sexta-feira, 28 de abril de 2017



A CAÇA AO POKERMAN - XXXI


O POKEMANUEL




Amigo Rui, é caso para dizer que a exagerada expectativa e a inusitada importância dadas pela imprensa e pelos teus adversários ao derby redundaram num autêntico flop e, exceptuando um pequeno pormenor, afinal manteve-se tudo igual na classificação graças também a mais uma ajuda externa, neste caso a do Feirense que secou o Dragão e confirmou tudo aquilo que te tinha dito sobre o seu jovem e muito promissor treinador...
Resta o tal pormenor que muda tudo: mais um passo foi dado e estás agora apenas a 4 finais da glória, da conquista inédita do título de POKERMAN! E depois da injecção de confiança e crença trazida de Alvalade, fruto de uma prestação sem nota artística mas consistente e reveladora de uma equipa com estofo de campeã, creio que, se cumprires evidentemente a tua parte, isto é, ires vencendo os teus jogos, talvez nem seja necessário esperar pela última jornada para que tudo fique resolvido... Mas isto é apenas a minha opinião, de adepto e sofredor, porque essencial é não perder o foco (expressão inventada por ti, creio) e não fazer contas a terceiras parcelas, abordar sempre a próxima jornada como se o Porto já tivesse jogado e vencido para que não nos aconteça a nós o que aconteceu a eles no passado fim-de-semana: expectativas defraudadas!  Mas amanhã irás mais uma vez apanhar uma equipa no seu mais alto momento de forma da época e que, ademais, apresenta alguns argumentos muito específicos e para os quais chamo a tua especial atenção, começando pela personalidade do seu treinador!




o POKEMANUEL



Se PEDRO EMANUEL já era carismático enquanto jogador mais ainda o será enquanto treinador, ele que absorveu os princípios de exigência e profissionalismo no balneário do Porto, no qual chegou a capitão de equipa (o que não é para todos), na senda de João Pinto ou de Jorge Costa... E apesar do POKEMANUEL se apresentar amanhã perante ti disfarçado de canário da linha, com uma plumagem de amarelo bem vivo, terás que ter atenção a algumas penas azuis disfarçadas devido ao facto da sua alma continuar inflamada de portismo, como ainda há poucos dias o revelou numa interessante entrevista ao PortoCanal, sendo que nada mais o deixaria satisfeito do que pontuar na Luz e ajudar também o seu clube do coração, para além de que assim garantiria praticamente a manutenção do Estoril na primeira Liga...  Mais empenho e atitude na luta por parte de um POKEMON não podes esperar!




Mas, sem dúvida, o maior destaque que merece o POKEMANUEL tem a ver com o facto de, há pouco mais de um mês, ter pegado numa equipa descrente e em crise e ter sido capaz de tansformá-la numa máquina de fazer golos e a praticar bom futebol! Pedro Emanuel é já o terceiro treinador do Estoril esta época e nos 7 jogos oficiais que leva disputados alcançou 3 vitórias, 3 empates e apenas 1 derrota, com a particularidade de ter um goal-average de 14-8, tendo marcado 3 golos num só jogo por 4 vezes, um dos quais precisamente na Luz contra ti para a Taça e lembra-te, ainda foi à procura do quarto e hoje poderias muito bem estar fora do Jamor! Aliás, no seu jogo de estreia empatou logo em Guimarães 3-3, o que não é para qualquer equipa.... E depois, nestes golos todos merecem realce os marcados por KLÉBER, que andou 6 meses aos papéis e que ganhou uma nova vida com a chegada do novo treinador, tendo já facturado por 5 vezes, ele que, curiosamente e à semelhança do mister, também é um portista infiltrado nos canarinhos...
E se o futebol também pode ser feito por fait-divers interessantes, o POKEMANUEL apresenta uma faceta gira, é um amante de vinho, na mais pura acepção do termo: cresceu com as vindimas na quinta do avô por terras de Vale de Cambra e, ainda menino, antes de pisar os relvados já pisava as uvas à boa maneira tradicional e foi a conduzir a junta de bois das vinhas até ao lagar que tomou o gosto pela liderança e condução de equipas...




E que bom seria se, à imagem de Mourinho e Ferguson que bem souberam lidar com a rivalidade e deram um tom de festa à Liga inglesa, tu e o Pedro Emanuel pudessem esvaziar algum do incendiário ambiente que reina no futebol lusitano com a oferta de um bom vinho ao adversário e, nesse caso, só poderias escolher um bom tinto BARBAS da colheita 35! Claro que ele aí te ganharia, expert  na matéria como é, e sendo comerciante e distribuidor de vinho ainda por cima, mas poderias agradecer-lhe com uma vitória e bom futebol no duelo de amanhã....
Assim sendo, amigo Rui, e no que à nossa equipa diz respeito, e até pelos argumentos atacantes apresentados pelo Estoril e pelo Kléber, é fundamental que haja uma resposta cabal do EDERSON àquele clamoroso erro de Alvalade, nada habitual para um keeper que apresenta como uma das principais credenciais o seu jogo de pés... Que ele consiga manter a nossa baliza inviolada e que a história não se repita, ou seja que não faça o mesmo que o seu primo, ARTUR MORAIS, que em 2013, em plena Luz a abarrotar e também curiosamente contra o Estoril, e apenas a 3 jornadas do final, facilitou e deu um frango impensável que hipotecou o título que haveria de ir para o Dragão...


No resto, amigo Rui, e agora que parece que pela primeira vez em toda a época terás todo o plantel à disposição (é obra!), só espero que tanta fartura à qual não estás habituado não te desperte nenhuma gula que te leve a tomar as piores opções para o onze inicial... Agora é que tens fazer alarde da tua serenidade e eloquência, mas sempre te dou a habitual dica: desta vez brinda o CERVI com a titularidade, o rapaz tem garra e tem-se aplicado que nem uma águia....





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PALAVRAS E MÚSICA DE SÉRGIO GODINHO




A noite passada fui surpreendido à queima-roupa, e não fosse o cartaz dos Livros a Oeste 2017 até quando continuaria eu desconhecedor de que Sérgio Godinho acabou de dar à estampa o seu primeiro romance... O primeiro dia de um multifacetado artesão das palavras que já tinha publicado várias obras infantis com ilustrações feitas por ele mesmo, já tinha escrito peças de teatro e até realizado séries televisivas e obras cinematográficas, para além, claro, de ter escrito dezenas de canções com alusões poéticas magistrais à vida e à luta que nos deixaram um brilhozinho nos olhos...  E depois revelou-se-nos um criador sem medos nem pruridos de experimentar seja com quem for, do funk ao fado, se necessário, lá estará ele porque a vida é maior que uma obra ou uma carreira, a vida é partilha e aprendizagem constante, neste caso aperfeiçoamento do génio criativo...







Certamente mais cedo ou mais tarde viria a saber por outro meio qualquer do facto, mas assim, tem outro sabor e outra importância porque terei o privilégio de conhecer o criador multifacetado, não apenas um, nem dois, mas três Sérgios Godinhos: o novel romancista, na apresentação do seu livro Coração mais que perfeito",  o cidadão interventivo que participará na tertúlia "Strip-tease de um país" e finalmente o músico cantautor e revolucionário de ideias e assim, sem saber qual o alinhamento que irá apresentar no Auditório da AMAL, vou deixar-me surpreender pelo canto da boca...









E como a vida é feita de pequenos nadas, obrigado Sérgio por tudo o que nos tens dado e assim, como quem não quer a coisa, Maio vai ter uma semana do catano!












João Sem Dó

(Musicólogo de Valmedo)

terça-feira, 25 de abril de 2017



A ARTE URBANA DO MESTRE


Hoje, dia em que alguns comemoram a liberdade, a arte libertou-se e saiu à rua! Não, não falo da moderna arte urbana, jovem e rebelde, que tem saudávelmente invadido fachadas, paredes e muros do mundo inteiro, dando um colorido e perspectiva diferentes sobre esta atmosfera mundana demasiada cinzenta e opressiva por vezes.... Hoje quem saíu para a rua foram obras com séculos de existência encarcerada entre quatro paredes de museus, por vezes votadas ao esquecimento e disponíveis apenas para especialistas e estudiosos...




Duas obras do Mestre da Lourinhã



A ideia é interessante, afinal como seria se o museu pudesse passar as paredes do seu habitat claustrofóbico e pudesse interagir com as pessoas em plena rua? Assim como quem diz, se as pessoas não vão aos museus porque não os museus irem até às pessoas? 
Foi o que fizeram algumas obras do século XVI, representativas da arte sacra de origem flamenga e da autoria do MESTRE da LOURINHàe de Lourenço de Salzedo, empoleiraram-se elas em portas e janelas, paredes meias com dinossauros em pleno centro da vila da Lourinhã...




S. João Baptista no deserto



A partir daqui não haveria limites para exposições de rua, por exemplo, que bom seria juntar as obras do Mestre da Lourinhã espalhadas por locais tão dispersos como o Museu Nacional de Arte Antiga, o Santuário do Cabo Espichel, Funchal, Cascais ou Beja.... Ou então trazer também para a rua as obras de JOSEFA de ÓBIDOS que estão cativas no Convento de Santo António e juntar-lhes algumas das suas telas que se encontram espalhadas pelo país e até pelo Louvre... Ou então mostrar ao mundo alguns de muitos outros pintores portugueses que estão votados ao esquecimento por parte das gentes que são obrigadas a correr pelas ruas em azáfamas exigentes que lhes roubam o tempo indispensável para a descoberta dos museus...




Lourenço de Salzedo  - "Imaculada Conceição"




João Plástico

(Artista de Valmedo)

sábado, 22 de abril de 2017


A CAÇA AO POKERMAN - XXX 


O POKECÉREBRO


E pronto, amigo Rui, chegou o DIA NACIONAL DA MATEMÁTICA, o dia em que o país vai parar por causa do acerto de algumas contas que irá ocorrer no derby de logo! Primeiro e mais importante é a parcela que conta para o título: os 3 pontos da vitória dariam uma embalagem tremenda para o que falta para o objectivo tetra e seriam ouro sobre os azuis, afinal eles também vão entrar em campo ao lado dos verdes, milhões unidos contra nós;  o empate, a acontecer, só se aceita se a partida te correr mal e tenhas que correr atrás de prejuízos, como há dois anos aconteceu com aquele chouriço milagroso do JARDEL no final de uma exibição miserável, ainda andavas tu por Guimarães, mas não te iludas, apesar do pontinho te permitir manter a liderança graças à ajuda do Braga na última jornada não sossega ninguém, há é que ganhar!; e depois sobra a parcela nula, uma eventual derrota far-te-á perder eventualmente a liderança mas os objectivos manter-se-ão vivos até ao último suspiro, mas claro, não é desejável pelo impacto que terá no ego... Portanto, tudo somado, são apenas 3 pontos em disputa e apenas isso, tão importantes quantos os outros 12 que faltarão conquistar mas, é inútil esconder, seriam fundamentais e disso ninguém tem dúvidas, a começar por ti que ontem mesmo disseste, entre outras interessantes coisas, que vamos a Alvalade para ganhar, e é isso que os adeptos e sofredores estavam a precisar de ouvir....






E parece que entre os factores determinantes para esta primeira conta há um que supera todos os outros: o FACTOR J, ou seja, o factor Jonas, joga não joga, o país em suspenso durante a última semana tal parece o peso que lhe é atribuído na equipa, para alguns até parece que é ele e mais dez, embora não me pareça que fosse assim uma tragédia tão grande se ele não pudesse entrar em campo, há soluções e, afinal, não esteve ele ausente na maior parte da época e que curiosamente foi nessa fase que a equipa praticou melhor futebol? Nada de dramas por favor, mas que é uma boa notícia a sua convocatória e é sempre melhor que ele esteja disponível até porque parece que tem um borrego para matar (nunca marcou ao Sporting)... Aliás, outro regresso muito importante e que se saúda é o do JIMENEZ e tudo somado daqui resulta uma equipa na máxima força, coisa invulgar esta época! De resto, parece que não restam dúvidas a ninguém sobre qual o onze a entrar, aliás até é hoje primeira página dos desportivos cá do burgo: Ederson, Semedo, Lindelof, Luisão, Grimaldo, Fejsa, Salvio, Pizzi, Rafa, Jonas e Mitroglou... 
Portanto, e não havendo nenhum impedimento de última hora (o que não seria inédito também), sem surpresa para ninguém e, portanto, há é que correr e lutar por cada bola com as garras de fora e sempre com os olhos na baliza adversária, tão simples quanto isto, amigo Rui, e se também afirmaste que a equipa está cada vez mais concentrada e unida, imune ao barulho exterior, então essa coesão só pode augurar um bom desempenho! 

Passemos então à segunda parcela, a das contas pessoais que tu e treinador adversário têm apresentado desde a época passada, com números bastante tristes e deprimentes apresentados pelo teu rival de logo, o famosíssimo POKECÉREBRO!!!




O POKECÉREBRO


Esse é um POKEMON peculiar, caracterizado pelo seu cérebro descomunal, sem dúvida o de maior tamanho que habita em todo o futebol indígena mas, ao contrário do que se possa pensar, isso não se reflecte numa maior capacidade ou aporte de inteligência superiores em relação aos outros cérebros, ditos normais, antes pelo contrário, é fruto de uma grave inflamação, uma EGOTITE, infecção degenerativa do EGO  provocada, neste caso, por uso e abuso de estúpidos mind-games, vício no qual o portador da doença julga ser especialista e do qual se tornou dependente! E são sobejamente conhecidas as consequências da doença quando a mesma não é diagnosticada e tratada: inchaço e capsulamento do cérebro com reflexos na área comportamental, acessos de euforia e deslumbramento, sídrome aguda de  personalização que leva o paciente a julgar-se o centro do mundo, sintomas tendentes a piorar com a idade...
E o pior de tudo, amigo Rui, é que neste infeliz caso em particular, o doente não sabe a doença que tem e não consegue aperceber-se das figuras que faz, há como que um alheamento da realidade que se reflecte depois em suposiçõs absurdas como aquela de ter dito há dias que um dia ainda há-de ser teu amigo! É para rir e responder: - Só se for na Playstation, amigo Jesus!







Amigo Rui, ainda ontem disseste que não és homem de show-off e isso diz tudo: podemos todos ficar tranquilos, o POKECÉREBRO, para ser teu amigo, tem de fazer primeiro duas coisas, uma é mudar de valores, a outra é pôr-se na bicha imediatamente a seguir ao homem das pipocas!  Porque enquanto para esse cérebro desmesurado tudo parece depender das circuntâncias, para ti tudo gira à volta do carácter e do respeito! 

Por isso, dorme uma sesta tranquila antes do jogo e relaxa porque, nesta conta pessoal, mesmo que percas o jogo, continuarás a somar sempre muito mais! E voltemos ao início, sendo a parcela da conta que interessa mais a que diz respeito às contas do título só te resta uma coisa: trazer os 3 pontos para casa! E terás boa sorte desde que não inventes uns números malucos logo e mantenhas o cérebro bem lúcido....


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sexta-feira, 21 de abril de 2017





O Sena em Vernon - Normandia



Jean Charles Forgeronne

(Fotógrafo de Valmedo)


DESEMBARQUE NA NORMANDIA - III



E eis-nos finalmente nos jardins de MONET,  e se para mim, apenas um curioso na matéria, eles se revelaram um autêntico deleite, não consigo imaginar o que terá sido para o MARTIN, um verdadeiro conaisseur....



E o tempo parou! Ali, naquele idílico recanto, passámos horas de lupa na mão, armados em detectives da natureza, numa investigação minuciosa a cada botão, a cada flor, a cada pé, a cada folha, a cada tronco, a cada árvore, Roger ia chamando a atenção e apontava as curiosidades de cada planta, como estava naquela altura e como iria estar daí a umas semanas e falava das diferenças para as espécies lusitanas... E foi assim que aprendi que as frágeis prímulas são as flores anunciadoras da primavera, as primeiras a revelarem-se ao mundo sem pruridos nem porquês... E embora os nenúfares ainda não tivessem rebentado e invadido a quieta superfície do lago íamos alegremente especulando sobre a incidência da luz sobre a água, pintando telas virtuais à maneira de Monet... E apesar também de muitas outras plantas ainda estivessem por desabrochar, foi um festival para os sentidos deambular por ali e permitir que a paz e a harmonia nos conquistassem a alma... Quando ali estamos apetece mesmo pegar numa paleta e colorir o mundo de tons vivos e luminosos, soltar a alegria que nos invade por gozarmos do privilégio de poder observar tanta beleza, e ela é tanta que chega a parecer irreal...




Subimos então para visitar a casa e o atelier do pintor e foi então que tudo se precipitou...Depois de admirar as várias divisões da casa, cada qual pintada na sua cor, a cozinha azul, a sala de jantar verde, o corredor vermelho ou o quarto amarelo, chegámos ao estúdio apinhado de gente e então vislumbrei lá no canto, um vulto de cartola e bengala numa mão enquanto que com a outra segurava um monóculo através do qual observava minuciosamente uma tela pendurada na parede do fundo...
   - Raios, é o Lupin... - balbuciei, mas ninguém me ouviu.
    Desci o mais rápido que pude a pequena escada com o intuito de me aproximar da célebre personagem mas, por entre encostos e obstáculos, quando cheguei ao fundo o vulto tinha desaparecido, nem sinal do homem de cartola! Saí o mais depressa que pude para o jardim e olhei para todos os lados mas nem sinal, Arséne tinha mais uma vez escapulido....
     - Que foi? Parece que viste um fantasma... - ouvi o Martin dizer a meu lado.
     - Se calhar tens razão, ando a ver coisas a mais. - disse eu, duvidando se aquela inusitada aparição tinha sido mesmo um produto da minha imaginação.
      - Talvez seja melhor irmos andando, não? Ainda são uns quatro quilómetros que temos que caminhar.
       - Deixa-me só ver mais uma coisa - disse eu e encaminhei-me novamente para o estúdio.


E ali estava ela, a Maneporte, a porta grande de ETRETAT, imortalizada por Monet....  O que haveria de especial naquele quadro para merecer a atenção do ilustre cambrioleur? - interrogava-me eu, já convencido que afinal não tinha sido vitima de uma alucinação, Lupin tinha estado mesmo ali e isso era um sinal que grandes mistérios estariam prestes a ser revelados...
   - Que conheces tu sobre Etretat? - questionei o Roger, esperançado que me aclarasse as ideias.
    - Etre...quê?
    - Etretat, uma vilazinha piscatória ali à frente no Canal da Mancha, onde o Monet passou boas temporadas a pintar. - disse eu, apontado para a tela...
- Lamento, mas apenas pesquisei sobre isto aqui, Giverny... - respondeu-me ele, já impaciente...
    - Ok, vamos então que se faz tarde...




Roger Martin, embarcando para Paris


Já dentro do comboio que nos levaria de regreso a Paris dou por mim aparvalhadamente a olhar para um cartaz publicitário afixado na estação, nem mais nem menos que o anúncio da estreia do recente filme sobre ARSÉNE LUPIN... 
Afinal ele anda por aqui, pensei eu, lembrando-me do livro sobre a agulha oca de Etretat que tinha dentro da mochila... 
   -Não sejas tolo, estás a imaginar coisas, disse a parte racional que ia sobrevivendo na minha cabeça...
    - Estou é a precisar de descanso, disse eu inteiro para mim mesmo mas, abanando a cabeça e sorrindo para o mundo exterior, continuava desconfiado de que algo importante me estava a escapar....
Entretanto ETRETAT não me saía da cabeça e só me vinha à lembrança o desembarque dos aliados nas praias da Normandia em Junho de 1944, evento que seria o prenúncio do final da II Guerra Mundial, à qual Monet já não assistiu mas que previu ao doar à cidade de Paris aquele espaço magnífico de contemplação e paz, uma parte do seu jardim transplantado para a capital,  e pensava eu que serviu para a I, serviu para a II e servirá para todas as guerras, seja a III ou a do dia-a-dia.... E depois o meu pensamento voou para a agulha oca que poderá albegar imensos tesouros, quiçá o dos Templários...
Entretanto a carruagem retomava a marcha e foi quando em sentido contrário, para LE HAVRE, passava por nós outro acelerado comboio e foi então que o vi espreitando pela janela! O vulto negro de cartola, bengala numa mão e monóculo na outra, a sorrir para mim...
      - Roger, a nossa próxima expedição é irmos a Etretat e descobrir um tesouro....








Jean Charles Forgeronne

(Fotógrafo de Valmedo)

quinta-feira, 20 de abril de 2017




DESEMBARQUE NA NORMANDIA -  II


Cento e nove anos depois do fugaz encontro entre Monet e Leblanc na Gare de Saint Lazare, um outro acontece no mesmo local, numa manhã dos primeiros dias de Abril e debaixo de um sol tímido e de nuvens ameaçadoras...  Jean Charles Forgeronne, moi-meme, este vosso amigo em pessoa e ROGER MARTIN, grande amigo meu, botânico e especialista em plantas ornamentais, jardinagem e até em ervas medicinais e mezinhas caseiras, isto para além de se dedicar à agricultura nos tempos livres... E garanto-vos, ninguém faz e conhece os preceitos de um bom chá como ele!
E ao contrário do pintor e do escritor que viajavam em sentidos opostos, este fotógrafo e este naturalista vão embarcar numa aventura de sentido único, rumo à NORMANDIA e com um destino mais concreto, Giverny, Roger para conhecer o jardim de Monet e recolher informação para um atlas botânico que há-de um dia publicar e eu, menos específico, receptivo a todos os estímulos da paisagem normanda e do universo do pintor, de quem era aliás admirador confesso desde há muito após ter ficado bastante impressionado pelo contacto directo com o sublime "Impression, soleil levant", anos antes em pleno Marmottan...
E que melhor auspício para esta expedição do que a visita vespertina à L'ORANGERIE, aos fabulosos nenúfares de Giverny oferecidos por Monet à cidade de Paris logo após o final da traumática I Grande Guerra e para ali transplantados para que se constituisse um espaço de paz e reflexão, um refúgio onde os parisienses se pudessem encontrar consigo mesmos e poderem abstrair-se do caos e da azáfama citadinas, para que pudessem abstrair-se dos traumas da guerra e para lhes ser possivel a impressão de estar num pequeno jardim idílico da Normandia, imunes ao sofrimento.... 



Nynmphéas - Orangerie
O percurso até VERNON, apeadeiro mais perto de Giverny, faz-se numa hora de viagem sempre pela margem esquerda do SENA, um rio tão mítico quanto normando até desaguar no Canal da Mancha.... E uma coisa vos garanto, meus amigos, esta serpenteante rive gauche normanda não fica atrás daquela parisiense imortalizada pelos escritores da Nouvelle Vague....
A paisagem vai alternando entre o azul do rio e as densas florestas, as vilas de casas acasteladas e os verdes campos agrícolas...





O comboio está quase cheio e salta à vista que a maioria dos passageiros são turistas numa ritual peregrinação ao santuário de Monet....  Muitos deles levam ao colo vários guias turísticos como se da sagrada Bíblia se tratasse, alguns folheiam com avidez o American Express enquanto outros optaram pela Lonely Planet, e entretanto aqui vou eu apenas com uns apontamentos escritos no meu preto Moleskine de viagem, fruto de uma singela semana de investigação...  Para além, claro,  da edição de bolso em françês de L'Aiguille creuse que vou lendo de tempos a tempos quando ocorre uma pausa no frenético desafio aos sentidos e também com o intuito de ginasticar a língua gaulesa... E então fico lívido, o chão escapa-me e agarro-me ao banco do comboio como se de uma boia se tratase...
   - Estás bem? -  pergunta-me o Roger com ar assustado.
   - Sim, foi apenas uma vertigem.... - tento disfarçar....
Mas ele continuava a fixar-me com aqueles castanhos e obscuros olhos que o caracterizam, não havia forma de fugir à questão...
    - Já reparaste na capa deste livro do Lupin? - lancei de sopetão...
    - ....
    - O sol, parece um sol nascente como aquele do Monet, certo?
    - Neste caso parece-me mais o sol poente... - disse ele com alguma convicção.
    - Depende da perspectiva, amigo Roger - respondi eu o melhor que arranjei - mas para mim é um belo sol nascente e isso só revela que, como eu já desconfiava, há por aqui um grande mistério por desvendar...
   





E agora, enquanto tento anotar algumas impressões desta nova experiência, reparo com surpresa que o MARTIN vai absorto em qualquer pensamento que não quero de forma alguma interromper... Finjo que não reparei e olho para o lado, para o Sena, tentando adivinhar o que nos aguarda....




















Jean Charles Forgeronne

(Fotógrafo de Valmedo)