terça-feira, 4 de agosto de 2026

 
LENDAS E NARRATIVAS - XXIX

A TRAGÉDIA DUMA MORTE ESTÚPIDA

A estranha morte de Ésquilo, o famoso autor de tragédias gregas, para uns não passará de uma lenda mas para outros constituirá um acontecimento histórico credível muito por culpa de Plínio, o Velho, o também famoso naturalista e escritor romano que descreveu a curiosa ocorrência na sua gigantesca obra "História Natural", uma autêntica enciclopédia do conhecimento... Assim, segundo Plínio, andando Ésquilo pela Sicília gozando já em idade de reforma a sua fama de grande dramaturgo, uma águia que tinha capturado uma tartaruga andava em voos circulares pelos ares com o réptil recolhido na sua couraça entre as garras e com uma estratégia em mente: quebrar a carapaça da presa deixando-a cair lá do alto sobre uma rocha e assim bicar o petisco... E assim fez, só que aquilo que lhe pareceu ser uma rocha era a cabeça careca e brilhante de Ésquilo, o qual não resistiu à terrível pancada!



O irónico da história é que Ésquilo evitava estar por casa e andava o mais que podia pela natureza porque queria fugir ao seu destino, é que tempos antes tinha-lhe sido dito numa profecia que o tecto de uma casa lhe cairia sobre a cabeça, nada mais certo então, acabou morto pela casa de uma tartaruga! Ele que foi mestre em criar tragédias, obras em verso em que figuram ilustres personagens e que geralmente acabam com uma morte, talvez nunca tivesse sonhado que a sua própria morte seria digna de uma tragédia surreal...
Mas passados séculos também Plínio acabou os seus dias de forma trágica e irónica, vitima da sua curiosidade infindável e enquanto não só liderava uma missão de salvamento mas também enquanto investigava o fenómeno, acabou por morrer devido à inalação de cinzas e de gases vulcânicos libertados pela erupção do vulcão Vesúvio no ano 79 d.C...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

 

A MISTERIOSA ORIGEM DAS PALAVRAS - XXV 

A TRAGÉDIA DE ÉSQUILO E DO ESQUILO


Foto: Milvoz
Esquilo e Ésquilo estão separados por muito mais do que um mero acento agudo, o primeiro nome designa um pequeno e elegante roedor de longa cauda e que se encontra espalhado por florestas de quase todo o mundo-cão enquanto o segundo se refere ao pai da tragédia grega... Comecemos por esquilo, nome que deriva da palavra grega skíouros e que por sua vez é uma junção de duas outras palavras, skía, que significa sombra, e ourá que significa cauda; ou seja, skíouros literalmente designa "rabo que faz sombra" e isso faz todo o sentido se reparamos na forma como o esquilo se senta...  
Ésquilo, quase careca...

Quanto ao nome Ésquilo ele tem origem no grego aiskhúlos, por sua vez um diminutivo de aiskhos e que significa "vergonha"; assim, o grande dramaturgo era conhecido como o tímido, o envergonhadito... Mas para além do nome muito parecido há uma outra coisa que aproxima o poeta e o mamífero, a tragédia: no caso do primeiro, a quem foram atribuídas mais de sessenta obras, apenas sete (!) se conservaram, quanto ao segundo, especialistas colocam-no na lista de espécies em extinção a curto prazo, o que aliás não seria novidade pois o "Sciurus vulgaris", o esquilo vermelho que vemos por aí, já esteve extinto em Portugal desde o século XVI até cerca de 1990 devido ao corte de árvores e perda de florestas...  

João Portugal
(Linguísta de Valmedo)

 

"Natureza aristotélica" - Jean-Charles Forgeronne

 
OBRAS DE ARTE NATURAL - II

A ARTE DO ESQUILO ARISTÓTELES

Ali, no antigamente designado Pinhal da Câmara e que hoje na sua parte sul alberga o Dino  Parque da Lourinhã, vive há meia dúzia de anos por entre dinossauros e criaturas ancestrais um esquilo já velhote chamado Aristóteles mais a sua segunda companheira de vida, a esquila  Herpília... O esquilo Aristóteles, permitam-me apresentá-lo, é um artista que dá asas à sua criatividade sempre que encontra o seu alimento preferido, qualquer pinha que encontre e onde finque os dentes se transforma numa obra de arte através de uma complexa urdidura de figurada filigrana...


"Obra em evolução" - Jean-Charles Forgeronne

É sabido que o esquilo vermelho que habita os nossos bosques é omnívoro, alimenta-se do que a natureza lhe proporciona conforme as estações mas nutre uma especial preferência por pinhas e pinhões de pinheiro bravo, depois também gosta de avelãs, bolotas e outras sementes, não recusando em época de pouca abundância uns cogumelos, mesmo os venenosos para outras espécies, bagas, flores, rebentos  e até insectos se outra coisa não houver... Mas a pinha é o que o faz feliz, e tanto assim é que a trata com carinho e apurada arte, como é o caso do nosso tímido amigo Aristóteles que dando azo à criatividade usa os seus dentes como incansáveis cinzéis e a obra, quando finalizada, é verdadeiramente digna de um exímio escultor... 

"Obra acabada" - Jean-Charles Forgeronne

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)