terça-feira, 19 de novembro de 2019


JOSÉ MÁRIO BRANCO - (1942-2019) - R.I.P.


"Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário 
onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência
dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro.

Penteiam-nos crâneos ermos
com as cabeleiras dos avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo.

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte...


"Queixa das almas jovens censuradas" Natália Correia


                                                                                           Queixa das jovens almas censuradas


João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)




"MUROS" - J.C.Forgeronne, Paymogo, 2019

segunda-feira, 18 de novembro de 2019



COMEMOREMOS ENTÃO À QUEDA DO MURO!!!



Que melhor brinde se poderia fazer à queda do muro do que este feito com aguardente DOC LOURINHÃ, do ano 1989?




À paz, à liberdade, à democracia, à fraternidade...




João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

domingo, 17 de novembro de 2019



MEMÓRIAS VISUAIS DO MURO...


O muro, sendo na sua essência uma desgraça e um símbolo da vergonha humana, acabou também ao longo do tempo por se tornar num mito artístico, tendo contribuído para fazer de BERLIM um paraíso irresistível para toda a gente criativa, fossem eles músicos, cineastas, pintores, escritores, filósofos, investigadores ou simplesmente curiosos... Em Berlim é diferente, à sombra do muro tudo é possível e a percepção do mundo ganha contornos únicos, assim tinha mostrado BOWIE... Quanto às memórias do muro inexistente elas são, logicamente, mais nítidas nas imagens cinematográficas porque aí é mostrado o objecto real, a própria parede, sem artefactos nem fantasias. E muitos filmes fazem do muro uma coisa ainda viva, ainda ele não caíra e Wenders filma uma obra-prima, um legado para a posteridade sobre as fronteiras entre dois mundos, corporizadas pelo muro que separa o cá e o lá, o palpável e o espiritual, tudo enredado nas aventuras de um anjo que que quer baixar à terra porque se perdeu de desejos por uma trapezista bem carnal... A meu ver, o título original é mais belo, "O Céu sobre Berlim", mas enfim... 


"As Asas do Desejo" - 1987, Wim Wenders


Passados dezasseis anos, em 2003, no primeiro grande papel de Daniel Brull, o realizador alemão Wolfgang Becker apresenta-nos uma deliciosa comédia trágica sobre o desmantelamento da RDA, um filho pródigo vê-se na contingência de reinventar o mundo para que a sua mãe sobreviva à queda do muro e às grandes emoções! "Goodbye Lenin" é uma daquelas pérolas que aparece de tempos a tempos...


"Goodbye Lenin", Wolfgang Becker, 2003


Claro que Steven Spielberg nunca se poderia alhear da questão do muro, já tinha exorcizado alguns fantasmas nazis noutros filmes e neste, de 2015, e num registo que me é particularmente grato, a ficção baseada em factos verídicos, brota uma história absolutamente extraordinária que só é possível devido a um realizador visionário e a um actor fora-de-série, Tom Hanks...


"A Ponte dos Espiões", 2015, Steven Spielberg

Finalmente, embora muitos outros exemplos pudessem ser referidos, nota final para um filme mediano mas que nos apresenta o muro sobre outro ponto de vista, reduzindo-o quase a uma curiosidade turística e existencial, mas tocando no ponto nevrálgico, o MURO é incontornável! E apesar dos papéis serem menores é sempre agradável voltar a ver Charlize Theron e Charles McAvoy...



"Atomic Blond", 2017, David Leitch


João Película
(Cinéfilo de Valmedo)

sábado, 16 de novembro de 2019



POTSDAM, A TRANQUILA...


Se curiosamente neste mundo-cão é exactamente o cão o melhor do amigo do homem bastas vezes então nada surpreende que tenha tido Frederico, o Grande como último e mais importante desejo o de ser enterrado junto do túmulo dos seus galgos, em plenos jardins do seu Palácio Sanssouci... E a alma da pobre criatura não teve paz durante duzentos e cinco anos pois, talvez por castigo pelas maldades que o seu iluminado despotismo infligira a muita criatura, contra a sua vontade fora sepultado numa igreja e foi preciso cair o muro para se fazer a vontade ao homem, acabou finalmente por ser trasladado em 1991 para junto dos seus cães e agora repousa em tranquilidade eterna...



"Sanssouci Outonal" - J.C.Forgeronne

Mas não foi só o grande Frederico a apaixonar-se por aquelas idílicas paragens às portas de Berlim onde nasceria a cidade de POTSDAM,  toda a realeza do império prussiano e alemão desatou a construir ali palácios, jardins, parques, igrejas e outros monumentos e juntando a isso uma deslumbrante natureza em que imperam dezenas de lagos e luxuriantes florestas então descobriu-se o paraíso...


"Porta de Brandenburgo" - J.C.Forgeronne, Potsdam


Mas se os paraísos terrenos infelizmente vão desaparecendo a pouco e pouco ainda há alguns que ainda vão resistindo apesar das calamidades que os assolam, é o caso de POTSDAM, arrasada por bombardeamentos dos Aliados em 1945 mas que conseguiu renascer das cinzas e voltar à sua exuberância arquitectónica e paisagística...


"Voltaire à varanda" - J.C.Forgeronne, Sanssouci

E se já vão longe os tempos das duas guerras, a mundial e a fria, presentes estarão sempre as memórias da célebre Conferência de Potsdam em que Churchill, Truman e Estaline dividiram a régua e esquadro os despojos da Alemanha nazi e, mais tarde, da Ponte Glienick, onde se faziam as trocas de espiões entre Berlim Ocidental e o bloco comunista...





João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

segunda-feira, 11 de novembro de 2019



A PRAÇA, O MURO E A MÚSICA...



POTSDAMER PLATZ, que é como quem diz, a Praça de Potsdam, foi o coração de BERLIM desde meados do século XIX até ao final da II Guerra Mundial... Vizinha das Portas de Brandenburg e do Reichstag e situada exactamente no local onde a estrada que rumava à cidade de Potsdam atravessava a muralha de Berlim, a Potsdamer Platz tornou-se no centro nevrálgico do comercio e do trânsito da cosmopolita capital e com tal impacto que em 1924 nela houve a necessidade e o engenho de instalar o primeiro semáforo da Europa! Tamanho apogeu terminou em 1961 com o inicio da construção do maldito MURO porque para tal houve que sacrificar toda a praça, todos os seus edifícios foram arrasados, sem excepção...
Viajemos agora até Julho de 1990 até ao local da outrora magnífica praça e que com a demolição do muro poucos meses antes se tinha transformado num desolador e extenso terreno baldio e salta à vista mesmo da mais distraída criatura que algo de invulgar e estranho se passa por ali e que causa estranheza e desconforto aos berlinenses que por ali vão passando: numa área vedada e guardada por patrulhas que fazem lembrar as tropas do tempo da guerra fria estão a construir outro muro! De facto, e durante semanas, uma azáfama ocorreu por ali, mesmo por cima do local onde outrora Hitler construiu o seu bunker, é possível vislumbrar ao longe não só a construção de uma enorme estrutura metálica com 168 metros de largura e 25 de altura como também o levantamento de um muro... em esferovite! Explicação? ROGER WATERS prepara-se para levar a cabo aquele que se dizia ser o mais incrível espectáculo de rock alguma vez feito: THE WALL, a partir da magistral obra dos Pink Floyd de 1979... E de facto, se o argumento de "The Wall" não teve na sua génese nada a ver com o muro de Berlim mas sim com outros muros com que a sociedade isola os indivíduos, aliás Waters diria que tinha pensado antes em apresentar o espectáculo no Grand Canyon ou na Praça Vermelha, caiu como mel na sopa a queda do muro e daí toda a Berlim fez questão em comemorar o fim da vergonha... E de facto foi um estrondo a queda desse muro: 350 mil espectadores ao vivo e cerca de um bilião a ver pela televisão! E o show foi abrilhantado por muita ilustre gente como por exemplo Van Morrison, Marianne Faithfull, Jony Mitchell, Scorpions, Bryan Adams, Sinead O'Connor, Cyndie Lauper, Ute Lemper, Jerry Hall ou o grande Albert Finney...



Mas muito antes de ser derrubado, o muro já tinha sido o leitmotive para muita criação musical, com destaque para DAVID BOWIE que viveu anos na Berlim dos anos 70 e que plasmou esse ambiente em criações fabulosas como é o caso de "Heroes", gravada em 1977, uma das grandes canções da história do pop e que é também uma homenagem àqueles heróis que desafiaram a parede:

"(...) Eu, lembro-me bem
de estarmos encostados ao muro
e de as armas dispararem sobre 
as nossas cabeças
e nós beijávamo-nos como se nada 
pudesse cair...
E a vergonha, 
essa estava do lado de lá.
Oh! Nós conseguimos derrotá-los,
para todo o sempre.
E podemos ser heróis                                                               
ao menos por um dia..."

Premonitoriamente, em 1987 Bowie tocaria "Heroes" no Reichstag num gesto que foi considerado e reconhecido pelos alemães como catalisador para a queda do muro que aconteceria apenas dois anos depois e como a memória não lhe era curta voltaria às suas memórias berlinenses em 2014 com o tema "Where are we now" e em que começa por apanhar o comboio para Potsdamer Platz...


Where are we now -BOWIE



"Potsdamer Platz" - J.C.Forgeronne, 2003

Entretanto, e depois de muita obra musical e não só se ter feito por Berlim, a Potsdamer Platz voltou aos seus tempos de glória e hoje, com um gigantesco complexo de magníficos edifícios é o centro financeiro e comercial da cidade e o símbolo da moderna Alemanha reunificada de tal forma que para quem não testemunhou, não leu ou não ouviu será difícil acreditar que por ali já passou um muro ignóbil, mas para manter a memória viva dessa tragédia haverá sempre a música... 


João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)