quarta-feira, 14 de outubro de 2020

 

ERA UMA VEZ UMA VIDA NUM PLANETA...

Ainda estou arrepiado enquanto carrego nas teclas que darão origem a este texto, nem há cinco minutos acabei de ver o filme-documentário de DAVID ATENBOROUGH, disponível há uma dezena de dias na Netflix e a primeira coisa que me ocorre dizer é que, em vez de estar escondido numa plataforma de streaming e acessível apenas para alguns, e de acordo com alguém que já opinou algures num sítio de informação digital, a obra deveria ser de visualização obrigatória em todo o lado e em qualquer idade, desde a creche às universidades da terceira idade, deveria ser tão obrigatória quanto a administração de uma vacina para que assim, em nome do bem comum, se conseguisse alguma imunidade contra a ignorância e o alheamento que contaminam a sociedade, talvez muitas mentes despertassem a tempo para a tremenda luta que se avizinha: salvar o planeta e a humanidade, evitar o descalabro anunciado...


Ainda que eu não fosse um velho discípulo e ferrenho admirador de David Attenborough, ainda que eu não fosse um naturalista por convicção, ainda que eu fosse alguém que não estivesse desperto para os graves problemas de sustentabilidade deste planeta, ainda assim, ainda que eu fosse um alienado, depois de ver este tremendo testemunho de alguém que gastou a sua enorme vida numa tremenda e apaixonante luta pela compreensão, divulgação e salvação da vida natural, os meus dias não voltariam a ser iguais depois de ser confrontado com dados assustadores, de entre os quais:

  - actualmente, 30/% dos mamíferos da Terra são humanos; outros 60% são animais que comemos e dos 10% que restam apenas 4% são animais selvagens...

  - no final do presente século seremos 11 mil milhões de humanos a viver neste planeta!

   - durante o Holoceno, isto é, os últimos 10 mil anos, o planeta viveu em equilíbrio e a temperatura global nunca oscilou mais de 1º C; hoje, desaparecem a um ritmo galopante as florestas húmidas e derretem as calotas polares que arrefecem o planeta;

    - a agricultura intensiva está a levar à exaustão a capacidade de obter solo fértil; os insectos polinizadores estão a desaparecer a um ritmo alucinante; a fome extrema será inevitável daqui a meia dúzia de décadas...


Tudo isto não foi dito por nenhum curioso ou pseudo-cientista populista, foi dito de uma forma sábia e assertiva por uma das personagens incontornáveis da era moderna, alguém insubstituível, tão insubstituível como Carl Sagan, Stephen Hawking ou Umberto Eco, por exemplo, e é de facto um testemunho emocionante de alguém que viveu este planeta, amou este planeta, lutou por este planeta, amou a vida, enfim...  Só que, e essa é a grande diferença, Attenborough ainda vive e ainda luta por este planeta do alto dos seus grandiosos 94 anos, jovem ainda porque parece que acabou de aderir ao Instagram, (nunca é tarde, certo?) com o objectivo de alertar os internautas para a aflição em que o planeta vive e veja-se, bateu logo um record: bastaram 4 horas e 44 minutos para atingir 1 milhão de seguidores, nunca visto! Falta saber quantos desses seguidores terão a coragem de arregaçar as mangas para a luta...


E não deixa de ser curioso o facto de o filme começar e acabar com imagens de Chernobyl, onde o erro e o mau planeamento humanos levaram à extinção de uma grande cidade... Hoje, a natureza tomou conta de Chernobyl e isso é a prova de que nós não somos imprescindíveis neste planeta, nós não passamos de uma praga invasora e a continuar assim seremos exterminados pelo próprio planeta, afinal será apenas mais uma extinção em massa, a sexta, só que desta feita será a extinção da espécie humana!

Muito obrigado, mestre, e longa vida ainda para as batalhas que se avizinham...


João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

 



"Se tomarmos conta da Natureza, ela tomará conta de nós!"


David Attenborough

 

EFEMÉRIDE # 81

O CONDE, A MÁQUINA E O BURRO...

Há precisamente 125 anos, corria o dia 14 de Outubro de 1895, teve início a primeira viagem de automóvel em Portugal!  E que aventura aquela, ninguém estava preparado para o evento, ninguém sabia o que era aquilo, para uns era uma espécie de locomotiva, os jornais da época falavam de um "trem a vapor", inclusive na alfândega gerou-se confusão porque ninguém arriscava dar um nome àquilo, seria uma máquina agrícola ou uma máquina movida a vapor? Resolvido o imbróglio, lá foram despachadas as peças numa galera para serem montadas numa oficina da rua dos sapateiros, na baixa lisboeta... Tudo desencaixotado e montado segundo o folheto de instruções que a acompanhavam ali estava a máquina pronta para funcionar: um "Penhard et Lavassor" de 1891! 


"Penhard et Levassor" - 1891

Mas os transeuntes que por ali passavam não conseguiam fechar a boca de espanto perante aquela esquisita carroça com uma manivela à frente, engenhoca que em segunda mão tinha sido importada de Paris por uma singular personagem, o conde d'Avilez, de Santiago do Cacém... O excêntrico conde, Jorge de Avilez, moço fidalgo íntimo da Casa Real e estimado por el-rei D. Carlos e pela rainha D. Amélia, era famoso por terras de Santiago devido não só ao seu temperamento impulsivo e nervoso capaz das reacções mais inusitadas mas também por causa da sua queda por aventuras desportivas, era comum encontrá-lo às voltas pelas redondezas a cavalo daqueles estranhos veículos de duas rodas, hoje chamados bicicletas mas que naquele final do século XVIII causavam muita estranheza... 


"4º Conde Avilez" - retrato, 1896

Mas, curiosamente, a famosa viagem esteve quase para não acontecer, tudo pronto, litros e litros de petróleo despejados para o depósito de combustível mas a coisa não queria pegar por mais à manivela que se desse! Já o desconsolado conde, de olhos esgazeados e braços levantados ao alto gritava "Porque raio não trabalha?" quando alguém lançou uma engenhosa solução: "Em vez de petróleo vamos deitar-lhe gasolina para dentro...".  E então, eureka, a coisa lá pegou, começou a viagem e até a máquina seria daí para a frente conhecida como o "GASOLINA", um automóvel com um motor Daimler de dois cilindros, rodas com aros de ferro, direcção comandada por cana de leme, quatro velocidades à frente e quatro velocidades atrás, travagem de pé à transmissão e de mão por calços de madeira às rodas traseiras, tudo numa estonteante velocidade máxima de 20 Kms à hora!       

Tudo somado, aqueles 140 Km que separam Lisboa de Santiago do Cacém e que hoje são vencidos em pouco mais de uma hora consumiram dois dias de viagem, a uma média de 15 Km/h, muito por culpa das deploráveis vias de circulação da época, já para não falar de outro inusitado incidente: logo no primeiro dia, atravessado o Tejo de barco até ao Barreiro e no caminho para Setúbal, onde seria a pernoita, ali para as bandas de Palmela atravessou-se um burro carregado de canas à frente da viatura, a alimária não se mexeu e nem se desviou um milímetro e o choque brutal foi inevitável! Foi o primeiro acidente de automóvel em Portugal, lamentando-se a morte do burro que no entanto foi bem compensada pela avultada indemnização que os donos receberam do condutor da estranha máquina, o Conde d'Avilez, estranha e infeliz criatura que viria a morrer apenas seis anos depois desta aventura vítima de tuberculose, aos 32 anos de idade... 
                                                                                
João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

sexta-feira, 9 de outubro de 2020



ANEDOTAS QUE PARECEM POEMAS  -  VIII

 GUERRA DE PALAVRAS...


A batalha estava perdida, a coisa descontrolara-se e agora, separados do seu pelotão que entretanto recuara, o alferes Boaventura e o cabo Fortunato estavam encurralados e ao alcance dos tanques inimigos...  
   - Só temos uma chance de nos livrarmos desta, cabo, peça aí pelo rádio apoio aéreo imediato senão estamos fritos!
Passados poucos minutos do soldado Fortunato ter solicitado ajuda aérea eis que por entre as explosões causadas pelo fogo inimigo ele ouve um barulho familiar ao longe, era a tão ansiada ajuda:
   - Veja, meu alferes, eles vieram, estamos safos!
E depois do entusiasmo inicial os dois ficaram feitos estátuas quando o barulhento Hércules C-130 passou diante deles com uma tarja publicitando "CORAGEM"!      



 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

ESCRITO NA PAREDE - X


Maternidade do Olival

Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

 

LAGAR, LEGAR, LIGAR, LOGAR, LUGAR...


Abre-se o dicionário e lê-se:


Lagar - oficina com os aparelhos adequados para espremer certos frutos (uva, azeitona), reduzindo-os a líquido; etimologicamente derivado do latim lacus (cuba) que derivou para lacare (depósito de líquidos);

Legar - deixar como herança;

Ligar - colocar em contacto algo ou alguém;

Logar - neologismo que significa o acto de se ligar a um sistema informático;

Lugar - local onde se está ou se deveria estar...


Alferrarede

Anda-se por este país e constata-se com satisfação que ainda há boas almas que se esforçam para legar às gerações mais novas, e às vindouras também, a sabedoria ancestral de como produzir um dos alimentos mais ricos e importantes da humanidade, o azeite...


Alferrarede

Aproveitam-se rotundas, espaços ajardinados e utensílios que acabariam no lixo e na sucata para se fazer um lagar a céu aberto, um museu... E bastam uns minutos de atenção e o quanto baste de curiosidade para se entrar na tradição da safra da azeitona e na história dos nossos egrégios avós que nos deixaram a receita para o melhor azeite do mundo...


Torres Novas

Tive a felicidade de na minha meninice poder entrar e brincar num lagar de azeite em plena laboração e assim me deslumbrar com aquela engenharia, pelo barulho das mós inclementes a esmagar a azeitona, pelos carrinhos que levavam as ceiras até às prensas através dos carris, pelos tractores que chegavam carregados de promessas, pelo fio de azeite que escorria âmbar e cristalino para as cubas, pelo bacalhau que os lagareiros partilhavam comigo porque viam que eu até me esquecia de ir a casa almoçar...


Torres Novas
E se no futuro terão os meninos que se logar para descobrir o que era isso de um lagar, então  tratemos de lhes legar a sabedoria que herdamos, há que ligar gerações num só lugar...

Mós da minha infância - Parceiros

Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

 

CURIOSIDADES DO MUNDO CÃO - XXIX

CABEM 60 VIDAS NUMA OLIVEIRA...

Foi preciso encostar ao passar novamente pelas Mouriscas e perguntar pelo caminho a um ancião abancado à porta de um café para me orientar, embora não estivesse perdido andava já há uns dez minutos às voltas à procura de uma placa salvadora mas nem sinal, coisa normal neste país mesmo tratando-se de locais históricos ou de interesse turístico... E só à terceira tentativa tive sorte com o meu informador, outras duas pessoas da zona não sabiam sequer do que se tratava mas aquele velhote de pele gretada e tisnada pelo sol inclemente mas de olhar inquieto e agudo salvou-me do desespero, embora tivesse notado na expressão dele uma certa surpresa, estaria ele a pensar qualquer coisa tipo "mais um maluquinho que vem lá de cascos de rolha só para ver uma árvore!"... Sim, velhote, pensei para mim, só que não é uma árvore qualquer!


Depois foi fácil dar com os Cascalhos, pacata aldeia do concelho de Abrantes e que debaixo daquele abrasador calor exalava o cheiro inconfundível a bagaço de azeitona, nem de propósito, alguém andava certamente em limpezas preparando o lagar para a safra que está próxima e ali estava ela, uma singela placa colocada por mão caridosa a indicar que me encontrava a menos de cem metros do meu objectivo: a árvore mais antiga de Portugal!  

Popularmente conhecida pela OLIVEIRA DO MOUCHÃO, esta simpática e nobre árvore foi estudada, medida e descrita pomposamente pelos cientistas como uma  Olea europeae L. var europeae,  com 6,52 metros de perímetro ao nível do peito, 11,12 metros de perímetro na base e uma altura do tronco de 3,20 metros... Mas o seu principal atributo é a idade, uns científicamente reconhecidos 3350 anos de vida, ou seja, mais de mil anos antes de passar pela cabeça de Deus fazer um filho e enviá-lo para este tresloucado planeta para ser sacrificado (onde tinha o Criador a cabeça para ter ideia tão absurda, é caso para perguntar!?) já esta singela árvore dava azeitona, e sabem que mais, ainda dá fruto, não tão abundante como outrora mas ainda se mantém de pé, íntegra e inteira!    


"A árvore mais antiga de Portugal" - Jean-Charles Forgeronne

As contas são das coisas mais simples e prazenteiras de fazer e cada um pode e deve fazer as suas e à sua maneira, de facto não haverão assim tantas coisas na vida tão democráticas, fáceis e úteis como a de fazer contas e perceber este mundo-cão através dos números... Hoje tive gozo ao fazer esta conta: supondo que a vida humana, em média, tem a duração de 56 anos e se a alguém fosse dada a oportunidade de viver vida atrás de vida então essa pessoa teria que viver 60 vidas seguidas para viver tanto como esta árvore! E entretanto o mundo vai rolando e ela continua lá...


João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)