domingo, 9 de novembro de 2025



"A luz em Cudillero"- Jean-Charles Forgeronne

 
LA SEXTO TERRE ESTÁ EN ASTÚRIAS!

E se numa cena de suspense digna de um filme de Woody Allen, armados em Javier Bardem,  colocarmos uma venda em alguém e transportarmos em segredo essa nossa vítima de rapto emocional até Cudillero, na costa asturiana, o que é suposto acontecer? Claro que o "rapto" foi consentido e evidentemente que o desafio foi aceite sem reservas, de outra forma não valeria a pena nem surtiria o efeito desejado, mas quando devolvermos a luz à nossa cobaia e o mundo lhe voltar a entrar pelos olhos adentro, por supuesto, o mais provável é que ela ache que se encontra numa das famosas Cinque Terre da Riviera Italiana!


"Cudillero" - Jean-Charles Forgeronne

Às Cinque Terre, um conjunto de vilas da Ligúria que se caracterizam pelas suas casas coloridas e vinhedos dispostos pelas encostas íngremes formando belos anfiteatros e cada uma com o omnipresente porto lá em baixo, repleto de barcos, é justo juntar uma sexta parte, a bela e encantadora vila de Cudillero... E se tiver dúvidas, amigo leitor, experimente descobrir o circuito de miradouros lá no alto e a cada passo lento que der vai ficando cada vez mais extasiado, nem que seja pela inebriante baía de águas azul-turquesa... 

"La Plaza" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

domingo, 26 de outubro de 2025

 

"Oviedo" - Jean-Charles Forgeronne

 
O QUE FAZ WOODY ALLEN POR OVIEDO?

Muito bem, esclarecido o mistério do RUFO, o cão mais amado de Oviedo, uns poucos passos mais à frente sou confrontado com outro enigma: ali bem perto da estátua realizada por iniciativa popular e que homenageia todos aqueles que se esforçam a ajudar os animais abandonados, quase choco com alguém parecido com o WOODY ALLEN, mas vendo melhor é ele mesmo, de bronze e à escala natural, afinal o homem é mesmo pequeno, e aqui vem ele de mãos nos bolsos e ar descontraído passeando pela calle, enfrentando-me com aquele seu olhar psicanalítico, mas que raio faz ele aqui?


"Woody em Oviedo" - Jean-Charles Forgeronne

A explicação é simples: em 2002 Woody Allen foi premiado com o Prémio Príncipe das Astúrias das Artes e ele, apaixonado pela cidade e pela região chamou a Oviedo "O Paraíso"; a cidade, grata, no ano seguinte erigiu-lhe uma estátua que é hoje local de visita obrigatória a qualquer turista que se preze... Mas a coisa não ficou por aí...

Em 2008 Woody retribuiu ao filmar algumas cenas de "Vicky Cristina Barcelona" por Oviedo e Avilés; essa comédia dramático-romântica é o meu filme favorito de Allen ou não contasse com belas actuações de Javier Bardem, Penélope Cruz, Rebecca Hall e de uma Scarlett Johansson então no auge da carreira... O que as viagens fazem ao trazer-nos memórias à tona! E que tamanhas ganas me deram agora de rever as Astúrias no filme...

João Película
(Cinéfilo de Valmedo)

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

 
RUFO, O CÃO DE OVIEDO...

Saídos da Ópera e porque passeando o mais lentamente possível na Calle Uría, a principal rua pedonal de Oviedo, a rua das lojas e que leva esse nome em homenagem ao político José Francisco Uría y Rego, vou cantarolando baixinho a "2000 A.D" enquanto me interrogo sobre a hipótese de um dos meus preferidos cantautores lusitanos, o Samuel, dever o seu invulgar apelido a ancestrais raízes asturianas:

                                                "Dormi no feno crasso da cidade,
                                                 um sono justo, sono urbanizado.
                                                 Desincho.
                                                 Relincho."

Mas eis que algo me chama a atenção, estanco o passo, observo com mais atenção, ali numa esquina está um cão, imóvel, sentado, de ar humilde mas simultaneamente nobre como todos os cães podem ter, aproximo-me, tenho de o conhecer...

"A RUFO, el perro de Oviedo" - Jean-Charles Forgeronne

É o RUFO, aqui eternizado nesta estátua de bronze desde 2015, 18(!) anos depois do seu falecimento, o que diz bem como marcou os cidadãos de Oviedo ao ponto de nunca ter sido esquecido; era um cão vadio, fruto de um cruzamento de pastor alemão com mastim, desconhece-se a sua origem, talvez tivesse sido abandonado, o certo é que viveu em liberdade pelas ruas de Oviedo nas décadas de 80 e 90 do passado século, especialmente nesta esquina e no Campo San Francisco, ali agora onde a Mafaldinha se senta, e tornou-se o cão mais amado da cidade, um verdadeiro ícone...
RUFO adorava as pessoas e participava em tudo o que era evento ou festa, assistia aos jogos de futebol do Real Oviedo, chegou a participar em cerimónias públicas e de vez em quando dava umas voltas pelas ruas dos bares e da animação nocturna, talvez gostasse de sidra, quem sabe? Houve várias tentativas de adopção mas ele sempre fugia e regressava às ruas e quando um dia foi capturado e levado para o canil houve um levantamento popular exigindo a sua libertação, e assim aconteceu... Consta que a este herói canino que cativava as pessoas nunca faltou alimento, nem cuidado, nem carinho...  O mundo, de vez em quando, não é assim tão cão! 

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)
 
TURISTA BAFEJADO PELA SORTE...

Visita a Oviedo programada há meses, alojamento tratado e pontos de interesse referenciados que essa coisa de improvisar à última da hora não é para o meu jeito, umas boas semanas antes da viagem descubro que nos dias em que por aqui estaríamos o Teatro Campoamor, que é como quem diz a Ópera de Oviedo, iria levar à cena "Romeu e Julieta", de Charles Gounod! Depois de uma pequena saga para conseguir ingressos, tarefa conseguida com alguma sorte, o mais difícil foi desde então manter o segredo, é que a N. há muito que ansiava por uma ida à ópera e neste caso a surpresa era fundamental para o sucesso da noite e para dar encanto à viagem... 

"Teatro Campoamor" - Jean-Charles Forgeronne

Felizmente tudo correu dentro do planeado, e finalmente ali estávamos nós, viajando no espaço e no tempo, num belíssimo teatro fundado em 1892 e a 800 Kms de casa, para desfrutar de uma ópera estreada no Théatre-Lyrique de Paris em 27 de Abril de 1867, há 158 anos! E pelos vistos a ópera democratizou-se, pelo menos aqui pelas Astúrias, claro que ainda se encontram pessoas vestidas a rigor e senhoras abanando-se com o tradicional leque, a ida ao teatro continua a ser um acontecimento social onde se vai para saber novidades, para ver e para ser visto, especialmente para os locais que se conhecem de gingeira e ainda bem que ninguém reparou nas pobres vestes de viajante com que nos apresentámos... De resto, muita gente nova e vestida informalmente... Quanto à ópera, divinal! Os dramas shakespearianos continuam a fazer sucesso...

"Romeu e Julieta", Oviedo - Foto: Melómano Digital

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)
 
AS VIAGENS DA MAFALDINHA

Foliava eu tranquilamente pelo Fólio quando, a caminho da Casa José Saramago para a apresentação do "Latim em Pó", dou de caras com a Mafaldinha, essa mesma, a menina irreverente e contestatária criada em 1964 por QUINO, sentada em pose bem comportada num banquinho à beira das portas da vila... Desde então a Mafaldinha haveria de se tornar um ícone à escala global, traduzida e publicada em dezenas de países graças ao sucesso do seu humor e pertinência ao questionar o estado doentio deste mundo-cão, alertando para as injustiças e desigualdades sociais, coisa que parece não ter mudado muito nas últimas seis décadas...

"Mafaldinha em Óbidos" - Jean-Charles Forgeronne

E é sabido que para conhecer o mundo não basta receber notícias vindas de longe, nem sempre fiáveis, é deveras importante viajar e estar lá, ver com os próprios olhos e apreender a realidade e foi então que, passada uma meia dúzia de dias, constatei que a sabedoria da Mafaldinha também nasce das suas viagens pois voltei a encontrá-la bem longe de Óbidos, em Oviedo.. 

"Mafaldinha em Oviedo" - Jean-Charles Forgeronne

E ali está ela em pleno Campo de San Francisco, parece que desde 2014, novamente sentadinha num banco de jardim, observando e analisando quem passa mas também homenageando QUINO que nesse ano não só recebeu o Prémio Princípe das Astúrias de Comunicação e Humanidades como também teve o ensejo de inaugurar a pequena estátua... 

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)