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terça-feira, 4 de agosto de 2026

 
LENDAS E NARRATIVAS - XXIX

A TRAGÉDIA DUMA MORTE ESTÚPIDA

A estranha morte de Ésquilo, o famoso autor de tragédias gregas, para uns não passará de uma lenda mas para outros constituirá um acontecimento histórico credível muito por culpa de Plínio, o Velho, o também famoso naturalista e escritor romano que descreveu a curiosa ocorrência na sua gigantesca obra "História Natural", uma autêntica enciclopédia do conhecimento... Assim, segundo Plínio, andando Ésquilo pela Sicília gozando já em idade de reforma a sua fama de grande dramaturgo, uma águia que tinha capturado uma tartaruga andava em voos circulares pelos ares com o réptil recolhido na sua couraça entre as garras e com uma estratégia em mente: quebrar a carapaça da presa deixando-a cair lá do alto sobre uma rocha e assim bicar o petisco... E assim fez, só que aquilo que lhe pareceu ser uma rocha era a cabeça careca e brilhante de Ésquilo, o qual não resistiu à terrível pancada!



O irónico da história é que Ésquilo evitava estar por casa e andava o mais que podia pela natureza porque queria fugir ao seu destino, é que tempos antes tinha-lhe sido dito numa profecia que o tecto de uma casa lhe cairia sobre a cabeça, nada mais certo então, acabou morto pela casa de uma tartaruga! Ele que foi mestre em criar tragédias, obras em verso em que figuram ilustres personagens e que geralmente acabam com uma morte, talvez nunca tivesse sonhado que a sua própria morte seria digna de uma tragédia surreal...
Mas passados séculos também Plínio acabou os seus dias de forma trágica e irónica, vitima da sua curiosidade infindável e enquanto não só liderava uma missão de salvamento mas também enquanto investigava o fenómeno, acabou por morrer devido à inalação de cinzas e de gases vulcânicos libertados pela erupção do vulcão Vesúvio no ano 79 d.C...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

sexta-feira, 12 de junho de 2026

 
LENDAS E NARRATIVAS - XXVIII

O CÃOMANDANTE NESQUIM

O forasteiro que chega à pequena localidade de Calheta de Nesquim não pode deixar de se interrogar sobre a origem de tão extraordinário nome e se calhetas há muitas ou não fossem elas pequenas enseadas, baías ou angras que servem de porto de abrigo a pequenas embarcações, coisa mais do que comum nestas ilhas açorianas, porque raio esta é de Nesquim? E o que é isso de Nesquim?  
Uma boa pista para decifrar o mistério é observar com atenção o brasão de armas da freguesia e reparar que nele se destacam um cachalote e um cão de fila açoriano, ambos negros; se em relação ao primeiro percebe-se o destaque devido à grande tradição de Calheta de Nesquim na baleação açoreana, note-se que foi aqui que em 1876 foi estabelecida a primeira armação baleeira na ilha do Pico, já em relação ao cão, que raio faz ele ali?

"Calheta de Nesquim" - Jean-Charles Forgeronne

As respostas são dadas por uma lenda que refere que no século XVI um enorme veleiro vindo do Brasil com destino a Lisboa e carregado com madeira preciosa foi assolado por uma forte tempestade ao largo da costa sul da ilha do Pico e depois de ter andado vários dias à deriva acabou por naufragar, talvez pelo excesso de carga de pau-brasil... Do grande contingente de homens apenas três se salvaram e graças à orientação dada pelos latidos de um cão que viajava a bordo, de nome Nesquim, o qual, depois de ter nadado até ter alcançado uma calheta se tinha posto a ladrar para os seus companheiros... 

"Casa dos Botes da Calheta de Nesquim"- Jean-Charles Forgeronne

Em honra do cão, não só o local do salvamento se passou então a chamar Calheta do Nesquim como depois o brasão da freguesia integrou o Nesquim em lugar de destaque... E agora que o forasteiro está saciado porque viu os seus enigmas serem desvendados pode aproveitar para visitar a Casa dos Botes e depois passar pela Poça das Mujas, deleitar-se aí com um belo e especial banho pois foi aí que o Nesquim deu à costa e ali mesmo ao lado e em cima pode visitar o Morro do Cão, também conhecido por Murricão, alto de onde o herói da história, qual cãomandante, guiou os seus companheiros de viagem...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

segunda-feira, 1 de junho de 2026

 
LENDAS E NARRATIVAS - XXVII

CORSÁRIOS, CORVINOS E MILAGRES

Desde o inicio do século XVI, devido à sua localização isolada e também por estar alinhada com a rota de regresso à Europa de galeões portugueses e espanhóis carregados com riquezas e tesouros de África, Índia e América, a ilha do Corvo foi eleita como o refúgio preferido de corsários oriundos de muitas paragens, eles eram piratas franceses, ingleses, holandeses e até argentinos que não resistiam a atacar frequentemente a ilha e ao mesmo tempo que aproveitavam para se esconder nas suas encostas iam fazendo reféns e saqueando casas...


Ora, apesar de habituados a tantos ataques e depois de terem desenvolvido uma grande capacidade de resistência e até de diplomacia, em 1632 os corvinos sentiram-se mesmo apertados perante um ataque massivo de corsários argelinos, o cenário era mesmo assustador: 10 naus vindas de Argel atacaram em força a ilha com o intuito de levar cativos os seus habitantes! E foi então que 200 corvinos desataram por todos os meios e feitios a arremessar pedras contra os invasores e milagrosamente conseguiram impedir a invasão dos sequestradores! E foi mesmo o que se gritou: "Foi milagre"! E assim ficou para a história...

"Igreja Nossa Senhora dos Milagres", Corvo - Jean-Charles Forgeronne

Passou então a partir daí a rezar a lenda de que foi a padroeira da ilha, a Nossa Senhora do Rosário, a ajudar os corvinos em tão dramática luta, disse-se na altura e ainda se acredita agora que foi ela que, vá lá saber-se se por obra e graça ou se por prodígios de super-heroína, desviou todos os tiros lançados pelos piratas e que, ainda por cima, os devolveu para os barcos causando alarme na bandidagem! Claro que teve de se fazer justiça, a padroeira foi então rebaptizada como Nossa Senhora dos Milagres e uma igreja a ela dedicada se ergueu na Canada da Rocha...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)                                                                                               

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

 
LENDAS E NARRATIVAS - XXVI

O BANHO DA REAL PELICANA

Consta que a Rainha puxou de súbito as rédeas e o seu cavalo e restante caravana pararam obedientes, tinham saído há pouco de Óbidos em direcção ao Mosteiro da Batalha com o intuito de participar nas solenidades fúnebres de D. Afonso V, seu tio e sogro falecido três anos antes, a viagem ainda seria longa e desconfortável mas a curiosidade falou mais alto e agora tentava perceber o estranho espectáculo que tinha diante dos olhos: num descampado à beira do caminho centenas de pessoas banhavam-se alegremente nuns charcos de água pestilenta de onde emanavam vapores sulfurosos...
  

E dirigindo-se àquelas pessoas de baixa condição social perguntou D. Leonor, a esposa do perfeito rei D. João II, o que faziam naquelas águas de mau aspecto e cheiro, ao que lhe disseram que aquelas cálidas águas eram milagrosas, que curavam elas muitas e diversas maleitas! A Rainha, padecendo também ela de alguns desconfortos, não pensou duas vezes e decide pôr à prova o milagre, desce do cavalo e vai ao banho também, por entre a populaça e perante o ar embasbacado da sua comitiva... A Rainha parecia uma pelicana na água, ela que mais tarde seria apelidada de "pelicana real" devido não só ao brasão real do esposo mas especialmente porque, tal como o pelicano faz em relação aos filhos, a benfeitora D. Leonor também tirava alimento do seu peito para dar aos pobres... Certo é que saiu do banho retemperada e convencida, lá continuou a viagem mas na sua cabeça já germinava uma ideia: naquelas caldas iria mandar construir um hospital, acessível a todos que nelas se quisessem tratar e gratuito para pobres e desfavorecidos...    

"Hospital Termal das Caldas da Rainha D. Leonor" - Jean-Charles Forgeronne

Em 1485 seria pois fundado o Hospital Termal das Caldas da Rainha, o mais antigo hospital termal em funcionamento no mundo...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

domingo, 12 de janeiro de 2025

 LENDAS E NARRATIVAS - XXV

ERAM REIS? ERAM MAGOS? ERAM TRÊS?

Mas que bela história de encantar esta a dos supostos três reis magos que vieram lá do cu de Judas (e que se saiba não é aquele de São Miguel nos Açores) para adorar com as suas oferendas o recém-nascido rei dos Judeus que dormia serenamente numa manjedoura, guiados por uma miraculosa estrela... 
Ora, tendo fé no Evangelho segundo São Mateus (2,1), escrito mais de 70(!) anos após a morte de Cristo, nele consta apenas o seguinte: "Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente", não referindo que eram reis, nem quem eram nem quantos eram, apenas assume que eram magos...
Mas, coisa extraordinária e muito comum na Igreja Católica, sempre mestra em adornar acontecimentos e transformar tudo o que é pagão em milagre cristão, só passados 600(!) anos após o nascimento de Jesus é que alguém pio e sábio da Igreja (suspeita-se de Tertuliano) chegou à divina e incontestável conclusão que aqueles magos eram "quase reis", e assim se criou mais uma verdade divina, passaram a ser chamados de reis magos!
Segundo os estudiosos e entendidos no assunto e quanto ao facto de os intervenientes nesta fábula serem magos também é preciso ter em conta que naquela época e naquela região do mundo-cão chamava-se magos às pessoas sábias e eruditas, especialmente as que conheciam e professavam sobre os corpos celestes, magia ou milagres era coisa que não faziam!


Para cúmulo, só passados 800(!) anos depois do evento é que outra sumidade da Igreja foi iluminada e anunciou ao mundo que afinal tinham sido 3 os tais reis magos, nem mais nem menos, o tal número bastante conveniente para fazer pandã com a inevitável Santa Trindade, e assim ficou decretado e validado como verdade cristã insofismável, e ai de quem não cresse, a fogueira não crepitava longe... E foi também por esta altura que se achou necessário baptizar os famosos reis magos, até aí eram anónimos, talvez um pecado, e então anunciaram-se Belchior, "rei" da Pérsia e que ofereceu o ouro, Gaspar, "rei" da Índia e que ofereceu incenso e finalmente, mas não menos importante, Baltasar, "rei" da Arábia e que ofereceu mirra...
Quanto às oferendas parece normal presentear com ouro, ainda hoje o fazemos, o incenso já destoa um bocadinho mas faz sentido, pelo menos purificava o ar do estábulo, agora que raio, mirra? A mirra é uma planta áspera e espinhosa e cuja principal utilidade naquele tempo era o óleo que dela se extraía  e com o qual os Egípcios embalsamavam os seus mortos, representava, portanto, a eternidade... Que raio tinha Baltazar na ideia, ainda o deus-menino tinha nascido e já lhe preparava o embalsamento? Baltazar, sem dúvida o mais interessante dos magos, aquele que afinal só no século XV é que a Santa Igreja descobriu que ele era de raça negra, passando desde então a ser representado como tal! Portanto, talvez nem reis, talvez nem magos, talvez nem três, mas mesmo assim comemoremos  o seu dia, ao menos ficam as prendas...


João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

 

LENDAS E NARRATIVAS - XXIV

BRIANDA, UMA MULHER DE CORNOS

Nunca a ilha Terceira mostrou obediência ou vassalagem aos Filipes de Espanha que ocuparam o reino de Portugal durante 60 anos e essa rebeldia era uma espinha atravessada na garganta dos invasores devido especialmente à enorme importância do porto de Angra no comercio entre a Europa e as Américas... Assim, querendo resolver rapidamente essa questão, em Julho de 1581 os castelhanos desembarcam em força contra os insurrectos terceirenses, convencidos de que seria uma fácil vitória tal a desproporção das forças em contenda...

"Passagem do gado bravo", Figueiras Pretas- Jean Charles Forgeronne

Embora não conste dos registos oficiais da época, o destino da batalha da Salga seria bem diferente graças a uma mulher, Brianda Pereira, que por ter marido e filho reféns dos invasores convenceu outras mulheres nas mesmas  circunstâncias a insurgirem-se contra o inimigo, vai daí teve a ideia de lançar lá do alto o gado bravo de cornos afiados contra os espanhóis e foi tudo a eito, na baía da Salga os arrogantes espanhóis acabaram dizimados...

"Baía da Salga"- Jean-Charles Forgeronne 


Claro que, apesar de cruciais, não terão sido apenas os cornos afiados do gado bravo a ditar o desfecho da contenda, muito importante também terá sido, segundo a lenda, o contributo dos valorosos camponeses que se lançaram contra o inimigo logo atrás das bestas, mas diz-se de geração em geração que o que ditou mesmo o destino da decisiva batalha foi a inteligência e a coragem de Brianda...  E não voltaram os espanhóis a tentar subjugar a Terceira, um brinde pois a ela...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

 

LENDAS E NARRATIVAS - XXIII

A LAGOA DO NEGRO

Diz-se que há muitos muitos anos vivia na Terceira uma nobre família, um casal com uma única filha e que como era normal então tinha ao seu serviço escravos negros. A jovem donzela, submissa, aceitou um casamento sem amor imposto pelo seu pai embora vivesse uma paixão secreta com um escravo... Os amantes encontravam-se em segredo, como era conveniente, e porque sabiam que ali nunca poderiam ser felizes ainda chegaram a combinar uma fuga para a felicidade mas uma aia que os espiava a mando do desconfiado marido denunciou-os provocando a ira do cornudo que ordenou a prisão do escravo; este, ouvindo os cães de caça e os cavalos ao longe que vinham na sua direcção fugiu o mais que pôde para o interior da ilha e após ser encurralado e sem forças para continuar a fuga caiu de joelhos em desespero e a chorar a sua triste sina... Chorou tanto, mas tanto, que as suas lágrimas criaram uma linda lagoa, hoje chamada Lagoa do Negro, para a qual o infeliz se atirou para aí morrer afogado...  

"Lagoa do Negro" - Jean-Charles Forgeronne


João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)

domingo, 4 de agosto de 2024

 

LENDAS E NARRATIVAS - XXII


BLACKDOGS, OS CÃES DO INFERNO

Esta é uma das histórias que se tornou lenda: precisamente há 447 anos, no dia 4 de Agosto de 1577, curiosamente um domingo como hoje, numa manhã de terrível tempestade apareceu repentinamente um CÃO-NEGRO na igreja de Bungay, no condado de Suffolk, no sudeste da Inglaterra... Para além do seu aparecimento ter sido fatal para dois paroquianos que rezavam ajoelhados, o blackdog deixou a sua assinatura: ainda hoje as suas terríveis garras podem ser vistas cravadas numa das portas da igreja! O acontecimento teve tanto impacto que ainda hoje quem chega ao centro da localidade é recebido por um enorme catavento com a forma de um cão-negro...
Mas não se fala aqui de simples cães de pelagem negra nem de inofensivos animais de estimação, não senhor, os blackdogs são cães-fantasma vindos do Inferno, pelo menos é o que se afiança há séculos não só por toda a parte nas Ilhas Britânicas como também um pouco por todo o mundo, são criaturas de grande porte, bem superior aos cães comuns e são reconhecidos também pelo seu pêlo hirsuto e negro, por força e velocidade descomunais e especialmente pelos seus olhos sobrenaturais e brilhantes que parecem lançar fogo...  



Diz-se que são guardiões da entrada para o mundo dos mortos e que de vez em quando vêm à caça das almas perdidas, das almas que se venderam... E ai de quem olhar três vezes para os olhos da bestial criatura: é morte certa! Mas para não ser tudo terrível parece que até são demónios cavalheirescos: consta que têm um especial gosto em escoltar donzelas solitárias que se aventuram por caminhos rurais ou próximos de lugares históricos, protegendo-as de eventuais vagabundos emboscados! E aí é uma criatura real e convincente até ao momento em que a donzela, como forma de reconhecimento da protecção que lhe foi dada, estende a mão para uma festinha no focinho do amigável bicho e... nada sente! Aquilo é um fantasma!
O folclore em redor dos blackdogs é tão rico e interessante que nem Arthur Conan Doyle lhe resistiu, numa das mais célebres aventuras de Sherlock Homes, "O cão dos Baskervilles", um dos principais suspeitos dos crimes é nem mais nem menos do que um cão-negro! Já os Led Zeppelin, também dados a cenas místicas mas a leste deste assunto, chamaram a um dos seus principais hits "Blackdog" apenas porque, já com o tema integralmente composto e sem ideia para o título, decidiram homenagear um rafeiro preto que os visitava todos os dias enquanto gravavam algures longe da civilização...
Acabou de entrar mesmo agora o James e, felizmente, é castanho e branco, cada vez mais branco e o seu olhar é doce, cada vez mais doce...


João Iniciado
(Ocultista de Valmedo)

sábado, 16 de março de 2024

 

LENDAS E NARRATIVAS - XXI


O TESOURO PERDIDO DE JÚLIO CÉSAR


Há uns dias dei por mim a ler duas vezes o convite: "Percurso narrado sobre a lenda do Pó - O tesouro de Júlio César"! E eu, há muito amante curioso e frequente explorador do planalto das Cesaredas, assim chamado porque se diz que o então chefe militar aí acampou com os seus soldados numa das suas expedições, não hesitei um segundo e inscrevi-me, em estado de choque porque já tinha ouvido muitas histórias sobre o planalto mas não sonhava sequer com a possibilidade de aí existir um tesouro! E hoje é sábado dia 16, ontem foram os Idos de Março em que passaram exactamente 2068 anos sobre a morte do imperador romano JÚLIO CÉSAR, assassinado na célebre e traiçoeira emboscada e aqui estou eu a chegar ao adro da capela dedicada a Santa Catarina de Alexandria, na aldeia do Pó, concelho do Bombarral, é daqui que terá início a caminhada guiada...  Ao longe, sob um céu que por sorte não ameaça borrasca, vislumbro a encosta norte do planalto, aqui deste lado chamam-lhe a Serra do Pó, é para lá que daqui a pouco marcharemos à boa maneira dos romanos...




Reparo que desta vez não sou o primeiro a chegar, já cá está o professor Nuno Ferreira, da Câmara Municipal do Bombarral, ele que tem andado por todo o concelho a recolher as lendas locais de cada terra antes que elas se percam para todo o sempre, e felizmente parece que um livro sobre esse património em risco está na calha... Far-nos-á também companhia o Presidente da Junta de Freguesia do Pó, Álvaro Benjamim, ele que se tornou famoso por ter vencido as últimas eleições apenas por um voto mas, o mais importante, um interessante depositário de histórias maravilhosas do antigamente...



"Pena da Gralha" - Jean-Charles Forgeronne

E assim lá fomos até à Pena da Gralha, local onde dizem os antigos e os antes deles que Júlio César lá enterrou ou escondeu um tesouro que pensava levar consigo quando acabasse a sua tarefa por estas terras do oeste peninsular e regressasse a Roma, mas, por esquecimento ou outra razão qualquer, por aqui o deixou ficar... Dizem que o tesouro se compõe de um sino e de um berço em ouro! Mãos à obra, digo a mim próprio, amanhã, munido de pá e picareta demandarei aquela encosta do planalto em busca da fortuna e só peço que não dê de caras com a enorme e sobrenatural ave branca que assustava os poenses antigos quando se aventuravam de noite por aqueles lados, assim o afiança Benjamim que o ouviu de pessoas idóneas e que para além disso lembra-se de que quando era pequeno aí se ter descoberto uma enorme pedra na encosta que se movia e que permitia uma entrada para o desconhecido... Será aí que estará o tesouro?


João Alembradura

(Historiador de Valmedo)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

 

LENDAS E NARRATIVAS - XX


OS ESPÍRITOS DAS FLORESTAS


As árvores, ao servirem de alimento, material de construção, combustível e até remédio, sempre tiveram um carácter sagrado para a humanidade e essa natureza divina revela-se de muitas maneiras ao serem consideradas símbolo de vida, de fertilidade, de imortalidade e de renascimento; as árvores são mágicas e consideradas canais de ligação entre o céu e a terra, as suas copas apontam para as estrelas, as suas raízes contactam o submundo, os seus troncos estão ao nosso nível, habitam os nossos lugares entre o que está acima e o que está abaixo... 
E foi num tronco que vi a divindade, a ninfa do Alviela, ali à beira do rio e pertinho dos olhos lacrimejantes da moura...   



"A ninfa do Alviela"


Rezam as antigas lendas gregas que as ninfas são divindades femininas que habitam os campos, as florestas, os rios, os mares... Algumas delas, chamadas dríades (do grego drýs que significa carvalho, essa mítica árvore sagrada também adorada pelos celtas) nascem e habitam nas árvores, cuidando delas durante toda a sua existência, numa união física e espiritual. E quando a árvore morre também a ninfa sucumbe....
E quando deixei a floresta encantada e regressei a Valmedo não resisti a fazer uma visita a uma velha conhecida, uma ninfa de belos cabelos compridos que à janela do seu tronco à beira da estrada concorrida se diverte observando os namorados juvenis a caminho do liceu...



"A dríade de Valmedo)


 João Iniciado

(Ocultista de Valmedo)

 

LENDAS E NARRATIVAS - XIX


A INFELIZ MOURA DO ALVIELA

Diz-se que noutros tempos, foragida do seu reino longínquo, quem sabe se das bandas de Alcobertas, chegou aqui onde hoje e desde há muito nasce o rio Alviela uma corajosa e infeliz princesa que desobedeceu à imposição do seu pai para casar com um príncipe muito rico... Acontece que a moura princesa estava apaixonada por um rapaz pobre da sua terra, mas vendo que a união com esse amor com que sonhava dia e noite era impossível e que a infelicidade lhe estava destinada por aqui se escondeu, chorando a toda a hora a sua triste sorte... 


"Os olhos"



Mas uma bruxa de má índole descobriu o paradeiro da infeliz moura e através dela o rei foi enviando à filha outras propostas de casamento, mas nenhum dos pretendentes a princesa aceitava. Então o rei, ansioso por resolver a sucessão do trono do seu condado e farto da teimosia da princesa fez-lhe um ultimato: ou casava com o bonito rapaz que lhe tinha enviado, e que na realidade era um boi encantado, ou seria condenada a viver eternamente naquelas grutas e as suas lágrimas seriam tantas e tão grossas que se tornariam num rio que daria para regar para todo o sempre as terras e dar de beber a pessoas e animais...
E, de facto, as águas do Alviela brotam de orifícios que parecem olhos em lágrimas...    





João Parte Pedra

(Geólogo de Valmedo)

domingo, 19 de novembro de 2023

 

LENDAS E NARRATIVAS - XVIII

QUEIMANDO MAUS ESPÍRITOS E BRUXAS


A luz pálida do entardecer embelezava o vale e enquanto descíamos aos ziguezagues pelo caminho de terra bastante sulcado pelas últimas chuvadas tive a sensação de que estávamos prestes a entrar noutra dimensão e tentava convencer-me de que não estava apenas a ser sugestionado pelo carácter especial da reunião, parecia-me mesmo que iríamos em breve mergulhar num mundo de maravilhosas coisas e como a escuridão ainda não engolia o cenário já se vislumbrava lá ao fundo os contornos encantadores da Capa Negra...  



Os amigos iam chegando alegres e carregados de iguarias para a celebração, calhava ser sábado e dia de descanso para alguns, de folga para outros e dia de santo magusto para todos... E enquanto a mesa ia ficando composta e a Dininha andava lá fora desafiando o lusco-fusco de volta das brasas para a prometida castanhada, iam nascendo como cogumelos conversas de actualização dos acontecimentos desde a última reunião, há sempre novidades acerca deste mundo-cão que gira depressa demais...   



Mas esta noite em particular trazia outro aliciante, depois das castanhas e da ceia entraria em cena a saudosa queimada, ideia da e coisa que já não era feita por nós há décadas... E que melhor ocasião para encenar esse ritual de afastamento de maus espíritos, bruxas e maus-olhados do que uma reunião de amigos e em que alguns deles têm tido tão pouca sorte entretanto que até parece terem sido amaldiçoados? Obriga a tradição oriunda da Galiza e do norte de Portugal que após a ceia e na obscuridade da noite se reúnam os comensais ao redor do pote onde se vai elaborar esse purificador licor, de preferência com as luzes apagadas...   




Manda a lenda que num pote de barro se deve botar a aguardente (e neste caso o Jorge Humberto fez questão de ser uma de medronho lá do Estreito, mal empregada pensei eu!) e o açúcar amarelo na proporção de 120 gramas por cada litro; depois juntam-se pedaços de maçã, uvas, cascas de limão ou de laranja e alguns grãos de café por moer; mexe-se tudo; à parte, colhe-se uma porção da bebida com uma concha, sem limão nem café, e pega-se-lhe fogo; seguidamente introduz-se a concha a arder no pote e mexendo devagar vai-se permitindo que as chamas do álcool subam em cascata... Espera-se que a queimada se apague por si própria e depois há que recitar o esconjuro, desta feita a meu encargo:




"Mochos, corujas, sapos e bruxas.
Demónios, trasgos e diabos,
espíritos das enevoadas veigas.
Corvos, píntigas e meigas:
feitiços das mezinheiras.
Podres canhotas furadas,
lar dos vermes e alimárias.
Fogo das Santas Companhas,
mau-olhado, negros feitiços,
cheiro dos mortos, trovões e raios.
Uivar de cão, pregão da morte;
focinho do sátiro e pé do coelho.
Pecadora língua da má mulher
casada com um homem velho.




Averno de Satã e Belzebu,
fogo dos cadáveres ardentes,
corpos mutilados dos indecentes,
peidos dos infernais cus,
mugido do mar embravecido.
Barriga inútil da mulher solteira,
falar dos gatos que andam à janeira,
guedelha porca da cabra mal parida.
Com este fole levantarei
as chamas deste fogo
que assemelha o do Inferno,
e fugirão as bruxas
a cavalo das suas vassoiras,
indo-se banhar na praia
das areias gordas.



Ouvi, ouvi! os rugidos
que dão as que não podem
deixar de se queimar na aguardente
ficando assim purificadas.
E quando esta beberagem
baixe pelas nossa goelas,
ficaremos livres dos males
da nossa alma e de feitiço todo.
Forças do ar, terra, mar e fogo,
a vós faço esta chamada:
se é verdade que tendes mais poder
que as humanas pessoas,
aqui e agora, fazei que os espíritos
dos amigos que estão fora,
participem connosco desta Queimada."



"Os amigos"

E que deliciosa estava a queimada...


João Abelhudo

(Pesquisador de Valmedo)

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

 

LENDAS E NARRATIVAS - XVII


AMOR MÁGICO NA ATLÂNTIDA


Há muito tempo, numa das sete cidades do mágico reino da Atlântida vivia uma solitária e sonhadora princesa que sempre que podia se evadia das muralhas do seu castelo e deambulava pelos campos admirando as árvores, os pássaros e o mar... Um dia deu de caras com um jovem e humilde pastor e depois de uma longa conversa em que descobriram que tinham os mesmos ideais nasceu entre os dois um amor sem limites, passaram então a encontrar-se todos os dias e por entre juras de amor eterno iam idealizando um futuro feliz...


"Sete Cidades" - Jean-Charles Forgeronne

Mas o rei e a rainha tinham há muito traçado o destino da bela princesa, estava condenada a casar-se com um príncipe de uma cidade vizinha. O rei, ao saber dos namoros secretos da princesa com o pastor, tratou de proibir qualquer contacto entre os enamorados mas ainda lhes concedeu um derradeiro encontro de despedida e aí os infelizes apaixonados choraram tanto que foi nascendo uma lagoa aos pés de cada um, uma azul criada pelas lágrimas dos olhos azuis da princesa e outra verde originada pelas lágrimas dos olhos verdes do pastor... Ainda hoje e talvez para todo o sempre ainda se encontram unidas as duas lagoas...


"7 Mágico" - Jean-Charles Forgeronne

João das Boas Regras

(Sociólogo deValmedo)

domingo, 7 de maio de 2023

 

LENDAS E NARRATIVAS - XVI


A OBRA INACABADA DO DIABO


O Diabo já tinha rondado e assediado várias vezes aquela bela jovem lavadeira de Segóbriga sem sucesso mas sabedor por experiência própria desde os tempos da criação deste mundo-cão que a persistência é uma artimanha que resulta quase sempre lá continuava a prometer-lhe mundos e fundos em troca da sua desejada alma... Até que um dia ao entardecer, certamente um daqueles dias em que uma pessoa se sente mesmo em baixo, a jovem, cansada de acarretar baldes de água ladeiras de Segóvia acima, desafiou o mafarrico: entregar-lhe-ia a sua alma se ele acabasse com o seu martírio nessa noite e fizesse chegar água à sua casa antes de o galo cantar!  Ninguém dormiu nessa noite, nem o Diabo nem a moça e esta, ao ver o ritmo diabólico a que Satanás ia construindo pedra sobre pedra um conjunto de arcos gigantescos, arrependeu-se profundamente do seu desafio e desatou a rezar... Coincidência ou não, desabou então uma grande tempestade que complicou muito a tarefa do maligno e, azar dos seus azares, só lhe faltava colocar a última pedra quando o raio do bendito galo decidiu cantar! Salvou-se assim a alma da jovem que ainda hoje ostenta a glória de ter sido das poucas criaturas que enganou a perfídia do Belzebu...


"A última pedra" - Jean-Charles Forgeronne

E ainda hoje é possível encontrar o Diabo com a última pedra que lhe faltava colocar no aqueduto, sentado na ladeira por onde a jovem subia com os baldes de água e a tirar uma selfie, essa moderna mania que até ao demónio distrai e faz perder precioso tempo...


"El acuedutco" - Jean-Charles Fogeronne

Lenda à parte, só poderia mesmo ser mesmo obra do Diabo! Se assim não fosse, como poderia o grandioso aqueduto de Segóvia ainda estar de pé e intacto passados 2000 anos? Aquela que é uma das maiores obras levadas a cabo pelo Império Romano foi construído no século I com o intuito de abastecer Segóvia de água a partir da serra de Guadarrama, tem 16 quilómetros de percurso e a série de arcos monumentais que ainda hoje se podem observar ao longo de 728 metros estão apenas suportados pelo próprio peso dos blocos de granito, sem qualquer cimento ou argamassa... Ao todo são 167 arcos que atingem a altura máxima de 28 metros e que são formados por 20400 blocos de pedra, num perfeito e sólido equilíbrio de forças que desafia as leis da física... Quem disse que o Diabo não era um grande engenheiro?


João Palmilha

(Viajante de Valmedo)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

 

LENDAS E NARRATIVAS - XV


ALCOBAÇA, UMA HISTÓRIA DE AMOR...


O amor que unia a donzela Baça ao moço Alcoa era tão intenso e puro que parecia digno de um conto de fadas e por isso aquele par de namorados era benquisto e admirado por toda a gente da região... Bem, valha a verdade nem todos lhes queriam bem porque um dia o rapaz recebeu a visita de uma enigmática e invejosa criatura e esse encontro virou-lhe o carácter e o modo de viver e tornou-se ambicioso a tal ponto que abandonou a sua até então amada Baça...


"Confluência do Alcoa e do Baça" - Jean-Charles Forgeronne


A desolada Baça chorou tanto e noites a fio que as suas lágrimas formaram uma ribeira... Quando soube disso, o jovem Alcoa caiu em si e num desespero terrível, afogado em remorsos chorou também dia e noite tanto que se transformou num rio que em noites de luar murmurava:
   - Baça, meu amor! Perdoa-me, peço-te por tudo que me perdoes!
E então Baça perdoou-lhe e ali mesmo na ponta do jardim do amor se juntou a Alcoa, desaguando no seu lado esquerdo, o lado do coração... Formou-se assim ALCOBAÇA e diz-se por aí que ainda hoje quem por ali passar em certas noites ainda consegue ouvir murmúrios e suspiros apaixonados vindos das águas do rio...


"Jardim do Amor" - Jean-Charles Foregeronne


João Palmilha

(Viajante de Valmedo)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022


LENDAS E NARRATIVAS - XIV


O SANTO, O DIABO E A CABRA...


Baptizado com o nome próprio de Fernando e de sobrenome duvidoso, aquele que mais tarde seria elevado a doutor da igreja católica e conhecido como Santo António ainda teve tempo nos seus parcos trinta e seis anos de vida para se tornar um grande viajante, não só por Portugal mas também pela França e pela Itália, onde de resto viria a morrer em Pádua... Viveu em Lisboa e em Coimbra no início do século XIII e, segundo a lenda, também terá andado a afugentar os demónios dos montes e vales da serra e de Linhares da Beira em particular... 

"A casa amaldiçoada" - Jean-Charles Forgeronne

 Quem descer do castelo pela primordial Rua dos Penedos em Linhares irá encarar a casa de granito ancestral onde há séculos habitou Dona Lopa, uma nobre viúva que vivia apenas com a sua criada e a quem, quem sabe se por inveja, a vizinhança atribuía alguns hábitos pouco católicos e outros nada recomendáveis... E num luminoso dia quem haveria de lhe bater à porta? Claro que teria que ser o nosso querido amigo e protector Santo António, quem melhor para farejar o enxofre a milhas de distância?


"A cabra" - Jean-Charles Forgeronne

- Então que é feito da sua criada? - terá perguntado o santo à dissoluta dama...
- A minha criada saiu ainda não há muito tempo - respondeu a surpresa senhora...
- Estou a ver que a senhora não desconfia que vive com o demónio!
-Mas, santo deus, como é isso possível se com ela estou tão satisfeita e se em tudo ela me apraz?
- Então, se nela acredita como ouço faça o seguinte e depois tire as conclusões que achar: logo à noite, quando ela se deitar e estiver em sono profundo, espalhe cinzas ou farinha pelo soalho e observe as pegadas quando ela sair pela manhã... 

"Rua dos Penedos",  Linhares da Beira - Jean-Charles Forgeronne

E manhãzinha cedo lá estavam as marcas feitas pelos pelos pés de cabra, a desesperada Dona Lopa, convencida que vivia com o Diabo, não tardou em expulsar de casa a criada e esta, de rastos porque teve de abdicar de uma alma quase perdida, nunca mais foi vista... Entretanto Santo António tinha feito as suas orações e o Diabo foi arrebentar junto de uma figueira existente perto das muralhas do castelo e que nunca mais deu figos...  Mas outros e muitos demónios continuam por aí a atazanar as frágeis almas desde então, é o que consta... Quanto à Dona Lopa, começou a frequentar a igreja e penitenciou-se até ao dia da sua morte pelos seus pecados! E coitada da inocente e generosa figueira, que mal  fez ela para ser conhecida como a árvore do Diabo?


João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)

domingo, 23 de agosto de 2020

                                      LENDAS E NARRATIVAS - XIII


OS AMORES, AS ILUSÕES E AS LÁGRIMAS...


Longe de mim a ideia de dar conselhos a quem quer que seja mas hoje vou arriscar e começar mesmo por aí mas apenas porque dá um certo jeito a esta pobre narrativa, amigo leitor do mundo-cão, e assim permita que lhe peça para que não se deixe iludir muito com histórias imprecisas, narrativas tendenciosas ou simples crendices baseadas na ignorância, a menos, claro está, que isso lhe dê satisfatório prazer e nesse singular caso nem eu nem ninguém terá o direito de opinar seja o que for... E agora que estamos esclarecidos falemos do que importa aqui, das ilusões que são propagandeadas para criar falsos acontecimentos fabulosos que depois são utilizados como ferramentas de ideologia política ou condicionamento social, senão repare na fotografia abaixo e sabendo que se trata da imagem mais conhecida da "Fonte dos Amores", em plena Quinta das Lágrimas por onde há  muitos anos atrás se amaram Pedro e Inês, poderia o amigo leitor ser sugestionado a convencer-se de que o mais famoso e trágico par romântico da história lusa se tinha encontrado ali inúmeras vezes e trocado eternas juras de amor sob as famosas porta em arco e janela neo-góticas... 

"Fonte dos Amores" - Jean-Charles Forgeronne

Mentira! Esse belíssimo conjunto, ali mesmo à beira de uma fonte de água cristalina e que dá acesso aos mistérios da mata da quinta e que lhe proporciona uma aura ainda mais romântica apenas foi construída no século XIX, isto é, mais de quinhentos anos após as aventuras amorosas do príncipe e da sua amada... É caso para dizer que para uma paixão assim tão pungente basta a sombra e o recolhimento de uma árvore ou de um singelo arbusto, e isso por ali nunca faltou desde que a avó de D. Pedro, a Rainha Isabel, mandou construir um canal para levar a água de duas nascentes que dali brotavam para o Convento de Santa Clara. E se a uma das fontes, pela óbvia razão de ter sido testemunha dos namoros secretos do infante e da fidalga foi dado o nome de FONTE DOS AMORES, a outra, culpa de Camões ao que parece, ficou para sempre conhecida como a FONTE DAS LÁGRIMAS...    


"Fonte das Lágrimas" - Jean-Charles Forgeronne

De facto, poetizou Luiz Vaz e acreditou piamente o povo que esta fonte é alimentada pelas lágrimas brotadas por D. Inês ao ser assassinada e que aquele tom avermelhado que se nota no fundo é o seu sangue derramado, embora tudo não passe do efeito causado por umas algas vermelhas que vivem agarradas ao leito rochoso do curso de água... Acredite-se ou não, lenda ou facto, o certo é que, como alguém disse, os amores trágicos e intemporais de D. Pedro e D. Inês foram mesmo reais e embora alguns pormenores da história possam ser artificiais eles aconteceram de facto, ao invés de outros romances que foram inventados e hiperbolizados pela pena ou pela imaginação popular, casos de Romeu e Julieta ou Tristão e Isolda!




E se por acaso um dia destes arriscar uma visita pelas fontes dos amores e das lágrimas não se esqueça que outras coisas há por lá que merecem atenção, como seja uma sequóia gigante plantada pelo próprio Duque de Wellington quando ali pernoitou em 1813...




João Alembradura
(Historiador de Valmedo)