sábado, 28 de março de 2026

 
UMA VOLTINHA POR... - VII

Vale dos Cucos... Assim chamou o povo a este vale verdejante, agora encravado entre a A8 e a Linha do Oeste, porque se acreditava que era ali que se ouvia o primeiro de todos os cucos a cantar no início da primavera... Mas o grande tesouro deste vale não é o primordial canto do cuco que não tive a sorte de ouvir na minha voltinha primaveril mas sim as suas águas quentes muito ricas em sais com cerca de 200 milhões de anos (!) e que outrora brotavam de várias nascentes na margem direita do rio Sizandro e cuja existência já era conhecida dos romanos...

"Estabelecimento Thermal e Hydrotherapico dos Cucos" - Jean-Charles Forgeronne

No séc. XVIII as águas quentes dos Cucos eram usadas com grande sucesso no tratamento de inúmeras maleitas desde sarnas e outras doenças de pele, caquexias, convulsões, paralisias, reumatismos  ou inchações de vária ordem, não surpreendendo que após estas qualidades serem reconhecidas pela medicina o local se tivesse tornado numa grande atracção para banhos populares, embora inicialmente numas poucas precárias barracas de madeira... 

"Fonte Termal" - Jean-Charles Forgeronne

Mas em 1892, a reboque da chegada da Linha do Oeste a Torres Vedras cinco anos antes, foi inaugurada a estância termal dos Cucos, um moderno estabelecimento à época e que fazia parte de um plano gigantesco de construção: 40 chalets, um hotel com 300 quartos, um hospital termal, um mercado, um casino... Ora bem, para além do Estabelecimento Balnear e Hidroterápico apenas foram construídas duas vivendas e o casino, este construído em 1896 e que esteve em funcionamento até meados do século XX... Consta que, para além dos banhos e tratamentos que providenciava, as termas também abasteciam Lisboa de muitos garrafões de 5 litros de água, vendidos na rua dos Fanqueiros...

"Vale dos Cucos" - Jean-Charles Forgeronne

Em 1996 as Termas encerraram, seria então uma coisa provisória já que até se projectava a construção de um novo balneário mas trinta anos passaram e as portas nunca mais se abriram, tantos banhos milagrosos desperdiçados... Mas vale bem a pena rumar aos Cucos, os edifícios, apesar de algum abandono, mantêm o seu charme e depois deambular por aquele vale idílico ou até fazer uma caminhada ou uma corridinha pelos trilhos à beira do Sizandro quase que faz tão bem à alma como os banhos de antigamente faziam ao corpo...

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

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