domingo, 1 de novembro de 2026

 
SINAIS DO DESTINO?

Claro que tudo poderia não passar de uma mera coincidência, como tantas outras afinal, mas que fiquei a matutar forte na matéria cinzenta lá isso fiquei: então porque raio é que numa trattoria chamada Verona, no Barreiro e a meio continente de distância da bota italiana, vou encontrar, um pouco disfarçadas no corredor de acesso aos lavabos, duas envelhecidas imagens de Veneza emolduradas em rústica madeira do tempo de Marco Polo? Ainda se fossem da famosa varanda da Julieta, tudo bem, mas porque raio de Veneza?



Só poderia ser um sinal, convenço-me facilmente, daí a duas semanas eu e N. iriamos viajar até Veneza para conhecer a encantada e idolatrada cidade das ilhas, das pontes e dos mil canais, não era coincidência, convenci-me, era mesmo um postal vindo do futuro, tudo estava programado e a acontecer segundo o oráculo...


"Então até já Veneza!", imaginei-me gritando enquanto pensava nessa coisa estranha e perigosa do destino...

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)
 
TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XLII

VERONA, OU A VARANDA DOS SABORES...

Voltinha dada pelo passeio ribeirinho do Barreiro eis chegada a hora do repasto e estava eu muito longe de imaginar que num ápice, qual viagem supersónica pelo espaço e pelo tempo, me acharia em Verona, palco da mais famosa e maravilhosa história de amor de todos os tempos, a tragédia de Romeu e Julieta... A entrada da trattoria, leia-se tasca ou restaurante, pode passar despercebida aos mais distraídos mas como íamos guiados pelos Grilos estávamos tranquilos e esperançosos de que tudo se comporia, e de facto, depois de atravessarmos um manhoso e singelo corredor e depois passar por uma apelativa esplanada interior desaguamos num ambiente intimista e acolhedor.... 


"Íntimo Verona" - Jean-Charles Forgeronne

Depois de uns fantásticos croquetes de camarão e polvo com molho tártaro como entrada aconselham o João e a Isabel - "Os risottos são fantásticos!" - mas como já alguém ia pedi-los eu optei, na minha teimosia de experimentar o diverso possível ("depois provo só do teu risotto"! - estão a ver?) por uma porcheta, ou seja, barriga de porco servida com molho pesto, batata rústica e nozes, deliciosa, já agora.... Depois, os vários risottos, especialmente o de tomate seco, rúcula e  mozzarella fresca, de facto são deliciosos....

"Il risotto..." - Jean-Charles Forgeronne

A pizza que veio para a mesa também não desiludiu e as sobremesas também foram aprovadas... E depois, ao contrário da trágica história de Romeu e Julieta que se encontravam através da famosa varanda dos amores, que bom é saber que é possível ter um final feliz na varanda de aromas do Verona...

João Ratão
(Chef de Valmedo)

sábado, 31 de outubro de 2026

"Mural de VHILS (pormenor)", Barreiro - Jean-Charles Forgeronne

 
UMA VOLTINHA POR... - XIII


"Nossa Senhora do Rosário", Barreiro
... Barreiro... histórico; Começamos a voltinha no Largo da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, templo da padroeira e que actualmente é o ponto central das festas da cidade, e com a praia e os moinhos de Alburrica pelas costas partimos à descoberta da Rua Conselheiro Joaquim António de Aguiar, outrora também conhecida como a Rua Direita, rica em histórias e lendas e a mais importante e vibrante rua do Barreiro onde tudo acontecia, era lá o centro do comércio e onde se encontravam as gentes, onde se alinhavam negócios e que era berço de tertúlias e discussões e conspirações políticas... Por entre prédios vetustos a marcha a direito pela rua convém ser lenta para permitir respirar a história e o ambiente de outros tempos, depois viramos à esquerda em busca do passeio ribeirinho onde se abrem largas vistas sobre o Tejo, com Lisboa e suas pontes ao fundo...
O único senão, para não comprometer a marcha e o desafio, é ter que ignorar as esplanadas, cafés e restaurantes que nos desafiam para petiscos históricos e bebidas de antanho, como um capilé, por exemplo, coisas de outros tempos... 

"Mural do VHILS", Barreiro - Jean-Charles Forgeronne

Mais à frente, já em pleno centro do território da antiga "cidade" da CUF, salta à vista o grandioso e o maior mural criado por VHILS até hoje, com 150 metros de extensão, uma homenagem do artista à história fabril e industrial do Barreiro... E logo a seguir, embora um pouco recolhido e afastado da via mas bem defronte do antigo parque industrial, somos confrontados com um monumento que extravasa os cânones normais, nada menos que o gigantesco mausoléu de Alfredo da Silva, para o bem e para o mal a principal figura do Barreiro ou não tivesse sido ele o criador da Companhia União Fabril, de longe a principal empresa impulsionadora e sustento da economia da cidade durante décadas, até à sua nacionalização em 1975...

"Mausoléu de Alfredo da Silva", Barreiro - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

domingo, 25 de outubro de 2026

 
A MISTERIOSA ORIGEM DAS PALAVRAS - XXVI

QUANDO O SOL SE ALBURRICA...

São três os moinhos de Alburrica, construídos há 164 (!) anos e há muito desactivados: o Nascente e o Poente, de tipologia lusitana comum, e o Gigante, belo exemplar de traça holandesa... O sítio de Alburrica, uma pequena península ribeirinha do Barreiro onde o rio Coina desagua no Tejo e outrora um importante centro moageiro, para além dos moinhos tem uma praia fluvial e constitui um belo cenário para uns bons e inspirados passeios, românticos ou não, para além de oferecer uma singular vista do perfil de Lisboa lá ao longe...

"Alburrica" - Foto: Grilos

"Ah! E um pôr-do-sol magnifico, temos de vir cá ver o pôr-do-sol, é único!" - disseram em uníssono os Grilos, o João e a Isabel, barreirenses de gema e nossos queridos anfitriões... E na minha mais sincera e inocente ignorância pergunto-lhes: "Porque se chama a isto Alburrica?"... Ninguém sabia...

"Esplendor em Alburrica" - Foto: Grilos

Pois bem, pesquisa aturada feita, o nome ALBURRICA deriva do  árabe al-barriqâ, que significa brilho ou esplendor... E tudo ganha sentido quando assistimos a um pôr-do-sol em Alburrica e desfrutamos do magnífico reflexo dos últimos raios solares sobre a baía...

João Portugal
(Linguísta de Valmedo)

sábado, 24 de outubro de 2026

 
OBRAS DE ARTE NATURAL - III

"Darth Vader vindo do futuro..." - Lourinhã - Jean-Charles Forgeronne

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

 
APANHADO NA REDE - VIII

Querem ver que um dia destes ainda descobrem que o Rio Almôndega alimenta o Paúl do Hambúrguer e que desagua no Rio Rolo de Carne Picada, o qual, por sua vez, desagua em pleno estuário de Lisboa?



 UMA VOLTINHA POR... - XII

Lisboa, Rua de Santa Marta... e imediações...  Ainda sob o efeito da revolta popular contra o estado caótico do panorama habitacional português e que se revelou em toda a sua pujança na manifestação ocorrida em pleno Rossio, por exemplo, umas centenas de metros abaixo do sítio por onde agora deambulo, constato que de facto as coisas não estão bem, por ali tresanda a especulação imobiliária...

"Rua de Santa Marta" - Jean-Charles Forgeronne

Por estes dias ouvi na radio alguém dizer que a última moradora na Praça D. João IV, vulgo Rossio, já tinha sido despejada há pouco tempo, ou seja, não mora lá absolutamente ninguém! E o mesmo deve acontecer por outras zonas de Lisboa, veja-se a Rua de Santa Marta, onde estou agora, a meia dúzia de passos da Avenida da Liberdade, são mais os prédios devolutos, entaipados ou em ruínas do que os habitados por gente comum, talvez à espera de um fundo imobiliário que invista em luxo ou em hotéis...

"Rua de Santa Marta" - Jean-Charles Forgeronne 

E tanta gente, tanta família e tanto jovem sem oferta de casa para comprar ou arrendar a preços decentes nesta cidade cada vez mais descaracterizada e a saque, uma autêntica capital-fantasma!...

"Rua Rodrigues Sampaio" - Jean-Charles Forgeronne
 
João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)

domingo, 18 de outubro de 2026

 
TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XLI

VIAJAR NO ELÉTRICO DO MARQUES

Não havendo tragédia no Teatro D. Maria II nem sequer muito drama na manifestação no Rossio contra o caos da habitação, trocados os planos e orfãos de cultura, decidimos sair de cena pela porta dos fundos e afogar as mágoas à mesa do Restaurante Marques, na Travessa do Forno, mesmo por detrás do teatro, a salvo da algazarra e da confusão, sugestão da Leonor e do Tom que já conheciam o antro... 

"O elétrico" - Jean-Charles Forgeronne

É inevitável chegar a pé, lá não chegam os carros, embora noutros tempos já tenha passado por ali o elétrico 15, os carris ainda lá estão no interior do Marques e a paragem é absolutamente obrigatória! O espaço é pequeno e embora quando em dias secos e amenos se instalem umas mesas cá fora em plena rua é sempre aconselhável chegar bem cedo ou fazer reserva ou não tivéssemos nós, nesta visita não programada, ter esperado quase uma hora por mesa, embora fruto também da presença de alguns manifestantes inflamados em pausa reaccionária... 


Casa de comida tradicional e popular portuguesa servida generosamente e à boa maneira antiga, embora houvessem outras opções deliciamo-nos com as boas carnes, por exemplo o Bife à Marques, de molho ímpar, houve quem optasse por bife grelhado e até bitoque ou naco na pedra, tudo a preceito... Quanto a sobremesas o bolo de bolacha fez sucesso... Experiência a repetir em dia menos agitado, o Marques é um segredo bem escondido no coração da capital... 

"Enquanto isso..." - Jean-Charles Forgeronne

João Ratão
(Chef de Valmedo)
 
A TRAGÉDIA DA MALFADADA CULTURA

Desconfio bem que esta tragédia só ocorreu por maliciosa interferência das três feiticeiras pois tudo neste sábado 17 de Outubro estava programado segundo as leis normais do universo para que fosse um dia perfeito, bilhetes comprados com larga antecedência porque desde o início se antevia que os espectáculos iriam esgotar, viagem precoce desde o longínquo Oeste devido aos esperados e propalados constrangimentos previstos para a baixa pombalina por causa das manifestações populares contra o custo de vida e contra o caótico estado do acesso à habitação, senão quando, já chegados a boa Lisboa e apenas a uma hora do início do evento, somos confrontados com a recepção de um mail por parte da organização a informar que a peça MacBeth que iria ter lugar na Sala Garret do Teatro Nacional D. Maria II tinha sido cancelada devido a uma greve convocada pelo CENA-STE, um sindicato dos Trabalhadores de Espetáculos, do Audiovisual e dos Músicos, e para piorar o trágico cenário ainda éramos alertados para o facto de, visto que a carreira da peça estava esgotada até ao seu final a 31 de Outubro, não seria possível trocar os ingressos para outra sessão! E depois mais nos solicitava a missiva a nossa melhor compreensão para o facto...   
Pois não compreendemos, apesar de nos termos esforçado para isso, a tal greve por certo que estava anunciada algum tempo antes, pelo menos assim diz a lei, e apelando à razão e ao respeito pelos espectadores não teria ela nascido por geração espontânea no próprio dia, então porque raio saiu o comunicado apenas em cima do evento, a apenas 1(!) hora do início do espectáculo?! Como diz o outro, também artista: "Isto é gozar com quem trabalha!", ou, pelo menos, com quem fez 200 Kms de viagem ao preço a que estão os combustíveis e com portagens incluídas... E depois ainda dizem que ninguém liga à cultura, que o povo não se interessa, blá, blá, blá... Ou será que a greve, para quem a decretou, quiçá por profecia das feiticeiras, teve impacto mínimo no seu orçamento porque tinham a bilheteira esgotada até ao final da peça? No mínimo é uma malvadez macbethiana! E que belo enredo seria este para a genial pena de Shakespeare...
Mas entretanto, teatro  fechado e de fachada embelezada pelos carros da polícia de intervenção, ali mesmo defronte já decorria a manifestação contra o estado da habitação em Portugal e, meus amigos, diz quem vive o caso na pele, essa tragédia não fica a dever muito ao drama de MacBeth...


"Tragédias no Teatro" - Jean-Charles Forgeronne

João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)

terça-feira, 13 de outubro de 2026

"Fragas de São Simão" - Jean-Charles Forgeronne

 

ESCRITO NA PAREDE - LVI


"Tomar", Convento São Francisco - Foto: Jean-Charles Forgeronne


 TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XL

116 PEIXES DO RIO

A coisa não tinha corrido bem na véspera, até tínhamos sido os primeiros clientes a chegar, meio-dia quase em ponto, não fosse haver haver constrangimentos por não termos reserva e por causa da fama do café e restaurante, o 116, onde o peixe do rio é rei, mas o despiste de um camião ocorrido de madrugada a duas centenas de metros dali, em plena avenida em Carvalhos de Figueiredo, tinha deixado metade da freguesia sem água e outra metade sem luz, ora sem água torna-se difícil cozinhar e nada de peixe frito, a única opção disponível era entrecosto grelhado acompanhado de arroz, batata frita e uma deliciosa e refrescante salada... Apesar do azar e do desgosto de o peixe frito ficar adiado para as calendas tomarenses, porque iríamos partir para outras paragens na manhã seguinte, o almoço valeu a pena... 


Mas as voltas imponderáveis do destino iriam alterar outra vez os nossos planos, a meio da manhã seguinte, depois uma visita ao Aqueduto dos Pegões, arriscámos uma difícil excursão até à Praia Fluvial do Agroal e aí chegados a custo, pasmados, deparámos com o local transformado num estaleiro de obras... Ora, era suposto depois de uns belos e refrescantes banhos seguirmos viagem para norte mas assim, novamente desconsolados e apelando ao meu optimismo incondicional, e com uma pitadinha de vingança à mistura, confesso, ala que se faz tarde, para salvar o dia rumamos novamente ao 116, talvez já tivessem água e peixe frito! E não é que havia as duas coisas?



Havia até lampreia e enguias das quais sou apreciador mas optei por uma mista-do-rio, ou seja, fataça, achigã, lúcio, truta e pimpão, peixe frito no ponto e sequinho, estaladiço como convém e melhorado ainda com um molho vinagrete do qual não desdenharia ter a receita, acompanhado por batata frita e umas migas ribatejanas de se lhes tirar o barrete... Quanto à N., indecisa na escolha por estar mais habituada a peixe de mar, por sugestão do mestre Delfim, alinhou numa dose de lúcio por ser um peixe com sabor menos intenso que os demais, e não se arrependeu...


Falta referir que os vinhos da casa, quer o branco quer o tinto, servidos a jarro como é de bom tom ali pelo Ribatejo, são uma excelente opção, e quanto às sobremesas, bem, meus amigos, quer a mousse de chocolate quer o pudim da casa são... divinais! Bom apetite para quando passarem pelo 116...

João Ratão
(Chef de Valmedo)

quarta-feira, 7 de outubro de 2026



"A janela das janelas", Tomar - Jean-Charles Forgeronne

 UMA VOLTINHA POR... - XI

...Tomar templário... Começa-se a voltinha na margem esquerda do Nabão, junto da Igreja de Santa Maria do Olival, belíssimo templo mandado erigir por Gualdim Pais por volta de 1160 e que se viria a tornar panteão dos Mestres da Ordem... E sim, existem oliveiras por ali ao redor do templo e que, por sinal divino com certeza, ainda dão azeitona... E claro, dali, desde a torre, apontando o olhar para oeste só se poderia ver a magnificente silhueta do castelo templário lá no alto, o nosso destino final...

"Santa Maria do Olival" - Jean-Charles Forgeronne

Mas para chegar ao destino é necessário que atravessemos a ponte para a outra margem do rio e duas centenas de metros lentamente percorridas entramos no imenso largo onde impera o Convento de São Francisco, e aí, se houver tempo e interesse, é obrigatória uma visita ao Museu dos Fósforos, provavelmente a maior colecção de caixas de fósforos do mundo...! Seguimos depois para a entrada da Mata dos Sete Montes e aí só há uma opção: subir até ao castelo por entre frondosas árvores de estimação...


E depois, lá em cima, recuperando o fôlego e castelo à beira, é imperioso visitar o Convento de Cristo, obviamente fundado por Gualdim Pais em 1160 e que hoje é Património Mundial da Humanidade... Um monumento deslumbrante e que tem muito mais para descobrir para além da janela mais famosa de Portugal e arredores...

"Castelo templário" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)
"Algures em Tomar templário..." - Jean-Charles Forgeronne



 

 UMA VOLTINHA POR... - X

...Tomar... O centro histórico de Tomar merece não uma mas várias visitas ao longo do dia, só assim será possível captar os diversos cambiantes de luz incidindo sobre os edifícios centenários, as impressões da atmosfera e os sentimentos que o cenário natural desperta, à boa maneira do que Monet fez com a catedral de Rouen e com os nenúfares do seu lago... Não há só um Tomar, há vários Tomares, e que bom é poder descobri-los a todos...  

"A Corredoura ao lusco-fusco" - Jean-Charles Forgeronne

Deixámos o Nabão atrás das costas e percorremos lentamente a Rua Serpa Pinto, popularmente conhecida como a "Corredoura", via que os Cavaleiros Templários corriam de alto a baixo treinando tácticas de combate e que, missão cumprida, os levava depois até casa, o castelo lá em cima...  A luz do entardecer espelhada nas vidraças e no pavimento transportam-nos a outra dimensão e, se fecharmos os olhos, quase ouvimos os cavalos em debandada...

"Igreja de São João Baptista, Tomar"- Jean-Charles Forgeronne 

Num breve passeio que nos transporta muitos séculos atrás chegámos depois à Praça da República, o coração do Tomar medieval, de um lado a Igreja de São João Baptista e do outro os Paços do Concelho e a estátua de Gualdim Pais, o fundador da cidade e Grão-Mestre da Ordem... Depois podemos sempre perdermo-nos pelas inúmeras ruelas e becos que ainda preservam o ambiente de antanho, até visitar a sinagoga da cidade, a mais antiga existente no país...

"Praça da República, Tomar" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

"O Nabão em Tomar" - Jean-Charles Forgeronne

 

FOTOBIOGRAFIA DE UM RIO - VIII

 QUANDO OS RIOS FECHAM PARA OBRAS...

Saio da cidade subindo bem em direcção à Sabacheira para depois, num frenesim de curvas e contracurvas, me aventurar numa perigosa descida às profundezas desta danada orografia, operação nada fácil e cansativa devido ao abrasador calor que se faz sentir mas só a ideia de uns mergulhos nas prometidas águas frescas e límpidas resgata-me um sorriso e devolve-me a esperança, "o dia ainda se irá compor", digo de mim para comigo...

"O Agroal em obras..." - Jean-Charles Forgeronne

Carro estacionado a custo, de tralha às costas percorro a pé a centena e meia de metros e esperava eu, depois de atravessada a ponte encarar com a prometida e maravilhosa Praia Fluvial do Agroal mas o cenário com que me deparo é o de um autêntico estaleiro de obras, máquinas no leito do rio e funcionários em plena laboração, piscinas secas e um rio de pedra porque a água foi aprisionada ou desviada algures, café encerrado e apenas uns curiosos a analisar a marcha das obras... 

"O Nabão em obras..." - Jean-Charles Forgeronne

O rio Nabão nasce no concelho de Ansião, num sítio que não se poderia chamar senão Olhos de Água e até desaguar no Zêzere após um percurso de 63 quilómetros é alimentado por várias nascentes, como é o caso desta do Agroal, situada a 10 Km da cidade templária... Regresso a Tomar matutando num plano alternativo para preencher o resto da tarde e aí o cenário de obras mantém-se, máquinas a retirar terras, entulho e areias do leito do rio, parece que ele já não corria como deve ser há muito e era imperioso fazer-lhe esta limpeza, qual cateterismo, para lhe devolver fluxo e vida...  

"A Ponte Velha... seca!" - Jean-Charles Forgeronne

Certamente que melhores dias virão para o visitante que demanda Tomar e arredores, aliás penso regressar entretanto para desfrutar do renovado Nabão, mas ainda assim hoje é possível descobrir recantos à beira-rio que mantêm o seu esplendor...

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Partiu um dos melhores de sempre! Obrigado, Jorge, pela poesia, pela música, pelo piano, pela partilha, pelo afecto, até um dia...


João Sem-Dó
(Musicólogo de Valmedo)

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

 
"Um milhão de anos na história da Terra é uma caganita!"

Prof. Galopim de Carvalho
 
LIVROS 5 ESTRELAS - XLIV

DIREITO DE PERNADA

Sobre "O preço da borrega", o segundo livro de Galopim de Carvalho editado em 1995, disse Natália Correia ao ler o manuscrito ser um tratado de "etnografia ficcional" e tinha a ambição de o levar para o cinema mas a morte não a deixou, para pena do autor... Apesar de descrever a vida no campo, os objectos, as alfaias e os ofícios como se fosse um etnógrafo, Galopim diz que o livro é muito poético para além de dramático, afinal aborda a vivência das pessoas num meio rural alentejano nas décadas de 40 e 50 do século passado e onde ainda pairava a medieval tradição do "direito de pernada" em que o senhor da terra tinha o direito à primeira noite da noiva de outro homem...


É um livro obrigatório para quem, como eu, nasceu e cresceu em meio rural, embora no Ribatejo e décadas mais tarde, mas a sociedade e a alma das gentes estão lá bem explanadas, e muitas memórias do autor coincidem perfeitamente com as minhas experiências de menino e adolescente... Muito mais do que pelo estilo literário este pequeno livro vale sobretudo pelo seu conteúdo.

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)
 
NÃO HÁ CONVERSAS QUE CHEGUEM...

Há vidas tão cheias de histórias, peripécias e acontecimentos que não cabem numa entrevista, numa conversa por mais longa que seja, num livro até, por isso António Galopim de Carvalho, o professor, já leva mais de trinta livros publicados e para além das obras que versam sobre temas científicos muitos deles são de ficção e vão desde romance a ensaio, de memórias à culinária... E hoje, com 95 anos, parece não querer parar, disse-o há um par de semanas que se levanta todos os dias antes das galinhas, pelas quatro da madrugada, cheio de ideias e vontade de escrever, seja no computador seja no facebook, plataforma que considera a sua janela para o mundo e onde tem mais de 50 000 fiéis seguidores ávidos pela sua partilha de histórias e memórias, não admira pois ter sido distinguido com o Prémio Envelhecimento Activo em 2017, e já lá vai quase uma década e a actividade não parou...

"Galopim no Espaço Ciência", 2016 - Jean-Charles Forgeronne

Em 2021, numa entrevista ao Público pela altura do seu nonagésimo aniversário, revelou porque começou a escrever, tarde, sentiu esse apelo em 1991 ou 1992 ao ler um livro de Zélia Gattai, "Anarquistas (Graças a Deus)" e que relata as vivências dos imigrantes italianos em São Paulo, histórias giríssimas, diz ele, e então pensou que também poderia escrever sobre tantas histórias antigas da sua meninice e adolescência, de tantas memórias de uma vida bem preenchida, e ainda bem que o decidiu fazer... Além disso, o professor catedrático jubilado Galopim de Carvalho continua a desenvolver acções de divulgação, defesa e valorização do património geológico e paleontológico nacional... E que deleite foi estar com ele há pouco no Espaço Ciência da Festa, foi um privilégio conviver com um comunicador por excelência e um gerador de afectos...

João Parte-Pedra
(Geólogo de Valmedo)
 
O AVÔ DINOSSAURO

Um dia chamaram-lhe "O Pai dos Dinossauros", epíteto que pegou de imediato, mas hoje do alto dos seus 95 anos de idade prefere ser conhecido como o "O Avô dos Dinossauros", embora teime sempre em dizer que a sua especialidade não são os dinossauros, o Professor Galopim de Carvalho é e sempre foi geólogo... Os dinossauros atravessaram-se no seu caminho quase por acaso corria o ano de 1986, era ele director da secção de Geologia do Museu Nacional de História Natural quando dois alunos seus descobriram as pegadas de Carenque e iniciou então uma luta feroz para sensibilizar os políticos, a comunicação social e a população em geral para a importância de preservar o achado. 

"Histórias da vida do Galopim, pelo próprio", Espaço Ciência, Avante, Setembro 2026 - Jean-Charles Forgeronne

Mais tarde, em 1992 e como forma de reabilitar o Museu de História Natural que tinha ardido quase por completo em 1978 e onde se tinham perdido mais de 70% das suas coleccões, aproveitando a febre dos dinossauros que se vivia então o professor Galopim esteve na organização da famosa exposição de dinossauros robotizados que viria a tornar-se um estrondoso sucesso ao atrair mais de 360 mil visitantes e provocando um monumental pandemónio no trânsito de Lisboa com filas intermináveis... 

"Fila para a Exposição 1992" - Foto: "Público, 11 Agosto 2021"

Mais tarde, em 1994, o geólogo activista da causa dos dinossauros ainda se envolveria na luta pela preservação das pegadas de dinossauro da Pedreira do Galinha, na Serra de Aire... Diz ele, com a humildade que lhe é reconhecida, que nunca foi especialista em dinossauros mas aceita o louvor de ter conseguido que muitos alunos tivessem a possibilidade de estudar dinossauros e a ter bolsas de estudo; foi graças à sua teimosia de alentejano e à sua luta que passou a haver no país projectos de investigação em paleontologia, até então inexistentes, por isso obrigado, professor..  

João Parte-Pedra
(Geólogo de Valmedo)

sábado, 12 de setembro de 2026


 "Pára! Pensa! 
  Mas o que é que tens na cabeça?
  Não é só na construção civil
  que a massa é cinzenta..."

Malabá, Rapper da Margem Sul

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

domingo, 23 de agosto de 2026

 
A SURPRESA DESTE VERÃO

"Ao sol do Oeste" - Jean-Charles Forgeronne
Nas últimas semanas, ao passar pelo Parque da Cegonha a meio do percurso dos meus crosses matinais e à beira do Rio Grande que mais parece um pântano pois nele não corre água e a vegetação impera, tenho-me deliciado com um curioso bando de aves negras que nunca tinha visto por estas paragens, são para aí uma dezena que ora deambulam bicando pelo leito do rio ora descansam ao sol em plena margem mas que assim eu quedo a marcha para tirar a foto de família logo debandam pelos ares num voo de elegantes silhuetas e que após umas voltas e reviravoltas se vão alcandorar nos pináculos dos plátanos que orlam a avenida entupida de veraneantes alheios a estes maravilhoso movimentos da natureza... 

"Íbis Negra" - Foto: Lourambi 

Ao primeiro e impactante encontro com estas aves de majestoso bico longo e curvo pensei tratarem-se de garças mas depois uma publicação da associação ambiental Lourambi esclareceu-me: trata-se da Íbis Preta, de nome científico Plegadis falcinellus, uma ave de médio porte com uma altura de meio metro e uma envergadura de asas à volta de um metro e cujos habitats são locais húmidos como margens de rios, paius, lagoas e outros, desde que a água seja pouco profunda e haja vegetação aquática...  

"O voo das dez íbis" - Jean-Charles Forgeronne

Curioso é o facto de apesar de se chamar Íbis Preta (ou Negra) esta ave, vista ao perto e sob a incidência dos raios solares, reflectir lindíssimos tons de verde, azul e violeta; quanto à sua alimentação ela consta de peixes, rãs e outros animais aquáticos e também, por vezes, de insectos... É uma espécie migratória, rara em Portugal mas que nos últimos anos tem sido avistada com mais frequência e se esta colónia que foi avistada pela primeira vez pelas bandas da Lourinhã veio para ficar ou não há que esperar, quem sabe se constroem ninhos naqueles plátanos onde hoje pernoitam e desatam a pôr ovos, seria bom sinal, por aqui ficariam, nesta terra amena e tranquila... 

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

domingo, 9 de agosto de 2026

APANHADO NA REDE - VII

Haja paciência! Ainda por cima a Agência Lusa?!!!!!