quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020


"Inverno em Montejunto

Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

"Recycled art" - Artista desconhecido

João Plástico
(Artista de Valmedo)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020



ANEDOTAS QUE PARECEM POEMAS - V


NEM GESSO NEM LIGADURAS, NADA ABAFA A NATUREZA...

E de repente, estremecendo a tranquilidade da tarde, ouviu-se um impaciente barulho na porta do bordel:
   - TOC, TOC!.... TOC, TOC, TOC....
E a Eugénia, que dormitava enroscada no sofá, levantou-se a custo e dirigiu-se para a porta resmungando em voz alta "Mas quem é o anormal que em vez de tocar à campainha está para aqui a tentar arrombar a porta?"
Espreitou pelo óculo, e não acreditando no que estava vendo afastou-se ligeiramente, fechou os olhos e abanou um pouco a cabeça para a pôr em ordem e voltou a espreitar... Do outro lado estava uma infeliz criatura de gesso,  não se aproveitava um braço nem uma perna, até o nariz e a cabeça estavam envoltas em ligaduras...
"Que raio! - desabafou para si própria... - Este maluco enganou-se na porta, deve pensar que é aqui o hospital!".
Eugénia abriu a porta decidida e disparou:
  - O senhor enganou-se decerto! O hospital não é aqui!
  - Desculpe, mas não é aqui a casa das meninas da Dona...
Impaciente, Eugénia retrucou:
  - Sim, é! Mas o que pensa o senhor que consegue fazer nesse estado?
  - Desculpe, mas já pensou como é que eu consegui bater à porta? - respondeu a criatura fazendo um gesto com a cabeça para o inflamado baixo-ventre....


João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020


TASCAS E ANTROS DE PRAZER - VII


O MAR E OS OSSOS DA PRINCESA...


Peniche é mar e é história, e na história do mar não pode faltar Peniche... Poderíamos passar aqui muito tempo a falar de várias tascas e antros de prazer penichenses em que o mar é servido à mesa, peixe fresco  ou seco, assim e assado, sardinha ou carapau, ou então a famosa caldeirada mas hoje, enquanto bebemos um café a meio da manhã vamos descobrir um dos segredos mais bem guardados da península: os ossos e os ossinhos da Princesa...
A Princesa do Mar, qual criatura marítima tímida e esquiva, esconde-se por entre as ruelas do bairro dos pescadores mas assim que é descoberta revela os seus perigos tal como o fazem as sereias, provados os seus ossinhos nunca mais um navegador poderá resistir ao encanto do seu chamamento e lá terá que voltar de quando em vez até ao final dos tempos...

Os OSSOS SAN PEDRO DE ALCANTARA são uns pastéis de massa finíssima e recheio desconcertante que se desfazem ao contacto com o céu da boca e como o nome indica são uma homenagem a um dos episódios mais marcantes da história marítima de Peniche, o naufrágio do San Pedro de Alcantara ocorrido na península da Papoa  em 1786 e que marcou profundamente a vida e o imaginário não só das gentes da região mas também a história marítima portuguesa e europeia... Ossos porquê? Bem, talvez porque os ossos das 128 vítimas da tragédia, muitos deles desfeitos contra as rochas e transformados em ossinhos foram rapidamente sepultados de improviso por populares e frades de um convento que existia ali próximo no sítio chamado Porto de Areia Norte e assim minorar o aspecto macabro dos achados... E também não é por acaso que a forma dos ossos faz lembrar um singelo esquife ou uns restos mortais envoltos em panos...






E hoje, enquanto desfazia um osso na boca e bebericava o meu café em plena Princesa apenas me vinha à lembrança os infelizes do  San Pedro e pensei que estes ossos e ossinhos vieram ao mundo-cão para nos fazer lembrar que convém aproveitar as coisas doces e boas que a vida nos proporciona enquanto um naufrágio qualquer não nos levar... Aproveitemos então!


João Ratão
(Chef de Valmedo)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020



ÀCERCA DE NAUFRÁGIOS, TERRAMOTOS E REVOLUÇÕES...


Por experiência é costume dizer-se que a vida pode dar muitas voltas, o que está mais que provado em muitos casos mas, por intuição, também se poderá admitir que algumas vidas não passarão de uma breve voltinha por este mundo-cão e que no final nem parece que se saiu do mesmo sítio e mais raro ainda é encontrar alguém que tenha passado por essas duas distintas vivências, como é o caso de JEAN PILLEMENT que até morrer na miséria e no esquecimento na mesma cidade que o vira nascer, Lyon, deu tantas voltas pela Europa das luzes durante os seus 79 anos de vida e tendo convivido de perto com o luxo e com o sucesso de tal forma que a sua cabeça deve ter andado à roda em bastas ocasiões...

"As margens do Tejo, efeito de bruma" - Jean Pillement

PILLEMENT tinha que ser pintor, afinal era bisneto, neto e sobrinho de pintores, mas foi mais do que isso, ele era também desenhador, gravador e decorador e desde cedo que produziu obras para muitas cortes europeias e para clientes abastados, tendo passado por Madrid, Lisboa, São Petersburgo, Viena, Paris, Londres, Roma, Turim, Milão, Bona ou Varsóvia... Nunca lhe faltou trabalho nem reconhecimento pelo seu estilo rococó delicado, requintado e fantasista. Consta que estava em Portugal em 1755 contratado pela Real Fábrica de Sedas e que daqui fugiu por causa duma estranha denúncia à Inquisição em que algum invejoso o acusava de ser pedreiro-livre, sodomista e descrente dos santos, entre outras coisas! Ainda bem para ele porque assim, ao ir dar outra volta lá por fora, escapou ao terrível terramoto que arrasaria Lisboa meses mais tarde...
O nosso herói regressaria mais vezes a Portugal e na sua estadia mais longa, entre 1780 e 1786, ao mesmo tempo que criava pinturas por encomenda no Palácio de Seteais ou no Palácio Fronteira, por exemplo, aproveitou para abrir com sucesso a Escola de Desenho do Porto e para dar aulas também em Lisboa e porque entretanto assiste em 1786 a todo o desenrolar da famosa catástrofe do San Pedro de Alcantara , Pillement  pinta apaixonadamente várias telas sobre o naufrágio de Peniche...


"Náufragos chegando à costa" - Jean Pillement - Museu do Prado

Regressado a França em 1789, Pillement, que anos antes tinha sido nomeado pintor da futura guilhotinada Maria Antonieta e para a qual tinha feito pinturas no Petit Trianon, fugiu de Paris após o desencadear da Revolução francesa, refugiando-se na província... É certo que escapou à guilhotina mas acabaria por ter uma condenação atroz, a revolução matou o estilo rococó e na ausência de encomendas o nosso "pequeno mestre de Lyon" morreria pobre e só...

"Chinoiserie"
               



                                 João Plástico
                                 (Artista de Valmedo)

domingo, 2 de fevereiro de 2020


EFEMÉRIDE # 67


HISTÓRIA DE UMA ANUNCIADA TRAGÉDIA MARÍTIMA


Exactamente há 234 anos, a 2 de Fevereiro de 1786 e pelas dez e meia de uma noite até então calma, pois não havia tempestade, o vento era fraco e a visibilidade razoável segundo o relato de testemunhas e sobreviventes, embate contra as rochas da península da Papoa um grande barco alvoroçando a pacatez da vila de Peniche... Tratava-se do San Pedro de Alcantara, navio de guerra espanhol equipado com 64 valiosos canhões e que para além de 419 passageiros transportava uma excepcional carga: 603 toneladas de cobre em barra, 153 toneladas de prata e 4 toneladas de ouro em moedas, tudo proveniente das minas do Peru! Juntando a isso mais 140 toneladas de pedra que serviam de lastro e 100 toneladas de quinquina e 6 toneladas de cacau, tudo somado ultrapassava em muito a capacidade da embarcação, tornando a aventura numa tragédia anunciada... 

Papoa - local exacto do naufrágio - Jean-Charles Forgeronne

De facto, tudo correu mal desde o princípio da história, houve até uma falsa partida devido ao falecimento do primeiro responsável por toda a engenharia da operação e depois, quando parte em 1784 de Callao, perto de Lima, capital do Peru, com destino a Cádiz, o navio é obrigado a uma paragem de vários meses no Rio de Janeiro para reparações devido a graves inundações provocadas pela excessiva carga que excedia a dobrar a sua capacidade. Depois de vários meses parado em terras de Vera Cruz, o San Pedro de Alcantara ruma definitivamente ao seu trágico destino... A causa da tragédia só se encontra na cupidez humana, os espanhóis desesperavam por riquezas para fazer face às grandes despesas do seu império e quem sabe talvez se bastasse alguém de bom senso para lhes aconselhar a dividir a preciosa carga por dois navios para evitar o desastre!

"Naufrágio do San Pedro de Alcantara" - Jean Pillement - Museu Nacional de Arqueologia

Pelo facto de ter ocorrido a meia dúzia de passos de terra firme, o que facilitou o resgate de pessoas e bens, o acidente do San Pedro de Alcântara tornou-se num marco único da história trágico-marítima mundial e continua hoje a ser um dos naufrágios mais bem documentados, testemunhados e estudados de sempre... Também pela enorme fortuna que estava envolvida não se pouparam as autoridades espanholas a esforços e assim, durante os três anos seguintes e sem descanso, uma meia centena de mergulhadores contratados por toda a Europa invadiu Peniche e em simples apneia conseguiram recuperar 90% do tesouro! Só não houve remédio para os 128 mortos, a maior parte deles feita em pedaços contra as rochas da Papoa e sumariamente enterrados ali perto, no sítio do Porto da Areia Norte, sendo alguns deles prisioneiros incas que ao lado do imperador Túpac Amaru se tinham revoltado contra a exploração espanhola...


Mas o tesouro entretanto recuperado parecia amaldiçoado, o navio que entretanto o viera resgatar e levar finalmente para Cádiz naufraga também, ao largo da Consolação, custando perto de mais uma centena de vidas... Recuperou-se novamente a carga e, parece, à terceira foi de vez, lá terá chegado finalmente ao destino...



João Alembradura
(Historiador de Valmedo)