sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

 O CLUBE DE LEITURA CANINA

O J.C está sentado à minha frente e não tira aquele olhar fulminante de mim até eu, depois de ter ignorado quatro ou cinco ordens "Senta, James", finalmente me sentei, um pouco aborrecido porque não entendia porque é que era obrigado a sentar-me, primeiro não me apetecia tal coisa e depois não enxergava o objectivo mas, como sempre, havia uma explicação: - "Então, James, hoje é um dia especial para nós: vamos dar inicio à primeira sessão do nosso clube de leitura! Excelente ideia, não achas? Sempre que tivermos um tempinho disponível vamos ler uns livrinhos sobre aventuras com cães, vais adorar, tenho a certeza..." Como devem calcular, amigos caninos, fui apanhado de surpresa, não esperava esta coisa da leitura, não fazia ideia se iria gostar ou não, poderia ser interessante ou então uma grande seca mas só experimentando e depois poderia ser que houvesse uma recompensa no final de cada sessão...
E então o J.C. disse que tinha trazido dois livros de mistérios policiais, qual deles o melhor, de dois autores famosos e que para começar eu é que ia escolher o primeiro com que íamos inaugurar o nosso clube e pôs-me bem à frente do nariz como se eu fosse míope um livro de bonita capa amarela e preta dizendo: - Ora então, James, primeira opção: "Maigret e o cão amarelo", de um escritor belga chamado Georges Simenon e vou fazer-te uma breve apresentação: Maigret é um jovem comissário da Polícia de Rennes, uma cidade no norte da França, e é encarregue da investigação sobre uma série de crimes cometidos em circunstâncias muito misteriosas. Os crimes parecem insolúveis, o tempo vai passando com os polícias à nora e só  quando Maigret se apercebe do papel desempenhado por um certo cão amarelo, que farejara o cadáver de um mendigo assassinado numa noite de tempestade, é que o caso fica enfim resolvido. Promete, hein James
E eu assenti baixando a cabeça, de facto estava curioso em saber mais sobre aquele cão que ajudou a resolver o mistério...

- Mas espera, ainda falta ver o outro... - e mostrou-me um livro com uma capa colorida e que mostrava uma cadela de ar bem cuidado, também amarela como o outro - Chama-se "Resgate por um cão", é de Patricia Highsmith, uma escritora norte-americana e é uma intrigante história sobre "Lisa", uma caniche que pertencia a um casal bem instalado na vida e que desapareceu misteriosamente durante o seu habitual passeio nocturno. Pouco depois, os seus donos receberam quatro cartas anónimas exigindo um resgate e, ocupada com inúmeros casos, como poderia a Polícia de Nova Iorque encarar o rapto de um cão? 
E agora o J.C., de braços abertos e um livro em cada mão, olhava para mim com impaciência:
 - Então, qual vai ser? 

James
(Cão de Valmedo)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

MAS QUE LINDO É O MEU CÃO INVISÍVEL! 

Amigos caninos, nem sei bem como começar esta minha história e asseguro-vos que não é por falta de matéria, palavras ou imaginação, antes é por ainda me sentir em estado de choque...  Então não querem lá ver que que ontem assisti a uma cena que tem tanto de surreal como de chocante: ao demandar o meu sitiozinho de alívio para verter umas águas dou com o J.C. a passear um cão invisível! Sim, leram bem, amigos caninos, ali andava ele com a minha trela e a minha coleira de um lado para o outro e ainda por cima a falar sozinho, dizendo coisas incompreensíveis como "Vá lá James, calma! não é preciso correr!" ou então depois de assobiar "Pára, James! Vem lá um carro, está quieto!"... E foi então que levei as patas à cabeça, o homem enlouqueceu de vez! "E agora, que vai ser de mim?" - pensei logo a seguir a um calafrio... É que ainda por cima ele chamava James ao seu cão invisível, e comigo mesmo ali ao seu lado, eu tinha sido substituído!

"J.C. e o James invisível"

E foi então que num raro segundo de discernimento o J.C., parecendo voltar à realidade e liberto de um feitiço, me encara e diz:
- Olá bicheza! Que tal? Não te assustes, estou só a tentar perceber essa nova moda que veio da Alemanha chamada HOBBY DOGGING e que consiste passear por ruas e parques com uma trela e coleira mas sem cão! Dizem os praticantes desta coisa que que é uma actividade divertida e que é uma forma engraçada de socializar e praticar exercício. Bem, queres mesmo saber a minha opinião, James? Acho que isto não tem piada nenhuma e que é coisa de maluquinhos que não têm mais nada que fazer.... Esta sociedade está a ficar mesmo muito doente, é o que é!

"WTF?"

Amigos caninos, conseguem imaginar o meu alívio depois destas palavras do J.C., afinal parece que ele ainda não está louco mas não fico totalmente descansado em relação a isso, imaginem que estas ideias absurdas se começam a espalhar como os vírus e a coisa descamba numa epidemia? É que isto não é um fenómeno isolado, lembro-me de há uns tempos ele me ter falado com ar perplexo de outras manias que andam por aí como o HOBBY HORSING, ou seja praticar equitação com cavalos de pau, ou ainda o caso dos REBORN BABIES, bonecos realistas de bebés que substituem os filhos e que são tratados como tal! Sinceramente, amigos caninos, acho que o nosso mundo-cão está ameaçado e corre o perigo de ser substituído por um mundo de alienação virtual!

James
(Cão de Valmedo)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

"Volto já!" - Mário Belém, Marvila

 Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

 
ESCRITO NA PAREDE - L


Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026


A HISTÓRIA DE PAPEL E A HISTÓRIA VIVA - II 

TORDESILHAS, ONDE METADE DO MUNDO FOI PORTUGUÊS!

"Livro de História de Portugal"
Uma coisa é visionar um documentário ou ler num livro factos sobre determinado acontecimento histórico, neste caso sobre o famoso Tratado de Tordesilhas, e muitos são as enciclopédias, revistas e livros repletos de explicações e teorias detalhadas, fotografias, cronologias, infografias e ilustrações de grande qualidade e apelo visual mas, quero crer, nada se equipara a viver a História, estar onde tudo aconteceu e sentir por dentro o acontecimento com todos os sentidos despertos... Pois bem, quem chega a Tordesilhas depara-se com uma pequena e pacata vila em que, para além da sua pequena mas aprazível Plaza Mayor, uma das principais atracções é o Real Mosteiro de Santa Clara, ali à beirinha do Rio Douro e onde durante 46 (!) anos esteve enclausurada a Rainha Joana Ifilha dos Reis Católicos e mandada prender pelo próprio pai que alegou estar ela louca e incapaz de reinar, daí ter a infeliz criatura passado à História como Joana, a Louca... 



"Casas del Tratado", Tordesilhas - Jean-Charles Forgeronne

"Cópia doTratado" - Torre do Tombo
E ali bem encostadas ao mosteiro-prisão ficam as Casas del Tratado, um palácio humilde onde foi assinado em 1494 pelos Reis Católicos e pelos enviados de D. João II o Tratado que dividia ao meio o mundo que viesse a ser descoberto por espanhóis e portugueses... Hoje o palácio alberga o Posto de Turismo e o pequeno Museu do Tratado de Tordesilhas...
No Museu do Tratado de Tordesilhas, de entrada gratuita, pode ser vista uma réplica do histórico documento e curioso é o facto de o original castelhano se encontrar no Arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa, enquanto que o original português se encontra no Arquivo Geral das Índias, em Sevilha! E para apimentar a história do Tratado há muitos especialistas que salientam a hipótese de D. João aquando das negociações finais do acordo estar na posse de secretos conhecimentos de que haveria existência de terras na parte sul da sua metade, nomeadamente as costas daquilo que mais tarde viria a ser o Brasil, falta saber quem foram os seus misteriosos informadores!


"Cópia do Tratado", Tordesilhas - Jean-Charles Forgeronne

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

domingo, 18 de janeiro de 2026

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃOLXIII

A PONTE QUE VAI E VEM

E se a ponte não for uma simples via de passagem para a outra a margem? E se em vez disso, se em vez de atravessarmos a ponte for a ponte a levar-nos ao colo até à outra margem e depois a trazer-nos de regresso se necessário? Confuso? Pois é mesmo isso que acontece há 133 (!) anos a cerca de uma dezena de quilómetros de Bilbau: a Ponte da Biscaia, inaugurada em 1893, foi a primeira ponte suspensa transportadora a ser construída neste planeta e une as margens do rio Nervíon entre Portugalete e Getxo!  

"Ponte da Biscaia", gravura do séc.XIX 

A ponte em ferro, uma obra de engenharia notável, foi idealizada e construída pelo engenheiro Alberto Palácios, um discípulo de Gustave Eiffel, tem 160 metros de comprimento e 45 de altura e surgiu para dar resposta à necessidade de transporte de mercadorias e trabalhadores entre as duas margens do rio naquela que era a zona central da indústria do país basco, bem como permitir à burguesia do final do século XIX o acesso às maravilhosas praias de Getxo...

"Ponte da Biscaia" - Jean-Charles Forgeronne

O transporte de veículos, mercadorias e pessoas é feito numa cabine suspensa por cabos e essa ideia genial permitiu desde o início que não houvesse qualquer interferência no intenso tráfego de navios e veleiros que demandavam o movimentado porto de Bilbau... Além disso, hoje também é possível a qualquer pessoa ou turista atravessar a ponte caminhando através do tabuleiro superior... Outras pontes suspensas foram depois construídas seguindo o modelo da Ponte da Biscaia, mas esta é, verdadeiramente, a ponte! 

"A Ponte" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

 

"Catedral de Bilbau" - Jean-Charles Forgeronne

 ESCRITO NA PAREDE - XLIX


"Untitled (Forever)" by Barbara Kruger - Bilbau Guggenheim; Foto: Jean-Charles Forgeronne


 
SÉTIMO INCIDENTE TRANSFRONTEIRIÇO

ARTE DENTRO, ARTE FORA

Estávamos no alto do Monte Artxanda ainda a recuperar o fôlego após a íngreme subida de funicular (impossível não pensar na recente tragédia do Elevador da Glória) quando recebi a mensagem: o Guggenheim informava-me que devido a uma greve que estava agendada para o dia seguinte poderia haver constrangimentos na entrada do museu ou mesmo não ser garantido o acesso ao mesmo, no entanto, para minorar o incómodo dispunham-se a reembolsar ou a facilitar o reagendamento da visita para uma data futura, e eu que tinha chegado a Bilbau tranquilo e sereno com dois ingressos comprados seis meses antes via agora o chão e o museu lá em baixo fugirem-me debaixo dos pés! 

"Bilbau vista do Artxanda" - Jean-Charles Forgeronne

Após sonoro palavrão que afastou dois ou três pássaros com ar de frequentadores assíduos do parque informo a N. da má notícia e à sua reacção -"Oh! Que pena! E agora?" respondo tentando disfarçar a irritação -"Olha, vamos visitar o museu na mesma, só que por fora, também é interessante e além disso existem umas esculturas famosas à volta que vale a pena ver...".  Mas claro que não seria a mesma coisa, mas que fazer? E para enegrecer ainda mais o cenário teríamos que seguir viagem em direcção a Santander o mais tarde depois de almoço, não dava mesmo para adiar a visita, havia que seguir o plano e havia alojamento reservado bem longe dali...

"Máman" - Jean-Charles Forgeronne

Este era mais do que outro comum azar de viajante, era mesmo um azar do caraças, bilhetes no bolso há meses e expectativa de visitar um dos museus mais famosos do mundo e agora nada, ali estava ele em baixo, belo e apelativo escondendo-se debaixo de uma poeira de neblina descida das montanhas cantábricas e enquanto o mirava só pensava nos milhares de quilómetros feitos para o visitar e na catastrófica possibilidade de afinal nunca o vir a conhecer por dentro, tudo por culpa de uma estúpida greve... As greves nunca são estúpidas, eu próprio nunca faltei a uma greve, mas aquela, naquele momento, era para mim a greve mais estúpida do mundo! 

"Puppy" - Jean-Charles Forgeonne

Descemos então do monte um pouco angustiados e lá fomos passear em volta do Museu, cruzámo-nos com as "Sirgueras" de Dora Salazar, pusemo-nos debaixo da Mamán, a aranha de 9 metros de altura de Louise Bourgeois, fizemos uma festa ao Puppy, o florido cão gigante de Jeff Koons e tentamos decifrar os reflexos nas esferas da obra de Anish Kapoor, "El Gran árbol y el Ojo", e só isso valeu a viagem...

"El Gran árbol y el ojo" - Jean-Charles Forgeronne

E foi então que ao nos cruzarmos com um grupo de visitantes saído do museu me ocorreu uma ideia que automaticamente me saiu boca fora: "Espera lá, porque não pensei nisto antes? Ainda falta uma hora para o museu fechar, e se nos deixassem entrar ainda hoje?"... E assim foi, nem foi preciso justificar com a partida do dia seguinte nem pelo facto de sermos portugueses e termos feito milhares de quilómetros para ali vir, bastou mostrar a mensagem ao simpático recepcionista e ele lá trocou a data dos ingressos para aquele instante, e lá fomos, afinal estivemos dentro do Guggenheim, embora sinceramente tenha valido mais pela arquitectura do edifício que só por si é uma monumental obra de arte do que pelas exposições pois as os obras de que gostei mais foram mesmo aquelas que estão lá fora...

"Sirgueras" - Jean-Charles Forgeronne

João Plástico
(Artista de Valmedo)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026


BILBAO, A INDÚSTRIA E A ARTE...

Quando penso em Bilbau a primeira coisa que me vem à cabeça é o Guggenheim, evidente ícone da cidade e uma das mais importantes obras da arquitectura do século XX, mas depois, ao entrar caminhando pela primeira vez pelo coração da cidade adentro e ainda sem o famoso museu no horizonte fico esclarecido à primeira impressão: aquilo que desde sempre molda a alma da cidade e assim continua a ser é o rio, ou antes a Ría de Bilbao, como é chamada a confluência dos rios Nervion e Ibaizábal, dois pequenos rios, 72 e 42 Km respectivamente de comprimento que descem das montanhas para se abraçar e dividir ao meio a cidade até desaguarem no Golfo da Biscaia... 


"Ría de Bilbao" - Jean-Charles Forgeronne

E claro, torna-se obrigatório até porque é irresistível o apelo de percorrer o amplo passeio ribeirinho da Ría de Bilbao e se faltassem motivos para tal bastaria pensar que à sua beira ancorou não só o Guggenheim mas também o Mercado de La Ribera, um símbolo da Art Déco e um dos maiores mercados cobertos de toda a Europa com 10000 metros quadrados de área, onde tudo se pode encontrar, especialmente os famosos pintxos (por ali não se fala em tapas que isso é castelhano), e para a digestão das iguarias bascas nada melhor do que passear a pé e sem pressa à beira da ria...

"La Ribera" - Jean-Charles Forgeronne

Aqui no centro da cidade não transparece que Bilbau é a capital da indústria basca, com um dos maiores portos comerciais de toda a Espanha, talvez porque a nossa atenção é canalizada para tanta outra coisa a descobrir, sejam as ruelas do Casco Viejo e outras praças históricas, a catedral, a colina de Artxanda e o seu funicular, o San Mamés, casa do orgulhoso Athletic, ou a curiosa ponte suspensa da Biscaia...   

"Artes"- Bilbau - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)