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sábado, 16 de maio de 2026

 
ORA BOLAS! MALDITO FUTEBOL...

Tinha sublinhado no programa e até escrito na agenda a data e a hora do evento que não queria perder por nada (ou quase nada) deste mundo: o João Gobern voltava aos Livros a Oeste, depois de anteriores passagens dele por aqui em que não pude estar presente!  Seria a minha merecida desforra, teria a oportunidade de lhe agradecer pessoalmente tantas e boas sugestões musicais e literárias que foi dando ao longo de décadas em programas de rádio ou em jornais e claro, já tirei da estante o seu último livro que serve de mote a esta sua visita, "Tira o Disco e Toca ao Vivo", uma interessantíssima, necessária e oportuna abordagem sobre a indústria musical na Lusitânia desde os anos 80 do século passado até aos dias de hoje... E um pormenor delicioso que me agrada de sobremaneira neste ensaio é o facto de que cada capítulo ter tomado o título de uma canção emblemática da considerada música moderna portuguesa no período de tempo em análise, seja, por exemplos, "A vida num só dia", dos Rádio Macau, 1985, ou "Amor digital", de Jorge Palma, 2023...




E com alguma dificuldade também trouxe à luz do dia o CD de Thomas Dybdahl, "One day you'll dance for me, New York", com a fabulosa homónima canção que numa manhã ancestral e de sorte calhou eu ouvir o João sugerir num programa de rádio, penso que num saudoso "Hotel Babilónia", e o meu mundo foi diferente para melhor desde então, uma das canções a eleger para a minha colectânea de vida... Só por isso, mas também por muito mais, obrigado, Gobern! Mas eis senão quando na hora da verdade o Gobern aparece apenas em vídeo, a porcaria do futebol obrigou-o a ficar retido para comentários naqueles painéis de especialistas da bola para os quais já não há ponta de pachorra... Compromissos são compromissos, de acordo, mas logo haveria o último jogo do glorioso ser marcado para este mesmo dia? E ainda por cima com diminutas possibilidades de êxito? Imperdoável, Gobern! E o tão ansiado autógrafo? Vais ter que pagar com juros quando voltares aos Livros a Oeste... Cá te espero...

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

 
TURISTA BAFEJADO PELA SORTE...

Visita a Oviedo programada há meses, alojamento tratado e pontos de interesse referenciados que essa coisa de improvisar à última da hora não é para o meu jeito, umas boas semanas antes da viagem descubro que nos dias em que por aqui estaríamos o Teatro Campoamor, que é como quem diz a Ópera de Oviedo, iria levar à cena "Romeu e Julieta", de Charles Gounod! Depois de uma pequena saga para conseguir ingressos, tarefa conseguida com alguma sorte, o mais difícil foi desde então manter o segredo, é que a N. há muito que ansiava por uma ida à ópera e neste caso a surpresa era fundamental para o sucesso da noite e para dar encanto à viagem... 

"Teatro Campoamor" - Jean-Charles Forgeronne

Felizmente tudo correu dentro do planeado, e finalmente ali estávamos nós, viajando no espaço e no tempo, num belíssimo teatro fundado em 1892 e a 800 Kms de casa, para desfrutar de uma ópera estreada no Théatre-Lyrique de Paris em 27 de Abril de 1867, há 158 anos! E pelos vistos a ópera democratizou-se, pelo menos aqui pelas Astúrias, claro que ainda se encontram pessoas vestidas a rigor e senhoras abanando-se com o tradicional leque, a ida ao teatro continua a ser um acontecimento social onde se vai para saber novidades, para ver e para ser visto, especialmente para os locais que se conhecem de gingeira e ainda bem que ninguém reparou nas pobres vestes de viajante com que nos apresentámos... De resto, muita gente nova e vestida informalmente... Quanto à ópera, divinal! Os dramas shakespearianos continuam a fazer sucesso...

"Romeu e Julieta", Oviedo - Foto: Melómano Digital

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

 
OCCIDENTALIS PROFUNDIS -VI

UHF, FINALMENTE NA ONDA CERTA...

Formados na Costa da Caparica em 1978, os UHF são a mais antiga banda portuguesa de rock em actividade e são o melhor exemplo de quem faz jus ao seu nome, de facto António Manuel Ribeiro e camaradas andaram este tempo todo sempre numa frenética Frequência Ultra Alta, senão repare-se nalguns números avulsos captados nas ondas de rádio:  
 - até 2006 tinham 700 mil Kms percorridos em digressões;
 - até 2017 tinham 1.5 milhões de discos vendidos;
 - até 2017 tinham dado 1700 concertos, em Portugal e no estrangeiro;
De lá para cá, se existem, não são conhecidos números mas sei eu que anteontem actuaram no Oeste, na Festa das Adiafas no Cadaval, e posso testemunhar que continuam em grande forma...

"UHF no Oeste"- Jean-Charles Forgeronne

Aliás, até me envergonho de dizer que foi a primeira vez que os vi ao vivo, até agora, nos seus 47 (!) anos de existência nunca os UHF e eu nos tínhamos cruzado, vá lá saber-se o porquê de caminhos tantos anos desencontrados, eu que menino e moço soletrava a "Rua do Carmo" e os "Cavalos de Corrida" a caminho da escola, mas pronto, almejei um objectivo de vida: assistir a um concerto de quem há muito muito tempo fez as primeiras partes de muita gente ilustre como os Dr. Feelgood, Elvis Costello, Uriah Heep, Ramones ou os Dexys Midnight Runners, só para citar alguns... Resta agradecer-lhes por tanta história...

"The Man" - Foto: João Andarilho

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

terça-feira, 21 de outubro de 2025

 
OCCIDENTALIS PROFUNDIS - V

O EXPRESSO PASSOU POR ÓBIDOS

Óbidos, ou antes Oppidum, termo em latim que designava uma cidadela ou cidade fortificada e que era aplicado à principal povoação de uma área administrativa do Império Romano, recebeu um dia destes um concerto dos EXPRESSO TRANSATLÂNTICO, englobado no festival literário Fólio... A banda dos irmãos Varela e de Rafael Matos não defraudou as expectativas e brindou o público jovem e entusiasta que lotava a sala com um show a transbordar de energia e que apelava à dança, tudo embrulhado nos timbres maravilhosos da guitarra portuguesa... 


"Expresso Transatlântico no Fólio" - Jean-Charles Forgeronne

Parece que o segundo álbum da banda irá sair no início de 2026 mas por Óbidos já se ouviram ao vivo os dois primeiros temas conhecidos, "Flor trovão" e "Avalanche", e a coisa promete, aguardemos portanto que o expresso volte a passar pelo Oeste, nem que seja apenas na próxima estação... 

                                                                                           "Flor Trovão" - Expresso Transatlântico

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo"

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

 
OCCIDENTALIS PROFUNDIS - IV

A LUZ DO SOL, MUITOS ANOS DEPOIS...

De volta ao Moledo, onde tudo começou e aonde se regressará sempre, eu e a malta, vindos de actividade radical que nos tinha elevado a moral aos píncaros, acomodámo-nos quase na primeira fila da improvisada plateia ao ar livre para assistir a um concerto de jazz, e que melhor programa para acabar o rico e longo dia em beleza? O largo ao lado da igreja estava iluminado e bonito, colorido e alegre, em frente o pequeno palco instalado num recanto junto da entrada para a sacristia revelara-se uma boa escolha, estava tudo pronto para a música dos SOLARIS, um quarteto que desconhecia por completo mas que me levantava boas expectativas ou não me tivesse sido aconselhado pelo amigo Leirão... 

"Solaris no Moledo" - Jean-Charles Forgeronne

Aos primeiros acordes a banda mostrou-se afinada e ao que vinha, base rítmica envolvente e brilho no saxofone e no piano e ainda estava eu a ambientar-me e ainda não tinha olhado sequer com pormenor para todos os músicos quando o saxofonista e porta-voz se apresentou e aos colegas, ele
João Vaz Pinto, o baixista Pedro Teixeira, o baterista André Mota e por entre sussurros na plateia pareceu-me ouvi-lo dizer  Aurélien Vieira Lino ao piano... Iniciaram o segundo tema e só quando o pianista a dada altura começa a desfilar com desenvoltura e olho para ele com mais atenção é que acordo: "Espera aí, ele disse Aurélien? Será o Aurélien da Ana? Só pode!" ia eu pensando, boquiaberto. E até ao final do espectáculo não tirei os olhos daquele que nunca tinha visto até então na vida mas que tanta história tinha ouvido sobre ele durante anos e anos pela boca de uma antiga colega de trabalho, que entre outras coisas o rapaz tinha jeito para o piano, mais tarde que tinha entrado para o conservatório e que queria fazer disso a sua vida e por aí fora...

E agora, passado tanto tempo para que finalmente nos encontrássemos, parecíamos chegados cada um da sua uma viagem interestelar e depois de uma ausência de anos-luz, e ali mesmo, num impulso desavergonhado, botei conversa no final do concerto e sua simpatia desarmante fez juz ao que dele tinha ouvido, atributo aliás extensível aos restantes elementos do Solaris, e quanto à mestria musical: que dizer de alguém que agora é professor no conservatório e que deslumbra nas teclas como se comprovou naquela noite? Para comprovar isso basta ouvir a "Viagem", o primeiro álbum de originais do grupo, acabadinho de sair, e eu saí do Moledo todo contente e de alma cheia porque ainda trouxe o CD autografado...

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

 
OCCIDENTALIS PROFUNDIS - III

EM MIRAMAR OU NOUTRO LADO QUALQUER...

Não conheço a pequena praia de Miramar em Vila Nova de Gaia e que deu origem ao nome do projecto e onde tudo começou mas começo pela minha conclusão: a geografia e a distância nada impedem, antes podem influenciar e aproximar, assim haja vontade! Agora é que ele enlouqueceu de vez, alguns de vós provavelmente pensarão mas se vos falar de MIRAMAR talvez a coisa ganhe algum (muito) sentido...  Peixe e Frankie Chavez, meus velhos conhecidos, um pelos Ornatos e outro pela carreira a solo e colaborações, conheceram-se há uns dez anos e a admiração recíproca foi tal que, felizmente para os melómanos, iniciaram uma intensa relação à distância! Um do Porto e outro de Lisboa, cada um com a vida instalada na sua cidade, lá vão comunicando e interagindo através de mails e whatsapp ou então encontrando-se a meio caminho ou nem tanto para residências criativas e tudo para nos oferecer autênticas pérolas, não fossem eles dois dos maiores guitarristas da Península Ibérica e arredores...

"Miramar em Torres Vedras" - Jean-Charles Forgeronne

E agora, que acabam de lançar o seu terceiro álbum, com o título original de "Miramar III", o que é obra para música instrumental, este duo desaguou um destes dias no Oeste, em pleno Cine-Teatro de Torres Vedras, para nos assombrar com música e com muita geografia, eu que o diga que me apaixonei pelo "Café Planície", pelos vistos um café que existe algures no Alentejo...  

                                                                                                    MIRAMAR - Café Planície

João Sem-Dó
(Musicólogo de Valmedo)

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

 
OCCIDENTALIS PROFUNDIS - II

O CAMINHO É O POEMA

Por pouco não calhou neste 50º Dia Mundial da Música que se comemora hoje mas ao que se celebrou no passado sábado em pleno Forte de Paimogo não se pode retirar o brilho por causa disso, o evento era suposto acontecer sobre as lajes do terreiro ao ar livre mas a depressão Gabrielle empurrou artistas e público para uma exígua divisão que há séculos serviria para alojamento das parcas tropas e equipamentos e muito bem esteve a organização nessa decisão, ruinoso seria cancelar a música e a palavra...


E assim o Forte de Paimogo, felizmente em avançada recuperação depois de muitas décadas ao abandono, se tornou num Lugar de Palavra, de poesia e música... Um trio de luxo formado por José Anjos, poeta e declamador, João Morais, também conhecido como "O Gajo", exímio guitarrista que trocou o punk pela magia da viola campaniça e ainda o contrabaixista Carlos Barretto reuniram-se para nos mostrar que o caminho é feito de poesia e de música... E que bom que foi!


 "... é uma linha lenta sempre recta, sempre certa, incerta,
para onde quer que se vire
é uma linha lenta sempre recta, sempre certa,
incerta, certa,
para onde quer que se vire
o caminho é o poema."
                                                                                                   
(excerto de "O caminho é o poema", de José Anjos)

   
E ainda deu para conseguir um desejado autógrafo do Gajo! Ainda há dias assim, belos como a música e como a poesia...



João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)







domingo, 28 de setembro de 2025

 
OCCIDENTALIS PROFUNDIS... - I

NO SÍTIO CERTO À HORA MÁGICA...

Poderia parecer uma cerimónia celta de exaltação da energia cósmica, de culto aos deuses e de veneração da natureza mas não, foi apenas uma hora que se revelou mágica em pleno bosque do planalto... Desafiados pelo incansável João Leirão, eu e o meu camarada Andarilho tínhamo-nos reunido aos outros peregrinos junto aos lavadouros do Moledo e depois de uma pequena caminhada lá chegamos ao templo que se revelava esplendoroso pois Chronos, o deus do tempo, apesar das previsões malignas oriundas dos satélites havia interferido e aquele final de dia revelava-se belo, o vento ausentara-se e os raios de sol estendiam-se sobre a caruma, e era ali, à sombra das árvores sagradas que nos aguardava o druida... 

"Gladkyy, o druida" - Jean-Charles Forgeronne

Sérgio Gladkyy, jovem músico português e membro do Ensemble Orquestral da Beira Interior, era o druida e escondia no seu pote uma poção mágica capaz de nos ligar ao maravilhoso e aos deuses: um acordeão! Para além de apresentar obras de Tchaikovski e Gubaidulina começou com a "Toccata e fuga em ré menor" de Bach, e podem crer, fiquei embasbacado, não fazia a menor ideia de que se poderiam extrair de um acordeão sons tão sublimes! É certo que Gladkyy já venceu alguns dos mais prestigiados concursos nacionais e internacionais e que possui um reportório versátil, incluindo obras originais, mas a genialidade da sua missa foi tal que pensei admitir, tal como com Bach, que tenha tenha recebido o toque dos deuses... 

"No bosque sagrado..."-Jean-Charles Forgeronne

A seguir, atentamente...
                                                                                                                    Sergio Gadkyy

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

sexta-feira, 15 de agosto de 2025


INCRÍVEL HENDRIX, INCRÍVEL ALMADENSE 

De facto, o que é incrível é só agora eu ter conhecido o INCRÍVEL ALMADENSE! E imagino o desperdício, tantas devem ter sido as suas gloriosas noites que perdi, mas enfim, nem vale a pena tentar encontrar razões para tanto desencontro mas um dia haveria de acontecer e como se diz por aí acertadamente mais vale tarde do que nunca... Em boa hora chegou o desafio do amigo Andarilho, também ele com ganas de conhecer o mítico espaço e depois de bem aconchegados pelo "Velho Kurica" lá fomos à aventura que nem leões...

"Incrível Almadense" - Jean-Charles Forgeronne

O CINE INCRÍVEL, na zona velha de Almada, tem uma história de 100 anos de existência, foi inaugurado em 1925 e fica situado mesmo ao lado do edifício da sua proprietária, a Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, esta fundada em 1848! A icónica sala de espectáculos começou por albergar peças de teatro, depois também cinema e mais tarde concertos de música, tendo por lá passado nos anos 80 muito boa gente dos primórdios do rock português, como os Xutos&Pontapés e os UHF... Talvez por isso ficou conhecido desde então para muita gente como o Rock Rendez-vous da margem sul...

"Memorabilia" - Jean-Charles Forgeronne

Espaço incontornável da cultura de Almada e da margem sul, o CINE INCRÍVEL tem tido uma existência conturbada, chegou a encerrar portas e a entrar em lastimável estado de abandono mas valeu-lhe a intervenção da Associação Alma Danada que em 2012 o salvou do desastre ao assumir a sua gestão... E hoje, apesar de alguns contratempos, ali acontecem inúmeros concertos, desde bandas de garagem a nomes consagrados da música portuguesa, desde sessões semanais de jazz a bandas de tributo, muito se passa por ali, felizmente... 

"Hendrix reencarnado" - Jean-Charles Forgeronne

E por ali passou há dias o Jimmy Hendrix, com mestria bem reencarnado na guitarra de Tiago Maia e muito bem secundado por Ricardo Dikk no baixo e Rui Reis na bateria, e depois de um belo serão é inevitável um regresso para breve, afinal o Incrível merece muitas mais visitas...

"Almada Velha" - Jean-Charles Forgeronne

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LX

O ÚLTIMO CONCERTO DE JAQUES BREL

Nos registos oficiais consta que o último concerto de Jacques Brel ocorreu a 16 de Maio de 1967, no Coliseu de Roubaix, perante uma assistência de 250 espectadores, mas isso não corresponde à verdade pois no dia 12 de Setembro de 1974, o artista, fazendo escala na Horta durante a sua volta ao mundo a bordo do seu veleiro e já doente, ainda cantou para os vinte e oito clientes do Peter's naquela noite! O acontecimento ficou gravado na memória dos presentes e o seu testemunho perdura no tempo...

"Ouvindo Brel no Peter´s" - Jean-Charles Forgeronne

"Azevedo (...) dirigiu-se a um iatista francês versado em algum português, comunicou-lhe que estava ali um artista de dimensão universal e pediu-lhe para perguntar a Brel se podia interpretar uma canção, ali, para todos.
Ao ouvir o pedido, Brel ficou sério, quase melancólico.
Foi para fugir a estas solicitações que havia abandonado os palcos. Para não ter de voltar a trabalhar nas fábricas de cartão do espectáculo.
Todos os iatistas voltaram a olhar para o Grand Jacques e, fazendo o exercício de lhe retirar os adereços, reconheceram-no.
Percebendo a sua hesitação, ergueram as canecas para o incentivar. Brel olhou para eles e sentiu ali um ambiente desinteressado, de uma pureza boémia, uma fraternidade de lobos do mar.
Pediu uma viola."

in "Como um marinheiro partirei", Nuno Costa Santos


"Jacques Brel" - Museu de Scrimshaw, Peter´s - Jean-Charles Forgeronne

"Amsterdam" é a música que todos os dias se ouve quando o Peter's fecha portas por apenas algumas horas, e que melhor homenagem poderia ser feita ao artista-marinheiro? E aí eu arrepio-me um pouco e não é devido à brisa que se levanta do canal, tenho um calafrio porque a primeira vez que ouvi essa extraordinária canção e depois durante muito tempo foi numa versão do saudoso David Bowie, ainda adolescente eu era, e só muitos anos mais tarde descobri o arrepiante original...

                                                                                           Amsterdam - Jacques Brel
João Sem-Dó
(Musicólogo de Valmedo)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025


APANHADO NA REDE - VII 

IS THIS WHAT WE WANT?

Num futuro talvez não muito distante e sem nos apercebermos, quiçá num dia aparentemente pacífico como o de hoje mas que marcará o início de uma nova era, acordaremos sob o efeito da INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, (I.A), adormeceremos sob a hipnose da I.A e entre o acordar e o dormir tentaremos sobreviver de acordo com os algoritmos impostos por cérebros artificiais... 
Mas já hoje, por exemplo, acordei com uma notícia que me fez viajar até a um futuro sombrio e vazio, soube pela Internet que mais de 1000 artistas se revoltaram contra a intenção do governo britânico alterar a legislação sobre os direitos de autor para que as empresas da área da I.A possam ter acesso gratuito às suas obras e usá-las para o desenvolvimento dos seus modelos! Ou seja, isso significaria legalizar o roubo de música para beneficiar as empresas de I.A, as quais, para cúmulo e pecado original de criação, terão no horizonte o objectivo de poder criar música a um nível que ultrapasse a capacidade de criação dos músicos humanos... Como um dia disseram os BAN, "um irreal social"! 



Então acabou de ser lançado mesmo agora "Is this what we want?", um álbum de protesto, feito de silêncio, uma obra vazia mas que podemos preencher com as memórias que nos vierem à cabeça, por exemplo músicas de artistas que estão por detrás deste movimento, a saber de entre muitos outros Kate Bush, Damon Albarn, Annie Lenox, Elton John, Paul McCartney ou Sting, este último mesmo a propósito porque isto cheira mesmo a caso de polícia!

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

domingo, 2 de fevereiro de 2025

 
UM DIA O CÉU DANÇARÁ PARA MIM

Às vezes os planetas não estão alinhados e as coisas não se encaixam na perfeição, mas é a lei do cosmos, numa infinitude de probabilidades já é uma sorte conseguir que algo de jeito aconteça, sem querer exigir este mundo e o outro há que continuar a perseguir os momentos de felicidade, como por exemplo a maravilhosa noite em que fomos presenteados com uma deslumbrante meia hora de auroras, parecia que o céu dançava para nós... 
E agora, na ressaca desta aventura no Ártico e na hora de nos despedirmos de Tromso descubro com um laivo de tristeza que em Março próximo virá aqui actuar o único músico norueguês que conheço, Thomas Dybdahl, a Kulturhuset estará a rebentar pelas costuras, imagino... Que pena ele não ter vindo enquanto aqui estive...


                                                                             One day you'll dance for me, New York City

"One day you'll dance for me, New York City", do álbum homónimo de Dybdahl de 2004, é simples e definitivamente uma das minhas músicas favoritas de sempre, penso que basta ouvir para entender, e agora penitencio-me por não ter pensado nisso, porque não vi as auroras ao som desta música, que melhor banda sonora poderia haver para tão deslumbrante evento? Da próxima, se por milagre voltar a acontecer, assim farei, verei o céu e New York City dançando em simultâneo para mim...


João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

domingo, 12 de janeiro de 2025

 
OURO, INCENSO E BIRRA!

Ontem quem deambulasse por Marvila poderia sentir-se em Jerusalém tanta foi a peregrinação pelas suas ruas e becos, almas e mais almas em busca da salvação, nas mãos seguravam-se copos solidários de mirra milagrosamente transformada em birra e dos seus olhos emanava-se um brilho de esperança num mundo melhor e mais justo... E ninguém trazia presentes, até porque o ouro está caro e o incenso não é coisa que se apresente, o que valeu é que se assistiu a um verdadeiro milagre: então não é que os presentes que era suposto receber nesta celebração de reis-magos, "ouro, incenso e mirra", se transformaram em "música, gastronomia e cerveja artesanal"? E que raio, haverá melhores presentes para oferecer a uma alma quase perdida?


Fábrica da Fermentage
Àquela hora não haveria por Lisboa sítio que melhor cheirasse do que a rua Capitão Leitão, grelhadores ao rubro à porta das cervejeiras e era ver o povo saciando-se de hamburgueres, burritos ou quesadillas, chicken kebabs, tacos de porco, sandes de pernil e o mais que houvesse, que a fome, tal como o sonho e o desejo de paz, não tem país, nem cor, nem raça, nem credo... Por instinto comecei pela Fermentage, uma das quatro cervejeiras artesanais que compõem o Lisbon Beer Department, e aí, entre a lenta degustação de uma "Dos Diabos", uma cerveja preta tipo "imperial porter" com 9,1%, e a actuação dos "Ola Haas", fui  transportado para um estado etéreo ao som de um embalador punk-rock, senti-me leve e a pairar, liberto das preocupações mundanas a tal ponto que até me esqueci completamente do derby para a desprezada Taça da Liga que iria começar daí a pouco...
Ola Haas

É hora de sair e demandar a Dois Corvos mas, ainda com os diabos à volta na cabeça, faço uma pequena paragem forçada e a custo, até porque detesto visceralmente as wc portáteis de plástico, mas estas, colocadas pela organização do evento logo à porta dos locais de culto surpreendem-me pois estão limpas, não fedem a urina e ainda por cima estão bem abastecidas de imaculado rolo higiénico e toalhetes, para além de serem gratuitas, à semelhança aliás de todos os eventos... A azáfama por aqui é maior até porque o espaço aberto ao público também o é, ainda famílias petiscam na esplanada e na zona de restauração quando entro em busca do palco improvisado onde em breve iriam actuar os Sunflowers, banda nortenha que prometia agitar a cena com o seu explosivo punk-rock, e caros amigos, as expectativas não foram defraudadas...
Sunflowers
Volto a pegar no meu copo para abastecer e isso dá-me gozo pois os 3 euros que paguei por ele, quantia que me faria regatear em qualquer compra de supermercado, aqui tem outro valor ao contribuir para a oferta de cabazes alimentares a pessoas em situação de vulnerabilidade económica ou de exclusão social, missão a cargo do Centro Porta Amiga de Chelas... Desta vez atesto com uma Dois Corvos - Birra de Inverno, uma winter ale com 6% de intensidade, para estabilizar... É novamente hora de partir, desta vez em busca da Musa onde os minhotos Glockenwise prometem deitar a casa abaixo com o seu rock contagiante, eles que nos ofereceram um dos melhores álbuns da música portuguesa dos últimos tempos...

Glockenwise
E sem surpresa, quando chego quase em cima da hora à Rua do Vale Formoso espera-me uma fila que aguarda para poder entrar e não tardou muito até ouvir o diligente segurança a avisar as pessoas atrás de mim que o recinto estava cheio e que não poderia deixar entrar ninguém a não ser que alguém saísse, mas pensei eu, quem iria querer sair? A custo lá me cheguei à boca da cena e consegui assistir ao show embora um pouco distante, mas aprendi a lição, para o ano não facilitarei, há que chegar bem cedo para reservar lugar pois o "Ouro, Incenso e Birra" já é um caso sério... 

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

domingo, 3 de novembro de 2024

 

ROMANTIC LISBON CITY


"Estava bonito o Campo Pequeno, pá!" - respondo àqueles que me perguntam como achei o concerto da última sexta-feira dos FONTAINES D.C em Lisboa... Os rapazes que vieram de Dublin e que são das melhores promessas musicais dos últimos tempos vieram apresentar o seu último e recente álbum "Romance" e pelo que se viu arrebataram todos os corações que esgotaram a lotação da engalanada arena... Há quem diga que aquela força inexplicável que faz as coisas acontecer e funcionar, seja nas equipas de futebol (e o vocalista Grian Chatten apresentou-se equipado a preceito como se viesse disputar uma peladinha) ou nas bandas musicais ou noutros inúmeros projectos artísticos já acompanha os Fontaines, diz-se até por aí que eles querem ser os novos U2, ou seja, querem sair do nicho pós-punk e conquistar o mundo, para já Portugal já foi tomado de assalto depois deste concerto, isso eu afianço, mas também depois daquele que deram há meses em Paredes de Coura e que, dizem, impressionou...

"Campo Pequeno" - Jean-Charles Forgeronne

Portugal parece ter o condão de acolher e abençoar certas bandas ainda em crescimento e afirmação e que depois se tornam grandes, lembre-se os outros irlandeses e maior banda das últimas décadas, os U2, em 82 em Vilar de Mouros, parece que o gosto musical dos portugueses, um gosto especial e intenso, ajudam certos projectos a dar o salto e parece ser este o caso, aquele coração pendurado no palco pulsou e fez pulsar o imaginário dos espectadores, a partir de agora os Fontaines, que parecem ter uma mensagem e não apenas mais um grupo de rapazes rebeldes e chateados com o mundo, serão certamente uma banda de culto por terras lusitanas... Aguardemos com expectativa, apesar de tudo não passou de um excelente espectáculo e de uma bela noite em redor do Campo Pequeno, que está mesmo muito bonito...

                                                               In the modern world -FONTAINES D.C


João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

 

IT WAS A REALLY FUCKING SHOW, NICK!


Desta vez não o poderia perder, NICK CAVE e os seus Bad Seeds já tinham passado por Portugal 16 (!) vezes e agora lá fui, antes que ele não volte mais ou que então eu não esteja cá... O músico não tem idade apesar dos seus 67 anos ainda frescos, ou melhor, soube envelhecer jovem, apesar das tragédias pessoais ao longo dos anos, com energia invejável e sobretudo com coerência e lucidez, apesar da sua principal referência ser a autenticidade... Muito se escreveu e se disse sobre ele nas vésperas do concerto, que vinha em busca da redenção, que era um homem em catarse, chamaram-lhe o "príncipe das trevas" derivado ao seu universo negro e depressivo, mas penso eu, não andamos todos à procura de uma luz que não brilha, de um deus melhor, ainda que selvagem e menos injusto? E é por isso que nos identificámos tanto com ele, sentimos a sua dor, a sua revolta e a sua busca de paz... Acho que em vez de ter chamado à sua última obra "Wild God" bem poderia ter escolhido "Crazy God", vale-nos ao menos a música brilhante de Cave para não endoidecermos de vez...  


"Nick Cave & The Bad Seeds" - Meo Arena - Jean-Charles Forgeronne

À saída, ainda atordoado, emocionado até, faltavam-me palavras para definir o espectáculo, "espectacular", "maravilhoso" ou "muito bom" não chegavam até que alguém atrás de mim lançou para o adjectivo perfeito: "monstruoso"! É isso, foi um concerto monstruoso, a condizer com o reino do senhor Cave pejado de monstros, elfos, demónios, deuses e outras criaturas que nos tiram o sono, ou como diria o próprio músico: "It was a really fucking show!" 
Quando cheguei a casa não perdi tempo a reunir os CD´S que agora vou reviver durante algum tempo, em busca de redenção...


João Sem Dó
(Musicólogode Valmedo)
 
GRANADA, AMOR, PEQUEÑAS COSAS Y OUTRAS MIERDAS


Não é coisa pequena, não senhor, os ESKORZO já levam 39 (!) anos de carreira na bagagem! Sim, na bagagem pois já deram volta e meia ao mundo e contam para cima de 1000 concertos, um dos últimos aqui em Portugal, no passado Festival do Maio, tendo aí actuado depois de outra lenda: Manu Chao... 
A banda granadina, talvez fruto do ambiente multicultural que sempre caracterizou Granada, lançou em 1995 o movimento "Mestizo", uma fusão de música latina, rock, ska, funk, jazz e ritmos africanos...

"Eskorzo no Festival do Maio" - Jean-Charles Forgeronne

O eskorzo, em português escorço, e na óptica da banda granadina, atrevo-me a dizer, é o efeito de perspectiva em que os objectos ou as merdas desta vida que vemos à nossa frente ou à distância se apresentam mais pequenas que o natural, reduzindo o seu impacto e dando lugar a coisas mais positivas, por exemplo a alegria espontânea...
Ao Seixal vieram os Eskorzo apresentar o seu último trabalho, "Historias de Amor y otras Mierdas" e claro, conquistaram de chofre a audiência com a sua energia, o seu ritmo e as suas provocações... E apesar de ela estar lá bem longe e não podermos lá estar sempre que o desejamos, quando a banda anda por aí a tocar trazem os encantos de Granada até nós...

                                                                                             Eskorzo - Paraísos Artificiales
João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

 

EFEMÉRIDE # 104

IMORTAL, COMO OS DINOSSAUROS...


O mundo da música acordou em choque no dia 16 de Setembro de 1977, nessa madrugada morria num acidente de automóvel MARC BOLAN, uma verdadeira estrela pop e então ainda em frenética ascensão, por muitos considerado o verdadeiro pioneiro do glam rock...  E glamour não lhe faltava quando aparecia em palco com os seus T-REX, com as suas fantasias, adereços femininos e roupas extravagantes, andrógino quando bastasse e sedutor genial, brilhante enquanto músico e visionário, provocador sem limites...



O Mini 1275 GT conduzido por Gloria Jones, a companheira de Bolan na altura, despistou-se e embateu numa árvore provocando a morte imediata de Marc, ele que, apesar de ser proprietário de um Rolls-Royce branco que jamais conduzira e que curiosamente nessa fatídica noite emprestara à banda Hawkwind, nunca quisera aprender a conduzir porque receava morrer prematuramente ao volante, dizia ele que seria muito estúpido morrer antes dos 30 num acidente...  




Pois bem, ironia do destino, Bolan morreu a duas semanas apenas de completar os 30 anos de idade e também curiosamente poucas semanas depois de ter aparecido pela última vez em palco e na televisão,  ao lado do seu amigo e também glamoroso companheiro de andanças, David Bowie... É caso para pensar: que música maravilhosa ainda teria parar nos dar e que perdemos com o seu prematuro adeus?


                                                                                                                  T-Rex 20th Century boy

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

 

UMA VAREJEIRA NO MOSQUITÓDROMO


Este ano os reis da Festa foram os mosquitos, pequeníssimos e de um verde quase transparente, apenas detectáveis em contra-luz e já depois de se terem banqueteado, eram aos milhares, sem exagero talvez aos milhões tantas foram as pobres vítimas, que o diga o Perdigão, doce e corajosa criatura que ao ter o nobre gesto de dar o peito aos sanguinários insectos para nos proteger, a mim e ao Andarilho, lhe valeu uma visita ao Posto de Saúde, regressando ao Oeste com mais uns quilos de inchaço em cima... 
Para o ano, ia eu dizendo enquanto ele de ar infeliz se coçava desalmadamente durante a viagem de regresso, viremos munidos de toneladas de repelentes e redes mosquiteiras... 



Mas outro insecto pairou pelas margens da lindíssima baía do Seixal, a varejeira dos Cara de Espelho, uma superbanda que este ano nos trouxe uma supermúsica de intervenção e de denúncia, uma lufada de ar fresco no panorama musical lusitano... Olha-se para o palco e chama a atenção um nicho de artefactos, são instrumentos únicos, construídos por Carlos Guerreiro, também membro dos Gaiteiros de Lisboa, depois vê-se ao fundo por detrás da bateria o Sérgio Nascimento, cara de muitos projectos como os Peste&Sida ou os Assessores de Sérgio Godinho, à direita vislumbra-se Pedro da Silva Martins, autor de todas as letras e músicas deste projecto e que é sobejamente conhecido pela sua participação nos Deolinda, para além de ser autor de inúmeras músicas de outros artistas, depois, de baixo em punho vê-se Nuno Prata (Ornatos Violeta) e de guitarra em riste lá está também Luís Martins (Deolinda)...



E claro, como não reparar na leveza da figura e na voz inebriante da Maria Antónia, assim se apresentou ela à plateia mas de nome artístico Mitó Mendes, conhecida de "A Naifa" ao lado de Luís Varatojo e João Aguardela, ela que nos avisou para o perigo da varejeira:


As varejeiras anseiam pobreza
Fomentam o asco, a náusea e o nojo
Só a miséria lhes traz opulência
Por isso é que esfregam as patas com gozo.
Se alguém as enxota, decidem zunir
Dos homens que riem da má sorte delas,
E no fim são elas que dizem a rir
"Todos sabereis à mesmíssima MERDA!"
A varejeira ligeira a voar
em qual de vós é que ela vai poisar?

                                                                                             As varejeiras - Cara de Espelho


E para o ano, claro, haverá mais convívio com livres criaturas e, oxalá, livres de mosquitos... 


João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

sábado, 3 de agosto de 2024


 ANOTHER VERSION OF NOISERV


Debaixo de um céu estrelado e por entre silhuetas vislumbra-se o homem dentro do seu cubo luminoso, dá a impressão de ser um alien acabadinho de aterrar na Areia Branca e que tenta comunicar através de sons com os terráqueos que enchem o recinto junto ao palco dos Sons na Areia...  A estranha criatura, vinda de uma galáxia distante situada a cerca de 100 milhas da imprudência, dá pelo nome de David Santos e embora na sua versão artística seja conhecido como NOISERV há quem o chame de "homem-orquestra" ou "banda de um homem-só"; em qualquer dos casos, e quando se afasta de Charlie Brown, NOISERV é simplesmente um dos projectos artísticos mais criativos e interessantes da música moderna portuguesa, e não é de agora, esta viagem sideral iniciou-se lá para 2005, a muitos anos-luz portanto...  
E é então que, já o show ia a meio, lembra-se o Maurício de perguntar: "Porquê NOISERV?... Silêncio, testas franzidas, e nem eu nem o Andarilho tínhamos resposta, e como se acabasse de ser engolido por um buraco-negro prometi ali na hora a mim mesmo que não descansaria enquanto não deslindasse o enigma...  Já de madrugada adiantada, por entre análises em execução e outras em processo de validação, lá encontro a muito custo e depois de muita pesquisa a resposta numa entrevista do David já com muitos anos e em que ele esclarece: "o nome NOISERV teve origem numa brincadeira de troca de letras, não é mais do que VERSION ao contrário mas trocando o "E" e o "R", apenas isso...."
E a coisa faz agora todo o sentido porque o "homem-orquestra" já leva mais de 500 concertos dados, não só em Portugal mas pelo mundo fora e não se cansando disso, afirmando mesmo que não se importava de voltar a tocar em todos os locais onde já actuou e também por todo o lado onde nunca esteve, afinal cada vez que actua é um outro NOISERV que ali está, uma versão sempre diferente de si, afinal o cosmos está em perpétuo movimento...

"NOISERV" - Sons na Areia, 2024 - Jean-Charles Forgeronne


João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)