domingo, 28 de setembro de 2025

 
OCCIDENTALIS PROFUNDIS... - I

NO SÍTIO CERTO À HORA MÁGICA...

Poderia parecer uma cerimónia celta de exaltação da energia cósmica, de culto aos deuses e de veneração da natureza mas não, foi apenas uma hora que se revelou mágica em pleno bosque do planalto... Desafiados pelo incansável João Leirão, eu e o meu camarada Andarilho tínhamo-nos reunido aos outros peregrinos junto aos lavadouros do Moledo e depois de uma pequena caminhada lá chegamos ao templo que se revelava esplendoroso pois Chronos, o deus do tempo, apesar das previsões malignas oriundas dos satélites havia interferido e aquele final de dia revelava-se belo, o vento ausentara-se e os raios de sol estendiam-se sobre a caruma, e era ali, à sombra das árvores sagradas que nos aguardava o druida... 

"Gladkyy, o druida" - Jean-Charles Forgeronne

Sérgio Gladkyy, jovem músico português e membro do Ensemble Orquestral da Beira Interior, era o druida e escondia no seu pote uma poção mágica capaz de nos ligar ao maravilhoso e aos deuses: um acordeão! Para além de apresentar obras de Tchaikovski e Gubaidulina começou com a "Toccata e fuga em ré menor" de Bach, e podem crer, fiquei embasbacado, não fazia a menor ideia de que se poderiam extrair de um acordeão sons tão sublimes! É certo que Gladkyy já venceu alguns dos mais prestigiados concursos nacionais e internacionais e que possui um reportório versátil, incluindo obras originais, mas a genialidade da sua missa foi tal que pensei admitir, tal como com Bach, que tenha tenha recebido o toque dos deuses... 

"No bosque sagrado..."-Jean-Charles Forgeronne

A seguir, atentamente...
                                                                                                                    Sergio Gadkyy

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

terça-feira, 23 de setembro de 2025

domingo, 14 de setembro de 2025

 
ESCRITO NA PAREDE - XLVI

UM OLHAR MAU E TORTO


A palavra inveja deriva do latim invidia que significa olhar torto ou lançar mau-olhado... O tratamento consiste em não ostentar, evitar ser visto!


João Portugal
(Linguísta de Valmedo)

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXII

LAPAS SOBRE LAPAS

"Lapas" - Jean-Charles Forgeronne
Pode soar a lapalissada mas só para quem conhece, quem não souber que a povoação foi erigida sobre extensas galerias de grutas é que pode não achar óbvio terem-lhe dado o nome de LAPAS... E também pode acontecer, como já testemunhei, que haja quem desconheça o significado abrangente de lapa, pois bem, e excluindo a vertente zoológica que nos levaria aos apreciados moluscos, para esses aqui fica a definição segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa: "grande pedra ou laje que, ressaltando de um rochedo, forma abrigo; denominação dada a cavidades ou grutas que aparecem nas encostas das rochas". Ora bem, a antiquíssima aldeia de LAPAS, encostada à sede do concelho, Torres Novas, tem o seu casario espraiado pela margem esquerda do rio Almonda e aqui entra a primeira curiosidade: o Almonda, embora pequeno na sua extensão, apenas 30 quilómetros desde uma encosta da Serra de Aire até ao Tejo, é o rio com o maior caudal na nascente em toda a Europa!



"Olhos cavernosos" - Jean-Charles Forgeronne

E o rio Almonda é também o grande responsável pela segunda curiosidade e que é, claro, a de estarmos perante uma aldeia secular edificada sobre um labiríntico complexo de grutas com mais de 400 metros de extensão! As Grutas de Lapas, à semelhança de outras da região, foram sendo escavadas desde há cerca de dois milhões de anos em tufos calcários associados aos terraços fluviais do rio... A antiguidade do cenário é atestada pela descoberta feita em 1935, a apenas duas centenas de metros da entrada das grutas, de uma necrópole pré-histórica datada do IV milénio a.C, tendo aí sido recolhidos, entre outros artefactos, pedra lascada, pedra polida e cerâmica!

"Labirinto" - Jean-Charles Forgeronne

A origem e a utilização das grutas, embora continuem envoltas em mistério, deram origem a várias teorias e há quem afirme que foram primeiramente um abrigo dos povos pré-históricos, outros dizem que os cristãos primitivos aí se refugiavam durante a ocupação romana e há até quem ateste que também os mouros por ali andaram... Consensual é a sua utilização como importante pedreira já que o tufo calcário, devido à sua porosidade e à facilidade com que era cortado e trabalhado, foi utilizado na região e desde a era romana até meados do século XX na construção civil, como atesta a sua utilização na vila romana de Cardilium, na muralha fernandina do castelo de Torres Novas e em muitas casas de habitação e muros por aqui espalhados...  

"Mortos por cima dos vivos" - Jean-Charles Forgeronne

E claro, estando o casario velho da aldeia de Lapas construído sobre as grutas, em qualquer obra ou escavação que se faça lá se encontra mais um anexo subterrâneo, não admira pois que muitos moradores tenham aproveitado a "sua" parte de gruta para guardar o gado ou até como adega... E de facto é como disse em 1745 Luís Montês Matoso e se lê logo à entrada: por ali "andão os mortos por sima dos vivos"; é que mesmo por cima, e é literalmente por cima da entrada da gruta, estão casas anexas à igreja e ao cemitério... E foi mesmo por essa entrada, e esta é a terceira curiosidade, que no dia 28 de Dezembro de 1968 ali entrou Zeca Afonso para dar um concerto clandestino, consta que a gruta não chegou para tanto visitante mas o certo é que não se encontraria melhor refúgio, os maus lá por cima e os outros por baixo... 

João Parte-Pedra
(Geólogo de Valmedo)

sábado, 16 de agosto de 2025

 
E COMO VER O MUNDO-CÃO SEM CAPAS?

Reconheço, pode não passar de uma mania como outra qualquer mas geralmente e quando a normalidade dos dias assim o permite, uma das primeiras coisas que faço quando acordo ou quando a insónia me ataca é navegar pelas capas dos jornais que os sítios internéticos vão disponibilizando, infelizmente quase sempre a conta-gotas... Não sei quantas vezes foi através de uma capa de jornal e ao acordar que fui confrontado com um acontecimento extraordinário que ocorrera enquanto estava prisioneiro dos braços de Hipnos, mas a sensação que me assalta ao desvendar as primeiras capas do dia é a mesma que teria se estivesse estado fechado na escuridão durante uma noite inteira e então abrisse uma janela para a luz do mundo-cão, para a realidade... 


"A última i"

Posso até não aprofundar muitas das chamadas de atenção de uma capa mas também já me aconteceu ir comprar o jornal porque algo me interessou deveras, pode ser uma capa normal sem grande impacto mas também pode ser uma capa que é uma autêntica obra de arte, uma capa de jornal (ou revista), para além de seduzir o leitor para a compra da publicação pode moldar opiniões, influenciar pensamentos, criar discussões e por vezes algumas tornam-se até inestimáveis testemunhos históricos...  
E agora o mundo das capas está muito mais pobre, desapareceu o i, um reflexo afinal da crise que infesta o jornalismo, melhor, o verdadeiro jornalismo, porque o outro "jornalismo", o de plástico, ao serviço de interesses económicos e políticos, esse vai de vento em pompa com notícias cada vez mais plastificadas...
Obrigado i, pelas notícias e pelas capas... 

João Cacha
(Jornalista de Valmedo)

sexta-feira, 15 de agosto de 2025


INCRÍVEL HENDRIX, INCRÍVEL ALMADENSE 

De facto, o que é incrível é só agora eu ter conhecido o INCRÍVEL ALMADENSE! E imagino o desperdício, tantas devem ter sido as suas gloriosas noites que perdi, mas enfim, nem vale a pena tentar encontrar razões para tanto desencontro mas um dia haveria de acontecer e como se diz por aí acertadamente mais vale tarde do que nunca... Em boa hora chegou o desafio do amigo Andarilho, também ele com ganas de conhecer o mítico espaço e depois de bem aconchegados pelo "Velho Kurica" lá fomos à aventura que nem leões...

"Incrível Almadense" - Jean-Charles Forgeronne

O CINE INCRÍVEL, na zona velha de Almada, tem uma história de 100 anos de existência, foi inaugurado em 1925 e fica situado mesmo ao lado do edifício da sua proprietária, a Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, esta fundada em 1848! A icónica sala de espectáculos começou por albergar peças de teatro, depois também cinema e mais tarde concertos de música, tendo por lá passado nos anos 80 muito boa gente dos primórdios do rock português, como os Xutos&Pontapés e os UHF... Talvez por isso ficou conhecido desde então para muita gente como o Rock Rendez-vous da margem sul...

"Memorabilia" - Jean-Charles Forgeronne

Espaço incontornável da cultura de Almada e da margem sul, o CINE INCRÍVEL tem tido uma existência conturbada, chegou a encerrar portas e a entrar em lastimável estado de abandono mas valeu-lhe a intervenção da Associação Alma Danada que em 2012 o salvou do desastre ao assumir a sua gestão... E hoje, apesar de alguns contratempos, ali acontecem inúmeros concertos, desde bandas de garagem a nomes consagrados da música portuguesa, desde sessões semanais de jazz a bandas de tributo, muito se passa por ali, felizmente... 

"Hendrix reencarnado" - Jean-Charles Forgeronne

E por ali passou há dias o Jimmy Hendrix, com mestria bem reencarnado na guitarra de Tiago Maia e muito bem secundado por Ricardo Dikk no baixo e Rui Reis na bateria, e depois de um belo serão é inevitável um regresso para breve, afinal o Incrível merece muitas mais visitas...

"Almada Velha" - Jean-Charles Forgeronne

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

 
UMA VOLTINHA POR... - IV

"Chafariz das Cinco Bicas" - Jean-Charles Forgeronne

... Caldas da Rainha! Ou melhor, pela zona histórica das Caldas... É um pequeno mas muito rico passeio e que começa junto ao Chafariz das Cinco Bicas, datado de 1749 e o mais imponente dos três chafarizes mandados construir por D. João V para abastecimento de água à população... E porque estamos a falar de água numa terra de artes, mesmo atrás do chafariz, na área hospitalar mas de acesso público, encontra-se o "Jardim da Água", obra do ilustre ceramista Ferreira da Silva, merecedora duma visita... Desce-se um pouco, meia dúzia de passos e já é possível contemplar a icónica Praça da Fruta, desde o século XV um dos mais famosos mercados de rua de Portugal, com os seus toldos coloridos e bancas recheadas com a melhor fruta e os melhores legumes que se podem encontrar... Toda a gente ali desemboca, sejam os caldenses clientes diários ou forasteiros que vão de passagem para o trabalho ou turistas, consta até que excursões da terceira idade têm como ponto de paragem obrigatório este mercado de uma singular atmosfera...


"Praça da Fruta" - Jean-Charles Forgeronne

Depois de passar pelo mercado, se estiver num dia de sorte, pode em qualquer travessa ou esquina ser surpreendido ao cruzar-se com um dos pavões que habitam o Parque D. Carlos e que têm como passatempo preferido um passeio matinal pelas redondezas...

"Passeio matinal" - Jean-Charles Forgeronne

Ou então também pode ser surpreendido por uma chuva de chapéus coloridos, parece que é moda, há-os agora por todo o lado de norte a sul, mas estes aqui das Caldas, como não poderia deixar de ser, são diferentes, se olhar com atenção irá reparar que todos aqueles chapéus são machos, todos eles têm o seu caralhinho pendurado...

"Caralhinhos pendurados" - Jean-Charles Forgeronne

Depois da irreverência artística deixada para trás é inevitável não dar por si onde a história desta cidade começou, em pleno largo do Hospital Termal, considerado o hospital termal mais antigo do mundo, mandado construir pela Rainha D. Leonor em 1485... Não esqueça de contornar o edifício do hospital e contemplar a belíssima Capela da Nossa Senhora do Pópulo, se tiver sorte de a encontrar aberta não hesite, entre e deixe-se relaxar, irá encontrar alguma paz espiritual e vigor para o resto da jornada...   

"Nossa Senhora do Pópulo" - Jean-Charles Forgeronne

E agora que o calor aperta é hora de passear ou simplesmente descansar nas sombras do Parque D. Carlos, ou então se para aí estiver desperto ainda pode visitar o Museu José Malhoa, e a visita, garanto-lhe, vai valer a pena...

"Parque D. Carlos" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)