quinta-feira, 23 de julho de 2026


 PEIXE MORTO, CIÊNCIA VIVA

"Laboratório na praia"

Ao chegar-se à Praia do Porto da Areia Norte não fica mal um minuto de silêncio e reflexão, afinal foram aqui que foram enterrados, em valas comuns, os cerca de 400 náufragos do navio de guerra espanhol San Pedro de Alcantara, carregado de tesouros e vindo do Peru com destino a Cádiz, afundado ali à frente junto aos rochedos da Papoa a 2 de Fevereiro de 1786, naquele que constitui um dos acontecimentos mais marcantes da história trágico-marítima de Peniche e de Portugal... Mas hoje viemos aqui por outro motivo: viver a ciência! E lá ao fundo, iluminada por um azul celeste imaculado, já vejo montada uma banca com microscópios, é que, inserida no projecto Ciência Viva de Verão está prestes a começar uma actividade intitulada "A Vida na Maré Baixa" e que permitirá conhecer muitos e diversos organismos que ocorrem na zona entre marés e com observação detalhada da sua morfologia com o auxílio de lupas binoculares, tudo sob a orientação de biólogos e professores da Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar...  
"Praia do Porto da Areia Norte"
Apesar da sua aparente tranquilidade, esta é uma praia arenosa que na maré vaza exibe uma plataforma horizontal rochosa que cria várias poças onde um mundo fabuloso de estranhas e minúsculas criaturas se revela na luta feroz pela sobrevivência, muitas delas sésseis, isto é, que vivem fixas às rochas... Com alguma sorte é possível observar muitas espécies, para além de uma grande variedade de algas e com predominância das verdes que muitas vezes chegam a sufocar a praia, mostram-se ouriços, estrelas e lesmas, todos ostentando o apelido "do mar", cracas, lapas, percebes, mexilhões, camarões minúsculos, burriés, caranguejos, ínfimos chocos, polvos imberbes, pequenos peixes como um caboz de apenas 12cm de comprimento, o peixe-sugador ou até uma solha transparente, de tudo se pode encontrar...  

"Maravilhoso Mundo-Cão minúsculo"- Jean-Charles Forgeronne

Mas estava-me destinado, e o destino tem muita força até na biologia marinha, calhou-me em sorte reparar num pequeno peixe inerte numa poça, aproximei-me de balde e camaroeiro para a captura mas não houve resposta, notei então que a criatura estava cadáver, talvez tivesse sido ferida num ataque predatório ou tenha sofrido um despiste contra uma rocha porque a sua barbatana caudal estava desfigurada... Viro-me então para o Paulo e pergunto: "Coitado, que peixe é este?". "Parece-me um peixe-aranha, vamos ali observar melhor" - respondeu-me ele enquanto nos dirigíamos para os microscópios...

"O meu peixe-aranha" - Jean-Charles Forgeronne

E de facto era um peixe-aranha, essa criatura mítica e assustadora, para aí com uns míseros 15 cm de comprimento, e tal ficou comprovado depois de, utilizando uma pinça, se terem posto em evidência os seus espinhos dorsais e o seu dente superior com os quais envenena a vítima ejectando o seu veneno ao ser pisado enquanto escondido sob a areia e apenas com os olhinhos de fora... E acreditam que foi o primeiro peixe-aranha que conheci pessoalmente em toda a minha vida, por sorte morto?... 

João Abelhudo
(Pesquisador de Valmedo)

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