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| "A janela das janelas", Tomar - Jean-Charles Forgeronne |
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
UMA VOLTINHA POR... - XI
...Tomar templário... Começa-se a voltinha na margem esquerda do Nabão, junto da Igreja de Santa Maria do Olival, belíssimo templo mandado erigir por Gualdim Pais por volta de 1160 e que se viria a tornar panteão dos Mestres da Ordem... E sim, existem oliveiras por ali ao redor do templo e que, por sinal divino com certeza, ainda dão azeitona... E claro, dali, desde a torre, apontando o olhar para oeste só se poderia ver a magnificente silhueta do castelo templário lá no alto, o nosso destino final...
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| "Santa Maria do Olival" - Jean-Charles Forgeronne |
Mas para chegar ao destino é necessário que atravessemos a ponte para a outra margem do rio e duas centenas de metros lentamente percorridas entramos no imenso largo onde impera o Convento de São Francisco, e aí, se houver tempo e interesse, é obrigatória uma visita ao Museu dos Fósforos, provavelmente a maior colecção de caixas de fósforos do mundo...! Seguimos depois para a entrada da Mata dos Sete Montes e aí só há uma opção: subir até ao castelo por entre frondosas árvores de estimação...
E depois, lá em cima, recuperando o fôlego e castelo à beira, é imperioso visitar o Convento de Cristo, obviamente fundado por Gualdim Pais em 1160 e que hoje é Património Mundial da Humanidade... Um monumento deslumbrante e que tem muito mais para descobrir para além da janela mais famosa de Portugal e arredores...
(Viajante de Valmedo)
UMA VOLTINHA POR... - X
...Tomar... O centro histórico de Tomar merece não uma mas várias visitas ao longo do dia, só assim será possível captar os diversos cambiantes de luz incidindo sobre os edifícios centenários, as impressões da atmosfera e os sentimentos que o cenário natural desperta, à boa maneira do que Monet fez com a catedral de Rouen e com os nenúfares do seu lago... Não há só um Tomar, há vários Tomares, e que bom é poder descobri-los a todos...
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| "A Corredoura ao lusco-fusco" - Jean-Charles Forgeronne |
Deixámos o Nabão atrás das costas e percorremos lentamente a Rua Serpa Pinto, popularmente conhecida como a "Corredoura", via que os Cavaleiros Templários corriam de alto a baixo treinando tácticas de combate e que, missão cumprida, os levava depois até casa, o castelo lá em cima... A luz do entardecer espelhada nas vidraças e no pavimento transportam-nos a outra dimensão e, se fecharmos os olhos, quase ouvimos os cavalos em debandada...
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| "Igreja de São João Baptista, Tomar"- Jean-Charles Forgeronne |
Num breve passeio que nos transporta muitos séculos atrás chegámos depois à Praça da República, o coração do Tomar medieval, de um lado a Igreja de São João Baptista e do outro os Paços do Concelho e a estátua de Gualdim Pais, o fundador da cidade e Grão-Mestre da Ordem... Depois podemos sempre perdermo-nos pelas inúmeras ruelas e becos que ainda preservam o ambiente de antanho, até visitar a sinagoga da cidade, a mais antiga existente no país...
(Viajante de Valmedo)
FOTOBIOGRAFIA DE UM RIO - VIII
QUANDO OS RIOS FECHAM PARA OBRAS...
Saio da cidade subindo bem em direcção à Sabacheira para depois, num frenesim de curvas e contracurvas, me aventurar numa perigosa descida às profundezas desta danada orografia, operação nada fácil e cansativa devido ao abrasador calor que se faz sentir mas só a ideia de uns mergulhos nas prometidas águas frescas e límpidas resgata-me um sorriso e devolve-me a esperança, "o dia ainda se irá compor", digo de mim para comigo...
Carro estacionado a custo, de tralha às costas percorro a pé a centena e meia de metros e esperava eu, depois de atravessada a ponte encarar com a prometida e maravilhosa Praia Fluvial do Agroal mas o cenário com que me deparo é o de um autêntico estaleiro de obras, máquinas no leito do rio e funcionários em plena laboração, piscinas secas e um rio de pedra porque a água foi aprisionada ou desviada algures, café encerrado e apenas uns curiosos a analisar a marcha das obras...
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| "O Nabão em obras..." - Jean-Charles Forgeronne |
O rio Nabão nasce no concelho de Ansião, num sítio que não se poderia chamar senão Olhos de Água e até desaguar no Zêzere após um percurso de 63 quilómetros é alimentado por várias nascentes, como é o caso desta do Agroal, situada a 10 Km da cidade templária... Regresso a Tomar matutando num plano alternativo para preencher o resto da tarde e aí o cenário de obras mantém-se, máquinas a retirar terras, entulho e areias do leito do rio, parece que ele já não corria como deve ser há muito e era imperioso fazer-lhe esta limpeza, qual cateterismo, para lhe devolver fluxo e vida...
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| "A Ponte Velha... seca!" - Jean-Charles Forgeronne |
Certamente que melhores dias virão para o visitante que demanda Tomar e arredores, aliás penso regressar entretanto para desfrutar do renovado Nabão, mas ainda assim hoje é possível descobrir recantos à beira-rio que mantêm o seu esplendor...
João Palmilha
(Viajante de Valmedo)
terça-feira, 22 de setembro de 2026
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
LIVROS 5 ESTRELAS - XLIV
DIREITO DE PERNADA
Sobre "O preço da borrega", o segundo livro de Galopim de Carvalho editado em 1995, disse Natália Correia ao ler o manuscrito ser um tratado de "etnografia ficcional" e tinha a ambição de o levar para o cinema mas a morte não a deixou, para pena do autor... Apesar de descrever a vida no campo, os objectos, as alfaias e os ofícios como se fosse um etnógrafo, Galopim diz que o livro é muito poético para além de dramático, afinal aborda a vivência das pessoas num meio rural alentejano nas décadas de 40 e 50 do século passado e onde ainda pairava a medieval tradição do "direito de pernada" em que o senhor da terra tinha o direito à primeira noite da noiva de outro homem...
É um livro obrigatório para quem, como eu, nasceu e cresceu em meio rural, embora no Ribatejo e décadas mais tarde, mas a sociedade e a alma das gentes estão lá bem explanadas, e muitas memórias do autor coincidem perfeitamente com as minhas experiências de menino e adolescente... Muito mais do que pelo estilo literário este pequeno livro vale sobretudo pelo seu conteúdo.
João Vírgula
(Leitor de Valmedo)
NÃO HÁ CONVERSAS QUE CHEGUEM...
Há vidas tão cheias de histórias, peripécias e acontecimentos que não cabem numa entrevista, numa conversa por mais longa que seja, num livro até, por isso António Galopim de Carvalho, o professor, já leva mais de trinta livros publicados e para além das obras que versam sobre temas científicos muitos deles são de ficção e vão desde romance a ensaio, de memórias à culinária... E hoje, com 95 anos, parece não querer parar, disse-o há um par de semanas que se levanta todos os dias antes das galinhas, pelas quatro da madrugada, cheio de ideias e vontade de escrever, seja no computador seja no facebook, plataforma que considera a sua janela para o mundo e onde tem mais de 50 000 fiéis seguidores ávidos pela sua partilha de histórias e memórias, não admira pois ter sido distinguido com o Prémio Envelhecimento Activo em 2017, e já lá vai quase uma década e a actividade não parou...
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| "Galopim no Espaço Ciência", 2016 - Jean-Charles Forgeronne |
Em 2021, numa entrevista ao Público pela altura do seu nonagésimo aniversário, revelou porque começou a escrever, tarde, sentiu esse apelo em 1991 ou 1992 ao ler um livro de Zélia Gattai, "Anarquistas (Graças a Deus)" e que relata as vivências dos imigrantes italianos em São Paulo, histórias giríssimas, diz ele, e então pensou que também poderia escrever sobre tantas histórias antigas da sua meninice e adolescência, de tantas memórias de uma vida bem preenchida, e ainda bem que o decidiu fazer... Além disso, o professor catedrático jubilado Galopim de Carvalho continua a desenvolver acções de divulgação, defesa e valorização do património geológico e paleontológico nacional... E que deleite foi estar com ele há pouco no Espaço Ciência da Festa, foi um privilégio conviver com um comunicador por excelência e um gerador de afectos...
João Parte-Pedra
(Geólogo de Valmedo)
O AVÔ DINOSSAURO
Um dia chamaram-lhe "O Pai dos Dinossauros", epíteto que pegou de imediato, mas hoje do alto dos seus 95 anos de idade prefere ser conhecido como o "O Avô dos Dinossauros", embora teime sempre em dizer que a sua especialidade não são os dinossauros, o Professor Galopim de Carvalho é e sempre foi geólogo... Os dinossauros atravessaram-se no seu caminho quase por acaso corria o ano de 1986, era ele director da secção de Geologia do Museu Nacional de História Natural quando dois alunos seus descobriram as pegadas de Carenque e iniciou então uma luta feroz para sensibilizar os políticos, a comunicação social e a população em geral para a importância de preservar o achado.
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| "Histórias da vida do Galopim, pelo próprio", Espaço Ciência, Avante, Setembro 2026 - Jean-Charles Forgeronne |
Mais tarde, em 1992 e como forma de reabilitar o Museu de História Natural que tinha ardido quase por completo em 1978 e onde se tinham perdido mais de 70% das suas coleccões, aproveitando a febre dos dinossauros que se vivia então o professor Galopim esteve na organização da famosa exposição de dinossauros robotizados que viria a tornar-se um estrondoso sucesso ao atrair mais de 360 mil visitantes e provocando um monumental pandemónio no trânsito de Lisboa com filas intermináveis...
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| "Fila para a Exposição 1992" - Foto: "Público, 11 Agosto 2021" |
Mais tarde, em 1994, o geólogo activista da causa dos dinossauros ainda se envolveria na luta pela preservação das pegadas de dinossauro da Pedreira do Galinha, na Serra de Aire... Diz ele, com a humildade que lhe é reconhecida, que nunca foi especialista em dinossauros mas aceita o louvor de ter conseguido que muitos alunos tivessem a possibilidade de estudar dinossauros e a ter bolsas de estudo; foi graças à sua teimosia de alentejano e à sua luta que passou a haver no país projectos de investigação em paleontologia, até então inexistentes, por isso obrigado, professor..
João Parte-Pedra
(Geólogo de Valmedo)
sábado, 12 de setembro de 2026
domingo, 23 de agosto de 2026
A SURPRESA DESTE VERÃO
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| "Ao sol do Oeste" - Jean-Charles Forgeronne |
Ao primeiro e impactante encontro com estas aves de majestoso bico longo e curvo pensei tratarem-se de garças mas depois uma publicação da associação ambiental Lourambi esclareceu-me: trata-se da Íbis Preta, de nome científico Plegadis falcinellus, uma ave de médio porte com uma altura de meio metro e uma envergadura de asas à volta de um metro e cujos habitats são locais húmidos como margens de rios, paius, lagoas e outros, desde que a água seja pouco profunda e haja vegetação aquática...
Curioso é o facto de apesar de se chamar Íbis Preta (ou Negra) esta ave, vista ao perto e sob a incidência dos raios solares, reflectir lindíssimos tons de verde, azul e violeta; quanto à sua alimentação ela consta de peixes, rãs e outros animais aquáticos e também, por vezes, de insectos... É uma espécie migratória, rara em Portugal mas que nos últimos anos tem sido avistada com mais frequência e se esta colónia que foi avistada pela primeira vez pelas bandas da Lourinhã veio para ficar ou não há que esperar, quem sabe se constroem ninhos naqueles plátanos onde hoje pernoitam e desatam a pôr ovos, seria bom sinal, por aqui ficariam, nesta terra amena e tranquila...
João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
terça-feira, 4 de agosto de 2026
LENDAS E NARRATIVAS - XXIX
A TRAGÉDIA DUMA MORTE ESTÚPIDA
A estranha morte de Ésquilo, o famoso autor de tragédias gregas, para uns não passará de uma lenda mas para outros constituirá um acontecimento histórico credível muito por culpa de Plínio, o Velho, o também famoso naturalista e escritor romano que descreveu a curiosa ocorrência na sua gigantesca obra "História Natural", uma autêntica enciclopédia do conhecimento... Assim, segundo Plínio, andando Ésquilo pela Sicília gozando já em idade de reforma a sua fama de grande dramaturgo, uma águia que tinha capturado uma tartaruga andava em voos circulares pelos ares com o réptil recolhido na sua couraça entre as garras e com uma estratégia em mente: quebrar a carapaça da presa deixando-a cair lá do alto sobre uma rocha e assim bicar o petisco... E assim fez, só que aquilo que lhe pareceu ser uma rocha era a cabeça careca e brilhante de Ésquilo, o qual não resistiu à terrível pancada!
O irónico da história é que Ésquilo evitava estar por casa e andava o mais que podia pela natureza porque queria fugir ao seu destino, é que tempos antes tinha-lhe sido dito numa profecia que o tecto de uma casa lhe cairia sobre a cabeça, nada mais certo então, acabou morto pela casa de uma tartaruga! Ele que foi mestre em criar tragédias, obras em verso em que figuram ilustres personagens e que geralmente acabam com uma morte, talvez nunca tivesse sonhado que a sua própria morte seria digna de uma tragédia surreal...
Mas passados séculos também Plínio acabou os seus dias de forma trágica e irónica, vitima da sua curiosidade infindável e enquanto não só liderava uma missão de salvamento mas também enquanto investigava o fenómeno, acabou por morrer devido à inalação de cinzas e de gases vulcânicos libertados pela erupção do vulcão Vesúvio no ano 79 d.C...
João Alembradura
(Historiador de Valmedo)
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
A MISTERIOSA ORIGEM DAS PALAVRAS - XXV
A TRAGÉDIA DE ÉSQUILO E DO ESQUILO
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| Foto: Milvoz |
Quanto ao nome Ésquilo ele tem origem no grego aiskhúlos, por sua vez um diminutivo de aiskhos e que significa "vergonha"; assim, o grande dramaturgo era conhecido como o tímido, o envergonhadito... Mas para além do nome muito parecido há uma outra coisa que aproxima o poeta e o mamífero, a tragédia: no caso do primeiro, a quem foram atribuídas mais de sessenta obras, apenas sete (!) se conservaram, quanto ao segundo, especialistas colocam-no na lista de espécies em extinção a curto prazo, o que aliás não seria novidade pois o "Sciurus vulgaris", o esquilo vermelho que vemos por aí, já esteve extinto em Portugal desde o século XVI até cerca de 1990 devido ao corte de árvores e perda de florestas...
João Portugal
(Linguísta de Valmedo)
OBRAS DE ARTE NATURAL - II
A ARTE DO ESQUILO ARISTÓTELES
Ali, no antigamente designado Pinhal da Câmara e que hoje na sua parte sul alberga o Dino Parque da Lourinhã, vive há meia dúzia de anos por entre dinossauros e criaturas ancestrais um esquilo já velhote chamado Aristóteles mais a sua segunda companheira de vida, a esquila Herpília... O esquilo Aristóteles, permitam-me apresentá-lo, é um artista que dá asas à sua criatividade sempre que encontra o seu alimento preferido, qualquer pinha que encontre e onde finque os dentes se transforma numa obra de arte através de uma complexa urdidura de figurada filigrana...
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| "Obra em evolução" - Jean-Charles Forgeronne |
É sabido que o esquilo vermelho que habita os nossos bosques é omnívoro, alimenta-se do que a natureza lhe proporciona conforme as estações mas nutre uma especial preferência por pinhas e pinhões de pinheiro bravo, depois também gosta de avelãs, bolotas e outras sementes, não recusando em época de pouca abundância uns cogumelos, mesmo os venenosos para outras espécies, bagas, flores, rebentos e até insectos se outra coisa não houver... Mas a pinha é o que o faz feliz, e tanto assim é que a trata com carinho e apurada arte, como é o caso do nosso tímido amigo Aristóteles que dando azo à criatividade usa os seus dentes como incansáveis cinzéis e a obra, quando finalizada, é verdadeiramente digna de um exímio escultor...
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| "Obra acabada" - Jean-Charles Forgeronne |
João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)
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