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| "Berliner Mauer" - J.C. Forgeronne |
domingo, 10 de novembro de 2019
sábado, 9 de novembro de 2019
EFEMÉRIDE # 65
DIE MAUER, O MURO, EL MURO, LE MUR, THE WALL...
João Alembradura
(Historiador de Valmedo)
DIE MAUER, O MURO, EL MURO, LE MUR, THE WALL...
Os muros são universais, estão por todo o lado, afinal eles sempre existiram desde os primórdios para garantir as fronteiras de territórios conquistados, como são exemplos a Muralha da China ou a Muralha de Adriano, e continuam a existir hoje em dia porque sempre surgem muitas razões, por mais estúpidas que sejam, para separar gente cujo único "crime" é muitas vezes apenas o facto de ser diferente ou de pensar de outra forma...
Infelizmente muros há muitos mas houve um muro especial, único, feito de cento e dez quilómetros de arame farpado, trezentas e dez torres de vigia, sessenta e cinco trincheiras anti-veículos e vigiado ao milímetro por quarenta mil tropas de fronteira fortemente armadas e treinadas pelos soviéticos e que não foram suficientes para travar o anseio de liberdade de cerca de cinco mil (5000) cidadãos da antiga República Democrática (?) da Alemanha, e se muitos desses desesperados conseguiram passar para o outro lado também centenas ali caíram, de olhos fixos noutra vida, ali a escassas dezenas de metros... E mesmo os que lograram dar o salto perderam muito, o muro dividiu famílias, afastou amigos, instigou ódios e estilhaçou uma sociedade, de facto o muro não dividiu apenas BERLIM, dividiu também o mundo inteiro...
Passam hoje 30 anos sobre a queda do MURO DE BERLIM, essa bestial divisão nascida da sangrenta II Grande Guerra e o que sobra depois de todos estes anos é que a bestialidade humana continua bem viva, vejam-se os muros que estão a ser erguidos por todo o planeta, na fronteira do México, em Marrocos, na fronteira palestiniana ou na fronteira das duas Coreias... E depois há todos os outros muros, não os físicos feitos de argamassa e tijolo mas os muros ideológicos e perversos que impedem a humanização do planeta e a harmonia entre povos, bastas vezes irmãos... E a sensação que fica é que, no essencial, pouco mudou e é inevitável questionar se alguma vez haverá um futuro sem muros e com mais tolerância, um planeta mais pacífico e fraterno muito diferente do amontoado de guetos que é hoje...
Passam hoje 30 anos sobre a queda do MURO DE BERLIM, essa bestial divisão nascida da sangrenta II Grande Guerra e o que sobra depois de todos estes anos é que a bestialidade humana continua bem viva, vejam-se os muros que estão a ser erguidos por todo o planeta, na fronteira do México, em Marrocos, na fronteira palestiniana ou na fronteira das duas Coreias... E depois há todos os outros muros, não os físicos feitos de argamassa e tijolo mas os muros ideológicos e perversos que impedem a humanização do planeta e a harmonia entre povos, bastas vezes irmãos... E a sensação que fica é que, no essencial, pouco mudou e é inevitável questionar se alguma vez haverá um futuro sem muros e com mais tolerância, um planeta mais pacífico e fraterno muito diferente do amontoado de guetos que é hoje...
João Alembradura
(Historiador de Valmedo)
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - XX
A SALAMANDRA, O FOGO E O DEMÓNIO...
A comum salamandra-de-fogo, também conhecida por salamandra-de-pintas-amarelas, tem uma longa história de convivência com os humanos e que chegou ao ponto de se tornar um símbolo da mitologia... Acreditavam os antigos egípcios e gregos que a pobre criatura não só nascia do fogo como ainda era capaz de viver nas chamas e que até era capaz de apagar esses mesmos fogos! Criatura do DIABO, logo muitos se convenceram, e assim se passou a odiar o peçonhento bicho matando-o ao primeiro e fortuito encontro! Para a expansão deste mito muito contribuíram as palavras de ilustres como Aristóteles e Plínio que replicaram relatos de salamandras a nascer do fogo...
Custa um pouco ver grandes pensadores como Plínio e Aristóteles cair no ridículo mas não há muita volta a dar, parece óbvio e racional admitir que os nossos antepassados foram ludibriados por situações absolutamente naturais: então que haviam de fazer aquelas pobres salamandras escondidas naqueles húmidos troncos que alguém fora buscar à floresta para pôr a arder? Deixarem-se imolar como Giordano Bruno? Ou fugir a quatro patas quando o quentinho se tornasse insuportável? Claro que ao ver aqueles pestilentos bichos a sair do fogo como se nada fosse, ainda por cima pintalgados de amarelo ou vermelho, muita gente se convenceu da sua génese sobrenatural e claro, de boca em boca, se criam novos mundos e novos demónios...
E agora, aqui no quentinho da minha sala aquecida por esta minha bela salamandra e enquanto releio o inesgotável "Fahrenheit 451" e volto a encarar o herói da história, Montag, o bombeiro que queimava livros e que tinha tatuada no braço a mítica salamandra, concluo fascinado que tudo isto se completa, tipo salamandra-de-cauda-na-boca, e que mesmo tudo isto não passe de uma efabulação, a SALAMANDRA será para sempre o símbolo do fogo e da regenaração! E já estou deserto para encontrar outra salamandra amanhã...
João Iniciado
(Ocultista de Valmedo)
A comum salamandra-de-fogo, também conhecida por salamandra-de-pintas-amarelas, tem uma longa história de convivência com os humanos e que chegou ao ponto de se tornar um símbolo da mitologia... Acreditavam os antigos egípcios e gregos que a pobre criatura não só nascia do fogo como ainda era capaz de viver nas chamas e que até era capaz de apagar esses mesmos fogos! Criatura do DIABO, logo muitos se convenceram, e assim se passou a odiar o peçonhento bicho matando-o ao primeiro e fortuito encontro! Para a expansão deste mito muito contribuíram as palavras de ilustres como Aristóteles e Plínio que replicaram relatos de salamandras a nascer do fogo...
Custa um pouco ver grandes pensadores como Plínio e Aristóteles cair no ridículo mas não há muita volta a dar, parece óbvio e racional admitir que os nossos antepassados foram ludibriados por situações absolutamente naturais: então que haviam de fazer aquelas pobres salamandras escondidas naqueles húmidos troncos que alguém fora buscar à floresta para pôr a arder? Deixarem-se imolar como Giordano Bruno? Ou fugir a quatro patas quando o quentinho se tornasse insuportável? Claro que ao ver aqueles pestilentos bichos a sair do fogo como se nada fosse, ainda por cima pintalgados de amarelo ou vermelho, muita gente se convenceu da sua génese sobrenatural e claro, de boca em boca, se criam novos mundos e novos demónios...
E agora, aqui no quentinho da minha sala aquecida por esta minha bela salamandra e enquanto releio o inesgotável "Fahrenheit 451" e volto a encarar o herói da história, Montag, o bombeiro que queimava livros e que tinha tatuada no braço a mítica salamandra, concluo fascinado que tudo isto se completa, tipo salamandra-de-cauda-na-boca, e que mesmo tudo isto não passe de uma efabulação, a SALAMANDRA será para sempre o símbolo do fogo e da regenaração! E já estou deserto para encontrar outra salamandra amanhã...
João Iniciado
(Ocultista de Valmedo)
O MISTÉRIO DO CAMINHO DAS CEZAREDAS
Outra! O caminhante que cedo se aventurou pelos caminhos de chão que ladeiam as Cezaredas e que levam ao Pó ou ao Reguengo deteve-se novamente e acocorou-se com algum sacrifício para observar de perto outro bicho esmagado... Levantou-se a custo, limpou o suor da testa com a manga do corta-vento e coçando a cabeça olhou para o alto de onde lhe chegava o silvo do ar a ser cortado pelas enormes hélices do moinho, que raio era aquilo, um suicídio colectivo como o das baleias que de tempos a tempos dão à praia? Era estranho, era para aí a sexta ou sétima SALAMANDRA que encontrava esborrachada na berma do estradão e sempre do mesmo lado e à mesma distância da berma, parecia que se tinham deixado ficar ali propositadamente à espera que os raros veículos que por ali transitam lhes passassem por cima! Que outra explicação haveria, teria sido tamanha a coincidência para que todos aqueles bichos fossem atropelados ao mesmo tempo, ou seriam aqueles os infelizes de entre dezenas ou centenas que conseguiram chegar a salvo ao outro lado? O aventureiro sorriu ao imaginar o espectáculo: milhares de salamandras a invadir a estrada escura e um condutor em pânico ao ver todos aqueles anfíbios iluminados pelos faróis e a acelerar desalmadamente para fugir daquele cenário demoníaco!
Ainda lhe faltava metade do caminho para fazer mas quedou-se ali uns minutos, sentia-se um absoluto ignorante, notava agora que pouco ou nada sabia acerca das salamandras e que apenas tinha a ideia de que eram animais anfíbios e enquanto observava as manchas amarelas daquele cadáver decidiu que não passaria daquele dia, quando terminasse a exploração pelo planalto iria consultar os atlas que tinha lá por casa e que já não consultava há muito, iria descobrir o mundo das salamandras!
Ao contrário dos seus primos rãs e sapos que possuem orgãos respiratórios complexos, a salamandra de pintas amarelas possui pulmões rudimentares e por isso vê-se obrigada a complementar as trocas gasosas através da pele, a qual se deve manter sempre húmida e daí os seus hábitos de vida serem fundamentalmente nocturnos... A melhor altura para as encontrar é ao anoitecer ou após grandes chuvadas e nessas ocasiões é vê-las a sair debaixo de pedras, de fendas nos troncos ou dos buracos de toupeiras... A salamandra é um animal carnívoro e tem preferência por insectos como o escaravelho, a formiga, a mosca e o mosquito, não desprezando outros invertebrados como o caracol, a lesma e até aranhas e todos eles engolidos num ápice depois de caçados com a sua língua comprida e retráctil de almofada pegajosa na ponta que se cola à presa.
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| "Salamandra de Fogo" - João Plástico |
E então, ao final do dia, enquanto as salamandras se preparam para sair à aventura pelo planalto das Cezaredas, o nosso caminhante aventureiro, já no quentinho do lar e à beira da salamandra de ferro que ia debitando calor, solucionou o mistério que envolvia aquela mortandade salamandrina que o apoquentava desde essa manhã: é precisamente nesta época outonal que as salamandras estão mais activas, saem elas dos seus abrigos em caminhada lenta para poupar energia com um objectivo ao qual o impulso da natureza as obriga: acasalamento! E frequentemente os machos, já de si lentos e amiúde pouco espertos, ficam parados de cabeça ao alto em busca do odor das fêmeas, alienados de tudo o resto e é precisamente nessa altura que correm mais riscos de atropelamento, nem com buzinadelas ou sinais de luzes escapam, afinal não tinha sido um suicídio colectivo, tinha sido um suicídio sexual!
E aqueles machos que tiveram a sorte de atravessar o caminho em boa hora e conseguiram acasalar poderão ainda viver muitas mais aventuras, é que a sua longevidade pode chegar aos trinta ou mais anos, havendo casos noutras espécies de salamandra em que foram atingidas cinco décadas e meia de vida! Quanto às fêmeas, depois do feliz encontro amoroso, irão encontrar um charco onde dão à luz cerca de 20 a 40 larvas que aí, nas águas tranquilas, se irão desenvolver até ao estado adulto, essas mesmas salamandras que para o ano o nosso caminhante encontrará algures num caminho...
João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)
quarta-feira, 6 de novembro de 2019
A MISTERIOSA ORIGEM DAS PALAVRAS - X
NAQUELES TEMPOS EM QUE A QUESTÃO NÃO TINHA BUSÍLIS ...
Diz o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa que BUSÍLIS significa o cerne da questão ou do problema, a dificuldade de algo, e o termo popularizou-se por todo o lado através da célebre expressão "AQUI (AÍ) É QUE ESTÁ O BUSÍLIS DA QUESTÃO" mas durante milénios nenhuma questão deste mundo-cão tinha o seu BUSÍLIS, simplesmente porque ele até à Idade Média não existia!
De facto, e segundo os meus amigos etimologistas italianos, foi no século XIV que o BUSÍLIS nasceu, precisamente em Itália e fruto de um acaso bastante curioso... Consta que nesses dias em que praticamente toda a cultura e conhecimento da Europa moravam nos mosteiros onde zelosos monges copiavam os manuscritos, não só os de teor religioso mas também os textos de autores gregos e romanos, um jovem monge copista e estudante de Latim meteu-se numa grande alhada ao chegar à frase "In diebus illis", que em bom latim significa "Naqueles tempos (dias)" e numa atrapalhação sem explicação deu outro sentido completamente diferente às palavras...
Uns dizem que foi por pouca sabedoria, outros por inexperiência, o certo que também não terá ajudado nada a forma como as palavras da frase estavam dispostas no texto que traduzia, é que uma linha terminava com metade da palavra diebus (in die) e a linha seguinte começava com o restante (bus illis) e para a história ficaria a forma como o rapaz solucionou a questão: "in die" passou a ser «no dia» e não arranjando tradução para "bus illis" deixou ir mesmo assim, inventando a palavra busíllis que seria entretanto imortalizada ao ser reproduzida noutras futuras cópias ao mesmo tempo que se tornava num quebra-cabeças para quem tentava decifrar o seu significado, ou seja, tornou-se mesmo no busílis da questão, no problema daquela obra...
Há ainda quem argumente que a confusão poderá ter tido origem no deficiente espaçamento das palavras do manuscrito que o jovem monge copiava e que o terá induzido em erro ao pensar que bus illis era uma só palavra... E a mim, que hoje tentei sobreviver por um par de horas sem os meus ÓCULOS de leitura, ocorreu-me outra possível explicação para o mistério: não teria o rapaz problemas de visão? É que a mim, por exemplo, sem óculos, as letras miudinhas tendem a juntar-se aleatoriamente e por vezes chegam mesmo a formar novas e desconhecidas palavras... Ora, o busílis da questão é que naqueles tempos, dentro dos mosteiros, não existiam ainda óculos decentes mas apenas pedras-de-leitura, isto é, pedras preciosas e materiais como o berilo e o quartzo que eram lapidados e polidos para construir uma lupa rudimentar que ajudava os monges nalgumas situações, talvez o equivalente a ler através de um fundo de garrafa...
João Portugal
(Linguista de Valmedo)
De facto, e segundo os meus amigos etimologistas italianos, foi no século XIV que o BUSÍLIS nasceu, precisamente em Itália e fruto de um acaso bastante curioso... Consta que nesses dias em que praticamente toda a cultura e conhecimento da Europa moravam nos mosteiros onde zelosos monges copiavam os manuscritos, não só os de teor religioso mas também os textos de autores gregos e romanos, um jovem monge copista e estudante de Latim meteu-se numa grande alhada ao chegar à frase "In diebus illis", que em bom latim significa "Naqueles tempos (dias)" e numa atrapalhação sem explicação deu outro sentido completamente diferente às palavras...
Uns dizem que foi por pouca sabedoria, outros por inexperiência, o certo que também não terá ajudado nada a forma como as palavras da frase estavam dispostas no texto que traduzia, é que uma linha terminava com metade da palavra diebus (in die) e a linha seguinte começava com o restante (bus illis) e para a história ficaria a forma como o rapaz solucionou a questão: "in die" passou a ser «no dia» e não arranjando tradução para "bus illis" deixou ir mesmo assim, inventando a palavra busíllis que seria entretanto imortalizada ao ser reproduzida noutras futuras cópias ao mesmo tempo que se tornava num quebra-cabeças para quem tentava decifrar o seu significado, ou seja, tornou-se mesmo no busílis da questão, no problema daquela obra...
Há ainda quem argumente que a confusão poderá ter tido origem no deficiente espaçamento das palavras do manuscrito que o jovem monge copiava e que o terá induzido em erro ao pensar que bus illis era uma só palavra... E a mim, que hoje tentei sobreviver por um par de horas sem os meus ÓCULOS de leitura, ocorreu-me outra possível explicação para o mistério: não teria o rapaz problemas de visão? É que a mim, por exemplo, sem óculos, as letras miudinhas tendem a juntar-se aleatoriamente e por vezes chegam mesmo a formar novas e desconhecidas palavras... Ora, o busílis da questão é que naqueles tempos, dentro dos mosteiros, não existiam ainda óculos decentes mas apenas pedras-de-leitura, isto é, pedras preciosas e materiais como o berilo e o quartzo que eram lapidados e polidos para construir uma lupa rudimentar que ajudava os monges nalgumas situações, talvez o equivalente a ler através de um fundo de garrafa...
João Portugal
(Linguista de Valmedo)
domingo, 3 de novembro de 2019
CONFIANÇA NOS ÓCULOS, NÃO NO OLHO
Confiança nos óculos, não no olho;
na escada, nunca no degrau;
na asa, não na ave
e só em ti, só em ti, só em ti.
Confiança na maldade, não no malvado;
no copo, mas nunca na bebida;
no cadáver, não no homem
e só em ti, só em ti, só em ti.
Confiança em muitos, já não em um;
no leito do rio, jamais na correnteza;
nas cuecas, não nas pernas
e só em ti, só em ti, só em ti.
Confiança na janela, não na porta;
na mãe, mas não nos nove meses;
no destino, não no dado de ouro
e só em ti, só em ti, só em ti.
CESAR VALLEJO
in "Poemas humanos", 1939
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