terça-feira, 25 de março de 2025

 HÁ LIVROS... E LIVROS!

E pronto, acabada a feira é tempo de desarmar as barracas, desligar os holofotes e regressar a casa, já a fazer contas a quanto tempo faltará para a próxima edição do Festival de Banda Desenhada da Lourinhã... Ficaram excelentes conversas, muitas curiosidades sobre a vivência de autores e leitores, muita expectativa para novas obras que estão a chegar e, especialmente, sugestões de leitura e livros, muitos livros... 


Descobrem-se novos autores, conhecemos e ouvimos artistas há muito conceituados, apercebemo-nos do estado da nona arte em Portugal e no mundo, ao fim e ao cabo divertimo-nos e aprendemos e nessa aproximação entre os criadores e o público traçam-se projectos de futuro para uns e para outros...


E depois há momentos únicos e marcantes, como me aconteceu a mim ao conhecer pessoalmente Miguel Angel Martin, o artista de León, polémico quanto baste mas um dos mais conceituados criadores a nível internacional, distinguido em Roma com o prémio equivalente ao Oscar para melhor autor estrangeiro... Diz o próprio acerca de si que "a graça está na combinação de um traço limpo, um pouco ingénuo com uns conteúdos um pouco escabrosos, ácidos e retorcidos", ao meu gosto, portanto... E depois livros há muitos, mas ter um com um autógrafo magistral de um artista assim é especial, muito especial...



JoãoVírgula
(Leitor de Valmedo)

domingo, 23 de março de 2025

 
ANEDOTAS QUE PARECEM POEMAS - XIV

REMÉDIO PARA A MEMÓRIA

Prudêncio, depois de um par de minutos na rua a olhar para o letreiro e para o interior da frutaria ainda hesitou e pensou em continuar o passeio mas a curiosidade falou mais alto, tinha que esclarecer aquilo, entrou na loja e dirigiu-se à empregada que, enfastiada e com cara de poucos amigos, ia teclando com exagerada força no teclado de um computador:
  - Desculpe, mas venho apenas esclarecer uma coisa que me está a atazanar os neurónios, porque é que esta loja que pelo que vejo só vende frutas e legumes se chama "Loja da Memória"?
A moça levantou lentamente a cabeça e olhando por cima dos óculos para Prudêncio respondeu:
  - Sabe, é que tudo o que aqui vendemos, de uma maneira ou de outra, faz bem à memória...
Prudêncio, não convencido, virou-se e pegando na coisa que estava mais à mão, uma bem constituída e reluzente curgete, teimou:
  - Ai sim, então porque é que esta curgete faz bem à memória?
  - Olhe, porque se a enfiar bem no rabo nunca mais se vai esquecer!



                      (Baseado numa história de "Paciência é o meu nome do meio", de Inês Fetchónaz)

João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)


 É PRECISO TER PACIÊNCIA

Em marcha lenta dei duas voltas de carro pela praça em busca do letreiro que me anunciasse o local exacto mas nada, mesmo em frente tinha a Farmácia Quintans e a loja de modas Papoila, à esquerda a florista Soflor, o Talho do Sergio e o edifício devoluto da antiga pastelaria Nellus, atrás de mim as antigas Finanças e uma agência de seguros, à direita a Louripapel e o antigo edifício da Câmara Municipal e depois mais nada, nem sinal da Loja Cores do Campo onde era suposto, segundo o folheto que tinha na mão e que relia pela centésima vez, a exposição baseada no livro "Paciência é o meu nome do meio" de Inês Fetchónaz, uma das atracções do 3º Festival de Banda Desenhada da Lourinhã... Não havia mais nada, a não ser o enorme dinossauro no centro da praça, já agora e a propósito muito bem apelidado de Centrosaurus, um herbívoro do Cretássico com 3 toneladas de peso e 6,5 metros de envergadura. Já um pouco irritado estacionei em canto proibido e saí do carro para analisar melhor, não havia sinal  de que na Praça Marquês de Pombal, ancestral coração da Lourinhã, houvesse uma exposição, a não ser que... "Mas será possível?" - perguntei-me, lá ao fundo, escondida, já um pouco fora da praça e mais na Travessa do Cotovelo pareceu-me vislumbrar uma loja, sem letreiro ou outra qualquer informação visível, aproximei-me e qual não foi o meu espanto ao dar com uma pequena loja de frutas e legumes com uns livros expostos na montra, era então ali!


Era mesmo ali, no pequeno espaço por entre expositores de frutas e legumes viam-se nas paredes as inconfundíveis pranchas do livro, e depois uma agradável conversa com o Paulo, o dono da loja, esclareceu tudo... A loja ainda não tinha letreiro porque era um projecto muito recente, quase de ocasião, depois a ideia da exposição ali devia-se à filha, a Sharon, meio cérebro da editora Escorpião Azul, a qual pensou e muito bem que não haveria melhor sítio para fazer a exposição do que ali já que a Inês é colaboradora de um supermercado e o seu livro decorre das histórias cómicas e surreais que lhe acontecem no dia-a-dia...



Já agora, e sem favores, fiquem a saber que a loja do Paulo, ainda sem letreiro mas que se chama mesmo "Loja Cores do Campo", apenas exibe produtos genuinamente portugueses e de qualidade insuspeita... E depois tenham paciência, muita paciência, mas é caso para dizer que, tal como a BD, o que é português é bom!



João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)

 A NONA ARTE INVADIU A VILA!

Socorro! A Lourinhã foi invadida por heróis, uns super e outros nem tanto, porque heróis tanto são as personagens de livros e filmes como também o são os criadores, desenhadores, argumentistas e editores, que num mundo em que é cada vez mais penoso criar obras originais em liberdade de expressão, sim, não se deixe enganar, a censura continua bem viva no mundo da arte, incluindo a nona, que o digam Miguel Angel Martin, decano autor espanhol multipremiado com uma carreira ímpar e que viu um livro seu ser proibido em Itália ou também Jorge Deodato, outrora editor da Polvo e que chegou a ver a sua loja na ultra-conservadora e católica cidade de Viseu ameaçada e sitiada só porque na montra se exibia um livro com o título "As mulheres não gostam de foder"!...


Uma semana inteira de Banda Desenhada na Lourinhã é o que é, o III Festival LouriBD, organizado pela Editora EscorpiãoAzul, traz-nos autores de Portugal, Espanha ou Brasil, muitas conversas sobre os livros e sobre o universo editorial, várias exposições, muitas oficinas ao dispor dos alunos desde o pré-escolar ao secundário, um mercado de livros, um concerto ilustrado e até cinema, que melhor se pode querer? 



Mas ontem aconteceu um dos momentos altos do certame com a exibição do filme português "O Velho e a Espada", da autoria do jovem Fábio Powers e com efeitos especiais de Jules Spaniard Raimes, um filme que, segundo os autores, está a ter um sucesso surpreendente pois já foi premiado em Espanha e exibido também no Canadá, na Dinamarca e na Grécia... Um filme de autor, quase caseiro, em parte autobiográfico, rodado numa aldeia de Castelo Branco e com uma personagem principal desarmante, António da Luz, desempenhada pelo próprio, ele que era realmente o bêbado da aldeia e que Powers conheceu ainda menino... Confuso? Se o está é porque não esteve no Festival a conversar com o autor mas tem um bom remédio: veja o filme e delicie-se...  

João Película
(Cinéfilo de Valmedo)

sexta-feira, 21 de março de 2025


 RASCUNHO DE POEMA NO DIA MUNDIAL DA POESIA



 
UMA VOLTINHA POR... - II

"O urinol"
...LISBOA Oriental! Deixo o carro em frente à Fábrica do Braço de Prata e num impulso que não sei explicar desato a caminhar em direcção ao sul...  Um tempo antes, que não sei bem precisar, tinha metido na cabeça que era urgente e imperioso fazer uma visita ao Museu Nacional do Azulejo, uma coisa há muito adiada, e agora que por vicissitude inesperada me encontrava ali pela zona oriental da capital pareceu-me ser a hora certa, vamos lá então em demanda do Convento da Madre de Deus...  E de súbito encontro-me aflito em pleno Largo do Poço do Bispo, vertendo águas no emblemático urinol público de Marvila, pelos vistos o último da sua espécie e que vai resistindo para alívio de passeantes imunes ao cheiro e dos poucos taxistas da praça, dantes, há muito tempo, era especialmente solicitado pelos camionistas da Sociedade Abel Pereira da Fonseca, os emblemáticos armazéns do vinho oriundo do Bombarral...
Não é por acaso que agora o largo é conhecido como a Praça David Leandro Silva, o industrial que primeiro trouxe comércio e bem-estar social para esta zona da cidade...  


"Os armazéns de vinho do Bombarral"

Sigo depois, mais leve e afoito, pela Rua do Açúcar adiante, assim denominada devido a uma antiga refinaria de açúcar que por ali havia no século XVIII, e a meio passo pelo Palácio da Mitra, uma quinta de recreio construída para os prazeres dos arcebispos de Lisboa, outrora uma residência no campo para estar mais perto do céu e mais longe da azáfama da grande cidade, um sítio propício para brincadeiras, portanto... 

"Imaginação"

"O Narigudo"

Mas deixemo-nos de beatices até porque dou comigo agora em plena Rua do Beato, assim chamada por causa de Frei António da Conceição, também conhecido por Beato António e que no século XVI foi o grande responsável pela construção do Convento do Beato... Entro depois na Rua do Grilo, deixo o cheiro a café e o fabuloso unicórnio para trás, passo ao lado de mais um convento, neste caso o Convento dos Grilos, e delicio-me com a sinalética do trânsito... É tempo agora de Xabregas e de escolher a melhor explicação para o nome de entre várias imaginações, opto pela menos científica e mais popular, por isso mesmo talvez a mais genuína e plausível, a de que Xabregas deriva do antigo termo do povo "Leixa Bregas", (deixa brigas) uma expressão usada no antigo lavadouro da rua quando as lavadeiras brigavam entre si, umas vezes talvez por calhandrice de má-fé e outras porque alguma não respeitasse a fila e a hierarquia...Agora tenho o narigudo pela frente, adivinho o "Frog" ali à espreita e assusto-me com o "Monkey" do Bordalo II, ameaçado pela frenética indústria da construção imobiliária que tomou de assalto esta zona da cidade, será que vai ser destruído sem dó nem piedade?

"Monkey em vias de extinção?"

Não quero nem pensar nisso mas agora que já passei por debaixo do comboio e estou à porta do Museu Nacional do Azulejo, quando passar pela igreja da Madre de Deus não desperdiçarei a oportunidade de rezar pelo futuro da arte deste oriente em vertiginosa transformação...  


"Convento da Madre de Deus"

(Fotos: Jean-Charles Forgeronne)

João Conde Valbom
(Olisipógrafo de Valmedo)

domingo, 16 de março de 2025

 
ESCRITO NA PAREDE - XLIII

"Caracol procura casa..." - Marvila, - Jean-Charles Forgeronne