domingo, 7 de junho de 2026

 
A RAIVA DO VULCÃO - XIII

O LADO CERTO DA MONTANHA

Acerca do arquipélago dos Açores escreveu há 100 anos Raul Brandão que "O melhor de cada ilha é a ilha que está em frente" e isso é particularmente notável quando observamos o Pico a partir do Faial e nos apercebemos da realidade que emana das palavras do escritor-explorador a proposito do verdadeiro fascínio que a montanha exerce na Horta: "... tão longe que a luz o trespassa, tão perto que quer entrar por todas as portas dentro. Na verdade, parece um efeito mágico de luz, um fantasma posto aí de propósito para nos iludir e mais nada. Toma todas as cores: agora está violeta, logo está rubro. A cada momento uma nova transformação."

"O Pico desde a Horta" - Jean-Charles Forgeronne

Quem anda pelo Pico e em qualquer instante é sujeito a ser magneticamente atraído para a visão parcial do cume da montanha lá no alto, coisa natural, esteja onde estiver na ilha, seja no lado das Lajes ou na costa de São Roque ou até na Madalena pode ser enganado com a percepção de que aquele cocuruto lá em cima não passa de uma montanha numa ilha, mas o Pico não é apenas uma montanha, é a própria ilha! Porque é preciso ainda fazer outra coisa, como Saramago: "É necessário sair da ilha para ver a ilha"! E neste caso não embarcamos em metáforas, é preciso mesmo sair do Pico fisicamente para conhecer a ilha, é necessário ver a montanha do lado certo para a conhecer, tem que se vir à Horta e vê-la em todo o seu esplendor através do canal, mesmo que esteja mau tempo... Só deste lado, do lado da Horta, é possível ver o vulcão na sua plenitude e as encostas da montanha a espraiarem-se para o oceano... Então o Pico revela-se como a ilha-vulcão...

"O Pico desde a Madalena" - Jean-Charles Forgeronne
João Lava
(Vulcanólogo de Valmedo)

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