domingo, 14 de junho de 2026

 
A MUJA, A MOLHA E A ARTE

"Poça das Mujas" - Jean-Charles Forgeronne
"Será que sou só eu que tenho esta incómoda sensação de estar num planeta estranho?" - digo em surdina para mim próprio enquanto olho para uma tranquila N. sentada à minha frente e alegremente entretida com o seu repasto, olho disfarçadamente para a mesa do canto e vejo um casal de meia-idade com o ar mais normal deste mundo, analiso a simpática empregada e não lhe consigo apontar nenhuma incongruência, admito então que talvez ela não seja um monstro alienígena encarnado numa aparência humanoide como há instantes equacionei e todos estavam a agir tão normalmente que por um segundo, mas apenas por um segundo, me coloquei a hipótese de ser eu que estava em processo de enlouquecimento galopante... 
"Este pedaço de mundo-cão a que chamam Pico hoje parece o planeta dos enigmas", pensei, o dia tinha começado sob o signo dos mistérios, tínhamos entrado por Calheta de Nesquim adentro e a razão daquela estranha toponímia tinha-a descoberto por sorte na busca matinal obrigatória ao meu blogue preferido, "Planandonomundocão"...

"Molha do Saragaço" - Jean-Charles Forgeronne

Ainda não o disse mas estamos no "Saragaço", simpático restaurante de ótima localização na zona balnear da Poça das Mujas, a uma dúzia de passos da piscina natural e outros tantos do Murricão... Após um delicioso banho tomado na piscina natural viemos até aqui, meio-dia em ponto, os primeiros clientes a chegar, ainda a porta estava fechada mas vendo alguém no interior descaradamente perguntei através duma janela entreaberta qual era o menu do dia, ao que me responderam "Hoje tem molha"! Fiquei impávido mas não sereno, virei-me para a N. e desabafei : "Molha? Que raio é a molha?" 
O dia ia-se tornando cada vez mais estranho, primeiro tinha sido a questão do estranho nome Nesquim, entretanto resolvido, depois vieram as Mujas, "Quem são as mujas?" perguntei-me assim que mergulhei naquelas célebres e cálidas águas, imaginei até serem entidades míticas subaquáticas do tempo da Atlântida, vá lá saber-se, e agora, para compor o ramalhete, surgira outro enigma, a molha... 

"Quebra-cabeças"

Invertendo a natural ordem das coisas solucionou-se primeiro o enigma da molha pois assim que a porta se abriu tomei de assalto o castelo e perguntei: " Vamos lá a vero que é isso da molha?" e ouvi "A molha de carne? É um guisado típico aqui da região..." e o assunto ficou resolvido! A molha é então um prato tradicional dos Açores, típico do Pico e do Faial e consiste num guisado de carne de vaca cozinhado lentamente, como se fazia outrora, com tempo... Bem, a carne desfazia-se ao primeiro toque do garfo e estava saborosíssima de bem temperada com as especiarias da terra, que repasto! Tão delicioso quanto o banho na Poça das Mujas... Mas entretanto, e antes de poder esclarecer a questão das mujas, reparo numa coisa que me baralhou (novamente) os neurónios: algo não batia bem com os dois quadros expostos na parede por cima do buffet e por mais que tentasse entendê-los mais baralhado ia ficando... 
"Nº 3 1967"
Um dos quadros, o mais à esquerda, não tinha cor, parecia estar escondido por detrás do nevoeiro  tão típico dos Açores, mas seria mesmo assim? Tão abstracto? Aproveitei para examiná-lo mais de perto quando me fui reabastecer de molha e surpreendi-me ao verificar que era a reprodução de uma obra de Mark Rothko, considerado o maior representante do Expressionismo abstracto norte-americano e cujas obras se caracterizam pela sobreposição de largas bandas de cores... E de facto, como esclareceu uma breve pesquisa feita após uma dificil espera até que terminássemos a molha, a obra nº3 1967 apresenta cores bem carregadas, nada tendo a ver com aquilo que se vê exposto por cima do buffet... Se a obra original já é bastante abstracta então esta reprodução do Saragaço é abstracta elevada ao quadrado! 

"Autor desconhecido"
Mas o quadro ao lado não era menos intrigante, de autor desconhecido, pelo menos não vislumbrei nenhuma assinatura, parecia-me mais do género impressionista e era também formado por duas bandas de azul, uma mais escura na parte superior e outra mais clara na parte inferior, uns borrões coloridos a meio e por mais que eu olhasse não via a mensagem do artista, se é que a havia, embora percepcionasse uma ideia a pairar no meu juízo não a conseguia agarrar... "Que vês tu naquele quadro da direita?" ainda perguntei mas a N. após um breve olhar respondeu: "Nada. E tu?". "Tal qual!", respondi desanimado e foi já quando nos levantávamos para ir embora que numa última olhadela já de esguelha se fez luz, pelo menos para mim: o quadro só podia estar de pernas para o ar! Só me ocorreu uma forma de confirmar a minha hipótese: tirei uma foto ao raio do quadro, invertia-a e lá estava: ao menos agora os borrões podiam ser barcos, o céu passou a ser o mar e vice-versa! Contente com a minha descoberta  sentei-me ao volante e porque tínhamos pela frente a Poça das Mujas ressuscitou o enigma que faltava: o que raio era uma muja? E só arrancamos dali quando ficamos a saber que a muja é um peixe também conhecido como taínha ou fataça... Havia necessidade de complicar tanto? E pronto, lá arrancamos e o dia ainda ia a meio, que mais coisas nos iriam espantar ainda?   

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

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