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domingo, 23 de agosto de 2026

 
A SURPRESA DESTE VERÃO

"Ao sol do Oeste" - Jean-Charles Forgeronne
Nas últimas semanas, ao passar pelo Parque da Cegonha a meio do percurso dos meus crosses matinais e à beira do Rio Grande que mais parece um pântano pois nele não corre água e a vegetação impera, tenho-me deliciado com um curioso bando de aves negras que nunca tinha visto por estas paragens, são para aí uma dezena que ora deambulam bicando pelo leito do rio ora descansam ao sol em plena margem mas que assim eu quedo a marcha para tirar a foto de família logo debandam pelos ares num voo de elegantes silhuetas e que após umas voltas e reviravoltas se vão alcandorar nos pináculos dos plátanos que orlam a avenida entupida de veraneantes alheios a estes maravilhoso movimentos da natureza... 

"Íbis Negra" - Foto: Lourambi 

Ao primeiro e impactante encontro com estas aves de majestoso bico longo e curvo pensei tratarem-se de garças mas depois uma publicação da associação ambiental Lourambi esclareceu-me: trata-se da Íbis Preta, de nome científico Plegadis falcinellus, uma ave de médio porte com uma altura de meio metro e uma envergadura de asas à volta de um metro e cujos habitats são locais húmidos como margens de rios, paius, lagoas e outros, desde que a água seja pouco profunda e haja vegetação aquática...  

"O voo das dez íbis" - Jean-Charles Forgeronne

Curioso é o facto de apesar de se chamar Íbis Preta (ou Negra) esta ave, vista ao perto e sob a incidência dos raios solares, reflectir lindíssimos tons de verde, azul e violeta; quanto à sua alimentação ela consta de peixes, rãs e outros animais aquáticos e também, por vezes, de insectos... É uma espécie migratória, rara em Portugal mas que nos últimos anos tem sido avistada com mais frequência e se esta colónia que foi avistada pela primeira vez pelas bandas da Lourinhã veio para ficar ou não há que esperar, quem sabe se constroem ninhos naqueles plátanos onde hoje pernoitam e desatam a pôr ovos, seria bom sinal, por aqui ficariam, nesta terra amena e tranquila... 

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

 
OBRAS DE ARTE NATURAL - II

A ARTE DO ESQUILO ARISTÓTELES

Ali, no antigamente designado Pinhal da Câmara e que hoje na sua parte sul alberga o Dino  Parque da Lourinhã, vive há meia dúzia de anos por entre dinossauros e criaturas ancestrais um esquilo já velhote chamado Aristóteles mais a sua segunda companheira de vida, a esquila  Herpília... O esquilo Aristóteles, permitam-me apresentá-lo, é um artista que dá asas à sua criatividade sempre que encontra o seu alimento preferido, qualquer pinha que encontre e onde finque os dentes se transforma numa obra de arte através de uma complexa urdidura de figurada filigrana...


"Obra em evolução" - Jean-Charles Forgeronne

É sabido que o esquilo vermelho que habita os nossos bosques é omnívoro, alimenta-se do que a natureza lhe proporciona conforme as estações mas nutre uma especial preferência por pinhas e pinhões de pinheiro bravo, depois também gosta de avelãs, bolotas e outras sementes, não recusando em época de pouca abundância uns cogumelos, mesmo os venenosos para outras espécies, bagas, flores, rebentos  e até insectos se outra coisa não houver... Mas a pinha é o que o faz feliz, e tanto assim é que a trata com carinho e apurada arte, como é o caso do nosso tímido amigo Aristóteles que dando azo à criatividade usa os seus dentes como incansáveis cinzéis e a obra, quando finalizada, é verdadeiramente digna de um exímio escultor... 

"Obra acabada" - Jean-Charles Forgeronne

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

quinta-feira, 19 de março de 2026

 
A ÁRVORE MEDIÚNICA


Porque foi o cedro de Runa eleito a "Árvore do Ano" de 2026?  Não foi pela sua idade já que é uma árvore com apenas 75 anos, não foi pela sua altura, apenas 10 metros, pela beleza também não terá sido porque apesar de ser bela muitas outras árvores também o são, talvez tenha sido mais pela sua história e pela sua importância na vida da comunidade, afinal parece ser esse também o espírito do concurso, não valorizar apenas tamanhos e imponências que não passam de números... Agora que estou diante dela tenho para mim que esta árvore é sagrada para os runenses assim como os carvalhos eram para os celtas e debaixo dos quais os druidas comunicavam com o além e com os mistérios, também aqui, à sombra do enorme caramanchão que as suas ramadas formam, muita reflexão e introspecção, muita oração às forças da natureza, muita conversa e desabafo, juras de amor e rezas de ódio, muitos encontros e desencontros, alegrias e desesperos, tudo o o que a humanidade carrega aqui foi conversado com esta árvore, sim, as árvores escutam, as árvores, por vezes, também falam e aconselham, para além de guardarem segredo...   

"O cedro de Runa" - Jean-Charles Forgeronne

Afinal estamos em Runa, e runas, afinal, não são apenas caracteres alfabéticos mas são também sinais mágicos que vêm desde os tempos dos vikings e que significam "segredos" e mistérios", uma ligação entre este mundo-cão e o além, entre o passado e o futuro...  E só de pensar que esta magnífica árvore chegou a não ter futuro porque rebentou enfezada e fraca e que só graças ao amor e à dedicação de um tal Sr. Alfredo, que não só a plantou como dela cuidou sempre, apetece-me dizer que à beira de um grande homem faz falta sempre uma grande árvore, e vice-versa também...

"Oráculo de Runa" - Jean-Charles Forgeronne

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

terça-feira, 12 de agosto de 2025


 ANTIDEPRESSIVO NATURAL...

Andamos tão ocupados nesta existência caótica e depressiva que não temos nem tempo nem cabeça para repararmos nas coisas mais simples desta vida, muitas vezes também elas as mais belas, e no entanto a natureza tem a todo o momento surpresas para nos deslumbrar, basta dar o primeiro pequeno passo e esperar que aconteça, a recompensa espera por nós...

"Ballerina Alien"- Jean-Charles Forgeronne

Noite de insónia, manhã gloriosa? Embora raro por vezes acontece, chego à praia de Vale de Frades, deserta, ainda meio mundo-cão dorme, entretanto da outra metade muitos já se encontram submersos pelo trânsito caótico a caminho do rotineiro trabalho e a maior parte já mergulhou a fundo nos braços lascivos e alienantes das redes sociais... E eu por aqui, em plena maré vazia, só eu, areal e o oceano! Bem, parece que afinal não estou sozinho, de tanto recuar o mar deixou curiosos despojos... 

"O couraçado" - Jean-Charles Forgeronne

De tanto empinar o nariz para absorver os cheiros a mar quase que tropeçava numa estranha criatura que parecia dançar para mim, uma bailarina alienígena sem dúvida, talvez vinda de Sirius, a estrela mais brilhante da noite e para onde se alinham as pirâmides egípcias... Dou um passo para o lado para me desviar da criatura dançante e quase piso outro ser de outro mundo, um bicho couraçado que tenta fugir às arrecuas e que não tem ar de querer fazer amizade... 

"Ioga estelar" - Jean-Charles Forgeronne

Parece que passei um portal e que entrei noutra dimensão e ao deparar com uma família de peludas estrelas fazendo ioga à beira da água sinto-me num mundo paralelo tão diferente daquele de onde vim há pouco e onde não entram stresses mentais, nem rotinas doentias e castradoras, nem guerras, nem políticos aberrantes, nem desportos fúteis e alienantes, nem pessoas mesquinhas, nem doenças terríveis, nem ameaças de desgraças, nem religiões absurdas...

"O Vigilante" - Jean-Charles Forgeronne

E então tenho a certeza que estou a ser observado, instintivamente olho em volta à procura da nave que deve estar por ali algures e de onde deve ter saído toda esta estranha vida, é que diante de mim tenho agora uma estranha bola de espinhos e onde descortino um olho que me olha com ar ameaçador, que sabe se a enviar dados sobre mim para o planeta de onde veio... 

"O planeta verde" - Jean-Charles Forgeronne

Só não consegui vislumbrar quem me atingiu com o raio verde, o tal da lenda de Verne, talvez dissimulado atrás de uma rocha, o certo é que fui assaltado por uma espécie de tontura, uma sensação de êxtase e quando recuperei e abri os olhos vi que estava noutro local da galáxia, estava num planeta verde... 
E pronto, sempre chega a hora de regressar ao mundo antigo mas agora, depois deste antidepressivo que me purificou a alma, já vou contando as luas para a próxima evasão...   

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

sábado, 28 de junho de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LVIX


ÁRVORES LAXANTES E PLANTAS CAGADAS

Manhã cedo íamos subindo a rua e já espreitavam ao fundo os três inseparáveis amigos do jardim de Velas: a palmeira, o candeeiro e a árvore... Mas era a árvore que nos chamava a atenção cada vez que ali passávamos, era ela a rainha do jardim pois apesar de aí existir outro exemplar da mesma espécie ele é bem mais pequeno, talvez seja ainda adolescente e um dia tome a imponência que esta árvore ostenta, um cilindro perfeito de ramagens e folhas verde-escuro, uma obra de arte de poda e embelezamento...
 - Lá está a nossa árvore-mistério, é uma pena que não tenha uma placa a identificá-la... - deixei o que ia dizendo a meio enquanto me ia interrogando mais uma vez qual seria o seu nome, é que alguém andava de volta dela, um jardineiro camarário a julgar pela farda...
 - Não vais... - ia dizendo a N. adivinhando a minha intenção mas eu já tinha acelerado o passo jardim adentro em direcção ao homem...

"A árvore-mistério", Velas - Jean-Charles Forgeronne

 - Bom dia, amigo, desculpe incomodar... - e ele levanta a cabeça demoradamente olhando para mim como se estivesse a ver uma ave rara - mas diga-me uma coisa, se souber, como se chama esta árvore aqui que me encanta?
 - METEROSIL... - disse ele tão rápido quanto lento foi o meu entendimento, mas fosse pelo enrolar da língua fosse pelo sotaque ou pela pouca sensibilidade do meu ouvido naquela manhã a coisa soou-me tão estranha que tive de insistir:
 - Desculpe, METERO... QUÊ?
 - METEROSIL! - novamente de chofre voltei a entender...
 - Ah! Obrigado...
E dali saí pouco convencido a soletrar M.E.T.E.R.O.S.I.L para não me esquecer de anotar no caderno de viagem para posterior investigação....   

"Jardim de Velas" - Jean-Charles Forgeronne

E já sentados na "Suspiro" diante de um sumo de laranja e de uma sandes de queijo da ilha a fazer pesquisa internética pergunta a N.:
 - Então, que árvore é aquela?
 - Pois, continua o mistério, não percebi lá muito bem o que jardineiro disse, ou ele estava a gozar comigo ou então inventou porque aquilo que percebi da boca dele -METEROSIL- não encontro em lado nenhum, nem em sites de botânica, a coisa mais aproximada que me aparece é um medicamento laxante para emagrecer... 
 - Bom, quem sabe, talvez um chá feito com as folhas desta árvore te faça perder essa barriga... 
Ali não achei piada nenhuma mas passados alguns dias, já a nossa migração ia no Faial e com o assunto quase esquecido, a história da árvore misteriosa voltou à baila e então sim tornou-se engraçada...  

"Dragoeiros", Faial - Jean-Charles Forgeronne

Era domingo à tarde, tínhamos descido dos Flamengos e ainda havia tempo disponível antes de rumar  à festa do Peter´s e assim, em boa hora, aproveitamos para explorar o Jardim Botânico do Faial... E de entre as muitas curiosidades que conheci uma me deliciou particularmente: o facto de que cerca de 58% das espécies vegetais dos Açores terem chegado às ilhas através das aves migratórias, grande parte delas vindas de África e que transportam as sementes nas suas fezes... Portanto, é só imaginar, a ave vôa milhares de quilómetros com as sementes no seu intestino e depois, ao pousar nas paradisíacas ilhas da Atlântida alivia-se e assim enriquece a natureza, dando-lhe, por exemplo, vários exemplares de dragoeiro... Ou seja, uma planta cagada...  

"Jardim Botânico", Faial - Jean-Charles Forgeronne

E depois, no final da visita e passando outra vez pela recepção pergunta-nos o simpático anfitrião por detrás do computador:
 - Então, gostaram?
E nós dissemos que sim, claro, e eu dizendo que tinha achado piada a muitas curiosidades e ele, com ar de entendido na matéria (talvez fosse biólogo), ia juntando ainda alguns pormenores interessantes e foi então que me deu a veneta, lembrei-me da árvore misteriosa do jardim de Velas e mostrei-lhe a melhor foto que tinha da árvore:
 - Sabe dizer-me que árvore é esta? - perguntei esperançado...
Ele pegou no telemóvel, olhou e voltou a olhar, e balbuciando qualquer coisa voltou-se e perguntou a um colega que ia a passar, os dois entreolharam-se, talvez fosse isto, talvez fosse aqueloutro, e só quando eu contei a história do jardineiro e do METEROSIL é que eles acordaram...
-Ah! METROSÍDERO! É isso! - disseram ao mesmo tempo e já um deles fazia uma pesquisa e voltava o ecrã do computador para nós com uma foto lindíssima de uma irmã gémea da nossa árvore-mistério...


"Trovisco-explosivo", - Jean-Charles Forgeronne

 - METROSÍDERO! - exclamei! - Que raio de nome para uma árvore!
Afinal, o jardineiro tinha feito o melhor que pudera, entre o METROSÍDERO que ele tentou dizer e o METEROSIL que eu percebera ia pouca diferença, os dois nomes são horríveis e de facto só apetece laxar no assunto e nestes nomes esquisitóides... Mas pronto, honra seja feita ao METROSÍDERO, parece que é a árvore nacional da Nova Zelândia, a árvore que para eles simboliza o Natal...
Ouvem-se então umas explosões e então fico na dúvida: serão já os foguetes a chamar para a festa do Peter´s ou serão apenas sementes do trovisco-macho a explodir? Sim, o trovisco-macho (Euphorbia) tem nos Açores uma subespécie muito curiosa: no final da frutificação, caso as condições ambientais sejam favoráveis, as suas cápsulas explodem para dispersarem as sementes o mais longe possível da planta-mãe...
É caso para dizer que nessas alturas é melhor não estar muito por perto e pelo sim pelo não fomos andando para o Peter´s....

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)   

terça-feira, 27 de agosto de 2024

 

"Grilo nocturno" - Cesaredas

Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

 

À NOITE NO MUNDO-CÃO...


"Caminhando"
Desengane-se, amigo leitor, se é daqueles que pensa que este planeta dorme durante a noite e que nesse período nada ou pouco acontece, fique então sabendo que enquanto a quase totalidade da humanidade hiberna por umas horas, desligando-se completamente da realidade, o mundo-cão continua fervilhando de actividade e que melhor exemplo para o convencer disso do que apresentar-lhe as fascinantes borboletas-nocturnas?...
Faltam alguns minutos para as dez da noite quando eu e o Andarilho entramos na sede da Associação dos Amigos do Planalto das Cesaredas para confirmar a nossa presença no Passeio Nocturno que nos levará, munidos de lanterna e curiosidade quanto baste, por trilhos ancestrais até à prometida visita à estação das borboletas-nocturnas das Cesaredas, instalada na Quinta do Castelo e implementada e dinamizada pelo meu colega naturalista Hélder Cardoso após o seu projecto ter sido vencedor do Orçamento Participativo há uns quatro anos atrás e que hoje, sem surpresa, é o coordenador a nível  nacional da Rede de Estações das Borboletas Nocturnas...  



"Por entre os bambus"



"A estação das Cesaredas"
Por estes trilhos que agora percorremos sob um luar magnânimo também andaram dinossauros há milhões de anos, mas não só, também as borboletas já esvoaçavam por aqui nessa altura, claro, afinal elas são suas contemporâneas, os mais antigos fósseis de borboletas conhecidos datam de há 120 milhões de anos atrás! 
E sabia, amigo leitor, que até 2020 já foram identificadas em Portugal 2712 espécies de borboletas e que dessas apenas 5% são diurnas, ou seja, e repare bem, 95% são borboletas nocturnas? Ou que a natureza é rejuvenescida durante a noite pelas borboletas nocturnas enquanto polinizadoras? Ou então que aquela ideia enraizada na cultura popular de que as borboletas nocturnas não são mais do que traças, bichos feios, castanhos ou cinzentos e que dão cabo da roupa, está errada? Fique sabendo então que na grande variedade de borboletas nocturnas pode encontrar espécies bastante coloridas e até nalguns casos exuberantes...
E uma curiosidade final: a maior borboleta que pode encontrar por todo o Portugal é nocturna, dá pelo nome de Saturnia pyri (conhecida como grande-pavão-nocturno) e apresenta uma envergadura entre 120 e 166 milímetros... 
Do que está à espera então para sair à noite e investigar o que se passa por este mundo-cão?



"Grande pavão nocturno"

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

sexta-feira, 24 de maio de 2024

 

A PLANTA SOLITÁRIA DO MONTE


Talvez por ser um arbusto pequeno que raramente ultrapassa os dois metros de altura ou talvez porque seja uma planta muito pouco sociável que gosta de viver em sítios secos e em condições adversas, a ESTEVA, cientificamente conhecida por Cistus ladanifer, é uma planta com muito segredo para desvendar... Facilmente identificada de norte a sul de Portugal pelas suas pequenas flores de cinco pétalas brancas que brotam de Maio a Junho por esses campos e montes afora, por vezes com uma marca vermelho-acastanhada na base de cada pétala e então aí o povo chama-lhe cinco-chagas-de-cristo, a esteva tem a particularidade de segregar nos seus ramos e folhas uma substância aromática, oleosa e peganhenta, o ládano... Ora bem, este óleo, que antigamente era extraído ao pentear o pêlo das cabras que tinham acabado de passar por um esteval, tanto é usado em perfumaria como tratamento para muitas maleitas!




Diz-se que o ládano tem propriedades terapêuticas extraordinárias, para além de ser um excelente anti-catarro e expectorante tem propriedades antibacterianas e antivirais, combate a diarreia, descongestiona e, pasme-se, até equilibra o humor! Mas cuidado com a dose de ládano, não vá com muita sede ao pote porque, se por um lado auxilia a circulação venosa e facilita a menstruação por outro pode activar a coagulação e o aborto, pergunte primeiro, de preferência a uma pessoa do campo... 
Por outro lado, a esteva é um marcador biológico extraordinário ao adaptar-se de um modo fantástico a solos pobres e condições adversas e a sua resiliência é deveras importante no combate à erosão dos solos, particularmente naqueles vítimas de incêndios, a esteva é a primeira planta a reaparecer em solos calcinados e até naqueles contaminados por metais pesados, subsistindo aí solitariamente às vezes por anos a fio, reciclando-os e abrindo caminho a uma reflorestação...





Que mais dizer da esteva? Que lhe chamam também desde tempos longínquos xara, derivado do árabe sharish, e que a bela vila de Monsaraz não será mais do que o Mont-Sharish ou Mont-Xaraz, o monte das estevas? Que as suas pétalas são comestíveis? É certo, provei e não desgostei, portanto podem ser usadas na cozinha gourmet... Que dantes, nas fornadas, devido a ser um bom combustível e ao seu delicioso aroma ia ao forno juntamente com a lenha, o pão e os alimentos? Ou que os alentejanos e algarvios de antanho lavavam os pés com óleo de esteva para combater o chulé? 
O resto? Descubra depois de um cházinho de esteva, ela está por aí... 


João Atemboró

(Naturalista de Valmedo)

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

 

DESCOBERTAS POR ALCOBERTAS


Deixadas as salinas ainda engalanadas com luzes natalícias e presépios de sal para trás e Rio Maior a uma dezena de quilómetros, quando chegamos a Alcobertas não vale a pena tentar encontrar a "pequena torre" perdida no tempo e que lhe deu o nome a partir do árabe "al cobe", a única torre que se acha é a sineira da Igreja Paroquial com a sua famosa anta-capela à ilharga... Mas tanta coisa se pode descobrir por esta terra de tempos imemoriais e marcada de forma indelével pela presença dos mouros que até os que por ali se possam encontrar perdidos ou distraídos não têm desculpa tantas são as placas a indicar os locais de interesse histórico e cultural...
A primeira e agradável surpresa começa logo quando, no largo onde se encontram a Igreja com a anta ao lado e o Pavilhão Susana Feitor, apertadinho me dirijo ao WC público e, espantoso, não só a porta está aberta como ainda por cima as instalações estão imaculadamente limpas, quase me atrevo a dizer perfumadas com essências da Arábia... Parabéns à Junta de Freguesia pelo cuidado e por assim tão bem receber quem os visita e o mesmo constatei nos outros lavabos públicos do jardim! Tomara muita cidade, muito café e muito restaurante!    


"Olho de Água"

E se Alcobertas já foi terra de pedra e de mouros hoje é terra de água, da gralha de bico vermelho e de muita história, comecemos pelo Olho de Água, uma das cinco principais nascentes perenes do Maciço Calcário Estremenho, a par da do Alviela, do Almonda, do Liz e da Chiqueda, aí nasce a Ribeira de Alcobertas que irá desaguar no Rio Maior...  Mesmo ao lado podemos aventurar-nos pelas grutas que atestam que aquelas serras são mais esburacadas que queijo suiço e depois, seguindo o curso da ribeira, descansar um pouco no pequeno mas muito agradável jardim Porto do Rio, ouvindo o barulho dos saltos da água e com a omnipresente montanha ao fundo...


"Porto do Rio"

A próxima descoberta a fazer é a dos Potes Mouros, designados durante a Idade Média como "Covas do Pão" e que são um conjunto de buracos e túneis escavados na argila que os mouros usavam para armazenar cereais e se dos cerca de cem silos descobertos nos anos 60 do século passado a maior parte foram destruídos pelas escavações feitas por uma pedreira da zona, resta uma boa notícia: existem ainda 35, preservados e protegidos, prontos para uma visita... Ainda assim, o achado arqueológico continua a ser o maior conjunto de silos conhecido na Península Ibérica...


"Potes Mouros"

E no regresso ainda somos impelidos a fazer um pequeno desvio e descobrir uma chaminé vulcânica no dorso da Serra dos Candeeiros onde se contemplam as formações prismáticas basálticas, isto é, um conjunto de colunas de basalto verticais com 15 a 20 metros de altura resultantes do arrefecimento e solidificação da lava expelida pelo vulcão...

"Sinais do vulcão"


João Parte Pedra

(Geólogo de Valmedo)

terça-feira, 12 de setembro de 2023

 

A BELEZA QUE TUDO INVADE...


A sensação é que somos conduzidos através de um enorme jardim, por vezes parece estarmos mergulhados nos caminhos de um enorme labirinto de tão altas serem as bermas ornamentadas das estradas da ilha por hortênsias e conteiras, e curva após curva a beleza extasia... Mas esta beleza que entretanto se apropriou de quase toda a ilha de São Miguel e que deslumbra os visitantes tem um custo, ao não parar de se expandir descontroladamente asfixia a velha flora autóctone que vai lutando pela sobrevivência, como são exemplos de entre muitos outros a ginja-do-mato, o trovisco, o azevinho ou o pau-branco... 




A hortênsia (Hydrangea macrophilla), originariamente da China e Japão, foi trazida para os Açores para ser plantada em sebes ao longo das estradas e assim ornamentar o que já de si era bonito, o problema é que gostou tanto do clima que desatou a invadir as florestas nativas, chegando a interferir até com os cursos das ribeiras... O problema tem sido atacado ao longo dos últimos anos pelo governo açoriano que já investiu milhões de euros em contratos com empresas privadas para o corte de toneladas de hortênsias em alguns locais mais sensíveis mas a situação parece muito longe de estar resolvida.... 




Por todo o lado se encontra também a conteira (Hedychium gardnerianum), planta trazida dos Himalaias e que gostou tanto de São Miguel que há-perdurar até ao fim dos tempos... Mas as ameaças não se restringem à hortênsia e à conteira já que a velha mania de trazer plantas dos quatro cantos do mundo para os Açores resultou no seguinte diagnóstico: estão referenciadas no arquipélago pelo menos 27 espécies exóticas invasoras!




João Atemboró

(Naturalista de Valmedo)

sexta-feira, 24 de março de 2023

 

QUANTOS BICHOS VALE UM QUIVI?


Há quem diga que a Nova Zelândia é o país mais bonito do mundo e mesmo que não se concorde há que admitir que aquele arquipélago situado nos nossos antípodas cheira a paraíso, pelo menos foi-o até há 800 anos atrás quando os primeiros humanos aí desembarcaram... Então poucos mamíferos viviam naquelas milhentas ilhas onde reinavam aves que não voam, entre as quais uma espécie de papagaio e aquela que hoje é o símbolo do país, o quivi, também conhecido como quiuí ou kiwi e que é um bicho de aspecto muito peculiar: não passa de uma bola de pelo sem asas e com um bico fino muito comprido que quase bate no chão...


Notícia de rodapé - 2019

A civilização foi tomando conta do arquipélago e por volta de 1880 foram introduzidos nele furões e doninhas para combater a praga de coelhos que entretanto se tinha desenvolvido... O tempo foi passando e hoje esses e outros predadores invasivos que entretanto se lhes juntaram não só matam anualmente 25 milhões de aves como atacam também outras espécies autóctones como os lagartos, para além de ao darem cabo das colheitas de cereais causam à economia neo-zelandesa um prejuízo anual estimado em 3.3 biliões de dólares!



Vai daí, em Março de 2019 a Nova-Zelândia iniciou uma radical campanha de limpeza: até 2050 serão exterminados todos os bichos predadores que colocam em risco as espécies autóctones como o kiwi! Ora, passados 3 anos já se deve notar alguma diferença mas disso não há notícia, por enquanto... De alívio respiram entretanto os cidadãos neo-zelandeses que possuem gatos na família, eles que per capita são a nível mundial os que possuem mais gatos domésticos que, apesar de terem logicamente ficado de fora da lista de procurados, por sinal não deixam de contribuir para o problema pois também atacam as aves indígenas... E se já há quem tenha reparado nisso, serão eles o próximo alvo daqui a uns anos? 


João Atemboró

(Naturalista de Valmedo)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

"Passadiços do Mondego"

Jean-Charles Forgeronne 

(Fotógrafo de Valmedo)

 

PODE SER PASSADIÇO MAS É INESQUECÍVEL...


Passadiço é algo que passa rapidamente, algo passageiro, transitório, tinha-o lido há pouco tempo no insuspeito Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa e que ainda lhe juntava outro significado: passagem ou qualquer corredor de comunicação... E ali estava ele, de câmara em baixo, olhando com mais atenção e tentando ouvir o mais sumido som que lhe comprovasse o instinto: alguém o observava, tinha a sensação forte e desconfortável de que não estava só! E no entanto, se alguém chegasse ali naquele instante poderia com legitimidade desconfiar da sua condição mental porque ele, de facto, estava natural e fisicamente só! Estaria a ser vitima de algum desfasamento emocional ou neuronal? Seria que alguma reacção química cerebral aleatória estaria a interferir com os seus sentidos? 
 
"Passadiços do Mondego" - Jean-Charles Forgeronne

Jean-Charles Forgeronne sentou-se antes que uma vertigem o fizesse cair daquele penhasco sobranceiro à Cascata Rosa, uma magnífica queda de água com cerca de 50 metros de altura que tornava aquele local mágico e cujo barulho da água a castigar as rochas ainda lhe era um pouco perceptível ali em cima... Lá em baixo, numa extasiante paleta de cores outonais, vislumbrava-se o vale ainda adormecido sob esparsos farrapos de nevoeiro, o Mondego por lá serpentearia na sua custosa e paciente viagem indiferente aos magotes de curiosos que tomavam de assalto os Passadiços, a novel atracção da montanhosa Beira Alta... Entretanto outro bando de barulhentos espanhóis (haverá povo que falará mais alto e sem pudor?) invadiu sem pedir licença o seu espaço de contemplação e de lá se veio não sem antes disparar mais algumas fotos mas ainda carregando aquela estranha sensação de que algo o transcendia, quem sabe se a mesma que Jesus Cristo terá sentido no Monte da Tentação?  Andaria o Diabo por ali?


Dois dias mais tarde, regressado a casa e quase esquecido da transcendental experiência em plenos Passadiços do Mondego, Forgeronne sentiu um calafrio invadir-lhe o âmago ao ver com mais pormenor as fotos que tinha tirado, pormenores que então não tinha reparado ali surgiam na tela do computador em toda a sua nitidez... Fincou as mãos nos braços da cadeira para não cair, ali estava ela, a criatura seja lá o que for, bem visíveis os olhos, o nariz, a boca, até a orelha e os braços! Afinal tinha razão! Alguém o tinha observado, talvez um guardião da natureza, petrificado mas poderoso, ainda bem que assim era, um segredo a ser descoberto por quem se aventure por aquelas "Terras do Demo" magistralmente descritas pelo grande Aquilino Ribeiro há cem anos... Uma coisa era certa para Forgeronne, aquele mistério não era passadiço, iria acompanhá-lo até ao último dia...

"Cascata da Ribeira do Caldeirão" - Jean-Charles Forgeronne

João Iniciado
(Ocultista de Valmedo)

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

 

A UM PEQUENO PASSO DA EXTINÇÃO...

Um viveu há muitos milhares de anos na era do gelo, o outro, o seu descendente e o maior animal terrestre da actualidade, sobrevive a muito custo e em perigo de extinção na savana africana... Falamos claro do MAMUTE, Mammuthus primogeniuse e do ELEFANTE-AFRICANO, Loxodonta africana, separados por um pequeno passo evolutivo deste mundo-cão que leva lá 4,5 mil milhões de anos de existência...

"Extinto!" - Jean-Charles Forgeronne
Também estes dois exemplares estão a um pequeno passo um do outro, apenas 115 anos e 1240 quilómetros os separam, no Parc de la Ciutadella encontra-se o mamute reproduzido à escala natural em 1907 por membros da Junta de Ciências Naturais de Barcelona e escondido numa parede subterrânea de um viaduto pedonal no bairro de Telheiras está retratado o elefante... Esperemos não encontrar um dia destes uma réplica do extinto elefante num qualquer parque de Lisboa!

"Em extinção..." - Foto de João Andarilho

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

quarta-feira, 30 de março de 2022

 

A MISTERIOSA ORIGEM DAS PALAVRAS - XIX


ORQUÍDEA, A PLANTA COM TOMATES!


Orquídeas há muitas e de muitas espécies e feitios mas uma coisa é comum a todas: o nome! ORQUÍDEA deriva do grego e da junção de orkhis (termo que significa testículo) com eidos (termo que significa aspecto) e tal associação deve-se aos dois curiosos tubérculos que as suas raízes apresentam e que fazem lembrar os testículos dos mamíferos... Assim, as orquídeas destacam-se em todo o reino vegetal ao serem consideradas plantas com tomates!  Já agora, quando um mamífero sofre de inflamação dos testículos diz-se que padece de orquite! 

 

"Ophrys tenthredinifera" - Jean-Charles Forgeronne

Em Portugal existem cerca de 70 espécies de orquídeas, grande parte delas silvestres e que proliferam em campos abertos ou solos calcários como é o caso do Planalto das Cesaredas... A maior parte da vida das orquídeas é subterrânea e aqui no planalto "sobem" à superfície  de Janeiro a finais de Março com as suas atraentes flores a imitarem insectos, fruto de uma cumplicidade evolutiva de séculos...


"Pormenor" - Jean-Charles Forgeronne

Fica o aviso, quem demandar o planalto à descoberta das suas preciosas orquídeas terá que o fazer lentamente e em modo cabisbaixo, é que estas belíssimas e frágeis plantas, aqui à beira do Atlântico jurássico, não ultrapassam um dedo indicador de altura, muitas vezes passam despercebidas e qualquer desatenção pode significar esmagá-las com um passo incauto! Mas quando se descobre uma, à beira dos carreiros e trilhos de cabras, há que pôr-se de joelhos ou mesmo deitados ao nível do chão para alcançar o deleite da sua beleza, e pode fotografar à vontade para posteridade, para o ano lá estarão no mesmo sítio...


"Outra espécie, outros tons..." - Foto de João Andarilho

E depois como é bom ver as orquídeas pintadas nas casas de São Bartolomeu pela comunidade escolar como forma de chamada de atenção aos mais velhos para a beleza das orquídeas autóctones e para a importância da preservação desta maravilha da natureza...



"São Bartolomeu" - Jean-Charles Forgeronne

João Atemboró

(Naturalista de Valmedo)

quinta-feira, 10 de março de 2022

 

A PRIMAVERA CABRA E AZEDA


Ainda faltam dez dias para chegar a vigésima segunda primavera deste vigésimo primeiro século e já se sabe que vai ser ela muito azeda, ainda vem a caminho, é certo, mas já paira no ar o azedume dos ventos vindos de leste soprados pela cabra da guerra e também já os campos foram invadidos pelo amarelo canário das azedas... De nome científico Oxalis pes-caprae, que é como quem diz em bom português Pé-de-cabra azedo, mas também conhecida por AZEDA, erva-canária, erva-mijona, trevo-azedo e outros nomes, esta singela e frágil planta que não ultrapassa os 40 centímetros de altura e de exuberantes flores amarelas toma de assalto e invade a paisagem de Janeiro a Abril pintando-a de um exuberante amarelo, digno de um Van Gogh qualquer...   


"Invasão amarela" - Jean-Charles Forgeronne

Consta que a introdução das apelativas flores amarelas "azedas" se ficou a dever à rainha D. Amélia que delas muito gostava e que as encomendou para ornamentar o seu jardim da Ajuda e assim, desejo real é ordem, lá vieram as azedas da África do Sul, a sua terra natal... O pior veio depois, estas plantinhas gostaram tanto do nosso país e do nosso clima que fugiram ao controlo da mão humana e desataram a invadir todo o território, ameaçando até as nossas plantas autóctones, perigosa espécie invasora, agora lhe chamam!


"Ameaça" - Jean-Charles Forgeronne

Mas que culpa tem a azeda? Afinal ela foi convidada para vir para cá, ela cujo único pecado é amar o calor do sol e que com a falta da sua luz devido ao aproximar da noite ou à nebulosidade se fecha em copas para reabrir apenas no dia seguinte quando o sol voltar... E quem, quando criança, nunca chupou os caules da planta para saborear aquele suco ácido? Não é por acaso que em Espanha lhe chamam chucha-meles!


"À espera do sol..." - Jean-Charles Forgeronne


João Atemboró

(Naturalista de Valmedo)