segunda-feira, 10 de outubro de 2022

"Oppidum nebula"


 Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

 

UM DIA DE RICO FOLIO

Começar a segunda jornada do Folio com uma bela surpresa é sempre bom e enquanto subia a Rua Direita direito ao Largo de Santiago deparo em pleno Largo de Santa Maria com uma actuação incrível de um trio de andarilhos chamado The Old Times Rags, divertidos artistas de rua que calcorreiam o mundo e grandes festivais oferecendo concertos de music hall, jazzblues ancestrais e dança de sapateado em troca de uns cobres ou da compra do seu CD a 10 euros, uma pechincha... E ali os ouvi, à sombra e entre laranjas, entretendo os passantes e a esplanada bem composta de turistas, show que nem constava do programa oficial do festival...

"The Old Time Rags"

The Old Time Rags

De espírito saciado subi então até à Igreja-Livraria de Santiago, outrora templo de missas e reflexão, agora templo literário em que a religião são os livros, afinal quem disse que a leitura também nos pode abrir as portas do céu? E ali, de livro aberto no altar e rodeado de estantes recheadas de obras para todos os gostos, algumas canónicas e outras nem tanto, assisti a uma agradável conversa luso-brasileira sobre como se constrói um romance e tanto Rute Simões Ribeiro, jovem escritora de origens coimbrãs, como Lucrecia Zappi, jornalista e romancista argentina de nascimento, paulista de crescimento e nova-iorquina de vivência actual, coincidiram na ideia de que não têm qualquer cartilha ou receita para começar uma escrita, a coisa tanto pode nascer de uma ideia como de uma simples conversa em que se em pleno autocarro... Saí dali animado, afinal qualquer um pode descobrir inspiração em qualquer lado, pensei...

"Conversa no altar"

Já tardinha e antes de uma pausa para o premente reconforto gástrico desci aos ziguezagues por entre turistas em busca da casa onde se hospeda a Editora Abysmo, criação de João Paulo Cotrim, jornalista, escritor e apaixonado pela banda desenhada e ilustração, figura incontornável e agitadora do panorama artístico português, desaparecido demasiado novo faz em Dezembro um ano... Foi com o intuito de relembrar histórias surreais e caricatas passadas com Cotrim que vários amigos seus se reuniram mas a emoção tomou conta dos oradores e se na plateia houvesse alguém que desconhecesse de quem se falava então apercebeu-se da figura extraordinária que era o homenageado...

"Os amigos do João"

Para terminar o dia em beleza nada melhor do  que ouvir as palavras de NBC, um são-tomense de cor naturalmente preta radicado em Torres Vedras e que acompanhado com mestria ao piano e com as suas mensagens fortes e inspiradoras bem poderia fundar grupo de auto-ajuda ou então um culto evangélico tal a empatia que desperta na assistência, nunca tinha visto um artista  tão emocionado em palco com a entrega do público e o concerto terminou em apoteose quando o Timóteo decidiu ir cumprimentar um por um todos os espectadores... 

"Natural Black Colour"

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

sábado, 1 de outubro de 2022



"LOVE YOU MADLY!" - said the irishman...


Sei-o agora que se quisesse não acharia maneira mais bela de me despedir de Setembro do que aceitar o amável convite da Antena 3 para assistir ao concerto inaugural da tournée em modo acústico dos VILLAGERS, isto é, de Connor O'Brien, um trovador irlandês de Dublin que se diz perdido de amores por Portugal e pelos portugueses e que se fez acompanhar apenas por um músico amigo convidado ao piano, sintetizador e saxofone, aliás excelente... Fica já a dica para quem quer começar da melhor maneira um Outubro que se adivinha exigente para se dirigir hoje à noite ao Theatro Circo de Braga e assistir ao segundo show da tournée, não se irá arrepender e se não puder ainda resta a hipótese de assistir a um dos outros 22 concertos que percorrerão a Bélgica, a Holanda, a Noruega, a Dinamarca, Inglaterra e claro, a natal Irlanda... 


"Villagers" - Jean-Charles Forgeronne
 
Lá me dirigi então ao Estúdio Time Out, lugar que começa a ser imprescindível para conviver intimamente com os artistas, o espaço presta-se a isso já que estamos mesmo ali em cima do palco, músicos à distância de braço que até parece que estamos sentados no sofá e eles estão na nossa sala de estar... E ali estavam também muitos irlandeses animados e de baterias carregadas a Guiness lá em baixo nos bares do Mercado da Ribeira, sedentos ainda de ouvir o seu conterrâneo cantautor de melodias ímpares e voz poderosa, a lembrar um tal Cat Stevens na opinião da N. que, emocionada a meu lado e que até à véspera não conhecia os Villagers, se tornou num ápice numa eterna fã, coisa que aliás pode acontecer a qualquer um...    





E no final,para despedida, ainda o irlandês parafraseou Jim Morrison com um autêntico e irresistível "Love you madly"... "I Love Ireland", pensei então eu...


João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)  

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

 

"A vida é uma pílula que ninguém consegue                   engolir sem primeiro a adoçar..."


Samuel Johnson (1709-1784)
Ensaísta e linguísta

 

A MISTERIOSA ORIGEM DAS PALAVRAS - XX

A PÍLULA DOURADA

O nome pílula tem origem no latim pilula que significa "pequena bola" ou "bolinha" já que é um diminutivo de pila, "bola", e representa o formato  de um dos mais antigos medicamentos da história humana e deste mundo-cão... Desde tempos ancestrais que praticamente todas as substâncias curativas eram reduzidas a uma pasta que depois era moldada em pequenas bolas para serem engolidas ou mastigadas mas que por serem muito amargas tornavam o tratamento muito desagradável, nalguns casos chegava a ser mesmo uma autêntica tortura "engolir a pílula"...

Para atenuar o incómodo do tratamento e a sua rejeição tentou-se desde cedo dar outro sabor e aspecto às pílulas, especialmente juntando-lhes açúcar mas também dourando-as, isto é, pasme-se, revestindo-as com finíssimas folhas de ouro! A utilização do ouro na medicina era tradicionalmente uma das bases da farmacopeia árabe, já  Avicena, célebre filósofo persa do século X e que ainda adolescente já praticava as artes da medicina, revestia os comprimidos com folhas de ouro ou prata... O ouro, esse improvável medicamento foi até ao século XVIII usado também como fortificante, remédio para a epilepsia, cura para a icterícia, servia ainda como laxante através de clísteres e aos doentes que sofriam de varíola era-lhes aplicada no rosto uma fina película do milagroso metal! Ainda dizemos hoje que a medicina é cara! Dourar a pílula significa então disfarçar algo penoso ou desagradável e apresentá-lo como de fácil aceitação, basta acreditar e engolir... 


João Portugal
(Linguísta de Valmedo)

sábado, 10 de setembro de 2022

 

EFEMÉRIDE # 93

A QUEDA, O AMOR E O VINHO...

Há precisamente 110 anos, a 10 de Setembro de 1912, um extraordinário acontecimento teve lugar: o primeiro voo pilotado por um português ocorreu sobre as águas do Tejo! Não foi o primeiro voo a acontecer em território lusitano, esse tinha sido feito três anos anos por um francês que sobrevoara o rio a uns milagrosos oito metros de altura mas que azaradamente aterrara no telhado de uma casa em Pedrouços! Então, e apesar do incómodo incidente, a aventura não deixou de ser um acto heróico aos olhos da multidão lisboeta que assistia... Diz-se que foi por isso, de uma esperada e inevitável queda, que o jovem Alberto Sanches de Castro, então com 24 anos, aluno do Colégio Militar com aptidões para a mecânica e curso de pilotagem tirado em França, patrocinado e desafiado por amigos, escolheu como sua base de treinos o Mouchão da Póvoa, uma lodosa ilhota no meio do Tejo com as lezírias da Póvoa de Santa Iria à vista e que em caso de aterragem forçada sempre seria mais adequado e macio do que o telhado de uma qualquer casa na margem do rio... 


Nesse dia, Alberto lograria cometer a façanha de descolar e aterrar quatro vezes com sucesso em plena pista de 1200 metros do Mouchão, tendo voado algumas centenas de metros a 5 metros de altitude! Tal proeza deu-lhe ânimo para se aventurar dias depois numa viagem mais longa e tentar atravessar o rio e até conseguiu só que despenhou-se a alguns quilómetros da base ao entrar por uma fábrica de cortiça adentro! Grande sorte a sua pois miraculosamente apenas partiu algumas costelas e ainda viria a conhecer a mulher da sua breve mas intensa vida, a lindíssima filha do dono da fábrica, um empresário corticeiro alemão que a disponibilizou para serviço de enfermagem ao nosso aventureiro... Alberto foi tratado com tantos mimos que abdicou de qualquer ida ao hospital e o romance inevitavelmente teria que acabar em casamento! Talvez por influência da mulher Alberto assentou, pôs de parte a sua inclinação para desafiar o perigo e tornou-se cidadão recatado, professor de engenharia mecânica e tendo como hobbies a pintura e a caricatura...   

Para a posteridade, Alberto Sanches de Castro deixou um curioso manual prático de reparação de automóveis com o título "Ó Chico, não sejas azenhudo" e o famosissímo logotipo do vinho do Porto Sandeman, um homem de capa negra e chapéu de abas com um copo na mão, afinal tudo tinha começado com a cortiça usada para as rolhas do afamado néctar... Alegre lhe foi a vida mas triste foi a sua sina, acabaria por morrer aos 46 anos de idade num estupido acidente quando esquiava na serra da Estrela...

João Plástico
(Artista de Valmedo)