quinta-feira, 28 de outubro de 2021

 

LIVROS 5 ESTRELAS - XXVI

MUITO MAIS DO QUE UM RIO...

Há três décadas CLÁUDIO MAGRIS viajou ao longo do DANÚBIO, desde a nascente ao delta num percurso de quase três mil quilómetros e em que atravessou a Alemanha, a Áustria, a Eslováquia, a Hungria, a Croácia, a Sérvia, a Roménia e a Bulgária... Tamanha aventura só poderia resultar numa obra-prima da literatura e que é muito mais do que um livro de viagens, pode ser encarado por esse prisma, sim senhor, mas é também ensaio, roteiro paisagístico e cultural, romance e diário e tudo isso junto constitui um autêntico e maravilhado hino ao segundo maior rio europeu...  

Tal como o Danúbio-rio flui imparável ao longo de vales e planícies, delimitando fronteiras e alimentando e definindo a cultura de diversos povos, também o Danúbio-livro oferece uma fluida e riquíssima viagem pelo centro da Europa e que permite ao leitor uma compreensão da cultura europeia. Além disso, Magris, germanista de formação, demonstra nesta obra toda a sua erudição, ele que para além de um escritor reconhecido e premiado sempre na antecâmara do Nobel é também professor na Universidade de Trieste, a sua cidade Natal...   

"As janelas dão para o Danúbio, assomam sobre o grande rio e sobre as colinas que o sobrepujam, uma paisagem marcada pelos bosques e pelas cúpulas em cebola das igrejas; de Inverno, com o céu frio e as manchas da neve, as suaves curvas dos montes e do rio parecem perder corpo e peso, transformam-se em leves linhas de um desenho, numa elegante melancolia heráldica. Linz, a capital da Áustria Superior, era a cidade que Hitler amava acima de todas as outras e que queria transformar na mais monumental das metrópoles do Danúbio."

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

                                            A RAIVA DO VULCÃO - X

O ACORDAR DA VELHA MONTANHA...

Há vinte e seis dias atrás e após décadas de disfarçado sono a velha montanha decidiu acordar e fazer prova de vida, o Cumbre Vieja desatou a expelir cinzas e lava como se não houvesse amanhã e, pensando bem, que amanhã teremos se as forças subterrâneas deste planeta se unirem para um grande apocalipse? Afinal, por estes dias, três vulcões se revoltaram em simultâneo na Europa, nas Canárias, na Sicília e na Islândia, será uma conspiração vulcânica? Por enquanto a importância do fenómeno que ocorre nas Canárias limita-se a um parco minuto no alinhamento dos telejornais e é apresentado como uma curiosidade excêntrica da natureza, um fait-divers para encher tempo de antena e quota de mercado audiovisual... Ainda assim, os rios de lava incandescente embora lentos mas imparáveis queimam tudo à sua frente e já cobriram 600 hectares de terra e aumentaram a ilha em 20 hectares, para além dos mais de 1300 edifícios destruídos, muitos deles casas de habitação, para não falar das mais de 6000 pessoas retiradas da zona de catástrofe... E se pensarmos que os especialistas admitem que a erupção do complexo vulcânico pode durar ainda mais dois meses então é caso para perguntar: até onde pode descambar o fenómeno?

Mas acontece que o até agora tímido e desconhecido vulcão das Canárias tem sido desde há muito referenciado como o possível epicentro de uma catástrofe de consequências apocalípticas e que afectaria todo o planeta... E tudo começou há cerca de vinte anos com os estudos de dois cientistas, Stephen Ward e Simon Day, que concluíram  que o futuro colapso do flanco ocidental do Cumbre Vieja poderia causar um mega-tsunami que atingiria o litoral oeste da Europa, ou seja nós, mas também a África e a América, afinal seria toda a vertente sudoeste da ilha estimada em 500 mil milhões de toneladas a colapsarem mar adentro! Podem alguns sossegar porque os peritos do Instituto Vulcanólogo das Canárias têm vindo também há muitos anos a desmentir esse cenário, acham eles impossível que tal tragédia ocorra mas, porque não duvidar, alguém pode mesmo garantir a segurança de um planeta ameaçado?

Yellowstone, inferno disfarçado?

Estão referenciados 20 supervulcões no planeta, sistemas vulcanosos gigantescos que podem a qualquer momento entrar em convulsão e extinguir a vida deste mundo e onde apenas algumas bactérias poderiam sobreviver, afinal outro recomeço, certo? Exemplo célebre é o vulcão de YELLOSTONE, situado no parque nacional homónimo e que se sabe ter uma cratera a rondar os 100 quilómetros de extensão, afinal toda aquela natureza superficial e exuberante do parque disfarça uma caldeira que pode explodir a qualquer momento! As profecias nem sempre se cumprem, felizmente, teorias do fim do mundo fracassadas já se contam às dezenas mas cada vez mais há gente convencida de que o Apocalipse não virá do céu, nem sob a forma de meteorito nem por invasão alienígena, nem sequer será provocada por um vírus mortal arrasador mas sim virá das profundezas, uma revolução vulcânica global... Talvez seja exagero ou ansiedade mas fiquei um pouco preocupado ao saber que no passado sábado desabou o cone norte do Cumbre Vieja, e se tivesse sido o ocidental, como alertou a teoria do mega-tsunami? Aguardemos, mas já agora e como isso pode mesmo vir a acontecer, com vagas de 50 a 100 metros na Madeira e 10 a 20 metros na costa oeste lusitana, já decidi, amanhã não me aproximarei muito da Praia da Areia Branca nem de Vale de Frades...


João Lava
(Vulcanólogo de Valmedo)

terça-feira, 14 de setembro de 2021


E porque começou hoje mais uma campanha eleitoral e porque já ouço ao longo da rua os estridentes altifalantes ambulantes a debitar palavras de ordem e promessas eleitorais para os próximos quatro anos...

"Discurso eleitoral" - Jorge Pé-Curto, 2020

João das Boas Regras 
(Sociólogo de Valmedo)

"Coreto da Lourinhã, anos 50 do séc. XX"

Muitos ainda hoje, passados mais de cinquenta anos sobre o seu desmantelamento logo no início da década de 70 do passado século, não perdoam o assassinato do glorioso coreto que engalanava a praça da vila contígua ao convento... Restam as memórias das fotografias da época e para a história não ficou o respeito para com o autor de tamanha asneira política e arquitectónica e à época presidente da câmara, Lucínio da Cruz, ele que afinal até era um afamado arquitecto do Estado Novo e com obra feita nas colónias!

João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

                                            ESCRITO NA PAREDE - XVII



Enquanto que antigamente qualquer vila ou lugar o exibia orgulhosamente, nos tempos que correm, entre o céu e a cova, o coreto ganha honras de rara atracção turística...

Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)
 

NOISERV VERSÃO CORETO - II

Quem por ali passasse sem saber o que era aquilo poderia ser levado a imaginar que se tratava de um fenómeno paranormal, quiçá um viajante de outra galáxia que ali tivesse aterrado vindo dos confins do cosmos, afinal que fazia ali um homem dentro de um cubo dentro de um coreto mexendo numa panóplia de instrumentos e envolto em raios de luz e fumos coloridos?  As privilegiadas testemunhas do estranho fenómeno não eram muitas mas mesmo assim enchiam a preceito o pequeno largo e se para algumas delas aquele espectáculo de um músico vindo de Lisboa e com nome difícil de pronunciar seria apenas uma forma de fintar a habitual pacatez e monotonia das noites da aldeia, para outras mais conhecedoras seria uma experiência única de ver e ouvir NOISERV...

"Noiserv no coreto do Paço" - Foto de João Andarilho

Néctar, palavra começada por n e a bebida dos deuses, foi o que se bebeu no Paço ontem à noite, servida pela engenhosa nave de David Santos que nos fez viajar sempre rente ao chão pelos 16 anos de carreira, dando saltos de 27 metros e a 100 milhas da negligência parecendo por vezes uma orquestra quase visível e, neste andar, embora sem tempo e por arrasto, corre o sério risco de um dia ainda vir a ser considerado um génio...  
E enquanto a dona de casa que tinha tirado um tempinho de folga para ver o show dizia ao seu vizinho que estava ali muita gente, este, talvez meio emborrachado mas de discernimento filosófico intacto, lhe respondeu: "Está mais gente do que pessoas!"... De entre aqueles que ouviram este diálogo uns sorriram e esqueceram de imediato enquanto outros, ainda agora que os aparatos foram desmontados e a tranquilidade devolvida ao largo do coreto, continuam a tentar decifrar a profundidade da observação... 
"A manhã seguinte..." - Jean-Charles Forgeronne
João Sem-Dó
(Musicólogo de Valmedo)

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

                                              NOISERV VERSÃO CORETO - I

Trinta passadas matinais pela estreita e curta Rua do Coreto levam-nos logicamente ao também pequeno mas aconchegante Largo do Coreto e onde, mui expectávelmente, reina num centro matematicamente calculado o coreto...  Ali, com o altivo miradouro da Pena Seca no horizonte impera a tranquilidade e o silêncio, os cães ainda preguiçam e não se vislumbra vivalma, os vizinhos já devem ter ido lá para baixo apanhar abóboras ou augar as hortas antes que o calor aperte e o único barulho que se ouve é o das pás do aerogerador lá no alto... Entretanto hão-de chegar os funcionários da junta para dar uma limpeza ao largo e especialmente ao cinquentenário coreto, é que logo pela noitinha haverá festa na aldeia do Paço fazendo lembrar tempos longínquos em que a filarmónica animava as tardes de domingo festivas com marchas dançantes ou de procissão, só que desta vez não será nenhuma banda ou orquestra a animar o povo, quem vai dominar o coreto é apenas um homem, David Santos, também conhecido por NOISERV, afinal uma versão de si próprio e a quem também chamam logicamente o homem-orquestra ou a banda-de-um-homem-só...

"Coreto do Paço" - Jean-Charles Forgeronne

Mudam-se os tempos e também se mudam as vontades e os coretos e logicamente este do Paço também mudou e muito, construído inicialmente em madeira pelo povo no ano de 1966 e por culpa da humidade deste caprichoso clima do oeste capaz de apodrecer o carvalho mais resistente que possa existir foi mais tarde reconstruído em ferro, tendo sofrido o último restauro há 20 anos... Apesar de tudo parece de boa saúde e oxalá assim continue por muitos anos porque é o último resistente em todo o concelho da Lourinhã, afinal aquele outro majestoso que existia na principal praça da vila há muito que se finou e agora só vive na memória dos mais velhos ou então em fotografias da época ou em pinturas nelas baseadas...

"Coreto da Lourinhã" - Aguarela de Mariazinha

 João Sem-Dó
(Musicólogo de Valmedo)