quinta-feira, 12 de março de 2026

 
A NATURAL LEVEZA DA VIDA

Com a sua partida a vida fica mais pesada, lembro as suas vindas ao "Livros a Oeste" durante anos seguidos, a noite em que participava era obrigatória para mim, bola vermelha na agenda e se fosse necessário lá trocava eu a escala de serviço para poder estar presente porque quaisquer que fossem os outros participantes na conversa sobre livros e sobre a vida ele era garantia de histórias e curiosidades incríveis, o homem, como alguém disse hoje, era um museu ambulante, memórias e mais memórias, conhecimento e experiência, tudo regado com um sentido de humor desarmante que levava a plateia às gargalhadas e um perene sorriso desconcertante, mesmo quando o assunto era demasiado sério...  
Do Mário Zambujal "oficial" sabe-se a sua mestria enquanto jornalista, escritor e, acima de tudo, conversador, um observador peculiar do mundo e da sociedade com um saber estar por vezes desalinhado que o tornou uma figura incontornável da cultura lusitana, especialmente depois da publicação da "Crónica dos Bons Malandros" em 1980, e da qual disse o insuspeito Fernando Namora"Eis um livro ágil, hábil, matreiro, povoado de enleadoras surpresas - uma lufada de despretensão, quer na escrita, quer no recheio."    

Quanto ao Mário Zambujal "pessoal", desse dizem os amigos e quem privou com ele coisas boas, da sua simplicidade e autenticidade, alguém disse que até a cumprimentar era ele mais vagaroso e atencioso (ou não fosse um alentejano de gema e um bom malandro para troca de galhardetes), um homem que prezava o convívio entre as pessoas, a proximidade ao outro, desde a conversa na tasca ao simpósio mais ilustre mas que abominava a pressão do tempo e das redes sociais, essa coisa maléfica que põe as gentes em contacto imediato mas que acaba por as afastar... Falei com ele uma única vez, eu de braço estendido com um livro para autografar e ele, de caneta na mão e com um sorriso enorme como se eu lhe fosse um velho conhecido da sua infância em Moura... Obrigado, Mário, por me avisar que a vida é melhor quando levada com leveza e com um sorriso...

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

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