terça-feira, 10 de outubro de 2023

 

ANEDOTAS QUE PARECEM POEMAS - XII

BARCO AO FUNDO

Toda a gente que estava sentada na sala olhava para o mar agitado e não ousava mexer uma pálpebra sequer, as mãos ferradas uma na outra ou então fincadas na cadeira mas apesar da enorme angústia o navio seguia o seu destino. De repente, alguém da primeira fila de cadeiras desata a gritar.
  - Vai afundar! O barco vai afundar!
Alguém perto remexeu-se, algumas pessoas entreolharam-se, ouve-se um suspiro ao fundo e as atenções viram-se novamente para o oceano assustador mesmo ali à frente..
  - Vai afundar! O barco vai afundar!
A mesma voz! Desta vez alguém lança lá de trás um tímido "Cale-se, porra!"...
O desconforto era cada vez maior naquela sala e para desespero de todos ouve-se novamente a mesma pessoa ainda mais alto:
  - Eu já vi isto! O barco vai afundar!
Foi então que três seguranças invadiram a sala, pegaram na criatura à força e retiraram-na do cinema... 
 



João Tonteria

(Humorista de Valmedo)

 

ESCRITO NA PAREDE - XXVIII




Jean-Charles Forgeronne

(Fotógrafo de Valmedo)

 

CONTANDO A HISTÓRIA DE PORTUGAL


Encontrei por sorte o artista em cima de um escadote e de pincel na mão a trabalhar no mural da Escola Primária do Reguengo Grande, numa longínqua e solarenga manhã do Fevereiro de 2021... Encostei o carro e entabulei conversa com a personagem, chamava-se José Luís Nascimento e morava nas Cezaredas ia para vinte anos...




Fazia contas de acabar a obra lá para o Natal desse ano, disse ele por detrás da máscara que entretanto tinha colocado mas as contingências que o Covid acarretou, então no auge, iria atrasar a coisa... Tinham-lhe sugerido pintar cenas da História de Portugal numa banda desenhada mas ele, inspirado pelos azulejos das batalhas patentes na estação de São Bento no Porto, tinha antes e em boa hora optado por pintar painéis representativos de cada reinado lusitano...




Figura de simpatia extrema, saltou imediatamente à vista que era um conversador nato cheio de riquíssimas histórias por contar, haja alguém que as mereça ouvir, falou do seu avô algarvio, da luz e de histórias de Cacela Velha e da praia da Manta Rota, por coincidência o meu Algarve preferido... O que lhe dá mais prazer nesta vida é pintar, e é seu o mural do jardim de pedra de São Bartolomeu, no caminho para o Paço...




O que lhe dá mais prazer nesta vida é pintar, tem quadros seus espalhados pela casa e é também seu o mural do jardim de pedra de São Bartolomeu, no caminho que leva ao Paço... Já era tempo de deixar o artista trabalhar e despedi-me até uma próxima vez em que o encontre por aí de pincel na mão contando histórias... Já passaram mais de três anos desde então e nunca mais o vi, mas a sua história de Portugal ali está orgulhosamente exposta para quem a quiser ver...



João Alembradura

(Historiador de Valmedo)

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

 

TASCAS E ANTROS DE PRAZER - XXIX

A TASCA DO ISMAEL


Calha ser domingo e calha estar a passar pelo Reguengo Grande, sinto o apelo e faço um desvio pelo centro da aldeia, passo pelo mural histórico da escola e subo a rua até ao largo da igreja, paro em frente à casa amarela construída em 1947 e com o número 22, ontem perguntara-me o Andarilho: - Sabes quem morreu? - e sem esperar por resposta - O nosso amigo Ismael do Reguengo... 
Apesar de ser uma notícia pouco surpreendente devido à gravidade da sua doença, o impacto é duro, partiu o bom do Ti Ismael, essa alma pacífica e desalinhada que nos recebia sempre na sua tasca com boa disposição e ânimo e isso era exactamente o que aí buscávamos quando regressávamos já cansados das corridas ou bicicletadas pelo Vale da Cornaga...



Apesar da porta fechada parece um dia como os outros, a tasca não tinha horário de abertura, especialmente aos domingos porque dependia como tinha sido o sábado do Ismael e algumas vezes batíamos com o nariz na porta e lá seguíamos desconsolados, sem a ginginha fresquinha ou a mini refrescante, ficava para a próxima... 
Por detrás daquela timidez e simplicidade vivia alguém culto, bem informado, a velha telefonia a pilhas estava sempre sintonizada na Antena 1 para se inteirar do que se passava pelo mundo inteiro, ele a quem bastava o seu cantinho. Um dia, subido eu do vale e ao dizer-lhe que a cascata já tinha água e que merecia uma visita confidenciou-me: "Não vou lá desde os meus oito anos!". "A sério? Não tem curiosidade de lá ir ver como está aquilo agora, passado tanto tempo?". E ele desconcertante: "Não! Está visto, visto está!"...




E se a porta se abrisse agora ali estaria o Ismael sentado a fumar, ouvindo as notícias enquanto aguarda algum cliente, rodeado de posters do Benfica e outras pérolas humorísticas penduradas na parede, especialmente aquela acta do 1º Congresso de Peidos lavrada em folha A4 já com a tinta esmorecida pelo tempo... E várias vezes dali saí à maneira do congressista desportista anunciando: "Bem, Ismael, como atleta que sou vou-me peidar e sair a correr..."
E agora, no regresso a casa ainda longe, desejo que naquele dia em que chegar ao outro lado deste mundo-cão montado na minha Bulldozer por lá encontre o Ismael a servir ginginhas fresquinhas na sua tasca...  




28666

(Atleta de Valmedo)

domingo, 8 de outubro de 2023

 

O MONSTRO DE VALMEDO


-Olha só, James! Lembras-te de eu te dizer há tempos que tinha ouvido uns rumores de que andava por aí um bicho estranho, um monstro nunca visto antes, quiçá uma criatura de outro mundo?
Sim, amigos caninos, eu lembrava-me de ter ouvido aquela história da boca do J.C. mas também de o ter ouvido dizer, e é bem provável que ele já nem se lembre do que disse, de que não acreditava nessas fantasias, que era fruto da crendice popular em cenas paranormais tipo aquela história da loba, alguém talvez com miopia viu uma cadela de grande porte e depois do relato ter dado a volta à freguesia já o bicho se tinha transformado numa terrível loba que dizimava rebanhos e capoeiras... E parecendo que estava a ler os meus pensamentos, sensação das mais desconfortáveis que se pode ter, voltou o J.C. à carga:
- É que desta vez, James, parece não ser apenas uma história a passar de boca em boca e que muitas vezes descamba numa autêntica invenção, alguém conseguiu fotografar o monstro a espreitar de um buraco duma casa, olha só!




E quando ele vira para mim aquele artefacto tecnológico a que todos andam agarrados como se fizesse parte do seu corpo eu, confesso, abri os olhos de espanto, na imagem via-se a cabeça de uma criatura assustadora, com uns olhos demoníacos e uns dentes ameaçadores prontos a devorar... Talvez para me sossegar um pouco disse então o J.C ao reparar no meu desconforto que o que valia é que parece que a estranha criatura ainda só fez estragos nalgumas capoeiras das redondezas, não há relatos de incidentes com pessoas ou cães... Valha-nos isso e a esperança de que entretanto alguém consiga exterminar o bicho para que a tranquilidade volte...

James

(Cão de Valmedo)

sábado, 7 de outubro de 2023

 

"Nightrider III" - Jorge Charrua, (Moledo com Fome)

João Plástico

(Artista de Valmedo)

 O REI DO BAIRRO DO REGO


Após várias voltas sem achar um lugar para estacionar encontro-me encostado em segunda fila defronte dos blocos de habitação social do bairro, paredes meias com modernas residências para estudantes e séniores... Atrás de mim fica o hospital e o vale rasgado pela linha do comboio e por onde há muito tempo escoava até à ribeira de Alcântara um regato que vinha dos lados do Campo Pequeno, daí terem dado a esta zona o nome de Rego...



Está calor, abro a janela e só então reparo no cão pintado na parede, com uma orelha caída olha-me com ar sério e inquisidor e tem uma coroa sobre a cabeça, será o rei do Bairro do Rego? Deixo passar mais um barulhento avião em voo rasante e leio na placa: Rua Marciano Henriques da Silva, pintor, (1831-1873)... Busca rápida efectuada e fico a saber que era um pintor açoreano que se celebrizou por ter sido o retratista da corte no reinado de D. Luís I e que, calhava mesmo bem e feliz coincidência, tinha a maioria dos seus quadros no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, e eu com viagem marcada para São Miguel para daí a umas semanas não perderia a oportunidade de conhecer a obra do Marciano... E parecia ser a manhã das coincidências, o misterioso mundo-cão estava a enviar-me mensagens encriptadas pois veio-me então à alembradura que iria ficar hospedado em Ponta Delgada na casa da Sónia que curiosamente se situa numa rua com o nome de outro pintor açoreano, um qualquer coisa Rebelo...


Passa outro avião, pelas minhas contas passa um a cada cinco minutos e quando me volto, a meia dúzia de metros e deitado no colorido vão do prédio cheio de pinturas que nos transportam para o imaginário africano, vejo o cão outra vez! É o mesmo cão, aquele que está na parede só que desta vez em carne e osso, com o mesmo ar sério e a mesma orelha quebrada, afinal o rei do Bairro do Rego é um cão-personagem real!



Sai então alguém de um dos prédios e pergunto desavergonhadamente:
 - Este bicho é aquele que está ali na parede, não é?
 - É! É o Fany!
 - E quem é o dono?
 - Não é de ninguém e é de todos! Vive desde sempre aqui no bairro, todos lhe deixam comida e água... Foi a associação que o pintou ali na parede e que também fez todas estas pinturas que por aqui vê...
E enquanto passa outro avião descubro que a associação é o "Frame Colectivo" e que é ali que também têm a sua sede o Instituto Padre António Vieira e a "Passa Sabi", instituições que promovem a integração, a mobilização e a valorização da comunidade...




João das Boas Regras

(Sociólogo de Valmedo)