónimo, Agostinho, Beda ou Bernardo, revestindo-a de aura religiosa ao juntar-lhe "persevare antem diabolicum", ou seja, "errar é humano mas insistir no erro é diabólico, pecaminoso"... Mas o mistério adensa-se se nos restringirmos à expressão essencial, "errare humanum est", à qual, por hábito e instinto reduzimo-la ao "errar é humano" mas esquecendo ou desconhecendo o outro não menos importante significado e que é: "errar, viajar, deambular sem destino é humano"! 

"O errante Álvaro" - FÓLIO - Jean-Charles Forgeronne

  Atente-se num dos significados de "errar", segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa: "andar sem rumo certo, vaguear, percorrer...". Um errante é então alguém que vive em estado de errância, que erra por aí, um erradio, um vagabundo, um viajante sem destino nem trajectos exactos e como muito bem acertou Álvaro Laborinho Lúcio em "Breviário do Tempo Contado": "Errare humanum est, pensa o viajante a descomprometer-se de roteiros pré-delineados, avessos ao risco, assustados com a surpresa. Errare! Como se a aventura da errância se rendesse aos pés de uma moral de pacotilha, aceitando-se como erro e confortada com a tolerância e a compreensão afectuosas de um simples humanum est."



Errar faz então parte da essência humana e por isso mesmo vou pôr-me ao caminho em busca de qualquer coisa, de um outro mundo-cão talvez, de uma qualquer verdade longínqua, de mim próprio, quem sabe...


João Portugal
(Linguísta de Valmedo)

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

 

UM DIA DE RICO FOLIO

Começar a segunda jornada do Folio com uma bela surpresa é sempre bom e enquanto subia a Rua Direita direito ao Largo de Santiago deparo em pleno Largo de Santa Maria com uma actuação incrível de um trio de andarilhos chamado The Old Times Rags, divertidos artistas de rua que calcorreiam o mundo e grandes festivais oferecendo concertos de music hall, jazzblues ancestrais e dança de sapateado em troca de uns cobres ou da compra do seu CD a 10 euros, uma pechincha... E ali os ouvi, à sombra e entre laranjas, entretendo os passantes e a esplanada bem composta de turistas, show que nem constava do programa oficial do festival...

"The Old Time Rags"

The Old Time Rags

De espírito saciado subi então até à Igreja-Livraria de Santiago, outrora templo de missas e reflexão, agora templo literário em que a religião são os livros, afinal quem disse que a leitura também nos pode abrir as portas do céu? E ali, de livro aberto no altar e rodeado de estantes recheadas de obras para todos os gostos, algumas canónicas e outras nem tanto, assisti a uma agradável conversa luso-brasileira sobre como se constrói um romance e tanto Rute Simões Ribeiro, jovem escritora de origens coimbrãs, como Lucrecia Zappi, jornalista e romancista argentina de nascimento, paulista de crescimento e nova-iorquina de vivência actual, coincidiram na ideia de que não têm qualquer cartilha ou receita para começar uma escrita, a coisa tanto pode nascer de uma ideia como de uma simples conversa em que se em pleno autocarro... Saí dali animado, afinal qualquer um pode descobrir inspiração em qualquer lado, pensei...

"Conversa no altar"

Já tardinha e antes de uma pausa para o premente reconforto gástrico desci aos ziguezagues por entre turistas em busca da casa onde se hospeda a Editora Abysmo, criação de João Paulo Cotrim, jornalista, escritor e apaixonado pela banda desenhada e ilustração, figura incontornável e agitadora do panorama artístico português, desaparecido demasiado novo faz em Dezembro um ano... Foi com o intuito de relembrar histórias surreais e caricatas passadas com Cotrim que vários amigos seus se reuniram mas a emoção tomou conta dos oradores e se na plateia houvesse alguém que desconhecesse de quem se falava então apercebeu-se da figura extraordinária que era o homenageado...

"Os amigos do João"

Para terminar o dia em beleza nada melhor do  que ouvir as palavras de NBC, um são-tomense de cor naturalmente preta radicado em Torres Vedras e que acompanhado com mestria ao piano e com as suas mensagens fortes e inspiradoras bem poderia fundar grupo de auto-ajuda ou então um culto evangélico tal a empatia que desperta na assistência, nunca tinha visto um artista  tão emocionado em palco com a entrega do público e o concerto terminou em apoteose quando o Timóteo decidiu ir cumprimentar um por um todos os espectadores... 

"Natural Black Colour"

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

quarta-feira, 18 de maio de 2022


MANUAL PRÁTICO PARA EMOÇÕES FORTES 


E o 10º Festival Literário LIVROS A OESTE terminou da melhor maneira e com emoções muito fortes num auditório bem composto e a vibrar com o poder de expressão e comunicação de NAPOLEÃO MIRA, alentejano de Castro Verde, jornalista, poeta, escritor e especialmente um declamador de poesia que veio até à Lourinhã apresentar o seu espectáculo "Manual Prático para Emoções Fortes", uma mágica simbiose entre a palavra, a imagem e a música... E depois de tudo o que foi dito falta dizer que foi uma bela homenagem ao Alentejo, aos seus poetas, aos seus cantadores populares e aos seus heróis... E claro, também a Fernando Pessoa...

  


Mas Napoleão não veio sozinho, trouxe companheiros de largas aventuras, das suas colaborações na voadora grafonola, por exemplo, lá estiveram o Rafael Correia no debitar do som, a Mariana Correia, já conhecida como a menina do violoncelo e pés nus, e especialmente Luís Galrito, músico e cantautor também ele alentejano de Reguengos de Monsaraz e já com nobre obra própria editada...




E Luís Galrito, numa bela homenagem ao Zeca Afonso numa estarrecedora interpretação de "Cantar Alentejano", chamada aqui apenas de "Catarina", arrasou a plateia com uma voz poderosíssima, parecia que era o Zeca que estava a cantar! E se não era ele então o seu espírito pairava ali no Auditório da AMAL, tive a certeza disso quando olhei para o lado e vi o meu amigo Andarilho sem jeito, para além de emocionado, extasiado... 


J.C

(Poeta de Valmedo)

segunda-feira, 16 de maio de 2022

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXIX


VERGONHAÇAS E REMORSOS... 


Que vergonha, melhor dito, uma vergonhaça, pensei para mim enquanto me deixava escorregar pela cadeira do auditório abaixo numa ridícula tentativa de desaparecer num mágico fumo de ilusionista, seria eu a única alminha ali presente naquela sessão dos "Livros a Oeste" que, vá lá saber-se porquê,  não tinha lido o fabuloso romance de estreia de Valter Hugo Mãe que foi galardoado com o Prémio José Saramago... Todos reconheciam a genialidade em "O remorso de baltazar serapião", até o próprio Saramago que prefaciou a obra e onde afirmou categoricamente que aquele livro era um tsunami! Um marco fundamental na literatura portuguesa contemporânea, todos juravam e mais juras não eram necessárias pois se até o mestre tinha ficado deslumbrado com a obra que melhor atestado de qualidade se poderia obter?

"Basta ler a primeira página, a primeira palavra, sentir a primeira respiração. É um livro diferente. A sensação que esta obra me dá, além do ímpeto arrasador e ao mesmo tempo construtor de algum elo, é a de estar a assistir a um novo parto da língua portuguesa, um nascimento de si mesma." (José Saramago)




E pronto, não dormi sossegado, na manhã seguinte bem cedo era eu o primeiro a entrar na Biblioteca Municipal da Lourinhã e com um único e desesperado intuito, requisitar o famigerado livro... E agora aqui estou sentado no rebordo de um muro antigo da Quinta do Prior, bafejado pela sombra de uma velha árvore e a este abençoado recanto não chega o barulho dos carros apressados ao virar da curva do caminho, aguardo que termine o transplante do pára-brisas do velhinho Corsa, operação delicada e com riscos mas que lhe pode dar mais um ou dois anos de vida e para passar as duas horas de espera devoro os últimos e breves capítulos da aventura do Serapião, esse homem que ao casar com a moça mais bonita da sua terra se deixou corromper até ao tutano pelo preconceito e pela machista tradição... Assim, contas feitas, precisei apenas de dois dias intermitentes para a integral leitura e, de facto, o romance é ainda um tsunami passada década e meia sobre o seu parto... Hoje sinto-me muito melhor, como alguém que ao corrigir um erro enorme do seu passado tivesse agora uma segunda oportunidade, conhecer a obra de uma grande escritor.


João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

 

E VEIO O DIA DE SARAMAGO...


A tarde encalorou-se, (e sublinho propositadamente esta palavra inventada por mim e ilegal que não faz parte de qualquer dicionário da língua lusa porque acho que o mestre iria ficar tocado com isso, ele que era atreito à desmontagem do rígido cânone da gramática portuguesa) e trouxe à Biblioteca Municipal João Céu e Silva, jornalista de longa data e jovem romancista, autor duma interessante série de entrevistas biográficas intitulada  "Uma longa Viagem com..." e que vem viajando há uns anos com personagens como Álvaro Cunhal, Manuel Alegre, António Lobo Antunes ou Vasco Pulido Valente, por exemplo... E claro também fez uma longa viagem com o homenageado do dia, José Saramago, lembrando e festejando à priori o centenário do seu nascimento...






Mas também apareceu o Miguel Real, escritor, ensaísta e professor de filosofia e repetente nos "Livros a Oeste" e que já por aqui tinha passado em edições anteriores para discorrer sobre a teoria e os fundamentos do mal... Claro que com a intermediação do João Morales a coisa prometia e não desiludiu, conversa escorreita e muito interessante e que premiou os presentes com algumas pérolas, ficamos a saber, por delicioso exemplo, que João Céu e Silva foi escorraçado por um Saramago adoentado e com pouca paciência para entrevistas: "Homem, agora não, volte daqui a dez meses!" O Silva, que morava a apenas 150 metros do Nobel, pacientemente esperou e no exacto dia em que passavam os tais dez meses voltou a bater à porta de Saramago e então lá conseguiu a entrevista, mas foram precisos ainda mais dois anos de conversas aos bochechos... 





E depois ao serão fomos iluminados pelo erudito Guilherme D'Oliveira Martins e pelo simpático e mediático jornalista Carlos Vaz Marques com mais algumas pérolas sobre o nosso Nobel, sabiam que até aos dezoito anos de idade Saramago nunca teve um livro e que passava todas as horas que podia enfiado numa biblioteca pública a ler tudo o que valesse a pena? E que o que mais ressalta na sua caminhada é uma grande capacidade de aprendizagem com os mestres, aprendendo perguntando tudo a toda a gente, recusando a facilidade e desafiando o leitor ao limite, conquistando-o não pelo tema mas sim pela humanidade e pela palavra trabalhada como um ourives? E que a sua mais que polémica falta de pontuação, usando apenas pontos finais e vírgulas de quando em quando, serve para colocar na leitura apenas as pausas essenciais, uma leve ou uma longa, reproduzindo assim a oralidade das histórias alentejanas? "Os meus livros são para ser ouvidos", dizia...  


João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

quinta-feira, 12 de maio de 2022

 

LÍNGUAS E DESACORDOS ORTOGRÁFICOS...


É sempre bom rever o Sérgio Godinho e especialmente fora do palco musical, à beira de contar 77 primaveras o homem respira sabedoria e sente-se como peixe num oceano de letras, ele que não tem fronteiras no que toca a géneros de expressão nem quanto à idade daqueles com quem colabora, tanto se dá com outros artistas da sua geração como com a juventude rebelde... E depois ao falar do seu último livro de poemas, "Palavras São Imagens São Palavras", lançado em Novembro de 2021, ficou a plateia a saber que os poemas nele contidos se criaram a partir de imagens, entre os quais uma homenagem a Bernardo Sasseti...


"22 Oeste" - Jean-Charles Forgeronne

João Melo já o conhecíamos de outras paragens, romancista angolano, caluanda como gosta de se chamar, contista e ainda cronista nas páginas do Diário de Notícias, assume que faz da ironia e do sentido de humor a sua matriz de expressão e ainda bem que o faz, digo eu, farto de tantos autores sérios, formais e formatados... Parece que o João acabou de lançar um romance em que a principal personagem é um autor que só tinha um propósito de vida: escrever um romance! Tema demasiado simples e já recorrente? Talvez, mas com o humor e ironia dá-se-lhe a volta à maneira, leitura obrigatória para os próximos tempos.... 

E depois veio a surpresa da noite: Tony Tcheka, guineense erudito, jornalista e poeta que arrasou completamente o famigerado acordo ortográfico, em cujas reuniões participou, disse ele: "O acordo ortográfico está parado, é um nado-morto! Vale a pena? Não embarca nem desembarca..." Isto foi dito por alguém que nasceu num arquipélago com milhares de ilhas e onde se falam 36 (!) línguas, incluindo o português que era obrigatório quando ele frequentou a escola primária chamada Oliveira Salazar, nem de propósito... 


João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

"A literatura contribui para criar cidadãos críticos, que não se deixam manipular facilmente porque têm a capacidade de projectar-se em direcção a um futuro menos ruinoso, menos medíocre, mais à altura das suas expectativas. A literatura é fundamental para a formação de cidadãos verdadeiramente democráticos." 


Jorge Luís Borges

(Entrevista ao Expresso, 2020)