sexta-feira, 28 de abril de 2023

 

ARTISTICO RETIRO EN LA NATURALEZA...


Quando estava com um pé em Castela chamavam-lhe Felipe e era o quarto mas quando punha o outro pé em Portugal tornava-se Filipe e passava a terceiro, viveu 60 anos, 5 meses e 9 dias e desde os 16 anos de idade que reinou por mais de 4 décadas para gaúdio dos seus apoiantes que lhe chamavam "O Grande" e "O Rei Planeta" e para desgosto dos seus detractores que o apelidavam de "O Opressor"... O ano de 1640 foi-lhe agridoce, depois de 60 anos de união ibérica Portugal tornou-se independente mas por outro lado, talvez para digerir as frustrações em retemperadores passeios num idílico retiro e após 10 anos de obras recebeu de presente um grandioso parque: o Real Sitio del Buen Retiro!


"El Gran Estanque" - Jean-Charles Forgeronne

Hoje, passados 383 anos da sua inauguração, o Parque del Buen Retiro é desde 2021 considerado Património Mundial da Unesco apesar de ocupar "apenas" 125 hectares, uma pequena parte da área original, afinal o parque tinha sido destruído quase na totalidade durante as invasões napoleónicas e desse tempo resta somente o grande lago conhecido como o Gran Estanque, construído já  Felipe IV morrera... Mais tarde, em 1902, foi erguido o grande monumento que impera nas suas margens...


"Palacio Velasquez" - Jean-Charles Forgeronne

Duas visitas obrigatórias durante um passeio por entre as mais de 15000 árvores do Retiro são o Palácio Velasquez, construído em 1881 e que hoje acolhe exposições de arte contemporânea, não só interessantes mas gratuitas e por estes dias e até meados de Maio é possível conhecer Manolo Quejido que apresenta obras disponibilizadas pelo Museo Reina Sofia e depois também é de ver o Palacio de Cristal, uma curiosa estrutura em ferro e vidro construída em 1887 para servir então de estufa para uma exposição de plantas e flores das Filipinas...


"Palacio de Cristal" - Jean-Charles Forgeronne

Até terminar o passeio na extremidade sul do parque, à beira de museus e do Paseo del Prado, ainda se passará por uma estátua única no mundo, por árvores exóticas e com muita história para contar, por fontes, por um bosque de recordações e até por uma ermida... 


João Palmilha

(Viajante de Valmedo) 

quarta-feira, 26 de abril de 2023

 

SEXTO INCIDENTE TRANSFRONTEIRIÇO

LA CHICA, LA MOCHILA Y EL PORTUGUÉS...

Cinco minutos antes estava tudo bem, a viagem tinha decorrido tranquilamente dentro do horário previsto e faltavam poucos minutos para chegarmos ao hotel, afinal qual o viajante ou turista que não fica contente ao saber que para ir do aeroporto para o centro de Madrid basta apanhar o metro que ainda por cima se revela eficiente, pontual e nada caro? O único senão para quem acaba de chegar e toma contacto pela primeira vez com a emaranhada rede dos transportes públicos da cidade é que, dependendo do destino final, poderá ter que efectuar várias trocas de linha mas isso é um mal menor, desde que não surja nenhum inesperado incidente, claro... E agora, na estação de Goya, tínhamos acabado de entrar numa carruagem da linha 2 e que iniciava já a sua marcha em direcção a Ventas quando sinto a falta de algo: "A mochila! Onde está a minha mochila?" - lanço desesperadamente para a N., numa última esperança de que ela a tivesse consigo...
Mas claro que não tinha, troca de olhares desesperados, tentei raciocinar e rever o filme dos acontecimentos e a coisa tornou-se óbvia: quando saímos em Goya vindos de Mar de Cristal e para consultar o mapa do metro para uma última orientação tínhamo-nos sentado por um breve minuto num banco à beira de uma jovem castelhana de ar moderno e ligada às redes sociais como toda a gente por aquelas bandas anda... 



E então, certo estava agora que a mochila tirada das costas e pousada no banco para consulta do mapa por lá tinha ficado: "É por aqui, vamos..." - lembro-me de ter dito para a N. de guia de viagens aberto e já a caminhar... 
Saímos na próxima estação, galgámos escadas e passadeiras em frenético passo apressado com  as maletas de rodas quase aos trambolhões em busca do cais contrário e lá apanhámos o comboio de volta a Goya, "Já não está lá a mochila!", dizia a N., desconsolada, "Ninguém leva a mochila!"- retrucava eu o mais tranquilo possível - "Ainda pensam que pode ser um atentado terrorista, não mexem..." dizia eu sem muita convicção lembrando-me dos atentados de Atocha... E passados alguns minutos que pareceram uma eternidade estávamos de novo no local do crime mas sem ter a certeza de que era mesmo ali e ao sair do metro a primeira coisa com que nos deparámos foi com duas simpáticas agentes da segurança que lado a lado iam na mesma direcção, ganhei coragem a abordei-as: "Pardón, necessito ayuda! Yo perdi mi mochila..." - Abrandaram um pouco o passo, trocaram um olhar cúmplice e uma delas respondeu: "Lo sabemos, vamos!" e apontou para o fundo da plataforma onde ainda vislumbrei ao longe a bendita chica madrilena a abandonar o banco onde uma abandonada mochila me esperava... Ninguém me disse e também não perguntei mas tenho a certeza de que foi a chica que ligou para a segurança não por temer um atentado (se assim fosse porque continuaria sentada ao lado mochila até as autoridades chegarem?) mas porque naqueles breves momentos terá reparado que se tratava de um casal de turistas portugueses um pouco perdidos e um pouco esquecidos, apenas isso... E por isso, muchas gracias, incógnita chica...


João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

 

"Gran Via" - Madrid

Jean-Charles Forgeronne

(Fotógrafo de Valmedo)

terça-feira, 25 de abril de 2023


EFEMÉRIDE # 97

25 de ABRIL PSIQUIÁTRICO


"Mural ao 25 de Abril" - Mário Belém

Hoje, passados 49 anos, apesar de derrubada a cinzenta ditadura, estamos certos de que a liberdade trazida pela revolução de Abril não é plena, continua muito povo oprimido por aí e para muitos outros o bem-estar social e a felicidade continuam a ser miragens... Ao contrário de tantos outros já gastos e acomodados e que por tanto se apegarem às memórias do antigamente não reparam que o país vive um definhamento constante, há gerações nascidas depois do 25 de Abril que se revoltam e muito e já que que não é à mão armada valem as tintas e a imaginação por esses muros e paredes afora... É o caso de Mário Belém, nascido em 77, pintor e muralista que sintetiza num pilar da Ponte a esquizofrenia do 25 de Abril, desde lamelas de valium apanhadas do chão a seguir a uma qualquer sessão em S. Bento até à espessa maionese onde toda uma nação pratica diariamente a natação... 


"Legenda"


Já Miguel Januário, nascido em 81 e artísticamente conhecido por "Mais ou Menos" - (+/-) é mais sintético na sua obra em pleno passeio junto o Tejo, diz-nos ele que a liberdade trouxe novos escravos... 



(+/-) 

João Plástico

(Artista de Valmedo)

segunda-feira, 24 de abril de 2023

 

O POEMA ELÉCTRICO 24


José Gomes Ferreira morava na antiga Calçada dos Caetanos (hoje Rua João Pereira da Rosa), em pleno Bairro Alto, numa famosa casa cor-de-rosa e na época em que à sua actividade jornalística juntava a de tradutor de filmes sob o pseudónimo de Álvaro Gomes, talvez sob influência de Fernando Pessoa com quem havia colaborado, apanhava diariamente o eléctrico 24 na Praça Luís de Camões como se atesta pelas palavras do próprio:  "Todos os dias passo pelas Amoreiras quando vou para o laboratório de Campolide, marcar filmes numa moviola..." 
E por causa dessas viagens o poeta criou o poema XVIII que integra a sua obra "Eléctrico":


" Há lá renda que se assemelhe
a este tecido de árvores no Ar...
(Hei-de pedir à Maria Keil
para as pintar.)

Árvores do Jardim do Aqueduto
sem flor nem fruto,
nem nada de seu...

Só este azul de pássaros a cantar
que vai da terra ao céu."



"Jardim do Aqueduto" - Jean-Charles Forgeronne

A 1 de Julho de 1905 era inaugurada a linha do eléctrico 24 ligando a Praça Luís de Camões a Campolide e assim funcionou durante 90 anos até ser suspensa em 1995 por causa da construção de um parque de estacionamento subterrâneo na Praça de Campolide... E como é comum neste país acontecer a coisa que se fecha muitas vezes não voltar a abrir, parque de estacionamento concluído e elétrico nem vê-lo durante mais de 20 anos, mobilizou-se o povo lisboeta unido em petição para exigir a reactivação  da linha e, quase milagre, precisamente há 5 anos, simbolicamente a 24 de Abril de 2018 voltou o 24 a andar por carris desde Campolide ao Bairro Alto... Feliz ficaria o poeta ao disso saber, ele democrata e anti-fascista, militante convicto das justas causas populares...


"O 24 em Campolide" - Jean-Charles Forgeronne


João Conde Valbom

(Olisipógrafo de Lisboa)

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXXIII


AS MARAVILHOSAS AVENTURAS DE JOÃO SEM MEDO


É um daqueles livros que pode e deve ser lido em tenra idade como depois ser relido já adulto porque apesar de haver quem o catalogue como objecto de literatura infantil isso não faz justiça à riqueza proverbial da obra e isso aconteceu comigo: depois de há muito tempo ser obrigado pela escola a ler as "Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo" acontece que, por curiosidade e nostalgia, voltei a relê-lo recentemente... E se me lembrava apenas vagamente de umas aventuras extraordinárias de um menino agora pasmei com a sabedoria impregnada naquelas páginas, a leitura é tão diferente e tão mais rica que que me frustrou o não ter aprendido então os segredos da vida que agora, já tarde, julgamos saber... Nesta obra, concebida em 1933, José Gomes Ferreira publicava um episódio por semana na revista infantil "Sr. Doutor" e, nas palavras do próprio, por falta de tempo muitas vezes era obrigado a improvisar e que belo improviso lhe saiu já que o seu herói se tornou uma personagem famosa até hoje ao galgar o muro proibido que separa o Mundo Real do Mundo Mágico e assim obrigar o leitor a pensar e a sonhar... E depois, que dizer do surpreendente e desconcertante destino do nosso herói de Chora-Que-Logo-Bebes?

 



"João Sem Medo encolheu os ombros, hesitante:
 - Que sei eu?...  A  verdade é que nestas minhas andanças descobri que, tanto no Mundo da Imaginação Mágica como em Chora-Que-Logo-Bebes impera a mesma Lei tremenda que se pode resumir numa destas palavras à escolha do freguês: Maçada, Repetição, Monotonia, Chatice... Com uma diferença, claro. É que em Chora-Que-Logo-Bebes sofre-se mais. Ou pior ainda: sofre-se menos. Porque lá a pseudodor é tão pífia, tão pilha, tão vil, tão rasca que até se ignora qual a dor verdadeira.
  - Que vais então fazer a essa terra tão seca por dentro e tão húmida por fora, autêntica fábrica de constipações morais?
- Bem... Os homens nunca se contentam... E eu, a falar franco, fartei-me deste Imprevisto-Anárquico do Sonho em que vivi e agora apetece-me voltar a provar aquilo a que chamamos Realidade..."


João Vírgula

(Leitor de Valmedo)

ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - IX


O POETA MILITANTE



Braço esquerdo colado ao corpo e mão aninhada no bolso do casaco, braço direito levantado e mão a aconchegar a nuca significando uma atitude firme perante as injustiças da vida, olhar firme e incisivo, certamente perscrutador, eis o JOSÉ GOMES FERREIRA que encontrámos no Parque dos Poetas, em Oeiras... A estátua em pedra Branco de Lioz da autoria de Francisco Simões pretende homenagear o carácter e a moral integra do poeta militante, como se autodenominava... Nascido no Porto mas lisboeta desde os 4 anos, licenciou-se em Direito aos 24 anos e no ano seguinte abalou para a Noruega para assumir o cargo de cônsul em Kristiansund... Regressa a Portugal cinco anos depois abandonando a carreira diplomática e as leis para as quais achava não ter vocação para se dedicar ao que mais lhe servia: a música, a escrita, o jornalismo, a intervenção política...



De entre poesia, ficção, crónicas, diários, contos e ensaios escreveu dezenas de obras e ganhou em 1961 o "Grande Prémio da Poesia" da Sociedade Portuguesa de Escritores e hoje é consagrado como um dos maiores poetas lusitanos do século XX...


João Vírgula

(Leitor de Valmedo)