quinta-feira, 19 de março de 2026

 
A ÁRVORE MEDIÚNICA


Porque foi o cedro de Runa eleito a "Árvore do Ano" de 2026?  Não foi pela sua idade já que é uma árvore com apenas 75 anos, não foi pela sua altura, apenas 10 metros, pela beleza também não terá sido porque apesar de ser bela muitas outras árvores também o são, talvez tenha sido mais pela sua história e pela sua importância na vida da comunidade, afinal parece ser esse também o espírito do concurso, não valorizar apenas tamanhos e imponências que não passam de números... Agora que estou diante dela tenho para mim que esta árvore é sagrada para os runenses assim como os carvalhos eram para os celtas e debaixo dos quais os druidas comunicavam com o além e com os mistérios, também aqui, à sombra do enorme caramanchão que as suas ramadas formam, muita reflexão e introspecção, muita oração às forças da natureza, muita conversa e desabafo, juras de amor e rezas de ódio, muitos encontros e desencontros, alegrias e desesperos, tudo o o que a humanidade carrega aqui foi conversado com esta árvore, sim, as árvores escutam, as árvores, por vezes, também falam e aconselham, para além de guardarem segredo...   

"O cedro de Runa" - Jean-Charles Forgeronne

Afinal estamos em Runa, e runas, afinal, não são apenas caracteres alfabéticos mas são também sinais mágicos que vêm desde os tempos dos vikings e que significam "segredos" e mistérios", uma ligação entre este mundo-cão e o além, entre o passado e o futuro...  E só de pensar que esta magnífica árvore chegou a não ter futuro porque rebentou enfezada e fraca e que só graças ao amor e à dedicação de um tal Sr. Alfredo, que não só a plantou como dela cuidou sempre, apetece-me dizer que à beira de um grande homem faz falta sempre uma grande árvore, e vice-versa também...

"Oráculo de Runa" - Jean-Charles Forgeronne

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

domingo, 15 de março de 2026

 
EFEMÉRIDE # 112

O DIA EM QUE O POVO DISSE NÃO!

Há exactos 50 anos atrás, a 15 de Março de 1976, Portugal era governado pelo VI Governo Provisório o qual, para além do seu objectivo primordial que era assegurar a estabilidade política e social no período entre a crise do 25 de Novembro de 1975 e a entrada em vigor da Constituição da República Portuguesa, a qual viria a ser aprovada dezoitos dias depois, a 2 de Abril, tinha também sobre os seus ombros a incumbência de preparar em segurança as primeiras eleições legislativas e presidenciais marcadas para os meses seguintes, Abril e Junho, respectivamente... 


"Homenagem à coragem" - Jean-Charles Forgeronne

Mas nessa segunda-feira o centro das atenções desviou-se para oeste e caiu repentinamente sobre o Moinho Velho, uma zona de terrenos baldios na freguesia de Ferrel sobranceira à praia da Almagreira, a meio caminho entre o Baleal e a a praia d'El Rey, em Óbidos, e onde estava previsto o início dos trabalhos de construção da primeira (e quiçá última) central nuclear em território lusitano, um projecto do tal governo provisório, talvez inspirado pela política energética do leste europeu, (Chernobyl ainda era na altura um tranquilo sucesso, só explodiria 10 anos depois), o povo de Ferrel, animado e reunido pelo toque a rebate do sino da igreja e armado de enxadas e forquilhas marchou pelos caminhos de terra batida para enfrentar o inimigo e a coragem foi tanta que não foi preciso derramar sangue, a turba expulsou os trabalhadores encarregados da obra e ali mesmo finou-se o plano de energia atómica nacional, até hoje...  

"Vista do terraço da Central Atómica" - Jean-Charles Forgeronne

   Hoje ali, à beira da praia e com o Baleal e Peniche no horizonte, nos terrenos que poderiam ser a central atómica cultiva-se o alho-francês, a batata, a batata doce e o repolho, mas, mais importante, crescem flores e ervas e a natureza mantém-se selvagem, não se sabe até quando devido à ameaça dos especuladores imobiliários...

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

quinta-feira, 12 de março de 2026

 
A NATURAL LEVEZA DA VIDA

Com a sua partida a vida fica mais pesada, lembro as suas vindas ao "Livros a Oeste" durante anos seguidos, a noite em que participava era obrigatória para mim, bola vermelha na agenda e se fosse necessário lá trocava eu a escala de serviço para poder estar presente porque quaisquer que fossem os outros participantes na conversa sobre livros e sobre a vida ele era garantia de histórias e curiosidades incríveis, o homem, como alguém disse hoje, era um museu ambulante, memórias e mais memórias, conhecimento e experiência, tudo regado com um sentido de humor desarmante que levava a plateia às gargalhadas e um perene sorriso desconcertante, mesmo quando o assunto era demasiado sério...  
Do Mário Zambujal "oficial" sabe-se a sua mestria enquanto jornalista, escritor e, acima de tudo, conversador, um observador peculiar do mundo e da sociedade com um saber estar por vezes desalinhado que o tornou uma figura incontornável da cultura lusitana, especialmente depois da publicação da "Crónica dos Bons Malandros" em 1980, e da qual disse o insuspeito Fernando Namora"Eis um livro ágil, hábil, matreiro, povoado de enleadoras surpresas - uma lufada de despretensão, quer na escrita, quer no recheio."    

Quanto ao Mário Zambujal "pessoal", desse dizem os amigos e quem privou com ele coisas boas, da sua simplicidade e autenticidade, alguém disse que até a cumprimentar era ele mais vagaroso e atencioso (ou não fosse um alentejano de gema e um bom malandro para troca de galhardetes), um homem que prezava o convívio entre as pessoas, a proximidade ao outro, desde a conversa na tasca ao simpósio mais ilustre mas que abominava a pressão do tempo e das redes sociais, essa coisa maléfica que põe as gentes em contacto imediato mas que acaba por as afastar... Falei com ele uma única vez, eu de braço estendido com um livro para autografar e ele, de caneta na mão e com um sorriso enorme como se eu lhe fosse um velho conhecido da sua infância em Moura... Obrigado, Mário, por me avisar que a vida é melhor quando levada com leveza e com um sorriso...

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

domingo, 8 de março de 2026

 
O DERRADEIRO POEMA...

Depois de Saramago partiu o outro Nobel da língua portuguesa... É lógico e expectável esta minha afirmação ser imediatamente rotulada de mentirosa, reduzindo-a a um vómito de uma mente ignorante ou então catalogá-la como mais uma fakenew da modernidade, mas, tentando parabolizar a nefasta ocorrência e argumentando em defesa própria mesmo consciente de que chegado a esta linha já muitos ou quase todos desistiram de continuar a ler, até porque cada vez mais rareiam o tempo e a disponibilidade para a leitura de meia dúzia de palavras, quanto mais de um texto como este que já vai longo, não será verdade que foi atribuído pelo mundo da literatura o prémio Nobel honoris causa da Literatura a António Lobo Antunes? Ele que, ao contrário do José da Azinhaga que se viu reconhecido em vida, foi sendo sempre ao longo de meia vida sistematica e injustamente esquecido pelos ilustres notáveis que decidem a coisa, apesar de meio mundo achar que ele merecia a distinção a todo o ano que passava, é para o ano pensava-se todos os anos... Agora é tarde demais e mesmo assim não importa muito, o próprio António, qual cú-de-judas, devia estar-se a cagar para o prémio...


Mais importante para ele do que o Nobel era o BENFICA, esse amor que os dois, tanto ele como Saramago, embora este menos exuberante no que diz respeito às nuances técnico-tácticas dentro das quatro linhas, nutriam pelo "glorioso" e por tudo aquilo que o mítico clube significa a nível social, político ou cultural, o clube de todos, do povo e dos burgueses, dos miseráveis e dos remediados, mas acima de tudo uma casa universal onde se luta pela liberdade, pela igualdade de direitos e pela esperança, por uma sociedade mais justa e inclusiva, um sítio (ou um spot para os mais modernos se se quiser) onde não há excluídos nem elites, et pluribus unum sempre na luta contra a injustiça social e divina, sempre com um abraço pronto para o próximo... Não foi então essa afinal a essência que os dois grandes mestres da língua portuguesa nos deixaram, ambos denunciadores e acusadores da tremenda ditadura social e económica que desvirtua a humanidade?

E que orgulho enorme sinto eu enquanto lampião (mas um lampião esclarecido, afianço!) ao saber que António Lobo Antunes pediu para que fosse tocado o hino do Benfica na sua última viagem, ele que um dia disse que o sonho dele sempre fôra ser o Águas da literatura... Pois bem, António, nunca nos conhecemos pessoalmente nem lá perto mas aqui digo "MUITO OBRIGADO", pela humanidade e pela sabedoria, e depois também pelo derradeiro poema que quis que dissessem no seu adeus a este podre mundo, o seu poema preferido, julgo, do açoriano Antero de Quental e que a partir de agora e mais pelo poema (que não conhecia antes, admito) do que por si, entrou nos meus "poemas de vida", por isso outra vez obrigado...  E já agora, o meu Nobel 2026 vai para si!

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)
E porque hoje é o Dia da Mulher...


"Feminae" - Paulo Honorato, Óbidos


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026


 
"O velho e o mar..."
João Plástico
(Artista de Valmedo)

 
AS BANDEIRAS TAMBÉM MORREM



"Além disso, diziam, se as bandeiras estão aí para celebrar o facto de que a morte deixou de matar, então de duas uma, ou as retiramos antes de que com a fartura comecemos a embirrar com os símbolos da pátria, ou vamos levar o resto da vida, isto é, a eternidade, dizemos bem, a eternidade, a mudá-los de cada vez que os apodreça a chuva, que o vento os esfarrape ou o sol lhes coma o colorido." 

in "As intermitências da morte", 2005
José Saramago





"Meia-Pátria"- 2026 - Jean-Charles Forgeronne


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

 

"Squirrel dance"

Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

 
ESCRITO NA PAREDE - LI

FLATULÊNCIAS MUSICAIS


Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)
 
O REINO ENCANTADO DO CALHAU

Em plena floresta de Monsanto, ao virar do caminho e deixado o real aqueduto para trás dei por mim desavisado noutro reino e tudo começou ao cruzar-me repentinamente com um estranho caçador de troféu às costas e que nem sequer reparou em mim, mas depois e aliviado por ter evitado um choque imediato de terceiro grau começo a desconfiar que algo não bate certo, paro, escuto e olho em volta com todos os sentidos em alerta e reparo então que fui atraído para outra dimensão porque, quais duendes, gnomos ou fadas, inúmeras figuras de madeira esculpidas com paixão e imaginação, muitas delas camufladas por entre a vegetação, transportam-me para outra dimensão, um mundo encantado de fantasia e poesia...   



Tanto podem ser de Fernando Pessoa ou de Carlos Drummond de Andrade, de António Nobre ou do Jorge Palma, descubro sábias palavras espalhadas pelo bosque que elucidam emoções e que desafiam o entendimento da vida, que alegram a existência feita de momentos como este, centelhas de paz e harmonia que nos fazem o dia feliz, que nos fazem sorrir, e que melhor há para retribuir à natureza do que um sorriso?  E ali ao fundo, debaixo de uma tranquila sombra, imagino eu que só pode ser o Palma a cantar o "Bairro do Amor" para encanto de uma ninfa da floresta...

E depois, ao contrário do Nobre que se viu só e abandonado, primeiro sinto e depois constato que estou a ser observado, por entre os troncos das árvores descortino uma mulher que me observa, tem cabelos brancos e por isso sabedoria, tem também um olhar acutilante, sinal de autoridade, só pode ser ela, penso, por isso pergunto: - Bom dia, quem fez isto? - e ouço uma resposta que não destoa: - Eu e o meu marido... Fico a saber que ela é a Isabel, que o marido é o Manel, e que ambos fazem aquela arte por passatempo reciclando madeira dali de Monsanto, autorizados pela Câmara, claro, não têm atelier nem vendem nada, apenas umas ocasionais exposições de presépios lá em cima no Centro de Interpretação... E já que pelos vistos imaginação e vontade de criar não lhes faltará só me restou desejar-lhes longa vida e saúde para continuarem a obra fazendo jus ao que diz o Palma ali num canto.: "Enquanto houver estrada para andar... a gente vai continuar."


E seguindo adiante passo por um casal de atletas fazendo alongamentos e isso faz-me sentir pesada a consciência por não estar também a fazer exercício, porque raio não trouxe o equipamento, da próxima virei a preceito, hoje também não era boa ideia porque não teria tempo para desfrutar com a tranquilidade e atenção necessárias deste jardim encantado... Envolto nestes pensamentos devolvo a saudação de um velhote sorridente que passeia um cão irrequieto e entretanto já um curioso insecto além pousado me chama a atenção, pôs-se mesmo a jeito para um retrato...


João Plástico
(Artista de Valmedo)

domingo, 15 de fevereiro de 2026


 UMA VOLTINHA POR... - VI


Calhau... Assim chamaram a um canto do Parque Florestal de Monsanto, talvez porque outrora ali tivesse existido um pedregulho de que hoje não há história nem memória... Meia dúzia de casas térreas escondidas atrás do Palácio dos Marqueses de Fronteira e que fazem lembrar uma aldeia provinciana constituem aquilo a que se chama o Bairro do Calhau e cuja joia é o seu Parque, uma ampla zona de recreio e passeio com espaços para a pratica desportiva e ainda um circuito de manutenção...  

"Do lado de cá da cidade..." - Jean-Charles Forgeronne

A barulhenta metrópole entrevê-se por entre as árvores lá em baixo mas somos mais atraídos pela tranquilidade e beleza da natureza, andamos por entre esquilos e rodeados pelos sons de aves tímidas até que sem o esperarmos damos por nós literalmente em cima do real Aqueduto das Águas Livres, essa imponente obra de engenharia mandada construir por D. João V em 1731 e cuja construção demorou 68 (!) anos! O aqueduto resistiu ao grande terramoto de 1755, tem 14 quilómetros de extensão e durante mais de dois séculos abasteceu Lisboa com água potável vinda de Belas, na serra de Sintra...  

"Real Aqueduto" - Jean-Charles Forgeronne)

Mas o melhor ainda está por descobrir, ali perto do aqueduto e tão camuflado na floresta que pode muito bem passar despercebido aos mais distraídos há um reino encantado feito de maravilhosas personagens de madeira envoltas em poesia e outras palavras mágicas que abrem as portas da imaginação... 

"Poesia na floresta" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

 
TIRADAS DO GÉNIO - VIII

O OUTRO LADO DA DEUSA

Uma das divas imortais do cinema, Marlene Dietrich, se para muitos era uma estrela inacessível lá no Olimpo para outros era um ser humano bondoso e generoso, que o digam os muitos amigos e exilados que durante a II Guerra Mundial ela ajudou financeiramente na sua fuga do regime de Hitler, ela que, apesar de berlinense de gema, era uma feroz activista anti-nazi! Consta que, já famosa e com Hollywood a seus pés, recusou um convite do Führer para regressar à Alemanha, recusando um cheque em branco para que fizesse os filmes que lhe aprouvesse desde que propagandeasse o regime...



Um dia, chegou ao conhecimento da famosa actriz e cantora de que um homem que comprara bilhetes para um espectáculo seu tinha adoecido gravemente. Sem ninguém lho pedir e sem fazer alarido, Marlene não descansou enquanto não descobriu o hospital onde o seu fã estava internado, foi até lá, sentou-se junto à cama do infeliz e cantou para ele durante meia hora!
 - "Não fiz nada de mais." - comentou - Ele pagou para ver-me!"

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026


"A maior parte das pessoas desculpa os erros de quem seja simpático!"
E.C. MacKenzie
"2700 Quotes for Sermons and Addresses"
😊

Se assim fôr e por isso, e para quem não seja carrancudo por natureza e um caso perdido, será sempre uma boa ideia colocar a má disposição de lado porque ao fim e ao cabo basta um sorriso (natural) e um pouco de charme (sem exagero) para criar uma ligação positiva com os outros e com o mundo... E até ver é grátis, experimente, não custa nada! 

João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)                                                                       

domingo, 8 de fevereiro de 2026

"Vale de Pombas" - Jean-Charles Forgeronne

 

 
ANEDOTAS QUE PARECEM POEMAS - XVI

DATAÇÃO MAIS PRECISA NÃO HÁ!

Um  turista de visita ao Dino Parque da Lourinhã estava deslumbrado com as centenas de bichos espalhados pelo recinto e ao reparar nuns verdadeiros ossos de dinossauro em exposição ali a um canto não resistiu a perguntar ao primeiro funcionário do parque com que se cruzou: 
 - Quantos anos têm estes ossos?
 - Têm precisamente cento e cinquenta milhões e dois anos de idade! 
Intrigado, até porque se julgava entendido na datação de fósseis, o turista insistiu:
 - Raio, como pode ter essa certeza toda?
 - Ora - respondeu o outro - exactamente há 2 anos perguntei isso ao paleontólogo que para aqui trouxe os ossos e ele disse-me que eles tinham 150 milhões de anos!  

"Dino Parque" - Jean-Charles Forgeronne

João Parte-Pedra
(Geólogo de Valmedo)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

 O CLUBE DE LEITURA CANINA

O J.C está sentado à minha frente e não tira aquele olhar fulminante de mim até eu, depois de ter ignorado quatro ou cinco ordens "Senta, James", finalmente me sentei, um pouco aborrecido porque não entendia porque é que era obrigado a sentar-me, primeiro não me apetecia tal coisa e depois não enxergava o objectivo mas, como sempre, havia uma explicação: - "Então, James, hoje é um dia especial para nós: vamos dar inicio à primeira sessão do nosso clube de leitura! Excelente ideia, não achas? Sempre que tivermos um tempinho disponível vamos ler uns livrinhos sobre aventuras com cães, vais adorar, tenho a certeza..." Como devem calcular, amigos caninos, fui apanhado de surpresa, não esperava esta coisa da leitura, não fazia ideia se iria gostar ou não, poderia ser interessante ou então uma grande seca mas só experimentando e depois poderia ser que houvesse uma recompensa no final de cada sessão...
E então o J.C. disse que tinha trazido dois livros de mistérios policiais, qual deles o melhor, de dois autores famosos e que para começar eu é que ia escolher o primeiro com que íamos inaugurar o nosso clube e pôs-me bem à frente do nariz como se eu fosse míope um livro de bonita capa amarela e preta dizendo: - Ora então, James, primeira opção: "Maigret e o cão amarelo", de um escritor belga chamado Georges Simenon e vou fazer-te uma breve apresentação: Maigret é um jovem comissário da Polícia de Rennes, uma cidade no norte da França, e é encarregue da investigação sobre uma série de crimes cometidos em circunstâncias muito misteriosas. Os crimes parecem insolúveis, o tempo vai passando com os polícias à nora e só  quando Maigret se apercebe do papel desempenhado por um certo cão amarelo, que farejara o cadáver de um mendigo assassinado numa noite de tempestade, é que o caso fica enfim resolvido. Promete, hein James
E eu assenti baixando a cabeça, de facto estava curioso em saber mais sobre aquele cão que ajudou a resolver o mistério...

- Mas espera, ainda falta ver o outro... - e mostrou-me um livro com uma capa colorida e que mostrava uma cadela de ar bem cuidado, também amarela como o outro - Chama-se "Resgate por um cão", é de Patricia Highsmith, uma escritora norte-americana e é uma intrigante história sobre "Lisa", uma caniche que pertencia a um casal bem instalado na vida e que desapareceu misteriosamente durante o seu habitual passeio nocturno. Pouco depois, os seus donos receberam quatro cartas anónimas exigindo um resgate e, ocupada com inúmeros casos, como poderia a Polícia de Nova Iorque encarar o rapto de um cão? 
E agora o J.C., de braços abertos e um livro em cada mão, olhava para mim com impaciência:
 - Então, qual vai ser? 

James
(Cão de Valmedo)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

MAS QUE LINDO É O MEU CÃO INVISÍVEL! 

Amigos caninos, nem sei bem como começar esta minha história e asseguro-vos que não é por falta de matéria, palavras ou imaginação, antes é por ainda me sentir em estado de choque...  Então não querem lá ver que que ontem assisti a uma cena que tem tanto de surreal como de chocante: ao demandar o meu sitiozinho de alívio para verter umas águas dou com o J.C. a passear um cão invisível! Sim, leram bem, amigos caninos, ali andava ele com a minha trela e a minha coleira de um lado para o outro e ainda por cima a falar sozinho, dizendo coisas incompreensíveis como "Vá lá James, calma! não é preciso correr!" ou então depois de assobiar "Pára, James! Vem lá um carro, está quieto!"... E foi então que levei as patas à cabeça, o homem enlouqueceu de vez! "E agora, que vai ser de mim?" - pensei logo a seguir a um calafrio... É que ainda por cima ele chamava James ao seu cão invisível, e comigo mesmo ali ao seu lado, eu tinha sido substituído!

"J.C. e o James invisível"

E foi então que num raro segundo de discernimento o J.C., parecendo voltar à realidade e liberto de um feitiço, me encara e diz:
- Olá bicheza! Que tal? Não te assustes, estou só a tentar perceber essa nova moda que veio da Alemanha chamada HOBBY DOGGING e que consiste passear por ruas e parques com uma trela e coleira mas sem cão! Dizem os praticantes desta coisa que que é uma actividade divertida e que é uma forma engraçada de socializar e praticar exercício. Bem, queres mesmo saber a minha opinião, James? Acho que isto não tem piada nenhuma e que é coisa de maluquinhos que não têm mais nada que fazer.... Esta sociedade está a ficar mesmo muito doente, é o que é!

"WTF?"

Amigos caninos, conseguem imaginar o meu alívio depois destas palavras do J.C., afinal parece que ele ainda não está louco mas não fico totalmente descansado em relação a isso, imaginem que estas ideias absurdas se começam a espalhar como os vírus e a coisa descamba numa epidemia? É que isto não é um fenómeno isolado, lembro-me de há uns tempos ele me ter falado com ar perplexo de outras manias que andam por aí como o HOBBY HORSING, ou seja praticar equitação com cavalos de pau, ou ainda o caso dos REBORN BABIES, bonecos realistas de bebés que substituem os filhos e que são tratados como tal! Sinceramente, amigos caninos, acho que o nosso mundo-cão está ameaçado e corre o perigo de ser substituído por um mundo de alienação virtual!

James
(Cão de Valmedo)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

"Volto já!" - Mário Belém, Marvila

 Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

 
ESCRITO NA PAREDE - L


Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026


A HISTÓRIA DE PAPEL E A HISTÓRIA VIVA - II 

TORDESILHAS, ONDE METADE DO MUNDO FOI PORTUGUÊS!

"Livro de História de Portugal"
Uma coisa é visionar um documentário ou ler num livro factos sobre determinado acontecimento histórico, neste caso sobre o famoso Tratado de Tordesilhas, e muitos são as enciclopédias, revistas e livros repletos de explicações e teorias detalhadas, fotografias, cronologias, infografias e ilustrações de grande qualidade e apelo visual mas, quero crer, nada se equipara a viver a História, estar onde tudo aconteceu e sentir por dentro o acontecimento com todos os sentidos despertos... Pois bem, quem chega a Tordesilhas depara-se com uma pequena e pacata vila em que, para além da sua pequena mas aprazível Plaza Mayor, uma das principais atracções é o Real Mosteiro de Santa Clara, ali à beirinha do Rio Douro e onde durante 46 (!) anos esteve enclausurada a Rainha Joana Ifilha dos Reis Católicos e mandada prender pelo próprio pai que alegou estar ela louca e incapaz de reinar, daí ter a infeliz criatura passado à História como Joana, a Louca... 



"Casas del Tratado", Tordesilhas - Jean-Charles Forgeronne

"Cópia doTratado" - Torre do Tombo
E ali bem encostadas ao mosteiro-prisão ficam as Casas del Tratado, um palácio humilde onde foi assinado em 1494 pelos Reis Católicos e pelos enviados de D. João II o Tratado que dividia ao meio o mundo que viesse a ser descoberto por espanhóis e portugueses... Hoje o palácio alberga o Posto de Turismo e o pequeno Museu do Tratado de Tordesilhas...
No Museu do Tratado de Tordesilhas, de entrada gratuita, pode ser vista uma réplica do histórico documento e curioso é o facto de o original castelhano se encontrar no Arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa, enquanto que o original português se encontra no Arquivo Geral das Índias, em Sevilha! E para apimentar a história do Tratado há muitos especialistas que salientam a hipótese de D. João aquando das negociações finais do acordo estar na posse de secretos conhecimentos de que haveria existência de terras na parte sul da sua metade, nomeadamente as costas daquilo que mais tarde viria a ser o Brasil, falta saber quem foram os seus misteriosos informadores!


"Cópia do Tratado", Tordesilhas - Jean-Charles Forgeronne

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

domingo, 18 de janeiro de 2026

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃOLXIII

A PONTE QUE VAI E VEM

E se a ponte não for uma simples via de passagem para a outra a margem? E se em vez disso, se em vez de atravessarmos a ponte for a ponte a levar-nos ao colo até à outra margem e depois a trazer-nos de regresso se necessário? Confuso? Pois é mesmo isso que acontece há 133 (!) anos a cerca de uma dezena de quilómetros de Bilbau: a Ponte da Biscaia, inaugurada em 1893, foi a primeira ponte suspensa transportadora a ser construída neste planeta e une as margens do rio Nervíon entre Portugalete e Getxo!  

"Ponte da Biscaia", gravura do séc.XIX 

A ponte em ferro, uma obra de engenharia notável, foi idealizada e construída pelo engenheiro Alberto Palácios, um discípulo de Gustave Eiffel, tem 160 metros de comprimento e 45 de altura e surgiu para dar resposta à necessidade de transporte de mercadorias e trabalhadores entre as duas margens do rio naquela que era a zona central da indústria do país basco, bem como permitir à burguesia do final do século XIX o acesso às maravilhosas praias de Getxo...

"Ponte da Biscaia" - Jean-Charles Forgeronne

O transporte de veículos, mercadorias e pessoas é feito numa cabine suspensa por cabos e essa ideia genial permitiu desde o início que não houvesse qualquer interferência no intenso tráfego de navios e veleiros que demandavam o movimentado porto de Bilbau... Além disso, hoje também é possível a qualquer pessoa ou turista atravessar a ponte caminhando através do tabuleiro superior... Outras pontes suspensas foram depois construídas seguindo o modelo da Ponte da Biscaia, mas esta é, verdadeiramente, a ponte! 

"A Ponte" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

 

"Catedral de Bilbau" - Jean-Charles Forgeronne

 ESCRITO NA PAREDE - XLIX


"Untitled (Forever)" by Barbara Kruger - Bilbau Guggenheim; Foto: Jean-Charles Forgeronne


 
SÉTIMO INCIDENTE TRANSFRONTEIRIÇO

ARTE DENTRO, ARTE FORA

Estávamos no alto do Monte Artxanda ainda a recuperar o fôlego após a íngreme subida de funicular (impossível não pensar na recente tragédia do Elevador da Glória) quando recebi a mensagem: o Guggenheim informava-me que devido a uma greve que estava agendada para o dia seguinte poderia haver constrangimentos na entrada do museu ou mesmo não ser garantido o acesso ao mesmo, no entanto, para minorar o incómodo dispunham-se a reembolsar ou a facilitar o reagendamento da visita para uma data futura, e eu que tinha chegado a Bilbau tranquilo e sereno com dois ingressos comprados seis meses antes via agora o chão e o museu lá em baixo fugirem-me debaixo dos pés! 

"Bilbau vista do Artxanda" - Jean-Charles Forgeronne

Após sonoro palavrão que afastou dois ou três pássaros com ar de frequentadores assíduos do parque informo a N. da má notícia e à sua reacção -"Oh! Que pena! E agora?" respondo tentando disfarçar a irritação -"Olha, vamos visitar o museu na mesma, só que por fora, também é interessante e além disso existem umas esculturas famosas à volta que vale a pena ver...".  Mas claro que não seria a mesma coisa, mas que fazer? E para enegrecer ainda mais o cenário teríamos que seguir viagem em direcção a Santander o mais tarde depois de almoço, não dava mesmo para adiar a visita, havia que seguir o plano e havia alojamento reservado bem longe dali...

"Máman" - Jean-Charles Forgeronne

Este era mais do que outro comum azar de viajante, era mesmo um azar do caraças, bilhetes no bolso há meses e expectativa de visitar um dos museus mais famosos do mundo e agora nada, ali estava ele em baixo, belo e apelativo escondendo-se debaixo de uma poeira de neblina descida das montanhas cantábricas e enquanto o mirava só pensava nos milhares de quilómetros feitos para o visitar e na catastrófica possibilidade de afinal nunca o vir a conhecer por dentro, tudo por culpa de uma estúpida greve... As greves nunca são estúpidas, eu próprio nunca faltei a uma greve, mas aquela, naquele momento, era para mim a greve mais estúpida do mundo! 

"Puppy" - Jean-Charles Forgeonne

Descemos então do monte um pouco angustiados e lá fomos passear em volta do Museu, cruzámo-nos com as "Sirgueras" de Dora Salazar, pusemo-nos debaixo da Mamán, a aranha de 9 metros de altura de Louise Bourgeois, fizemos uma festa ao Puppy, o florido cão gigante de Jeff Koons e tentamos decifrar os reflexos nas esferas da obra de Anish Kapoor, "El Gran árbol y el Ojo", e só isso valeu a viagem...

"El Gran árbol y el ojo" - Jean-Charles Forgeronne

E foi então que ao nos cruzarmos com um grupo de visitantes saído do museu me ocorreu uma ideia que automaticamente me saiu boca fora: "Espera lá, porque não pensei nisto antes? Ainda falta uma hora para o museu fechar, e se nos deixassem entrar ainda hoje?"... E assim foi, nem foi preciso justificar com a partida do dia seguinte nem pelo facto de sermos portugueses e termos feito milhares de quilómetros para ali vir, bastou mostrar a mensagem ao simpático recepcionista e ele lá trocou a data dos ingressos para aquele instante, e lá fomos, afinal estivemos dentro do Guggenheim, embora sinceramente tenha valido mais pela arquitectura do edifício que só por si é uma monumental obra de arte do que pelas exposições pois as os obras de que gostei mais foram mesmo aquelas que estão lá fora...

"Sirgueras" - Jean-Charles Forgeronne

João Plástico
(Artista de Valmedo)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026


BILBAO, A INDÚSTRIA E A ARTE...

Quando penso em Bilbau a primeira coisa que me vem à cabeça é o Guggenheim, evidente ícone da cidade e uma das mais importantes obras da arquitectura do século XX, mas depois, ao entrar caminhando pela primeira vez pelo coração da cidade adentro e ainda sem o famoso museu no horizonte fico esclarecido à primeira impressão: aquilo que desde sempre molda a alma da cidade e assim continua a ser é o rio, ou antes a Ría de Bilbao, como é chamada a confluência dos rios Nervion e Ibaizábal, dois pequenos rios, 72 e 42 Km respectivamente de comprimento que descem das montanhas para se abraçar e dividir ao meio a cidade até desaguarem no Golfo da Biscaia... 


"Ría de Bilbao" - Jean-Charles Forgeronne

E claro, torna-se obrigatório até porque é irresistível o apelo de percorrer o amplo passeio ribeirinho da Ría de Bilbao e se faltassem motivos para tal bastaria pensar que à sua beira ancorou não só o Guggenheim mas também o Mercado de La Ribera, um símbolo da Art Déco e um dos maiores mercados cobertos de toda a Europa com 10000 metros quadrados de área, onde tudo se pode encontrar, especialmente os famosos pintxos (por ali não se fala em tapas que isso é castelhano), e para a digestão das iguarias bascas nada melhor do que passear a pé e sem pressa à beira da ria...

"La Ribera" - Jean-Charles Forgeronne

Aqui no centro da cidade não transparece que Bilbau é a capital da indústria basca, com um dos maiores portos comerciais de toda a Espanha, talvez porque a nossa atenção é canalizada para tanta outra coisa a descobrir, sejam as ruelas do Casco Viejo e outras praças históricas, a catedral, a colina de Artxanda e o seu funicular, o San Mamés, casa do orgulhoso Athletic, ou a curiosa ponte suspensa da Biscaia...   

"Artes"- Bilbau - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)