segunda-feira, 15 de junho de 2026

domingo, 14 de junho de 2026

 
A MUJA, A MOLHA E A ARTE

"Poça das Mujas" - Jean-Charles Forgeronne
"Será que sou só eu que tenho esta incómoda sensação de estar num planeta estranho?" - digo em surdina para mim próprio enquanto olho para uma tranquila N. sentada à minha frente e alegremente entretida com o seu repasto, olho disfarçadamente para a mesa do canto e vejo um casal de meia-idade com o ar mais normal deste mundo, analiso a simpática empregada e não lhe consigo apontar nenhuma incongruência, admito então que talvez ela não seja um monstro alienígena encarnado numa aparência humanoide como há instantes equacionei e todos estavam a agir tão normalmente que por um segundo, mas apenas por um segundo, me coloquei a hipótese de ser eu que estava em processo de enlouquecimento galopante... 
"Este pedaço de mundo-cão a que chamam Pico hoje parece o planeta dos enigmas", pensei, o dia tinha começado sob o signo dos mistérios, tínhamos entrado por Calheta de Nesquim adentro e a razão daquela estranha toponímia tinha-a descoberto por sorte na busca matinal obrigatória ao meu blogue preferido, "Planandonomundocão"...

"Molha do Saragaço" - Jean-Charles Forgeronne

Ainda não o disse mas estamos no "Saragaço", simpático restaurante de ótima localização na zona balnear da Poça das Mujas, a uma dúzia de passos da piscina natural e outros tantos do Murricão... Após um delicioso banho tomado na piscina natural viemos até aqui, meio-dia em ponto, os primeiros clientes a chegar, ainda a porta estava fechada mas vendo alguém no interior descaradamente perguntei através duma janela entreaberta qual era o menu do dia, ao que me responderam "Hoje tem molha"! Fiquei impávido mas não sereno, virei-me para a N. e desabafei : "Molha? Que raio é a molha?" 
O dia ia-se tornando cada vez mais estranho, primeiro tinha sido a questão do estranho nome Nesquim, entretanto resolvido, depois vieram as Mujas, "Quem são as mujas?" perguntei-me assim que mergulhei naquelas célebres e cálidas águas, imaginei até serem entidades míticas subaquáticas do tempo da Atlântida, vá lá saber-se, e agora, para compor o ramalhete, surgira outro enigma, a molha... 

"Quebra-cabeças"

Invertendo a natural ordem das coisas solucionou-se primeiro o enigma da molha pois assim que a porta se abriu tomei de assalto o castelo e perguntei: " Vamos lá a vero que é isso da molha?" e ouvi "A molha de carne? É um guisado típico aqui da região..." e o assunto ficou resolvido! A molha é então um prato tradicional dos Açores, típico do Pico e do Faial e consiste num guisado de carne de vaca cozinhado lentamente, como se fazia outrora, com tempo... Bem, a carne desfazia-se ao primeiro toque do garfo e estava saborosíssima de bem temperada com as especiarias da terra, que repasto! Tão delicioso quanto o banho na Poça das Mujas... Mas entretanto, e antes de poder esclarecer a questão das mujas, reparo numa coisa que me baralhou (novamente) os neurónios: algo não batia bem com os dois quadros expostos na parede por cima do buffet e por mais que tentasse entendê-los mais baralhado ia ficando... 
"Nº 3 1967"
Um dos quadros, o mais à esquerda, não tinha cor, parecia estar escondido por detrás do nevoeiro  tão típico dos Açores, mas seria mesmo assim? Tão abstracto? Aproveitei para examiná-lo mais de perto quando me fui reabastecer de molha e surpreendi-me ao verificar que era a reprodução de uma obra de Mark Rothko, considerado o maior representante do Expressionismo abstracto norte-americano e cujas obras se caracterizam pela sobreposição de largas bandas de cores... E de facto, como esclareceu uma breve pesquisa feita após uma dificil espera até que terminássemos a molha, a obra nº3 1967 apresenta cores bem carregadas, nada tendo a ver com aquilo que se vê exposto por cima do buffet... Se a obra original já é bastante abstracta então esta reprodução do Saragaço é abstracta elevada ao quadrado! 

"Autor desconhecido"
Mas o quadro ao lado não era menos intrigante, de autor desconhecido, pelo menos não vislumbrei nenhuma assinatura, parecia-me mais do género impressionista e era também formado por duas bandas de azul, uma mais escura na parte superior e outra mais clara na parte inferior, uns borrões coloridos a meio e por mais que eu olhasse não via a mensagem do artista, se é que a havia, embora percepcionasse uma ideia a pairar no meu juízo não a conseguia agarrar... "Que vês tu naquele quadro da direita?" ainda perguntei mas a N. após um breve olhar respondeu: "Nada. E tu?". "Tal qual!", respondi desanimado e foi já quando nos levantávamos para ir embora que numa última olhadela já de esguelha se fez luz, pelo menos para mim: o quadro só podia estar de pernas para o ar! Só me ocorreu uma forma de confirmar a minha hipótese: tirei uma foto ao raio do quadro, invertia-a e lá estava: ao menos agora os borrões podiam ser barcos, o céu passou a ser o mar e vice-versa! Contente com a minha descoberta  sentei-me ao volante e porque tínhamos pela frente a Poça das Mujas ressuscitou o enigma que faltava: o que raio era uma muja? E só arrancamos dali quando ficamos a saber que a muja é um peixe também conhecido como taínha ou fataça... Havia necessidade de complicar tanto? E pronto, lá arrancamos e o dia ainda ia a meio, que mais coisas nos iriam espantar ainda?   

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

sábado, 13 de junho de 2026

sexta-feira, 12 de junho de 2026

 
LENDAS E NARRATIVAS - XXVIII

O CÃOMANDANTE NESQUIM

O forasteiro que chega à pequena localidade de Calheta de Nesquim não pode deixar de se interrogar sobre a origem de tão extraordinário nome e se calhetas há muitas ou não fossem elas pequenas enseadas, baías ou angras que servem de porto de abrigo a pequenas embarcações, coisa mais do que comum nestas ilhas açorianas, porque raio esta é de Nesquim? E o que é isso de Nesquim?  
Uma boa pista para decifrar o mistério é observar com atenção o brasão de armas da freguesia e reparar que nele se destacam um cachalote e um cão de fila açoriano, ambos negros; se em relação ao primeiro percebe-se o destaque devido à grande tradição de Calheta de Nesquim na baleação açoreana, note-se que foi aqui que em 1876 foi estabelecida a primeira armação baleeira na ilha do Pico, já em relação ao cão, que raio faz ele ali?

"Calheta de Nesquim" - Jean-Charles Forgeronne

As respostas são dadas por uma lenda que refere que no século XVI um enorme veleiro vindo do Brasil com destino a Lisboa e carregado com madeira preciosa foi assolado por uma forte tempestade ao largo da costa sul da ilha do Pico e depois de ter andado vários dias à deriva acabou por naufragar, talvez pelo excesso de carga de pau-brasil... Do grande contingente de homens apenas três se salvaram e graças à orientação dada pelos latidos de um cão que viajava a bordo, de nome Nesquim, o qual, depois de ter nadado até ter alcançado uma calheta se tinha posto a ladrar para os seus companheiros... 

"Casa dos Botes da Calheta de Nesquim"- Jean-Charles Forgeronne

Em honra do cão, não só o local do salvamento se passou então a chamar Calheta do Nesquim como depois o brasão da freguesia integrou o Nesquim em lugar de destaque... E agora que o forasteiro está saciado porque viu os seus enigmas serem desvendados pode aproveitar para visitar a Casa dos Botes e depois passar pela Poça das Mujas, deleitar-se aí com um belo e especial banho pois foi aí que o Nesquim deu à costa e ali mesmo ao lado e em cima pode visitar o Morro do Cão, também conhecido por Murricão, alto de onde o herói da história, qual cãomandante, guiou os seus companheiros de viagem...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

quarta-feira, 10 de junho de 2026

 
O MUNDO-CÃO PELO OLHO DO ARTISTA - V 

"Lajes", Susana Margarido - Aguarela sobre papel

"Lajes do Pico" - Jean-Charles Forgeronne

domingo, 7 de junho de 2026

 
A RAIVA DO VULCÃO - XIII

O LADO CERTO DA MONTANHA

Acerca do arquipélago dos Açores escreveu há 100 anos Raul Brandão que "O melhor de cada ilha é a ilha que está em frente" e isso é particularmente notável quando observamos o Pico a partir do Faial e nos apercebemos da realidade que emana das palavras do escritor-explorador a proposito do verdadeiro fascínio que a montanha exerce na Horta: "... tão longe que a luz o trespassa, tão perto que quer entrar por todas as portas dentro. Na verdade, parece um efeito mágico de luz, um fantasma posto aí de propósito para nos iludir e mais nada. Toma todas as cores: agora está violeta, logo está rubro. A cada momento uma nova transformação."

"O Pico desde a Horta" - Jean-Charles Forgeronne

Quem anda pelo Pico e em qualquer instante é sujeito a ser magneticamente atraído para a visão parcial do cume da montanha lá no alto, coisa natural, esteja onde estiver na ilha, seja no lado das Lajes ou na costa de São Roque ou até na Madalena pode ser enganado com a percepção de que aquele cocuruto lá em cima não passa de uma montanha numa ilha, mas o Pico não é apenas uma montanha, é a própria ilha! Porque é preciso ainda fazer outra coisa, como Saramago: "É necessário sair da ilha para ver a ilha"! E neste caso não embarcamos em metáforas, é preciso mesmo sair do Pico fisicamente para conhecer a ilha, é necessário ver a montanha do lado certo para a conhecer, tem que se vir à Horta e vê-la em todo o seu esplendor através do canal, mesmo que esteja mau tempo... Só deste lado, do lado da Horta, é possível ver o vulcão na sua plenitude e as encostas da montanha a espraiarem-se para o oceano... Então o Pico revela-se como a ilha-vulcão...

"O Pico desde a Madalena" - Jean-Charles Forgeronne
João Lava
(Vulcanólogo de Valmedo)

sexta-feira, 5 de junho de 2026

"Diálogo em Porto Pim" - Jean-Chales Forgeronne

 
QUARENTA ANOS DE MARINA!

Inaugurada a 3 de Junho de 1986, a Marina da Horta, localizada no sudeste da ilha do Faial e com capacidade para 300 embarcações, é hoje uma das mais importantes marinas do mundo, sendo a quarta mais visitada em todo o globo! A sua localização permite um excelente abrigo contra os ventos, venham eles de onde vieram, e faz dela uma escala quase obrigatória para os veleiros que cruzam o Atlântico Norte ou aqueles que viajam das Caraíbas em direcção ao Mediterrâneo...

"Marina da Horta" - Jean-Charles Forgeronne

A Horta, apesar de pequena, é uma cidade lindíssima e quem passeia ao longo do passeio à ilharga da marina apercebe-se que está a respirar espíritos marinhos, esta cidade foi feita de lendas que o mar criou... Os muros da marina não têm espaço para pintar, tudo está coberto de pinturas feitas pelos iatistas em busca de boa fortuna para o resto da sua viagem, é que segundo a lenda quem não pinta no molhe fica mais sujeito a sofrer graves acidentes... 

"Rocinante marítimo" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

quarta-feira, 3 de junho de 2026


E porque hoje é o Dia Mundial da Bicicleta...

O cross matinal ainda vai no início, saí nem há dez minutos do hotel em ritmo lento como convém para poder contemplar a baía e, aproveitando as ruas das Angústias ainda desertas, estudar com tempo as pinturas no muro em frente ao Café de Porto Pim em busca de alguma mensagem interessante... Deixei a igreja para trás e agora à minha esquerda jaz a marina adormecida, os mastros das embarcações quase que tocam o nevoeiro que teima em dissipar, por impulso olho em frente e ao longe em busca do Pico mas a montanha hoje acordou escondida...

"Pantónio na Horta" - Jean-Charles Forgeronne

Mais uma centena de passadas e reparo numa meia dúzia de frondosas figueiras ainda estéreis que parecem descer a encosta, questiono-me se o mestre Euclides Rosa aqui terá vindo arrancar-lhes os ramos jovens para deles extrair o miolo e trabalhá-lo com paciência de ourives nas suas delicadas e minuciosas obras... E depois, assim que faço uma curva ganho o prémio do dia, ao longo do muro surgem uns traços esguios, umas linhas entrelaçadas e umas andorinhas tão peculiares que só podiam ser do Pantónio, o artista terceirense que descobri já há alguns anos num moinho no Moledo lourinhanense e agora também presente aqui pela Horta, numa obra sob o signo da bicicleta... E agora, olhando para o alto, hesito em subir ao cimo do Monte da Guia, ainda se tivesse uma bicicleta à mão...

"As bicicletas do Pantónio" - Jean-Charles Forgeronne

João Pena-Seca
(Escritor de Valmedo)
 E porque hoje é o Dia Mundial da Bicicleta...

"A verdade é que, por culpa da bicicleta, as mulheres deslocavam-se por conta própria, desertavam do lar e desfrutavam do perigoso sabor da liberdade. E por culpa da bicicleta, o opressivo espartilho, que as impedia de pedalar, saiu do roupeiro e foi para o museu."

Eduardo Galeano
in "Os filhos dos dias"

 A MARAVILHOSA BICICLETA

Comemora-se hoje o Dia Mundial da Bicicleta, instituído pela Organização das Nações Unidas há seis anos com o intuito de lembrar não só a importância da bicicleta na sociedade tanto a nível de transporte como de lazer, por um lado, mas também salientar os benefícios do seu uso regular para a saúde e para o ambiente...
Para mim, que tive a sorte de ter alguém que me ensinou a andar de bicicleta aos cinco anos de idade, desde esses primórdios infantis que a associei sempre a uma sensação e experiência de liberdade...
Por isso partilho da opinião de quem se sentia um herói quando de bicicleta se aventurava à descoberta...

"BD de Luís Louro"
João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)
 
TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXXIX

UM MERGULHO NOS SABORES ATLÂNTICOS

Quem chega a Santa Cruz das Flores a necessitar de repasto, seja petisco ou refeição, pode ser desagradavelmente surpreendido pois a oferta é manifestamente escassa, e então se calhar a um domingo como foi o nosso caso o cenário ainda piora pois vários cafés e restaurantes fecham a esse dia ou encerram cedo, culpa de não haver mão-de-obra, "ninguém quer trabalhar" confidenciou-me um gerente, chef de cozinha e empregado de mesa, tudo ao mesmo tempo e que sozinho no seu café tem que encerrar às 8 da tarde, mas nem tudo está perdido quando o visitante agoniza de sede e fome no deserto de opções, basta procurar "O Mergulhador", um simpático restaurante à beira do Porto das Poças e dar um delicioso mergulho nos sabores atlânticos...


Casa de comida tradicional e simpático atendimento, valem a pena tanto a carne como o peixe, a ementa é variada e merece mais do que uma visita; a hora era já um pouco adiantada para a rotina açoriana mas valeu a pena esperar pela grelhada mista para dois, a carne no ponto, a batata da terra deliciosa e um pormenor inédito na minha experiência gastronómica: a mistura de carnes inclui frango, de grelha irrepreensível e molho delicioso, um toque especial inspirado no "frango da guia", confidenciaram-me, mas que fica bem lá isso fica... A condizer muito bem também estava o vinho branco da casa, à temperatura certa... 


João Ratão
(Chef de Valmedo)
 CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXV

A LENTA VIAGEM DO CAMIÃOZINHO

Estamos no extremo noroeste da ilha das Flores, na Ponta do Albarnaz, atrás de nós impera o farol construído há 101 anos e à nossa frente vislumbramos através do nevoeiro o recorte da costa e dois ilhéus, um mesmo aqui à beira, o Ilhéu de Maria Vaz e ao longe outro que daqui parece bem mais pequeno, talvez por estar a cerca de 1,6 milhas náuticas de distância, o Ilhéu de Monchique e que na realidade é um enorme rochedo com 30 metros de altura!... Ouvi com graça a um florentino de gema chamar a este último "o nosso camiãozinho" e de facto, reparando bem, a silhueta do calhau faz lembrar um camião estacionado sobre as águas...
Ora sendo a ilha das Flores o extremo europeu mais ocidental daí decorre que o Ilhéu de Monchique, sendo o ponto mais ocidental da ilha, é simultaneamente o ponto mais ocidental da Europa e curiosamente a cada ano que passa mais ocidental vai ficando! 

"O camiãozinho" - Jean-Charles Forgeronne

O que acontece é que, viajando à boleia da placa tectónica americana, as Flores e o ilhéu de Monchique se vão afastando não só da Europa como do resto do arquipélago, sendo esse afastamento de alguns centímetros por ano... É uma viagem muito lenta esta da ilha e do seu camiãozinho mas, quem sabe, daqui a uns milhões de anos talvez deixem de ser europeus!

"Farol de Albarnaz" - Jean-Charles Forgeronne

Mas desengane-se quem pensar que o Ilhéu de Monchique não passa de um calhau perdido no oceano, ele não se resignou a esse papel tão modesto e o certo é que serviu como ponto de referência para acerto das rotas e calibração dos instrumentos náuticos...

João Palmilha
(Viajante de Valmedo) 

terça-feira, 2 de junho de 2026

"Poço do Bacalhau", Flores - Jean-Charles Forgeronne

 
A ILHA DAS MIL CASCATAS

Já nos portulanos genoveses do século XIV se chamava à ilha Insula Corvi Marini, a ilha do corvo marinho, passado um século, quando Diogo de Teive a "descobriu" em 1452 para o reino lusitano foi baptizada de Ilha de São Tomás e só em 1475 é que tomou o nome definitivo de Flores devido à então exuberante abundância de cubres, vegetação que cobria toda a ilha de flores amarelas e que fazia abrir a boca de espanto aos marinheiros... Já nos primórdios do século XX, na sua fantástica viagem exploratória aos Açores descrita em "As ilhas desconhecidas", Raul Brandão chamou às Flores a "Ilha Rosa" por causa das suas azáleas... Já para mim, assim como para muitos certamente, as Flores é a "Ilha das Cascatas", tantas são elas que os florentinos dizem que um dia a ilha se afundará com tanta água que escorre de todo o lado...  

"Cascatas na costa" - Jean-Charles Forgeronne

E se o leitor estiver desconfiado da descrição desta maravilha só tem um remédio que é crer pelos próprios olhos, para constatar basta dar um passeio entre a Fajãzinha e a Ponta da Fajã, só aí existem cerca de vinte quedas de água, pode vê-las de perto a partir do Poço da Alagoinha ou então deixar-se deslumbrar pela vista magnífica a partir do miradouro do Portal... Embora num cenário diferente mas não menos entusiasmante também é imperdível explorar de barco a costa leste e deixe-se deliciar com as grutas e com a água a cair das falésias e ainda pode aproveitar e seguir rota até ao Corvo, se o mar o permitir...

"Poço da Ribeira do Ferreiro" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

segunda-feira, 1 de junho de 2026

 
LENDAS E NARRATIVAS - XXVII

CORSÁRIOS, CORVINOS E MILAGRES

Desde o inicio do século XVI, devido à sua localização isolada e também por estar alinhada com a rota de regresso à Europa de galeões portugueses e espanhóis carregados com riquezas e tesouros de África, Índia e América, a ilha do Corvo foi eleita como o refúgio preferido de corsários oriundos de muitas paragens, eles eram piratas franceses, ingleses, holandeses e até argentinos que não resistiam a atacar frequentemente a ilha e ao mesmo tempo que aproveitavam para se esconder nas suas encostas iam fazendo reféns e saqueando casas...


Ora, apesar de habituados a tantos ataques e depois de terem desenvolvido uma grande capacidade de resistência e até de diplomacia, em 1632 os corvinos sentiram-se mesmo apertados perante um ataque massivo de corsários argelinos, o cenário era mesmo assustador: 10 naus vindas de Argel atacaram em força a ilha com o intuito de levar cativos os seus habitantes! E foi então que 200 corvinos desataram por todos os meios e feitios a arremessar pedras contra os invasores e milagrosamente conseguiram impedir a invasão dos sequestradores! E foi mesmo o que se gritou: "Foi milagre"! E assim ficou para a história...

"Igreja Nossa Senhora dos Milagres", Corvo - Jean-Charles Forgeronne

Passou então a partir daí a rezar a lenda de que foi a padroeira da ilha, a Nossa Senhora do Rosário, a ajudar os corvinos em tão dramática luta, disse-se na altura e ainda se acredita agora que foi ela que, vá lá saber-se se por obra e graça ou se por prodígios de super-heroína, desviou todos os tiros lançados pelos piratas e que, ainda por cima, os devolveu para os barcos causando alarme na bandidagem! Claro que teve de se fazer justiça, a padroeira foi então rebaptizada como Nossa Senhora dos Milagres e uma igreja a ela dedicada se ergueu na Canada da Rocha...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)                                                                                               

sábado, 30 de maio de 2026

"Caldeira", Corvo - Jean-Charles Forgeronne

 

 
ESCRITO NA PAREDE - LIV



João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

 CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXIV

APRISIONADOS NA ILHA NEGRA

Não fosse a fajã lávica na zona sul da ilha e o Corvo seria inacessível, não passaria, nas palavras do escritor-viajante, de um "grande rochedo a pique" cuspido das profundezas do oceano... As costas norte e oeste são demasiado íngremes e ventosas, não permitindo a fixação de gente nem a prática da agricultura, já a costa leste permite semear qualquer coisita mas não tem acesso ao mar, daí ter sido na costa sul que se estabeleceram os primeiros colonizadores, concentrados numa única povoação...

"Chegada ao Corvo" - Jean-CharlesForgeronne

Ainda hoje, passados séculos após a colonização da ilha negra, continua a existir apenas uma localidade em toda a ilha, Vila do Corvo, desde sempre aninhada sobre a falésia que se encosta à baía do Porto da Casa... Uma ilha, uma terra... Hoje, como outrora, Vila do Corvo continua a abrigar todos os habitantes da ilha, cerca de 400, e isso só é possível devido à sua grande densidade habitacional assente num emaranhado de pequenas ruelas, estrutura que foi determinada, desde o início, por duas necessidades prementes dos corvinos: a busca de abrigo para os ventos inclementes e uma fácil entreajuda e protecção contra os ataques dos corsários!

"A vila" - Jean-Charles Forgeronne

Desde o povoamento da ilha os corvinos viviam em reclusão,como se fossem condenados em cela solitária, praticamente sem contactos com o exterior; segundo relatos de 1580 não existia qualquer embarcação na ilha para evitar a fuga dos escravos que faziam parte do contingente de colonizadores, os barcos mais próximos estavam nas Flores e quando havia alguma necessidade eram a eles que se pedia socorro acendendo fogueiras nas pontas da ilha... Curiosamente, também não existiam cães, gatos, coelhos, ratos ou furões! Os cães não eram permitidos para protecção das ovelhas, os gatos eram proibidos porque não haviam ratos e para evitar que assim comessem pássaros, os coelhos eram indesejados para evitar a caça e assim proteger outras fontes de sustento, os ratos eram considerados uma ameaça porque não haviam gatos e além disso porque eram fonte de pestes, aliás eram na altura uma praga nas Flores, e furões também não poderia haver para protecção dos galináceos... Por exemplo, todas as embarcações que aportavam à ilha, mesmo aquelas oriundas das Flores e que demandavam a ilha em missão de socorro eram fiscalizadas por alguém que tinha as funções de "visitador dos ratos"...
 
"Praia da Areia", Corvo - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

quinta-feira, 28 de maio de 2026

 A ILHA DOS 2 BORDALOS

Chego ao Corvo e sinto-me como se tivesse chegado ao fim do mundo, ao fim e ao cabo esta é a derradeira ilha e tanto assim é que é a mais difícil de alcançar, geralmente é a última do arquipélago a ser explorada e nem todos conseguem aqui chegar pois é preciso haver uma conjuntura meteorológica favorável e nem sempre se tem essa sorte, aqui acabam os Açores, depois dela apenas a imensidão do oceano...

"Cagarro", Bordalo II - Foto: Jean-Charles Forgeronne

Mas apesar de ser a mais pequena ilha dos Açores e de apenas ter uma localidade, Vila do Corvo, o Corvo tem muito para descobrir e o visitante pode ser surpreendido a cada curva do caminho, basta, por exemplo, dar de caras com 2 obras de Bordalo II feitas a partir de lixo marinho: o cagarro, na vila, e o mero, na Praia da Areia, já em plena Reserva da Biosfera da ilha... E vale muito a pena procurá-los!

"Mero", Bordalo II - Foto: Jean-Charles Forgeronne

João Plástico
(Artista de Valmedo)

sábado, 16 de maio de 2026

 
ORA BOLAS! MALDITO FUTEBOL...

Tinha sublinhado no programa e até escrito na agenda a data e a hora do evento que não queria perder por nada (ou quase nada) deste mundo: o João Gobern voltava aos Livros a Oeste, depois de anteriores passagens dele por aqui em que não pude estar presente!  Seria a minha merecida desforra, teria a oportunidade de lhe agradecer pessoalmente tantas e boas sugestões musicais e literárias que foi dando ao longo de décadas em programas de rádio ou em jornais e claro, já tirei da estante o seu último livro que serve de mote a esta sua visita, "Tira o Disco e Toca ao Vivo", uma interessantíssima, necessária e oportuna abordagem sobre a indústria musical na Lusitânia desde os anos 80 do século passado até aos dias de hoje... E um pormenor delicioso que me agrada de sobremaneira neste ensaio é o facto de que cada capítulo ter tomado o título de uma canção emblemática da considerada música moderna portuguesa no período de tempo em análise, seja, por exemplos, "A vida num só dia", dos Rádio Macau, 1985, ou "Amor digital", de Jorge Palma, 2023...




E com alguma dificuldade também trouxe à luz do dia o CD de Thomas Dybdahl, "One day you'll dance for me, New York", com a fabulosa homónima canção que numa manhã ancestral e de sorte calhou eu ouvir o João sugerir num programa de rádio, penso que num saudoso "Hotel Babilónia", e o meu mundo foi diferente para melhor desde então, uma das canções a eleger para a minha colectânea de vida... Só por isso, mas também por muito mais, obrigado, Gobern! Mas eis senão quando na hora da verdade o Gobern aparece apenas em vídeo, a porcaria do futebol obrigou-o a ficar retido para comentários naqueles painéis de especialistas da bola para os quais já não há ponta de pachorra... Compromissos são compromissos, de acordo, mas logo haveria o último jogo do glorioso ser marcado para este mesmo dia? E ainda por cima com diminutas possibilidades de êxito? Imperdoável, Gobern! E o tão ansiado autógrafo? Vais ter que pagar com juros quando voltares aos Livros a Oeste... Cá te espero...

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

sexta-feira, 15 de maio de 2026

 
O POETA DO JARDIM...

"Livros a Oeste"
E se de repente à nossa passagem as árvores desatassem a falar? Reacções diversas podem acontecer, depende de cada um e dos seu estado de espírito, eu cá não me livrei de um pequeno susto quando ao entrar no Parque da Cegonha para a corrida matinal ouço uma árvore dizer-me "Psssst!...Psssst"... "Que porra é esta? Por acaso caí no buraco do País das Maravilhas onde as árvores e outras estranhas criaturas falam?" - interroguei-me de boca aberta e olhar confuso... É então que a árvore, depois de me ter chamado a atenção, começa a declamar um poema, a voz, reparo então, sai de uma pequena caixa de madeira que faz lembrar uma daquelas casotas para pássaros que encontramos por jardins e florestas, e dizia assim:

O poeta do jardim
não é flor que se cheire
mas dá bom perfume a mim
e amor a quem se abeire...

O poeta do jardim
é uma voz que dá flor
e ecoa ao som do clarim
soprando prosas de amor...

O poeta do jardim
traz ao jardim mais beleza
e o poema não tem fim
se a língua é portuguesa...

O  poeta é uma flor secreta
que enche o jardim de cor
porque um jardim sem poeta
é como um jardim sem flor...

"Caixa-falante" - Jean-Charles Forgeronne

E depois, continuando ao longo do parque descubro, ou antes, sou atraído pelo "Psssst! Psssst!" de mais oito caixas idênticas, cada uma em sua árvore e cada qual com o seu poema... Mais tarde descobrirei que tudo faz parte de uma instalação chamada "O poeta no Jardim", inserida no programa dos Livros a Oeste 2026 e cujo autor é David Santos, aka Noiserv, um habitué daquele festival literário... Já em 2024, no Festival que comemorava os 50 anos do 25 de Abril, o artista tinha apresentado outra desconcertante instalação chamada "Três luzes acenderam ao mesmo tempo em três janelas diferentes"...

"Parque da Cegonha", Lourinhã - Jean-Charles Forgeronne

E assim a corrida se transformou em caminhada poética, aliviaram-se os músculos pelo menor esforço mas inspirou-se a alma e ganhou-se o resto do dia...

J.C
(Poeta de Valmedo)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

sexta-feira, 8 de maio de 2026

EFEMÉRIDE# 113

OS CEM ANOS DO HOMEM-PLANETA



Chegar bem vivo aos 100 anos não é para todos, merecer esses 100 anos e mais uns quantos é só para alguns, e de todos esses ainda alcançar a eternidade é raríssimo, mas é o caso de Sir David Attenborough, exemplo de uma vida a ensinar e a mostrar a beleza extraordinária que ainda existe neste mundo-cão... Só não partilho com ele a fé e a esperança que tem no ser humano, por vezes penso até que este planeta necessitava de uma profunda desintoxidesumanização!  Parabéns, Sir, e obrigado...

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo) 

O MUNDO-CÃO PELO OLHO DO ARTISTA - IV


"Aqueduto" - Ana Rita Manique, aguarela sobre papel


"Óbidos" - Jean-Charles Forgeronne, 2026

 
LIVROS 5 ESTRELAS - XLIII

À VOLTA DE BORGES...

Em 1964, em Buenos Aires, um escritor cego convidou um jovem livreiro de apenas 16 anos para lhe ler em voz alta. E foi assim que durante quatro anos Alberto Manguel, o jovem, hoje um dos mais conceituados bibliófilos do mundo, frequentou o apartamento de Jorge Luís Borges, o escritor, e com ele conviveu intimamente...


Este maravilhoso livro, pequeno em tamanho mas enorme em essência, é não só um livro de memórias mas também uma homenagem à personagem desconcertante que foi Borges, nele se divulgam  a partilha de momentos domésticos, de leituras, de conversas e reflexões, sobre livros e sobre a vida... E há tantas curiosidades a descobrir sobre sobre o autor de "A Biblioteca de Babel"...

João Vírgula 
(Leitor de Valmedo)
 
VIAGEM À LITERATURA GLOBAL...

E ali estava eu, chegado cedo que seria imperdoável não arranjar um lugar nas poucas cadeiras disponíveis, sentado admirando o belíssimo cenário da Livraria do Mercado, esperando pela hora certa para ver e ouvir a lenda... Faltavam ainda uns minutos e a coisa anima, alguém dispõe numa mesinha ali ao lado uns copos e um aparato de chá, claro, tudo a condizer, afinal também todaa gente estava ali para ouvir falar de chá... E à hora certa, só faltou o gongo oriental para a anunciar, duas figuras até então escondidas num canto da primeira fila se levantam e ocupam as duas cadeiras de palestrantes... Uma, com o seu característico chapéu, é Alberto Manguel, a lenda, a outra, que se viria a revelar também um excelente conversador e especialista em chá, é Sebastien Filgueiras, autor das ilustrações do livro que irá ser apresentado...

"Livraria do Mercado, Óbidos"- 19/04/26

Alberto Manguel, escritor, ensaísta e erudito bibliófilo, está ali mesmo à minha frente para apresentar o seu último livro, "Contos do Chá", uma colectânea de contos em que o denominador comum é, obviamente, o chá, essa mítica bebida que acompanha a humanidade há séculos, e onde, entre um sorvo e outro, nos podemos deleitar com pérolas de Agatha Christie, Hans Christian Andersen, Saki ou Anton Tchékov, entre outros... E se juntarmos ao chá um personalizado autógrafo melhor fica a cerimónia...

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)