domingo, 10 de março de 2024

 

9 de MARÇO, DIA da UBIQUIDADE


Neste mundo-cão em que há dias para tudo acaba de ser declarado por mim e pelo meu amigo Andarilho em reunião solene o dia 9 de Março como o DIA da UBIQUIDADE, o qual fica registado em acta e vem preencher uma grande lacuna na agenda daqueles que não conseguem estar em todo o lado ao mesmo tempo! E tal facto não vem incomodar muito nem muita gente porque não colide com qualquer outra comemoração por parte do comum dos mortais, a não ser, evidentemente, com as da Igreja Católica que tem tantas coisas importantes para comemorar que lhe faltam dias no calendário e vai daí muitas vezes tem que as juntar no mesmo dia, senão repare-se que no dia 9 de Março os católicos celebram o dia de Santa Francisca Romana, o dia dos Quarenta Santos Mártires de Sebaste (não confundir com os Quarenta ladrões do Ali Babá) e ainda têm tempo para o dia de Santa Catarina de Bolonha!  É obra, tanto santo junto e para estar em tanta comemoração ao mesmo tempo é porque eles têm (se não quem teria?) o dom da ubiquidade, por isso calha mesmo bem!


"Estilhaços de Escuridão" - Foto: Jean-Charles Forgeronne


Tinha ligado dias antes ao Andarilho para combinar o horário de partida e a estratégia da viagem até Torres Vedras para mais uma prometedora noite no Bang Venue, bilhetes comprados há meses, compunham o cartaz primeiro os Dapunkt Sportif que andam pela estrada a comemorar 20 anos de existência e excelência (muitos parabéns!) e depois Nick Olivieri, o célebre baixista que para além de outros projectos fez parte dos Queens of the Stone Age, a solo apenas com a sua guitarra e o seu rouco vozeirão... E então diz-me o Andarilho:
- "Pena não termos o dom da ubiquidade, porra, sabes que no mesmo dia e à mesma hora vai o Luxúria Canibal ao Teatro-Cine de Torres?
- A sério? - respondi desconsolado, logo o Adolfo de quem já tinha tantas saudades... E era a sério, no seu projecto "Estilhaços de Escuridão" lá perderíamos o Canibal e a sua poesia, e também a de Cezarini, ainda por cima acompanhado de músicos de excepção...


"Dapunkt Sportif" - Foto: Jean-Charles Forgeronne

E ontem, na vigésima-primeira hora  daquele dia que ficará eternizado como o DIA da UBIQUIDADE, após termos reconfortado o estômago na Maria Bonita batemos com o nariz na porta encerrada e selada do Bang Venue, "o que se passava?", interroguei-me, ninguém por aqui, é estranho...  Olhávamos em volta e nem sinal de vivalma, até que exclama o Andarilho: "Olha, só começa às 22.30h!". 
- "Outra vez confundidos com horários!" - exclamei eu... Sim, porque outras histórias de horas desencontradas existem por parte desta dupla pouco confiável, ficam para outras conversas, assim haja tempo e futuro...
E que mais nos restava do que deambular por ali pelas ruelas do casco histórico torreense para aproveitar a janela temporal e pôr a conversa em dia? Mas eis que, sem darmos por isso, vimo-nos em pleno largo da Igreja de São Pedro (não era o dia dele mas não há problema!) e vislumbro a espreitar sorrateiramente da esquina parte da bela fachada do Teatro-Cine de Torres... 
- Olha lá, não era hoje que vinha cá o Luxúria Canibal? - olhámos um para o outro e lá fomos, talvez ainda fosse possível assistir... E foi assim, ainda que um pouco atrasados no tempo, lá descobrimos que o dom da ubiquidade afinal existe...



"Nick Olivieri no BangVenue" - Foto: João Andarilho


João Sem Dó

(Musicólogo de Valmedo)

quarta-feira, 6 de março de 2024

 

ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - XII


MARIA NOTÁVEL LAMAS


Deixo a escola que também foi a minha e que tem o seu nome para trás, descubro o seu pequeno e ondulante jardim e ali está ela, a MARIA LAMAS esculpida por Armando Ferreira, artista plástico alpiarcense...  A primeira e estranha impressão que tenho é que a estátua não se parece nada com a imagem que tenho da ilustre torrejana mas também não era essa a intenção, disse o autor logo em 1993 aquando da sua inauguração, antes quis ele alegoricamente dar à obra a alma que aquela grande mulher simbolizou para todas as mulheres! E que bela saiu a encomenda, ademais quem preferir um retrato mais realista basta ir quanto antes à exposição "As mulheres de Maria Lamas" patente na Gulbenkian e deleitar-se com o busto em gesso que Júlio Sousa fez em 1929...

  

"Maria Lamas"- Jean-Charles Forgeronne



Segundo alguns a mais notável mulher portuguesa do século XX, e mesmo que não seja consensual esse louvor terá sido certamente uma das mulheres mais proeminentes do nosso país, MARIA LAMAS foi escritora e jornalista, pedagoga, investigadora, tradutora, fotógrafa e especialmente uma intrépida lutadora pelos direitos humanos e cívicos e um símbolo na luta pela dignidade e pelos direitos das mulheres durante o regime do Estado Novo! Presa por várias vezes e exilada em Paris na década de sessenta onde apoiou os refugiados políticos que se opunham à guerra colonial, mesmo assim conseguiu construir uma obra literária que vai desde a literatura infantil à poesia, da ficção à antropologia social e foi neste campo que a descobri, através da fantástica obra "Mitologia Geral - O Mundo dos Deuses e dos Heróis", comprada em boa hora juvenil com os trocos amealhados na apanha do figo preto de Torres Novas pois agora dizem que muito poucos dos seus livros se encontram disponíveis no mercado... Devo ter aqui um tesouro em casa, querem lá ver?!




João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

segunda-feira, 4 de março de 2024

 

A MISTERIOSA ORIGEM DAS PALAVRAS - XXIII


Die ALPTRAUM zufulge Herr SCHMIDT!

(O PESADELO SEGUNDO O SR. SCHMIDT!)


Hoje acordei em sobressalto e completamente exausto, confuso e a tremer, e a culpa da noite horrível que passei é toda sua, Herr Schmidt! Senão veja bem, numa amálgama de imagens esquisitas e tenebrosas sonhei que o glorioso estava a ser trucidado por uma tribo draconiana, sem apelo nem agravo, e em muitas delas, as mais perversas de todas, o senhor tinha transformado os nossos craques em minúsculos diabinhos vermelhos que, por estarem fora do seu habitat natural, numa vertiginosa confusão só faziam porcaria e que não conseguiam disfarçar que estavam sob o efeito de um feitiço que tinha um único propósito: prejudicar a própria equipa e sofrer uma humilhante derrota! Não, não estou a exagerar nem a inventar, Herr Schmidt, aliás isso é o que senhor vem exacta e impunemente fazendo há tempo demais, provocando-me alptraum atrás de alptraum, e isto não é apenas um desabafo a quente, eu dei-me ao trabalho de investigar as causas deste meu grande mau-estar...... 


"O pesadelo" - Henry Fuseli, 1781

Diz Maria Lamas na sua obra "Mitologia Geral - O mundo dos deuses e dos heróis" que "os Germanos acreditavam que a Terra era povoada por uma multidão de seres de natureza sobre-humana" e que, de entre eles, os ELFOS, em alemão ALP, eram espíritos maléficos ou demónios que existiam por todo o lado, nas águas, nas florestas, nas montanhas, e que apesar da sua pequena estatura eram muito belos e mais esbeltos que os homens... Alguns elfos então tinham especial prazer em invadir as casas e atormentar o sono dos humanos, vinham pela calada da noite e sentavam-se em cima das pessoas que dormiam, asfixiando-as e importunando os seus sonhos, em alemão TRAUM, causando um enorme pesadelo, em alemão ALPTRAUM... 


Então tudo se explica, Herr Schmidt, eu fui atacado e oprimido por um elfo igualzinho a si, com a sua cara chapada, aliás tenho a impressão que ao abrir os olhos ainda a vislumbrei por breves instantes antes de se esfumar para outra dimensão... Na verdade, era o que o senhor também devia fazer, ir atormentar outras almas lá longe...  E já agora, atendendo ao facto de o senhor não falar uma palavra de português apesar de já estar entre nós há tempo bastante deixo-lhe esta: alptraum em português diz-se pesadelo (pesado + elo), e de facto tem sido muito pesado conviver consigo!


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"Piercing canino" - Jean-Charles Forgeronne

 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

"Alviela" - Jean-Charles Forgeronne

 

 

LENDAS E NARRATIVAS - XX


OS ESPÍRITOS DAS FLORESTAS


As árvores, ao servirem de alimento, material de construção, combustível e até remédio, sempre tiveram um carácter sagrado para a humanidade e essa natureza divina revela-se de muitas maneiras ao serem consideradas símbolo de vida, de fertilidade, de imortalidade e de renascimento; as árvores são mágicas e consideradas canais de ligação entre o céu e a terra, as suas copas apontam para as estrelas, as suas raízes contactam o submundo, os seus troncos estão ao nosso nível, habitam os nossos lugares entre o que está acima e o que está abaixo... 
E foi num tronco que vi a divindade, a ninfa do Alviela, ali à beira do rio e pertinho dos olhos lacrimejantes da moura...   



"A ninfa do Alviela"


Rezam as antigas lendas gregas que as ninfas são divindades femininas que habitam os campos, as florestas, os rios, os mares... Algumas delas, chamadas dríades (do grego drýs que significa carvalho, essa mítica árvore sagrada também adorada pelos celtas) nascem e habitam nas árvores, cuidando delas durante toda a sua existência, numa união física e espiritual. E quando a árvore morre também a ninfa sucumbe....
E quando deixei a floresta encantada e regressei a Valmedo não resisti a fazer uma visita a uma velha conhecida, uma ninfa de belos cabelos compridos que à janela do seu tronco à beira da estrada concorrida se diverte observando os namorados juvenis a caminho do liceu...



"A dríade de Valmedo)


 João Iniciado

(Ocultista de Valmedo)

 

LENDAS E NARRATIVAS - XIX


A INFELIZ MOURA DO ALVIELA

Diz-se que noutros tempos, foragida do seu reino longínquo, quem sabe se das bandas de Alcobertas, chegou aqui onde hoje e desde há muito nasce o rio Alviela uma corajosa e infeliz princesa que desobedeceu à imposição do seu pai para casar com um príncipe muito rico... Acontece que a moura princesa estava apaixonada por um rapaz pobre da sua terra, mas vendo que a união com esse amor com que sonhava dia e noite era impossível e que a infelicidade lhe estava destinada por aqui se escondeu, chorando a toda a hora a sua triste sorte... 


"Os olhos"



Mas uma bruxa de má índole descobriu o paradeiro da infeliz moura e através dela o rei foi enviando à filha outras propostas de casamento, mas nenhum dos pretendentes a princesa aceitava. Então o rei, ansioso por resolver a sucessão do trono do seu condado e farto da teimosia da princesa fez-lhe um ultimato: ou casava com o bonito rapaz que lhe tinha enviado, e que na realidade era um boi encantado, ou seria condenada a viver eternamente naquelas grutas e as suas lágrimas seriam tantas e tão grossas que se tornariam num rio que daria para regar para todo o sempre as terras e dar de beber a pessoas e animais...
E, de facto, as águas do Alviela brotam de orifícios que parecem olhos em lágrimas...    





João Parte Pedra

(Geólogo de Valmedo)