SÉTIMO INCIDENTE TRANSFRONTEIRIÇO
ARTE DENTRO, ARTE FORA
Estávamos no alto do Monte Artxanda ainda a recuperar o fôlego após a íngreme subida de funicular (impossível não pensar na recente tragédia do Elevador da Glória) quando recebi a mensagem: o Guggenheim informava-me que devido a uma greve que estava agendada para o dia seguinte poderia haver constrangimentos na entrada do museu ou mesmo não ser garantido o acesso ao mesmo, no entanto, para minorar o incómodo dispunham-se a reembolsar ou a facilitar o reagendamento da visita para uma data futura, e eu que tinha chegado a Bilbau tranquilo e sereno com dois ingressos comprados seis meses antes via agora o chão e o museu lá em baixo fugirem-me debaixo dos pés!
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| "Bilbau vista do Artxanda" - Jean-Charles Forgeronne |
Após sonoro palavrão que afastou dois ou três pássaros com ar de frequentadores assíduos do parque informo a N. da má notícia e à sua reacção -"Oh! Que pena! E agora?" respondo tentando disfarçar a irritação -"Olha, vamos visitar o museu na mesma, só que por fora, também é interessante e além disso existem umas esculturas famosas à volta que vale a pena ver...". Mas claro que não seria a mesma coisa, mas que fazer? E para enegrecer ainda mais o cenário teríamos que seguir viagem em direcção a Santander o mais tarde depois de almoço, não dava mesmo para adiar a visita, havia que seguir o plano e havia alojamento reservado bem longe dali...
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| "Máman" - Jean-Charles Forgeronne |
Este era mais do que outro comum azar de viajante, era mesmo um azar do caraças, bilhetes no bolso há meses e expectativa de visitar um dos museus mais famosos do mundo e agora nada, ali estava ele em baixo, belo e apelativo escondendo-se debaixo de uma poeira de neblina descida das montanhas cantábricas e enquanto o mirava só pensava nos milhares de quilómetros feitos para o visitar e na catastrófica possibilidade de afinal nunca o vir a conhecer por dentro, tudo por culpa de uma estúpida greve... As greves nunca são estúpidas, eu próprio nunca faltei a uma greve, mas aquela, naquele momento, era para mim a greve mais estúpida do mundo!
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| "Puppy" - Jean-Charles Forgeonne |
Descemos então do monte um pouco angustiados e lá fomos passear em volta do Museu, cruzámo-nos com as "Sirgueras" de Dora Salazar, pusemo-nos debaixo da Mamán, a aranha de 9 metros de altura de Louise Bourgeois, fizemos uma festa ao Puppy, o florido cão gigante de Jeff Koons e tentamos decifrar os reflexos nas esferas da obra de Anish Kapoor, "El Gran árbol y el Ojo", e só isso valeu a viagem...
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| "El Gran árbol y el ojo" - Jean-Charles Forgeronne |
E foi então que ao nos cruzarmos com um grupo de visitantes saído do museu me ocorreu uma ideia que automaticamente me saiu boca fora: "Espera lá, porque não pensei nisto antes? Ainda falta uma hora para o museu fechar, e se nos deixassem entrar ainda hoje?"... E assim foi, nem foi preciso justificar com a partida do dia seguinte nem pelo facto de sermos portugueses e termos feito milhares de quilómetros para ali vir, bastou mostrar a mensagem ao simpático recepcionista e ele lá trocou a data dos ingressos para aquele instante, e lá fomos, afinal estivemos dentro do Guggenheim, embora sinceramente tenha valido mais pela arquitectura do edifício que só por si é uma monumental obra de arte do que pelas exposições pois as os obras de que gostei mais foram mesmo aquelas que estão lá fora...
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| "Sirgueras" - Jean-Charles Forgeronne |
João Plástico
(Artista de Valmedo)





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