terça-feira, 22 de setembro de 2026

Partiu um dos melhores de sempre! Obrigado, Jorge, pela poesia, pela música, pelo piano, pela partilha, pelo afecto, até um dia...


João Sem-Dó
(Musicólogo de Valmedo)

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

 
"Um milhão de anos na história da Terra é uma caganita!"

Prof. Galopim de Carvalho
 
LIVROS 5 ESTRELAS - XLIV

DIREITO DE PERNADA

Sobre "O preço da borrega", o segundo livro de Galopim de Carvalho editado em 1995, disse Natália Correia ao ler o manuscrito ser um tratado de "etnografia ficcional" e tinha a ambição de o levar para o cinema mas a morte não a deixou, para pena do autor... Apesar de descrever a vida no campo, os objectos, as alfaias e os ofícios como se fosse um etnógrafo, Galopim diz que o livro é muito poético para além de dramático, afinal aborda a vivência das pessoas num meio rural alentejano nas décadas de 40 e 50 do século passado e onde ainda pairava a medieval tradição do "direito de pernada" em que o senhor da terra tinha o direito à primeira noite da noiva de outro homem...


É um livro obrigatório para quem, como eu, nasceu e cresceu em meio rural, embora no Ribatejo e décadas mais tarde, mas a sociedade e a alma das gentes estão lá bem explanadas, e muitas memórias do autor coincidem perfeitamente com as minhas experiências de menino e adolescente... Muito mais do que pelo estilo literário este pequeno livro vale sobretudo pelo seu conteúdo.

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)
 
NÃO HÁ CONVERSAS QUE CHEGUEM...

Há vidas tão cheias de histórias, peripécias e acontecimentos que não cabem numa entrevista, numa conversa por mais longa que seja, num livro até, por isso António Galopim de Carvalho, o professor, já leva mais de trinta livros publicados e para além das obras que versam sobre temas científicos muitos deles são de ficção e vão desde romance a ensaio, de memórias à culinária... E hoje, com 95 anos, parece não querer parar, disse-o há um par de semanas que se levanta todos os dias antes das galinhas, pelas quatro da madrugada, cheio de ideias e vontade de escrever, seja no computador seja no facebook, plataforma que considera a sua janela para o mundo e onde tem mais de 50 000 fiéis seguidores ávidos pela sua partilha de histórias e memórias, não admira pois ter sido distinguido com o Prémio Envelhecimento Activo em 2017, e já lá vai quase uma década e a actividade não parou...

"Galopim no Espaço Ciência", 2016 - Jean-Charles Forgeronne

Em 2021, numa entrevista ao Público pela altura do seu nonagésimo aniversário, revelou porque começou a escrever, tarde, sentiu esse apelo em 1991 ou 1992 ao ler um livro de Zélia Gattai, "Anarquistas (Graças a Deus)" e que relata as vivências dos imigrantes italianos em São Paulo, histórias giríssimas, diz ele, e então pensou que também poderia escrever sobre tantas histórias antigas da sua meninice e adolescência, de tantas memórias de uma vida bem preenchida, e ainda bem que o decidiu fazer... Além disso, o professor catedrático jubilado Galopim de Carvalho continua a desenvolver acções de divulgação, defesa e valorização do património geológico e paleontológico nacional... E que deleite foi estar com ele há pouco no Espaço Ciência da Festa, foi um privilégio conviver com um comunicador por excelência e um gerador de afectos...

João Parte-Pedra
(Geólogo de Valmedo)
 
O AVÔ DINOSSAURO

Um dia chamaram-lhe "O Pai dos Dinossauros", epíteto que pegou de imediato, mas hoje do alto dos seus 95 anos de idade prefere ser conhecido como o "O Avô dos Dinossauros", embora teime sempre em dizer que a sua especialidade não são os dinossauros, o Professor Galopim de Carvalho é e sempre foi geólogo... Os dinossauros atravessaram-se no seu caminho quase por acaso corria o ano de 1986, era ele director da secção de Geologia do Museu Nacional de História Natural quando dois alunos seus descobriram as pegadas de Carenque e iniciou então uma luta feroz para sensibilizar os políticos, a comunicação social e a população em geral para a importância de preservar o achado. 

"Histórias da vida do Galopim, pelo próprio", Espaço Ciência, Avante, Setembro 2026 - Jean-Charles Forgeronne

Mais tarde, em 1992 e como forma de reabilitar o Museu de História Natural que tinha ardido quase por completo em 1978 e onde se tinham perdido mais de 70% das suas coleccões, aproveitando a febre dos dinossauros que se vivia então o professor Galopim esteve na organização da famosa exposição de dinossauros robotizados que viria a tornar-se um estrondoso sucesso ao atrair mais de 360 mil visitantes e provocando um monumental pandemónio no trânsito de Lisboa com filas intermináveis... 

"Fila para a Exposição 1992" - Foto: "Público, 11 Agosto 2021"

Mais tarde, em 1994, o geólogo activista da causa dos dinossauros ainda se envolveria na luta pela preservação das pegadas de dinossauro da Pedreira do Galinha, na Serra de Aire... Diz ele, com a humildade que lhe é reconhecida, que nunca foi especialista em dinossauros mas aceita o louvor de ter conseguido que muitos alunos tivessem a possibilidade de estudar dinossauros e a ter bolsas de estudo; foi graças à sua teimosia de alentejano e à sua luta que passou a haver no país projectos de investigação em paleontologia, até então inexistentes, por isso obrigado, professor..  

João Parte-Pedra
(Geólogo de Valmedo)

sábado, 12 de setembro de 2026


 "Pára! Pensa! 
  Mas o que é que tens na cabeça?
  Não é só na construção civil
  que a massa é cinzenta..."

Malabá, Rapper da Margem Sul

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

domingo, 23 de agosto de 2026

 
A SURPRESA DESTE VERÃO

"Ao sol do Oeste" - Jean-Charles Forgeronne
Nas últimas semanas, ao passar pelo Parque da Cegonha a meio do percurso dos meus crosses matinais e à beira do Rio Grande que mais parece um pântano pois nele não corre água e a vegetação impera, tenho-me deliciado com um curioso bando de aves negras que nunca tinha visto por estas paragens, são para aí uma dezena que ora deambulam bicando pelo leito do rio ora descansam ao sol em plena margem mas que assim eu quedo a marcha para tirar a foto de família logo debandam pelos ares num voo de elegantes silhuetas e que após umas voltas e reviravoltas se vão alcandorar nos pináculos dos plátanos que orlam a avenida entupida de veraneantes alheios a estes maravilhoso movimentos da natureza... 

"Íbis Negra" - Foto: Lourambi 

Ao primeiro e impactante encontro com estas aves de majestoso bico longo e curvo pensei tratarem-se de garças mas depois uma publicação da associação ambiental Lourambi esclareceu-me: trata-se da Íbis Preta, de nome científico Plegadis falcinellus, uma ave de médio porte com uma altura de meio metro e uma envergadura de asas à volta de um metro e cujos habitats são locais húmidos como margens de rios, paius, lagoas e outros, desde que a água seja pouco profunda e haja vegetação aquática...  

"O voo das dez íbis" - Jean-Charles Forgeronne

Curioso é o facto de apesar de se chamar Íbis Preta (ou Negra) esta ave, vista ao perto e sob a incidência dos raios solares, reflectir lindíssimos tons de verde, azul e violeta; quanto à sua alimentação ela consta de peixes, rãs e outros animais aquáticos e também, por vezes, de insectos... É uma espécie migratória, rara em Portugal mas que nos últimos anos tem sido avistada com mais frequência e se esta colónia que foi avistada pela primeira vez pelas bandas da Lourinhã veio para ficar ou não há que esperar, quem sabe se constroem ninhos naqueles plátanos onde hoje pernoitam e desatam a pôr ovos, seria bom sinal, por aqui ficariam, nesta terra amena e tranquila... 

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

domingo, 9 de agosto de 2026

APANHADO NA REDE - VII

Haja paciência! Ainda por cima a Agência Lusa?!!!!!


 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

 
LENDAS E NARRATIVAS - XXIX

A TRAGÉDIA DUMA MORTE ESTÚPIDA

A estranha morte de Ésquilo, o famoso autor de tragédias gregas, para uns não passará de uma lenda mas para outros constituirá um acontecimento histórico credível muito por culpa de Plínio, o Velho, o também famoso naturalista e escritor romano que descreveu a curiosa ocorrência na sua gigantesca obra "História Natural", uma autêntica enciclopédia do conhecimento... Assim, segundo Plínio, andando Ésquilo pela Sicília gozando já em idade de reforma a sua fama de grande dramaturgo, uma águia que tinha capturado uma tartaruga andava em voos circulares pelos ares com o réptil recolhido na sua couraça entre as garras e com uma estratégia em mente: quebrar a carapaça da presa deixando-a cair lá do alto sobre uma rocha e assim bicar o petisco... E assim fez, só que aquilo que lhe pareceu ser uma rocha era a cabeça careca e brilhante de Ésquilo, o qual não resistiu à terrível pancada!



O irónico da história é que Ésquilo evitava estar por casa e andava o mais que podia pela natureza porque queria fugir ao seu destino, é que tempos antes tinha-lhe sido dito numa profecia que o tecto de uma casa lhe cairia sobre a cabeça, nada mais certo então, acabou morto pela casa de uma tartaruga! Ele que foi mestre em criar tragédias, obras em verso em que figuram ilustres personagens e que geralmente acabam com uma morte, talvez nunca tivesse sonhado que a sua própria morte seria digna de uma tragédia surreal...
Mas passados séculos também Plínio acabou os seus dias de forma trágica e irónica, vitima da sua curiosidade infindável e enquanto não só liderava uma missão de salvamento mas também enquanto investigava o fenómeno, acabou por morrer devido à inalação de cinzas e de gases vulcânicos libertados pela erupção do vulcão Vesúvio no ano 79 d.C...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

 

A MISTERIOSA ORIGEM DAS PALAVRAS - XXV 

A TRAGÉDIA DE ÉSQUILO E DO ESQUILO


Foto: Milvoz
Esquilo e Ésquilo estão separados por muito mais do que um mero acento agudo, o primeiro nome designa um pequeno e elegante roedor de longa cauda e que se encontra espalhado por florestas de quase todo o mundo-cão enquanto o segundo se refere ao pai da tragédia grega... Comecemos por esquilo, nome que deriva da palavra grega skíouros e que por sua vez é uma junção de duas outras palavras, skía, que significa sombra, e ourá que significa cauda; ou seja, skíouros literalmente designa "rabo que faz sombra" e isso faz todo o sentido se reparamos na forma como o esquilo se senta...  
Ésquilo, quase careca...

Quanto ao nome Ésquilo ele tem origem no grego aiskhúlos, por sua vez um diminutivo de aiskhos e que significa "vergonha"; assim, o grande dramaturgo era conhecido como o tímido, o envergonhadito... Mas para além do nome muito parecido há uma outra coisa que aproxima o poeta e o mamífero, a tragédia: no caso do primeiro, a quem foram atribuídas mais de sessenta obras, apenas sete (!) se conservaram, quanto ao segundo, especialistas colocam-no na lista de espécies em extinção a curto prazo, o que aliás não seria novidade pois o "Sciurus vulgaris", o esquilo vermelho que vemos por aí, já esteve extinto em Portugal desde o século XVI até cerca de 1990 devido ao corte de árvores e perda de florestas...  

João Portugal
(Linguísta de Valmedo)

 

"Natureza aristotélica" - Jean-Charles Forgeronne

 
OBRAS DE ARTE NATURAL - II

A ARTE DO ESQUILO ARISTÓTELES

Ali, no antigamente designado Pinhal da Câmara e que hoje na sua parte sul alberga o Dino  Parque da Lourinhã, vive há meia dúzia de anos por entre dinossauros e criaturas ancestrais um esquilo já velhote chamado Aristóteles mais a sua segunda companheira de vida, a esquila  Herpília... O esquilo Aristóteles, permitam-me apresentá-lo, é um artista que dá asas à sua criatividade sempre que encontra o seu alimento preferido, qualquer pinha que encontre e onde finque os dentes se transforma numa obra de arte através de uma complexa urdidura de figurada filigrana...


"Obra em evolução" - Jean-Charles Forgeronne

É sabido que o esquilo vermelho que habita os nossos bosques é omnívoro, alimenta-se do que a natureza lhe proporciona conforme as estações mas nutre uma especial preferência por pinhas e pinhões de pinheiro bravo, depois também gosta de avelãs, bolotas e outras sementes, não recusando em época de pouca abundância uns cogumelos, mesmo os venenosos para outras espécies, bagas, flores, rebentos  e até insectos se outra coisa não houver... Mas a pinha é o que o faz feliz, e tanto assim é que a trata com carinho e apurada arte, como é o caso do nosso tímido amigo Aristóteles que dando azo à criatividade usa os seus dentes como incansáveis cinzéis e a obra, quando finalizada, é verdadeiramente digna de um exímio escultor... 

"Obra acabada" - Jean-Charles Forgeronne

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

terça-feira, 28 de julho de 2026

sábado, 25 de julho de 2026

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXV

O OURIÇO, O FILÓSOFO E A LANTERNA

O ouriço-do-mar é um equinoderme, isto é, um invertebrado cuja pele tem espinhos venenosos que lhe conferem não só protecção mas também a capacidade de locomoção. É uma criatura exclusivamente marinha que pode ser encontrada por todo o mundo-cão, agarrado às rochas ou em poças nas zonas entre-marés ou então em liberdade nos oceanos e até 5000 metros de profundidade! O ouriço não possui olhos mas tem o corpo coberto de células fotossensíveis que ao detectarem luminosidade o leva a proteger-se cobrindo-se de conchas, seixos e algas... Junto à boca, na face inferior do corpo, possui  uma estrutura de cinco dentes que formam um bico e com os quais raspa as rochas para se alimentar de algas e outros invertebrados; esses dentes, que também servem para escavar abrigos nas rochas, estão ligados a um complexo sistema de ossículos e músculos chamado a "Lanterna de Aristóteles"!?

"Ouriço-do-Mar", Praia do Porto da Areia Norte - Jean-Charles Forgeronne

Dele disse Dante na sua "Divina Comédia" ser o "Mestre dos que sabem", e de facto Aristóteles, juntamente com o seu mestre Platão, esteve na origem de toda uma corrente de pensamento que propulsionou e influenciou a filosofia por todos os séculos seguintes, ou seja, fazendo jus à sua "teoria das causas", com o seu conhecimento causou a filosofia moderna... Mas Aristóteles não era apenas um filósofo, era um sábio de vários saberes, da filosofia à retórica, da lógica à política, da psicologia à poesia, da ética à biologia... Sim, à Biologia!  Num dos seus exílios pelas margens do mar Egeu, ainda muito jovem, apaixonado pela natureza e pelo mar, inicia a investigação dos animais, especialmente os marinhos, e onde, ensinado pelo pai, médico, fez as primeiras dissecações... 

"Aristóteles" - Códice medieval

A designação "Lanterna de Aristóteles" surgiu no livro "Historia Animalium" que o filósofo escreveu no século IV a.C. e onde ao dissecar o ouriço-do-mar comparou essa estrutura do animal com as lanternas que então iluminavam Atenas e a Grécia antiga e que também tinham forma pentagonal... Muitos séculos depois, os modernos biólogos adoptaram o termo para denominar essa famosa estrutura dos ouriços-do-mar, os quais, já agora, apesar da sua carapaça de espinhos venenosos, são um petisco apreciado  por estrelas-do-mar, sapateiras e até alguns peixes, como o sargo...

João Abelhudo
(Pesquisador de Valmedo)

quinta-feira, 23 de julho de 2026


 PEIXE MORTO, CIÊNCIA VIVA

"Laboratório na praia"

Ao chegar-se à Praia do Porto da Areia Norte não fica mal um minuto de silêncio e reflexão, afinal foram aqui que foram enterrados, em valas comuns, os cerca de 400 náufragos do navio de guerra espanhol San Pedro de Alcantara, carregado de tesouros e vindo do Peru com destino a Cádiz, afundado ali à frente junto aos rochedos da Papoa a 2 de Fevereiro de 1786, naquele que constitui um dos acontecimentos mais marcantes da história trágico-marítima de Peniche e de Portugal... Mas hoje viemos aqui por outro motivo: viver a ciência! E lá ao fundo, iluminada por um azul celeste imaculado, já vejo montada uma banca com microscópios, é que, inserida no projecto Ciência Viva de Verão está prestes a começar uma actividade intitulada "A Vida na Maré Baixa" e que permitirá conhecer muitos e diversos organismos que ocorrem na zona entre marés e com observação detalhada da sua morfologia com o auxílio de lupas binoculares, tudo sob a orientação de biólogos e professores da Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar...  
"Praia do Porto da Areia Norte"
Apesar da sua aparente tranquilidade, esta é uma praia arenosa que na maré vaza exibe uma plataforma horizontal rochosa que cria várias poças onde um mundo fabuloso de estranhas e minúsculas criaturas se revela na luta feroz pela sobrevivência, muitas delas sésseis, isto é, que vivem fixas às rochas... Com alguma sorte é possível observar muitas espécies, para além de uma grande variedade de algas e com predominância das verdes que muitas vezes chegam a sufocar a praia, mostram-se ouriços, estrelas e lesmas, todos ostentando o apelido "do mar", cracas, lapas, percebes, mexilhões, camarões minúsculos, burriés, caranguejos, ínfimos chocos, polvos imberbes, pequenos peixes como um caboz de apenas 12cm de comprimento, o peixe-sugador ou até uma solha transparente, de tudo se pode encontrar...  

"Maravilhoso Mundo-Cão minúsculo"- Jean-Charles Forgeronne

Mas estava-me destinado, e o destino tem muita força até na biologia marinha, calhou-me em sorte reparar num pequeno peixe inerte numa poça, aproximei-me de balde e camaroeiro para a captura mas não houve resposta, notei então que a criatura estava cadáver, talvez tivesse sido ferida num ataque predatório ou tenha sofrido um despiste contra uma rocha porque a sua barbatana caudal estava desfigurada... Viro-me então para o Paulo e pergunto: "Coitado, que peixe é este?". "Parece-me um peixe-aranha, vamos ali observar melhor" - respondeu-me ele enquanto nos dirigíamos para os microscópios...

"O meu peixe-aranha" - Jean-Charles Forgeronne

E de facto era um peixe-aranha, essa criatura mítica e assustadora, para aí com uns míseros 15 cm de comprimento, e tal ficou comprovado depois de, utilizando uma pinça, se terem posto em evidência os seus espinhos dorsais e o seu dente superior com os quais envenena a vítima ejectando o seu veneno ao ser pisado enquanto escondido sob a areia e apenas com os olhinhos de fora... E acreditam que foi o primeiro peixe-aranha que conheci pessoalmente em toda a minha vida, por sorte morto?... 

João Abelhudo
(Pesquisador de Valmedo)

segunda-feira, 20 de julho de 2026

 
UMA VOLTINHA POR... - IX


"Torre dos Relógios"-Jean-Charles Forgeronne
...Peniche... A primeira boa sensação que nos assalta quando chegamos ao centro de Peniche é o estacionamento fácil e gratuito no grande parque junto à Capitania, depois é só atravessar a ponte e descobrir ruelas e travessas e largos impregnados de histórias e de cheiro a mar... Atravessemos então o Largo do Município e enfiemos pela Rua Tenente Valadim adentro e logo após uma meia-dúzia de passadas já é possível vislumbrar lá ao fundo a chamada Torre do Relógio, propriedade municipal e construída em 1697 com o intuito de ostentar ao público passante o primeiro relógio mecânico do concelho... Com mais propósito deveria chamar-se "Torre dos Relógios" já que apresenta dois relógios, um na parede virada a sul e outro no lado poente, por sinal os dois em pleno funcionamento e bem certinhos... Mas o Santo Graal desta nossa demanda é o edifício situado entre a torre e o antigo hospital, a Igreja da Santa Casa da Misericórdia de Peniche, um templo aparentemente singelo visto por fora mas que surpreende e deslumbra com o seu interior absolutamente extraordinário...

"Templo-Museu" - Jean-Charles Forgeronne

Normalmente fechada ao público, para frustração de muitos que por ali passam, aproveitando a sorte de o nosso passeio coincidir com um dos escassos períodos de abertura em horário turístico de verão entrámos e a primeira coisa que fazemos por impulso é levantar os olhos para o alto, não para vislumbrar os deuses lá no céu mas para, embasbacados, contemplar o fabuloso tecto em madeira, constituído por 55 caixotões e cada um contendo uma pintura a óleo representando cenas da vida de Cristo e do Novo Testamento... 


A juntar a estas pinturas, o tecto sob o coro apresenta ainda seis enormes telas, o que perfaz 61(!) pinturas, cinco delas da autoria da famosa Josefa de Óbidos... E não se olhe apenas para o alto, repare-se nas paredes integralmente revestidas a belos azulejos seiscentistas! Quem não conhece e passa lá fora a caminho de uma esplanada na praça ali ao lado não imagina tamanho tesouro aqui escondido...

"Andar às voltas em Peniche" - Jean-Charles Forgeronne

E à saída, quiçá depois de um gelado na praça contígua ou a caminho de um mergulho numa das muitas praias à volta de Peniche, ainda a sorte nos pode sorrir se encontrarmos a roda gigante a dar voltas e mais voltas...

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)
 
APANHADO NA REDE - VII

Alguém chumbou na legendagem...



domingo, 5 de julho de 2026

 
O CLUBE DE LEITURA CANINA - II

Ainda não o consigo descortinar mas pressinto que o J.C vem lá e os meus sentidos não me enganaram, aí está ele saindo da porta da cozinha em direcção ao canto à sombra onde estou refastelado há já algum tempo para me proteger deste anormal calor tórrido que se faz sentir aqui por Verde-Erva-Sobre-o-Mar e ao reparar que traz um livro na mão sei o que se vai seguir, uma sessão de leitura canina... Pensava eu, amigos caninos, que essa coisa já tinha passado à história pois muitas luas tinham passado desde aquela primeira longa e exigente experiência, embora engraçada, admito, mas já estou acostumado a que vários projectos do J.C sejam ou efémeros ou esquecidos, por exemplo aquela promessa adiada de um dia pegar em mim e ir mostrar-me a mítica cidade de Lisboa...


-Pois bem, James - disse ele autoritariamente - voltamos às nossas leituras, aposto que já tinhas saudades, certo? - e eu, para não arranjar sarilhos antes de mais, é verdade, mas também por gostar das leituras, ainda que impostas, respondi com o olhar e com as orelhas que sim...
- Ora, hoje vamos ler um trecho de um livro de Baptista Bastos e que penso que vais gostar... Antes de mais é importante saberes que o autor, já falecido, foi jornalista e escritor e ficou famoso com uma pergunta que fazia a todos os seus entrevistados num programa que tinha na televisão: "Onde é que tu estavas no 25 de Abril?"... 
- O que é isso do 25 de Abril? - perguntei de cenho franzido.
- Isso fica para outra altura, o Baptista Bastos e o 25 de Abril, vamos agora ao que interessa, o livro fala sobre as aventuras de um menino nascido na Ajuda, um bairro de Lisboa, aliás como o escritor, e que após uma série de tragédias familiares, especialmente a morte do avô, seu grande amigo e confidente, decide aventurar-se à descoberta da grande cidade lá em baixo, e ouve só esta passagem do romance:  


"...o nosso avô era um cão velho entre flores, e morreu assim, como um cão velho a apreciar as flores, e a gente agora lembra-se dele porque era um velho sem deixar de ser homem, sem deixar de apreciar as coisas que fazem a vida de um homem, a valentia, isso era como as flores para os cães velhos, os cães velhos dos campos, quando pressentem que estão à morte, procuram as terras onde há flores, ele sabe que vai morrer mas procura o sítio ideal para morrer..."

- "Mas não te preocupes, James, tu já não vais para novo mas ainda não és um cão velho..." - disse o J.C talvez para não me desassossegar mas que fiquei a matutar naquilo lá isso fiquei...

James
(Cão de Valmedo)

sexta-feira, 3 de julho de 2026

 

OBRAS DE ARTE NATURAL - I


Tenho para mim certo que a humanidade não detém nem a exclusividade do génio criativo nem da percepção da beleza, antes pelo contrário muitas e curiosas formas de expressão podem ser encontradas nas paisagens e nos mundos animal e vegetal, senão vejamos, quem, mesmo de entre os mais distraídos, ao deambular por este fantástico mundo-cão nunca se cruzou com obras de arte esculpidas pela natureza sem qualquer intervenção humana?  


"Formosa e não segura" - Jean-Charles Forgeronne

De facto, tanto fenómenos biológicos como fenómenos naturais como o vento, a chuva, a erosão, o clima e até a própria passagem do tempo podem criar por vezes autênticas pinturas e esculturas como é o caso deste primeiro exemplo que apresento: um plátano artista e habitante do Jardim da Nossa Senhora dos Anjos com que me cruzei há pouco, ali à beira de um Ankylosaurus, ou não fosse a Lourinhã a capital dos dinossauros... Pois então não é que o plátano, ao descascar-se, criou a silhueta de uma donzela de rabo de cavalo a passear pelo jardim? Tal qual a Leonor formosa e não segura a caminho da fonte?

  
"Donzela de rabo de cavalo"

Contrapondo com os dinossáuricos milhões de anos esta efémera obra de arte existiria apenas até que alguém distraidamente a pisasse, alheio à sua beleza estética, mas agora, fruto da minha descoberta fortuita está felizmente em segurança no meu museu de Valmedo...  

João Plástico
(Artista de Valmedo)

segunda-feira, 29 de junho de 2026

 
O CÃODUTOR


"Sabes James, ele tinha razão ao ter tocado ao de leve o cláxon, afinal eu distraidamente tinha parado o carro em segunda fila no parque de estacionamento da concorrida superfície comercial e não me tinha apercebido que a viatura à qual tinha bloqueado a saída se preparava para sair... Até levantei a palma da mão aberta em sinal de tréguas e até cheguei a berrar pela janela aberta um pedido de desculpas mas apenas recebi de troco um breve latido, o suficiente no entanto para perceber que o cãodutor deveria ser um canino de bem..."
Vejam bem, amigos caninos, esta foi a conversa com que o J.C me chegou à bocado, até aí nada de extraordinário, o pior é que agora plantou na cabeça que me há-de dar aulas de condução naquelas máquinas enormes e barulhentas que as pessoas idolatram e usam para se deslocar para qualquer sítio e a qualquer hora e tudo com o intuito de fazer de mim um cãodutor, à semelhança de outros que parece ir havendo por aí...


"Talvez possas ser muito útil quando alguém da família não puder conduzir por qualquer razão!" - diz ele com um ar tão convicto que me dá a certeza de que desta ideia maluca não terei escapatória... E como que para atestar a necessidade insofismável do seu projecto mostra-me a fotografia do cãodutor com que ele se cruzou... E por acaso até tem estilo, não acham amigos caninos?

James
(Cão de Valmedo)

segunda-feira, 15 de junho de 2026

domingo, 14 de junho de 2026

 
A MUJA, A MOLHA E A ARTE

"Poça das Mujas" - Jean-Charles Forgeronne
"Será que sou só eu que tenho esta incómoda sensação de estar num planeta estranho?" - digo em surdina para mim próprio enquanto olho para uma tranquila N. sentada à minha frente e alegremente entretida com o seu repasto, olho disfarçadamente para a mesa do canto e vejo um casal de meia-idade com o ar mais normal deste mundo, analiso a simpática empregada e não lhe consigo apontar nenhuma incongruência, admito então que talvez ela não seja um monstro alienígena encarnado numa aparência humanoide como há instantes equacionei e todos estavam a agir tão normalmente que por um segundo, mas apenas por um segundo, me coloquei a hipótese de ser eu que estava em processo de enlouquecimento galopante... 
"Este pedaço de mundo-cão a que chamam Pico hoje parece o planeta dos enigmas", pensei, o dia tinha começado sob o signo dos mistérios, tínhamos entrado por Calheta de Nesquim adentro e a razão daquela estranha toponímia tinha-a descoberto por sorte na busca matinal obrigatória ao meu blogue preferido, "Planandonomundocão"...

"Molha do Saragaço" - Jean-Charles Forgeronne

Ainda não o disse mas estamos no "Saragaço", simpático restaurante de ótima localização na zona balnear da Poça das Mujas, a uma dúzia de passos da piscina natural e outros tantos do Murricão... Após um delicioso banho tomado na piscina natural viemos até aqui, meio-dia em ponto, os primeiros clientes a chegar, ainda a porta estava fechada mas vendo alguém no interior descaradamente perguntei através duma janela entreaberta qual era o menu do dia, ao que me responderam "Hoje tem molha"! Fiquei impávido mas não sereno, virei-me para a N. e desabafei : "Molha? Que raio é a molha?" 
O dia ia-se tornando cada vez mais estranho, primeiro tinha sido a questão do estranho nome Nesquim, entretanto resolvido, depois vieram as Mujas, "Quem são as mujas?" perguntei-me assim que mergulhei naquelas célebres e cálidas águas, imaginei até serem entidades míticas subaquáticas do tempo da Atlântida, vá lá saber-se, e agora, para compor o ramalhete, surgira outro enigma, a molha... 

"Quebra-cabeças"

Invertendo a natural ordem das coisas solucionou-se primeiro o enigma da molha pois assim que a porta se abriu tomei de assalto o castelo e perguntei: " Vamos lá a vero que é isso da molha?" e ouvi "A molha de carne? É um guisado típico aqui da região..." e o assunto ficou resolvido! A molha é então um prato tradicional dos Açores, típico do Pico e do Faial e consiste num guisado de carne de vaca cozinhado lentamente, como se fazia outrora, com tempo... Bem, a carne desfazia-se ao primeiro toque do garfo e estava saborosíssima de bem temperada com as especiarias da terra, que repasto! Tão delicioso quanto o banho na Poça das Mujas... Mas entretanto, e antes de poder esclarecer a questão das mujas, reparo numa coisa que me baralhou (novamente) os neurónios: algo não batia bem com os dois quadros expostos na parede por cima do buffet e por mais que tentasse entendê-los mais baralhado ia ficando... 
"Nº 3 1967"
Um dos quadros, o mais à esquerda, não tinha cor, parecia estar escondido por detrás do nevoeiro  tão típico dos Açores, mas seria mesmo assim? Tão abstracto? Aproveitei para examiná-lo mais de perto quando me fui reabastecer de molha e surpreendi-me ao verificar que era a reprodução de uma obra de Mark Rothko, considerado o maior representante do Expressionismo abstracto norte-americano e cujas obras se caracterizam pela sobreposição de largas bandas de cores... E de facto, como esclareceu uma breve pesquisa feita após uma dificil espera até que terminássemos a molha, a obra nº3 1967 apresenta cores bem carregadas, nada tendo a ver com aquilo que se vê exposto por cima do buffet... Se a obra original já é bastante abstracta então esta reprodução do Saragaço é abstracta elevada ao quadrado! 

"Autor desconhecido"
Mas o quadro ao lado não era menos intrigante, de autor desconhecido, pelo menos não vislumbrei nenhuma assinatura, parecia-me mais do género impressionista e era também formado por duas bandas de azul, uma mais escura na parte superior e outra mais clara na parte inferior, uns borrões coloridos a meio e por mais que eu olhasse não via a mensagem do artista, se é que a havia, embora percepcionasse uma ideia a pairar no meu juízo não a conseguia agarrar... "Que vês tu naquele quadro da direita?" ainda perguntei mas a N. após um breve olhar respondeu: "Nada. E tu?". "Tal qual!", respondi desanimado e foi já quando nos levantávamos para ir embora que numa última olhadela já de esguelha se fez luz, pelo menos para mim: o quadro só podia estar de pernas para o ar! Só me ocorreu uma forma de confirmar a minha hipótese: tirei uma foto ao raio do quadro, invertia-a e lá estava: ao menos agora os borrões podiam ser barcos, o céu passou a ser o mar e vice-versa! Contente com a minha descoberta  sentei-me ao volante e porque tínhamos pela frente a Poça das Mujas ressuscitou o enigma que faltava: o que raio era uma muja? E só arrancamos dali quando ficamos a saber que a muja é um peixe também conhecido como taínha ou fataça... Havia necessidade de complicar tanto? E pronto, lá arrancamos e o dia ainda ia a meio, que mais coisas nos iriam espantar ainda?   

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

sábado, 13 de junho de 2026

sexta-feira, 12 de junho de 2026

 
LENDAS E NARRATIVAS - XXVIII

O CÃOMANDANTE NESQUIM

O forasteiro que chega à pequena localidade de Calheta de Nesquim não pode deixar de se interrogar sobre a origem de tão extraordinário nome e se calhetas há muitas ou não fossem elas pequenas enseadas, baías ou angras que servem de porto de abrigo a pequenas embarcações, coisa mais do que comum nestas ilhas açorianas, porque raio esta é de Nesquim? E o que é isso de Nesquim?  
Uma boa pista para decifrar o mistério é observar com atenção o brasão de armas da freguesia e reparar que nele se destacam um cachalote e um cão de fila açoriano, ambos negros; se em relação ao primeiro percebe-se o destaque devido à grande tradição de Calheta de Nesquim na baleação açoreana, note-se que foi aqui que em 1876 foi estabelecida a primeira armação baleeira na ilha do Pico, já em relação ao cão, que raio faz ele ali?

"Calheta de Nesquim" - Jean-Charles Forgeronne

As respostas são dadas por uma lenda que refere que no século XVI um enorme veleiro vindo do Brasil com destino a Lisboa e carregado com madeira preciosa foi assolado por uma forte tempestade ao largo da costa sul da ilha do Pico e depois de ter andado vários dias à deriva acabou por naufragar, talvez pelo excesso de carga de pau-brasil... Do grande contingente de homens apenas três se salvaram e graças à orientação dada pelos latidos de um cão que viajava a bordo, de nome Nesquim, o qual, depois de ter nadado até ter alcançado uma calheta se tinha posto a ladrar para os seus companheiros... 

"Casa dos Botes da Calheta de Nesquim"- Jean-Charles Forgeronne

Em honra do cão, não só o local do salvamento se passou então a chamar Calheta do Nesquim como depois o brasão da freguesia integrou o Nesquim em lugar de destaque... E agora que o forasteiro está saciado porque viu os seus enigmas serem desvendados pode aproveitar para visitar a Casa dos Botes e depois passar pela Poça das Mujas, deleitar-se aí com um belo e especial banho pois foi aí que o Nesquim deu à costa e ali mesmo ao lado e em cima pode visitar o Morro do Cão, também conhecido por Murricão, alto de onde o herói da história, qual cãomandante, guiou os seus companheiros de viagem...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)