terça-feira, 4 de agosto de 2026

 
LENDAS E NARRATIVAS - XXIX

A TRAGÉDIA DUMA MORTE ESTÚPIDA

A estranha morte de Ésquilo, o famoso autor de tragédias gregas, para uns não passará de uma lenda mas para outros constituirá um acontecimento histórico credível muito por culpa de Plínio, o Velho, o também famoso naturalista e escritor romano que descreveu a curiosa ocorrência na sua gigantesca obra "História Natural", uma autêntica enciclopédia do conhecimento... Assim, segundo Plínio, andando Ésquilo pela Sicília gozando já em idade de reforma a sua fama de grande dramaturgo, uma águia que tinha capturado uma tartaruga andava em voos circulares pelos ares com o réptil recolhido na sua couraça entre as garras e com uma estratégia em mente: quebrar a carapaça da presa deixando-a cair lá do alto sobre uma rocha e assim bicar o petisco... E assim fez, só que aquilo que lhe pareceu ser uma rocha era a cabeça careca e brilhante de Ésquilo, o qual não resistiu à terrível pancada!



O irónico da história é que Ésquilo evitava estar por casa e andava o mais que podia pela natureza porque queria fugir ao seu destino, é que tempos antes tinha-lhe sido dito numa profecia que o tecto de uma casa lhe cairia sobre a cabeça, nada mais certo então, acabou morto pela casa de uma tartaruga! Ele que foi mestre em criar tragédias, obras em verso em que figuram ilustres personagens e que geralmente acabam com uma morte, talvez nunca tivesse sonhado que a sua própria morte seria digna de uma tragédia surreal...
Mas passados séculos também Plínio acabou os seus dias de forma trágica e irónica, vitima da sua curiosidade infindável e enquanto não só liderava uma missão de salvamento mas também enquanto investigava o fenómeno, acabou por morrer devido à inalação de cinzas e de gases vulcânicos libertados pela erupção do vulcão Vesúvio no ano 79 d.C...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

 

A MISTERIOSA ORIGEM DAS PALAVRAS - XXV 

A TRAGÉDIA DE ÉSQUILO E DO ESQUILO


Foto: Milvoz
Esquilo e Ésquilo estão separados por muito mais do que um mero acento agudo, o primeiro nome designa um pequeno e elegante roedor de longa cauda e que se encontra espalhado por florestas de quase todo o mundo-cão enquanto o segundo se refere ao pai da tragédia grega... Comecemos por esquilo, nome que deriva da palavra grega skíouros e que por sua vez é uma junção de duas outras palavras, skía, que significa sombra, e ourá que significa cauda; ou seja, skíouros literalmente designa "rabo que faz sombra" e isso faz todo o sentido se reparamos na forma como o esquilo se senta...  
Ésquilo, quase careca...

Quanto ao nome Ésquilo ele tem origem no grego aiskhúlos, por sua vez um diminutivo de aiskhos e que significa "vergonha"; assim, o grande dramaturgo era conhecido como o tímido, o envergonhadito... Mas para além do nome muito parecido há uma outra coisa que aproxima o poeta e o mamífero, a tragédia: no caso do primeiro, a quem foram atribuídas mais de sessenta obras, apenas sete (!) se conservaram, quanto ao segundo, especialistas colocam-no na lista de espécies em extinção a curto prazo, o que aliás não seria novidade pois o "Sciurus vulgaris", o esquilo vermelho que vemos por aí, já esteve extinto em Portugal desde o século XVI até cerca de 1990 devido ao corte de árvores e perda de florestas...  

João Portugal
(Linguísta de Valmedo)

 

"Natureza aristotélica" - Jean-Charles Forgeronne

 
OBRAS DE ARTE NATURAL - II

A ARTE DO ESQUILO ARISTÓTELES

Ali, no antigamente designado Pinhal da Câmara e que hoje na sua parte sul alberga o Dino  Parque da Lourinhã, vive há meia dúzia de anos por entre dinossauros e criaturas ancestrais um esquilo já velhote chamado Aristóteles mais a sua segunda companheira de vida, a esquila  Herpília... O esquilo Aristóteles, permitam-me apresentá-lo, é um artista que dá asas à sua criatividade sempre que encontra o seu alimento preferido, qualquer pinha que encontre e onde finque os dentes se transforma numa obra de arte através de uma complexa urdidura de figurada filigrana...


"Obra em evolução" - Jean-Charles Forgeronne

É sabido que o esquilo vermelho que habita os nossos bosques é omnívoro, alimenta-se do que a natureza lhe proporciona conforme as estações mas nutre uma especial preferência por pinhas e pinhões de pinheiro bravo, depois também gosta de avelãs, bolotas e outras sementes, não recusando em época de pouca abundância uns cogumelos, mesmo os venenosos para outras espécies, bagas, flores, rebentos  e até insectos se outra coisa não houver... Mas a pinha é o que o faz feliz, e tanto assim é que a trata com carinho e apurada arte, como é o caso do nosso tímido amigo Aristóteles que dando azo à criatividade usa os seus dentes como incansáveis cinzéis e a obra, quando finalizada, é verdadeiramente digna de um exímio escultor... 

"Obra acabada" - Jean-Charles Forgeronne

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

terça-feira, 28 de julho de 2026

sábado, 25 de julho de 2026

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXV

O OURIÇO, O FILÓSOFO E A LANTERNA

O ouriço-do-mar é um equinoderme, isto é, um invertebrado cuja pele tem espinhos venenosos que lhe conferem não só protecção mas também a capacidade de locomoção. É uma criatura exclusivamente marinha que pode ser encontrada por todo o mundo-cão, agarrado às rochas ou em poças nas zonas entre-marés ou então em liberdade nos oceanos e até 5000 metros de profundidade! O ouriço não possui olhos mas tem o corpo coberto de células fotossensíveis que ao detectarem luminosidade o leva a proteger-se cobrindo-se de conchas, seixos e algas... Junto à boca, na face inferior do corpo, possui  uma estrutura de cinco dentes que formam um bico e com os quais raspa as rochas para se alimentar de algas e outros invertebrados; esses dentes, que também servem para escavar abrigos nas rochas, estão ligados a um complexo sistema de ossículos e músculos chamado a "Lanterna de Aristóteles"!?

"Ouriço-do-Mar", Praia do Porto da Areia Norte - Jean-Charles Forgeronne

Dele disse Dante na sua "Divina Comédia" ser o "Mestre dos que sabem", e de facto Aristóteles, juntamente com o seu mestre Platão, esteve na origem de toda uma corrente de pensamento que propulsionou e influenciou a filosofia por todos os séculos seguintes, ou seja, fazendo jus à sua "teoria das causas", com o seu conhecimento causou a filosofia moderna... Mas Aristóteles não era apenas um filósofo, era um sábio de vários saberes, da filosofia à retórica, da lógica à política, da psicologia à poesia, da ética à biologia... Sim, à Biologia!  Num dos seus exílios pelas margens do mar Egeu, ainda muito jovem, apaixonado pela natureza e pelo mar, inicia a investigação dos animais, especialmente os marinhos, e onde, ensinado pelo pai, médico, fez as primeiras dissecações... 

"Aristóteles" - Códice medieval

A designação "Lanterna de Aristóteles" surgiu no livro "Historia Animalium" que o filósofo escreveu no século IV a.C. e onde ao dissecar o ouriço-do-mar comparou essa estrutura do animal com as lanternas que então iluminavam Atenas e a Grécia antiga e que também tinham forma pentagonal... Muitos séculos depois, os modernos biólogos adoptaram o termo para denominar essa famosa estrutura dos ouriços-do-mar, os quais, já agora, apesar da sua carapaça de espinhos venenosos, são um petisco apreciado  por estrelas-do-mar, sapateiras e até alguns peixes, como o sargo...

João Abelhudo
(Pesquisador de Valmedo)

quinta-feira, 23 de julho de 2026


 PEIXE MORTO, CIÊNCIA VIVA

"Laboratório na praia"

Ao chegar-se à Praia do Porto da Areia Norte não fica mal um minuto de silêncio e reflexão, afinal foram aqui que foram enterrados, em valas comuns, os cerca de 400 náufragos do navio de guerra espanhol San Pedro de Alcantara, carregado de tesouros e vindo do Peru com destino a Cádiz, afundado ali à frente junto aos rochedos da Papoa a 2 de Fevereiro de 1786, naquele que constitui um dos acontecimentos mais marcantes da história trágico-marítima de Peniche e de Portugal... Mas hoje viemos aqui por outro motivo: viver a ciência! E lá ao fundo, iluminada por um azul celeste imaculado, já vejo montada uma banca com microscópios, é que, inserida no projecto Ciência Viva de Verão está prestes a começar uma actividade intitulada "A Vida na Maré Baixa" e que permitirá conhecer muitos e diversos organismos que ocorrem na zona entre marés e com observação detalhada da sua morfologia com o auxílio de lupas binoculares, tudo sob a orientação de biólogos e professores da Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar...  
"Praia do Porto da Areia Norte"
Apesar da sua aparente tranquilidade, esta é uma praia arenosa que na maré vaza exibe uma plataforma horizontal rochosa que cria várias poças onde um mundo fabuloso de estranhas e minúsculas criaturas se revela na luta feroz pela sobrevivência, muitas delas sésseis, isto é, que vivem fixas às rochas... Com alguma sorte é possível observar muitas espécies, para além de uma grande variedade de algas e com predominância das verdes que muitas vezes chegam a sufocar a praia, mostram-se ouriços, estrelas e lesmas, todos ostentando o apelido "do mar", cracas, lapas, percebes, mexilhões, camarões minúsculos, burriés, caranguejos, ínfimos chocos, polvos imberbes, pequenos peixes como um caboz de apenas 12cm de comprimento, o peixe-sugador ou até uma solha transparente, de tudo se pode encontrar...  

"Maravilhoso Mundo-Cão minúsculo"- Jean-Charles Forgeronne

Mas estava-me destinado, e o destino tem muita força até na biologia marinha, calhou-me em sorte reparar num pequeno peixe inerte numa poça, aproximei-me de balde e camaroeiro para a captura mas não houve resposta, notei então que a criatura estava cadáver, talvez tivesse sido ferida num ataque predatório ou tenha sofrido um despiste contra uma rocha porque a sua barbatana caudal estava desfigurada... Viro-me então para o Paulo e pergunto: "Coitado, que peixe é este?". "Parece-me um peixe-aranha, vamos ali observar melhor" - respondeu-me ele enquanto nos dirigíamos para os microscópios...

"O meu peixe-aranha" - Jean-Charles Forgeronne

E de facto era um peixe-aranha, essa criatura mítica e assustadora, para aí com uns míseros 15 cm de comprimento, e tal ficou comprovado depois de, utilizando uma pinça, se terem posto em evidência os seus espinhos dorsais e o seu dente superior com os quais envenena a vítima ejectando o seu veneno ao ser pisado enquanto escondido sob a areia e apenas com os olhinhos de fora... E acreditam que foi o primeiro peixe-aranha que conheci pessoalmente em toda a minha vida, por sorte morto?... 

João Abelhudo
(Pesquisador de Valmedo)

segunda-feira, 20 de julho de 2026

 
UMA VOLTINHA POR... - IX


"Torre dos Relógios"-Jean-Charles Forgeronne
...Peniche... A primeira boa sensação que nos assalta quando chegamos ao centro de Peniche é o estacionamento fácil e gratuito no grande parque junto à Capitania, depois é só atravessar a ponte e descobrir ruelas e travessas e largos impregnados de histórias e de cheiro a mar... Atravessemos então o Largo do Município e enfiemos pela Rua Tenente Valadim adentro e logo após uma meia-dúzia de passadas já é possível vislumbrar lá ao fundo a chamada Torre do Relógio, propriedade municipal e construída em 1697 com o intuito de ostentar ao público passante o primeiro relógio mecânico do concelho... Com mais propósito deveria chamar-se "Torre dos Relógios" já que apresenta dois relógios, um na parede virada a sul e outro no lado poente, por sinal os dois em pleno funcionamento e bem certinhos... Mas o Santo Graal desta nossa demanda é o edifício situado entre a torre e o antigo hospital, a Igreja da Santa Casa da Misericórdia de Peniche, um templo aparentemente singelo visto por fora mas que surpreende e deslumbra com o seu interior absolutamente extraordinário...

"Templo-Museu" - Jean-Charles Forgeronne

Normalmente fechada ao público, para frustração de muitos que por ali passam, aproveitando a sorte de o nosso passeio coincidir com um dos escassos períodos de abertura em horário turístico de verão entrámos e a primeira coisa que fazemos por impulso é levantar os olhos para o alto, não para vislumbrar os deuses lá no céu mas para, embasbacados, contemplar o fabuloso tecto em madeira, constituído por 55 caixotões e cada um contendo uma pintura a óleo representando cenas da vida de Cristo e do Novo Testamento... 


A juntar a estas pinturas, o tecto sob o coro apresenta ainda seis enormes telas, o que perfaz 61(!) pinturas, cinco delas da autoria da famosa Josefa de Óbidos... E não se olhe apenas para o alto, repare-se nas paredes integralmente revestidas a belos azulejos seiscentistas! Quem não conhece e passa lá fora a caminho de uma esplanada na praça ali ao lado não imagina tamanho tesouro aqui escondido...

"Andar às voltas em Peniche" - Jean-Charles Forgeronne

E à saída, quiçá depois de um gelado na praça contígua ou a caminho de um mergulho numa das muitas praias à volta de Peniche, ainda a sorte nos pode sorrir se encontrarmos a roda gigante a dar voltas e mais voltas...

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)
 
APANHADO NA REDE - VII

Alguém chumbou na legendagem...



domingo, 5 de julho de 2026

 
O CLUBE DE LEITURA CANINA - II

Ainda não o consigo descortinar mas pressinto que o J.C vem lá e os meus sentidos não me enganaram, aí está ele saindo da porta da cozinha em direcção ao canto à sombra onde estou refastelado há já algum tempo para me proteger deste anormal calor tórrido que se faz sentir aqui por Verde-Erva-Sobre-o-Mar e ao reparar que traz um livro na mão sei o que se vai seguir, uma sessão de leitura canina... Pensava eu, amigos caninos, que essa coisa já tinha passado à história pois muitas luas tinham passado desde aquela primeira longa e exigente experiência, embora engraçada, admito, mas já estou acostumado a que vários projectos do J.C sejam ou efémeros ou esquecidos, por exemplo aquela promessa adiada de um dia pegar em mim e ir mostrar-me a mítica cidade de Lisboa...


-Pois bem, James - disse ele autoritariamente - voltamos às nossas leituras, aposto que já tinhas saudades, certo? - e eu, para não arranjar sarilhos antes de mais, é verdade, mas também por gostar das leituras, ainda que impostas, respondi com o olhar e com as orelhas que sim...
- Ora, hoje vamos ler um trecho de um livro de Baptista Bastos e que penso que vais gostar... Antes de mais é importante saberes que o autor, já falecido, foi jornalista e escritor e ficou famoso com uma pergunta que fazia a todos os seus entrevistados num programa que tinha na televisão: "Onde é que tu estavas no 25 de Abril?"... 
- O que é isso do 25 de Abril? - perguntei de cenho franzido.
- Isso fica para outra altura, o Baptista Bastos e o 25 de Abril, vamos agora ao que interessa, o livro fala sobre as aventuras de um menino nascido na Ajuda, um bairro de Lisboa, aliás como o escritor, e que após uma série de tragédias familiares, especialmente a morte do avô, seu grande amigo e confidente, decide aventurar-se à descoberta da grande cidade lá em baixo, e ouve só esta passagem do romance:  


"...o nosso avô era um cão velho entre flores, e morreu assim, como um cão velho a apreciar as flores, e a gente agora lembra-se dele porque era um velho sem deixar de ser homem, sem deixar de apreciar as coisas que fazem a vida de um homem, a valentia, isso era como as flores para os cães velhos, os cães velhos dos campos, quando pressentem que estão à morte, procuram as terras onde há flores, ele sabe que vai morrer mas procura o sítio ideal para morrer..."

- "Mas não te preocupes, James, tu já não vais para novo mas ainda não és um cão velho..." - disse o J.C talvez para não me desassossegar mas que fiquei a matutar naquilo lá isso fiquei...

James
(Cão de Valmedo)

sexta-feira, 3 de julho de 2026

 

OBRAS DE ARTE NATURAL - I


Tenho para mim certo que a humanidade não detém nem a exclusividade do génio criativo nem da percepção da beleza, antes pelo contrário muitas e curiosas formas de expressão podem ser encontradas nas paisagens e nos mundos animal e vegetal, senão vejamos, quem, mesmo de entre os mais distraídos, ao deambular por este fantástico mundo-cão nunca se cruzou com obras de arte esculpidas pela natureza sem qualquer intervenção humana?  


"Formosa e não segura" - Jean-Charles Forgeronne

De facto, tanto fenómenos biológicos como fenómenos naturais como o vento, a chuva, a erosão, o clima e até a própria passagem do tempo podem criar por vezes autênticas pinturas e esculturas como é o caso deste primeiro exemplo que apresento: um plátano artista e habitante do Jardim da Nossa Senhora dos Anjos com que me cruzei há pouco, ali à beira de um Ankylosaurus, ou não fosse a Lourinhã a capital dos dinossauros... Pois então não é que o plátano, ao descascar-se, criou a silhueta de uma donzela de rabo de cavalo a passear pelo jardim? Tal qual a Leonor formosa e não segura a caminho da fonte?

  
"Donzela de rabo de cavalo"

Contrapondo com os dinossáuricos milhões de anos esta efémera obra de arte existiria apenas até que alguém distraidamente a pisasse, alheio à sua beleza estética, mas agora, fruto da minha descoberta fortuita está felizmente em segurança no meu museu de Valmedo...  

João Plástico
(Artista de Valmedo)

segunda-feira, 29 de junho de 2026

 
O CÃODUTOR


"Sabes James, ele tinha razão ao ter tocado ao de leve o cláxon, afinal eu distraidamente tinha parado o carro em segunda fila no parque de estacionamento da concorrida superfície comercial e não me tinha apercebido que a viatura à qual tinha bloqueado a saída se preparava para sair... Até levantei a palma da mão aberta em sinal de tréguas e até cheguei a berrar pela janela aberta um pedido de desculpas mas apenas recebi de troco um breve latido, o suficiente no entanto para perceber que o cãodutor deveria ser um canino de bem..."
Vejam bem, amigos caninos, esta foi a conversa com que o J.C me chegou à bocado, até aí nada de extraordinário, o pior é que agora plantou na cabeça que me há-de dar aulas de condução naquelas máquinas enormes e barulhentas que as pessoas idolatram e usam para se deslocar para qualquer sítio e a qualquer hora e tudo com o intuito de fazer de mim um cãodutor, à semelhança de outros que parece ir havendo por aí...


"Talvez possas ser muito útil quando alguém da família não puder conduzir por qualquer razão!" - diz ele com um ar tão convicto que me dá a certeza de que desta ideia maluca não terei escapatória... E como que para atestar a necessidade insofismável do seu projecto mostra-me a fotografia do cãodutor com que ele se cruzou... E por acaso até tem estilo, não acham amigos caninos?

James
(Cão de Valmedo)

segunda-feira, 15 de junho de 2026

domingo, 14 de junho de 2026

 
A MUJA, A MOLHA E A ARTE

"Poça das Mujas" - Jean-Charles Forgeronne
"Será que sou só eu que tenho esta incómoda sensação de estar num planeta estranho?" - digo em surdina para mim próprio enquanto olho para uma tranquila N. sentada à minha frente e alegremente entretida com o seu repasto, olho disfarçadamente para a mesa do canto e vejo um casal de meia-idade com o ar mais normal deste mundo, analiso a simpática empregada e não lhe consigo apontar nenhuma incongruência, admito então que talvez ela não seja um monstro alienígena encarnado numa aparência humanoide como há instantes equacionei e todos estavam a agir tão normalmente que por um segundo, mas apenas por um segundo, me coloquei a hipótese de ser eu que estava em processo de enlouquecimento galopante... 
"Este pedaço de mundo-cão a que chamam Pico hoje parece o planeta dos enigmas", pensei, o dia tinha começado sob o signo dos mistérios, tínhamos entrado por Calheta de Nesquim adentro e a razão daquela estranha toponímia tinha-a descoberto por sorte na busca matinal obrigatória ao meu blogue preferido, "Planandonomundocão"...

"Molha do Saragaço" - Jean-Charles Forgeronne

Ainda não o disse mas estamos no "Saragaço", simpático restaurante de ótima localização na zona balnear da Poça das Mujas, a uma dúzia de passos da piscina natural e outros tantos do Murricão... Após um delicioso banho tomado na piscina natural viemos até aqui, meio-dia em ponto, os primeiros clientes a chegar, ainda a porta estava fechada mas vendo alguém no interior descaradamente perguntei através duma janela entreaberta qual era o menu do dia, ao que me responderam "Hoje tem molha"! Fiquei impávido mas não sereno, virei-me para a N. e desabafei : "Molha? Que raio é a molha?" 
O dia ia-se tornando cada vez mais estranho, primeiro tinha sido a questão do estranho nome Nesquim, entretanto resolvido, depois vieram as Mujas, "Quem são as mujas?" perguntei-me assim que mergulhei naquelas célebres e cálidas águas, imaginei até serem entidades míticas subaquáticas do tempo da Atlântida, vá lá saber-se, e agora, para compor o ramalhete, surgira outro enigma, a molha... 

"Quebra-cabeças"

Invertendo a natural ordem das coisas solucionou-se primeiro o enigma da molha pois assim que a porta se abriu tomei de assalto o castelo e perguntei: " Vamos lá a vero que é isso da molha?" e ouvi "A molha de carne? É um guisado típico aqui da região..." e o assunto ficou resolvido! A molha é então um prato tradicional dos Açores, típico do Pico e do Faial e consiste num guisado de carne de vaca cozinhado lentamente, como se fazia outrora, com tempo... Bem, a carne desfazia-se ao primeiro toque do garfo e estava saborosíssima de bem temperada com as especiarias da terra, que repasto! Tão delicioso quanto o banho na Poça das Mujas... Mas entretanto, e antes de poder esclarecer a questão das mujas, reparo numa coisa que me baralhou (novamente) os neurónios: algo não batia bem com os dois quadros expostos na parede por cima do buffet e por mais que tentasse entendê-los mais baralhado ia ficando... 
"Nº 3 1967"
Um dos quadros, o mais à esquerda, não tinha cor, parecia estar escondido por detrás do nevoeiro  tão típico dos Açores, mas seria mesmo assim? Tão abstracto? Aproveitei para examiná-lo mais de perto quando me fui reabastecer de molha e surpreendi-me ao verificar que era a reprodução de uma obra de Mark Rothko, considerado o maior representante do Expressionismo abstracto norte-americano e cujas obras se caracterizam pela sobreposição de largas bandas de cores... E de facto, como esclareceu uma breve pesquisa feita após uma dificil espera até que terminássemos a molha, a obra nº3 1967 apresenta cores bem carregadas, nada tendo a ver com aquilo que se vê exposto por cima do buffet... Se a obra original já é bastante abstracta então esta reprodução do Saragaço é abstracta elevada ao quadrado! 

"Autor desconhecido"
Mas o quadro ao lado não era menos intrigante, de autor desconhecido, pelo menos não vislumbrei nenhuma assinatura, parecia-me mais do género impressionista e era também formado por duas bandas de azul, uma mais escura na parte superior e outra mais clara na parte inferior, uns borrões coloridos a meio e por mais que eu olhasse não via a mensagem do artista, se é que a havia, embora percepcionasse uma ideia a pairar no meu juízo não a conseguia agarrar... "Que vês tu naquele quadro da direita?" ainda perguntei mas a N. após um breve olhar respondeu: "Nada. E tu?". "Tal qual!", respondi desanimado e foi já quando nos levantávamos para ir embora que numa última olhadela já de esguelha se fez luz, pelo menos para mim: o quadro só podia estar de pernas para o ar! Só me ocorreu uma forma de confirmar a minha hipótese: tirei uma foto ao raio do quadro, invertia-a e lá estava: ao menos agora os borrões podiam ser barcos, o céu passou a ser o mar e vice-versa! Contente com a minha descoberta  sentei-me ao volante e porque tínhamos pela frente a Poça das Mujas ressuscitou o enigma que faltava: o que raio era uma muja? E só arrancamos dali quando ficamos a saber que a muja é um peixe também conhecido como taínha ou fataça... Havia necessidade de complicar tanto? E pronto, lá arrancamos e o dia ainda ia a meio, que mais coisas nos iriam espantar ainda?   

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

sábado, 13 de junho de 2026

sexta-feira, 12 de junho de 2026

 
LENDAS E NARRATIVAS - XXVIII

O CÃOMANDANTE NESQUIM

O forasteiro que chega à pequena localidade de Calheta de Nesquim não pode deixar de se interrogar sobre a origem de tão extraordinário nome e se calhetas há muitas ou não fossem elas pequenas enseadas, baías ou angras que servem de porto de abrigo a pequenas embarcações, coisa mais do que comum nestas ilhas açorianas, porque raio esta é de Nesquim? E o que é isso de Nesquim?  
Uma boa pista para decifrar o mistério é observar com atenção o brasão de armas da freguesia e reparar que nele se destacam um cachalote e um cão de fila açoriano, ambos negros; se em relação ao primeiro percebe-se o destaque devido à grande tradição de Calheta de Nesquim na baleação açoreana, note-se que foi aqui que em 1876 foi estabelecida a primeira armação baleeira na ilha do Pico, já em relação ao cão, que raio faz ele ali?

"Calheta de Nesquim" - Jean-Charles Forgeronne

As respostas são dadas por uma lenda que refere que no século XVI um enorme veleiro vindo do Brasil com destino a Lisboa e carregado com madeira preciosa foi assolado por uma forte tempestade ao largo da costa sul da ilha do Pico e depois de ter andado vários dias à deriva acabou por naufragar, talvez pelo excesso de carga de pau-brasil... Do grande contingente de homens apenas três se salvaram e graças à orientação dada pelos latidos de um cão que viajava a bordo, de nome Nesquim, o qual, depois de ter nadado até ter alcançado uma calheta se tinha posto a ladrar para os seus companheiros... 

"Casa dos Botes da Calheta de Nesquim"- Jean-Charles Forgeronne

Em honra do cão, não só o local do salvamento se passou então a chamar Calheta do Nesquim como depois o brasão da freguesia integrou o Nesquim em lugar de destaque... E agora que o forasteiro está saciado porque viu os seus enigmas serem desvendados pode aproveitar para visitar a Casa dos Botes e depois passar pela Poça das Mujas, deleitar-se aí com um belo e especial banho pois foi aí que o Nesquim deu à costa e ali mesmo ao lado e em cima pode visitar o Morro do Cão, também conhecido por Murricão, alto de onde o herói da história, qual cãomandante, guiou os seus companheiros de viagem...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

quarta-feira, 10 de junho de 2026

 
O MUNDO-CÃO PELO OLHO DO ARTISTA - V 

"Lajes", Susana Margarido - Aguarela sobre papel

"Lajes do Pico" - Jean-Charles Forgeronne

domingo, 7 de junho de 2026

 
A RAIVA DO VULCÃO - XIII

O LADO CERTO DA MONTANHA

Acerca do arquipélago dos Açores escreveu há 100 anos Raul Brandão que "O melhor de cada ilha é a ilha que está em frente" e isso é particularmente notável quando observamos o Pico a partir do Faial e nos apercebemos da realidade que emana das palavras do escritor-explorador a proposito do verdadeiro fascínio que a montanha exerce na Horta: "... tão longe que a luz o trespassa, tão perto que quer entrar por todas as portas dentro. Na verdade, parece um efeito mágico de luz, um fantasma posto aí de propósito para nos iludir e mais nada. Toma todas as cores: agora está violeta, logo está rubro. A cada momento uma nova transformação."

"O Pico desde a Horta" - Jean-Charles Forgeronne

Quem anda pelo Pico e em qualquer instante é sujeito a ser magneticamente atraído para a visão parcial do cume da montanha lá no alto, coisa natural, esteja onde estiver na ilha, seja no lado das Lajes ou na costa de São Roque ou até na Madalena pode ser enganado com a percepção de que aquele cocuruto lá em cima não passa de uma montanha numa ilha, mas o Pico não é apenas uma montanha, é a própria ilha! Porque é preciso ainda fazer outra coisa, como Saramago: "É necessário sair da ilha para ver a ilha"! E neste caso não embarcamos em metáforas, é preciso mesmo sair do Pico fisicamente para conhecer a ilha, é necessário ver a montanha do lado certo para a conhecer, tem que se vir à Horta e vê-la em todo o seu esplendor através do canal, mesmo que esteja mau tempo... Só deste lado, do lado da Horta, é possível ver o vulcão na sua plenitude e as encostas da montanha a espraiarem-se para o oceano... Então o Pico revela-se como a ilha-vulcão...

"O Pico desde a Madalena" - Jean-Charles Forgeronne
João Lava
(Vulcanólogo de Valmedo)

sexta-feira, 5 de junho de 2026

"Diálogo em Porto Pim" - Jean-Chales Forgeronne

 
QUARENTA ANOS DE MARINA!

Inaugurada a 3 de Junho de 1986, a Marina da Horta, localizada no sudeste da ilha do Faial e com capacidade para 300 embarcações, é hoje uma das mais importantes marinas do mundo, sendo a quarta mais visitada em todo o globo! A sua localização permite um excelente abrigo contra os ventos, venham eles de onde vieram, e faz dela uma escala quase obrigatória para os veleiros que cruzam o Atlântico Norte ou aqueles que viajam das Caraíbas em direcção ao Mediterrâneo...

"Marina da Horta" - Jean-Charles Forgeronne

A Horta, apesar de pequena, é uma cidade lindíssima e quem passeia ao longo do passeio à ilharga da marina apercebe-se que está a respirar espíritos marinhos, esta cidade foi feita de lendas que o mar criou... Os muros da marina não têm espaço para pintar, tudo está coberto de pinturas feitas pelos iatistas em busca de boa fortuna para o resto da sua viagem, é que segundo a lenda quem não pinta no molhe fica mais sujeito a sofrer graves acidentes... 

"Rocinante marítimo" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

quarta-feira, 3 de junho de 2026


E porque hoje é o Dia Mundial da Bicicleta...

O cross matinal ainda vai no início, saí nem há dez minutos do hotel em ritmo lento como convém para poder contemplar a baía e, aproveitando as ruas das Angústias ainda desertas, estudar com tempo as pinturas no muro em frente ao Café de Porto Pim em busca de alguma mensagem interessante... Deixei a igreja para trás e agora à minha esquerda jaz a marina adormecida, os mastros das embarcações quase que tocam o nevoeiro que teima em dissipar, por impulso olho em frente e ao longe em busca do Pico mas a montanha hoje acordou escondida...

"Pantónio na Horta" - Jean-Charles Forgeronne

Mais uma centena de passadas e reparo numa meia dúzia de frondosas figueiras ainda estéreis que parecem descer a encosta, questiono-me se o mestre Euclides Rosa aqui terá vindo arrancar-lhes os ramos jovens para deles extrair o miolo e trabalhá-lo com paciência de ourives nas suas delicadas e minuciosas obras... E depois, assim que faço uma curva ganho o prémio do dia, ao longo do muro surgem uns traços esguios, umas linhas entrelaçadas e umas andorinhas tão peculiares que só podiam ser do Pantónio, o artista terceirense que descobri já há alguns anos num moinho no Moledo lourinhanense e agora também presente aqui pela Horta, numa obra sob o signo da bicicleta... E agora, olhando para o alto, hesito em subir ao cimo do Monte da Guia, ainda se tivesse uma bicicleta à mão...

"As bicicletas do Pantónio" - Jean-Charles Forgeronne

João Pena-Seca
(Escritor de Valmedo)
 E porque hoje é o Dia Mundial da Bicicleta...

"A verdade é que, por culpa da bicicleta, as mulheres deslocavam-se por conta própria, desertavam do lar e desfrutavam do perigoso sabor da liberdade. E por culpa da bicicleta, o opressivo espartilho, que as impedia de pedalar, saiu do roupeiro e foi para o museu."

Eduardo Galeano
in "Os filhos dos dias"

 A MARAVILHOSA BICICLETA

Comemora-se hoje o Dia Mundial da Bicicleta, instituído pela Organização das Nações Unidas há seis anos com o intuito de lembrar não só a importância da bicicleta na sociedade tanto a nível de transporte como de lazer, por um lado, mas também salientar os benefícios do seu uso regular para a saúde e para o ambiente...
Para mim, que tive a sorte de ter alguém que me ensinou a andar de bicicleta aos cinco anos de idade, desde esses primórdios infantis que a associei sempre a uma sensação e experiência de liberdade...
Por isso partilho da opinião de quem se sentia um herói quando de bicicleta se aventurava à descoberta...

"BD de Luís Louro"
João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)
 
TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXXIX

UM MERGULHO NOS SABORES ATLÂNTICOS

Quem chega a Santa Cruz das Flores a necessitar de repasto, seja petisco ou refeição, pode ser desagradavelmente surpreendido pois a oferta é manifestamente escassa, e então se calhar a um domingo como foi o nosso caso o cenário ainda piora pois vários cafés e restaurantes fecham a esse dia ou encerram cedo, culpa de não haver mão-de-obra, "ninguém quer trabalhar" confidenciou-me um gerente, chef de cozinha e empregado de mesa, tudo ao mesmo tempo e que sozinho no seu café tem que encerrar às 8 da tarde, mas nem tudo está perdido quando o visitante agoniza de sede e fome no deserto de opções, basta procurar "O Mergulhador", um simpático restaurante à beira do Porto das Poças e dar um delicioso mergulho nos sabores atlânticos...


Casa de comida tradicional e simpático atendimento, valem a pena tanto a carne como o peixe, a ementa é variada e merece mais do que uma visita; a hora era já um pouco adiantada para a rotina açoriana mas valeu a pena esperar pela grelhada mista para dois, a carne no ponto, a batata da terra deliciosa e um pormenor inédito na minha experiência gastronómica: a mistura de carnes inclui frango, de grelha irrepreensível e molho delicioso, um toque especial inspirado no "frango da guia", confidenciaram-me, mas que fica bem lá isso fica... A condizer muito bem também estava o vinho branco da casa, à temperatura certa... 


João Ratão
(Chef de Valmedo)