CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXIV
APRISIONADOS NA ILHA NEGRA
Não fosse a fajã lávica na zona sul da ilha e o Corvo seria inacessível, não passaria, nas palavras do escritor-viajante, de um "grande rochedo a pique" cuspido das profundezas do oceano... As costas norte e oeste são demasiado íngremes e ventosas, não permitindo a fixação de gente nem a prática da agricultura, já a costa leste permite semear qualquer coisita mas não tem acesso ao mar, daí ter sido na costa sul que se estabeleceram os primeiros colonizadores, concentrados numa única povoação...
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| "Chegada ao Corvo" - Jean-CharlesForgeronne |
Ainda hoje, passados séculos após a colonização da ilha negra, continua a existir apenas uma localidade em toda a ilha, Vila do Corvo, desde sempre aninhada sobre a falésia que se encosta à baía do Porto da Casa... Uma ilha, uma terra... Hoje, como outrora, Vila do Corvo continua a abrigar todos os habitantes da ilha, cerca de 400, e isso só é possível devido à sua grande densidade habitacional assente num emaranhado de pequenas ruelas, estrutura que foi determinada, desde o início, por duas necessidades prementes dos corvinos: a busca de abrigo para os ventos inclementes e uma fácil entreajuda e protecção contra os ataques dos corsários!
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| "A vila" - Jean-Charles Forgeronne |
Desde o povoamento da ilha os corvinos viviam em reclusão,como se fossem condenados em cela solitária, praticamente sem contactos com o exterior; segundo relatos de 1580 não existia qualquer embarcação na ilha para evitar a fuga dos escravos que faziam parte do contingente de colonizadores, os barcos mais próximos estavam nas Flores e quando havia alguma necessidade eram a eles que se pedia socorro acendendo fogueiras nas pontas da ilha... Curiosamente, também não existiam cães, gatos, coelhos, ratos ou furões! Os cães não eram permitidos para protecção das ovelhas, os gatos eram proibidos porque não haviam ratos e para evitar que assim comessem pássaros, os coelhos eram indesejados para evitar a caça e assim proteger outras fontes de sustento, os ratos eram considerados uma ameaça porque não haviam gatos e além disso porque eram fonte de pestes, aliás eram na altura uma praga nas Flores, e furões também não poderia haver para protecção dos galináceos... Por exemplo, todas as embarcações que aportavam à ilha, mesmo aquelas oriundas das Flores e que demandavam a ilha em missão de socorro eram fiscalizadas por alguém que tinha as funções de "visitador dos ratos"...
João Palmilha
(Viajante de Valmedo)



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