terça-feira, 10 de setembro de 2019


CALHAUS (QUASE) PERFEITOS...

Desenganai-vos,  vós que pensais que as artes são coisas do passado feitas por artistas mortos, geralmente pinturas e esculturas sobre o imaginário religioso ou então retratos de famílias reais e de mecenas que a ninguém interessa, ou ainda, numa fase mais recente, aqueles rabiscos e traços e manchas incompreensíveis que poucos conseguem decifrar mas que se tornam escola, abstracta por acaso e exemplo, ou expressionista, ou impressionista, ou realista, ou qualquer-coisa-que-se-lhe-queira-chamar e que repousam naqueles sarcófagos escuros e bolorentos a que chamam de museus e que ainda é preciso pagar a peso de oiro para neles entrar.... É que se repararem, a arte saiu do caixão, veio para a rua, para a natureza e tornou-se uma coisa viva e aberta ao mundo, ao alcance de todos,  basta ter os olhos bem abertos, e tão viva e animada é hoje a expressão artística que é possível assistir ao seu nascimento, ao seu crescimento, ao seu aperfeiçoamento e, finalmente, à sua BELEZA

"INÊS" - António da Cunha, 2019

No MOLEDO foi possível nos últimos dias assistir a um milagre, dos calhaus retirados ali do planalto em frente começou a brotar arte, a pouco e pouco, com muito trabalho e não menos inspiração, primeiro era o calhau em bruto, depois um esboço e agora, embora ainda não finalizadas, surgem belíssimas obras à espera do acabamento final... É o caso da belíssima "INÊS" da autoria do conimbricense António da Cunha, que para além de ali ter nascido do nada, ou antes, de um enorme calhau, foi eclodindo e até se deu ao luxo de mudar de sítio, quando cheguei ao local onde tinha visto dias antes artista e calhau nada lá existia, e bem que tive que procurar por todas as ruelas da aldeia até que encontrei a INÊS num sítio ideal, sinal de que a arte, à semelhança do mundo de Galileu, está viva e se move...

INÊS frente a frente com INÊS

E depois, e ainda bem que essa não mudou de sítio, a obra de Clara Ribeiro, artista nascida no nosso vizinho concelho do Cadaval, ali está à espera dos últimos acabamentos mas já se revela em toda a sua beleza, de um calhau nasceu uma perspectiva dos telhados e do casario da aldeia, simples cortes rectilíneos e geométricos no calhau mas que depois, quando se olha em perspectiva e se têm os verdadeiros telhados da aldeia pela frente e em segundo plano, tudo se harmoniza e encanta....


"MOLEDO" - Clara Ribeiro

Neste caso, pessoalmente, acho deliciosa a ideia e escolha do local, tinha que ser mesmo ali!


"MOLEDO" - Clara Ribeiro

E depois é só deixar-nos levar pela sede da descoberta, pela aventura e pelo mistério, podemos ser surpreendidos em cada esquina, em cada canto e em cada recanto, como é o caso daquelas misteriosas e magníficas pinturas em óleo sobre papel e sobre as pedras das casas, que agora já sabemos que são da autoria de MARTINHO COSTA, artista nascido em Fátima e residente nas vizinhas Caldas da Rainha....


"Homem com vara"? - MARTINHO COSTA - 2019

E venha o CALHAU#2...


João Plástico
(Artista de Valmedo)

segunda-feira, 9 de setembro de 2019



AFINAL EU TAMBÉM SOU UM ARTISTA!!! OU NÃO?


- Até já James... Volto não tarda nada!
- Mas onde é que vais? E não posso ir também?
Mas ele já não me estava a ouvir, fechou-me o portão no focinho e já aquela máquina ruidosa onde ele se faz transportar roncava e depressa haveria de desaparecer na esquina envolta numa nuvem de fumo... E isto já tinha dias, amigos caninos, manhãzinha cedo o J.C pegava na mochila e na máquina fotográfica e desandava para o MOLEDO, um sítio muito agradável e onde, por sinal, eu até já estive várias vezes e que, pelo que tenho visto nestes últimos tempos, tem sido a capital do CALHAU, um delicioso e surpreendente festival de artes...  Mas que raio, amigos caninos, é esta febre da arte que infecta os humanos? O que é que há assim de tão especial nisso, essa coisa de transformar calhaus em coisas parecidas com sabe-se lá o quê e que só os humanos, às vezes, conseguem ver? Pronto, já estou a ver alguns de vós a discordar desta minha visão da coisa mas eu falo por experiência própria, senão reparem: um dia destes entrei à sucapa na sala e deparei-me com o J.C a delirar com um filme que estava a passar naquela estúpida caixa a que eles chamam televisão, e sabem o que é que eu vi?




O J.C estava a delirar com um filme parvo sobre uma coisa que se tinha passado na sua adolescência, um tal jogo chamado PAC-MAN e que tinha feito enorme sucesso na altura, anos 80, diz ele, e que se resumia a uma bola com uma enorme boca que freneticamente devorava pastilhas como se disso dependesse a sua existência e que simultaneamente fugia de quatro fantasmas que a perseguia! Isto tem alguma lógica, amigos caninos?



Pois bem, nem vão acreditar naquilo que vou dizer mas é a pura das verdades, vendo o J.C assim alucinado por aquela estupidez de filme, tive uma veneta e fui lá fora ao quintal buscar o que restava da minha bola de ténis, afinal, amigos caninos, depois de muito trabalho não a tinha eu, com os meus dentes e o meu dom artístico, transformado numa obra de arte ao nível dos tais PIXELS?




Mas o J.C não me ligou nenhuma, continuava de olhar perdido naquela estúpida caixa de imagens e nem reparou na obra de arte que eu tinha entre dentes... Dá para acreditar? Sejam isentos, amigos caninos, não há tanta arte e criatividade na minha bola como naquelas obras a que os humanos chamam de arte? Como se eles fossem os únicos que conseguissem ver a beleza que há por este mundo fora... E depois, bastante tempo depois de filme acabado e já eu estava cansado de roer a minha bola, ainda vem ele dizer-me:
  - James, destruíste a tua bola? Por que raio?




JAMES
(Cão de Valmedo)

sexta-feira, 6 de setembro de 2019


OS SANTOS, AS FESTAS E OS POPULARES...


Há santinhos e santinhas para tudo, eles são tantos que nalguns casos nem se percebe bem porque o são nem para que servem, que isto da santidade deveria ser coisa bem mais séria porque ninguém sabe ao certo quantos santos existem, nem a própria entidade santificadora, a Igreja Católica, embora haja quem aponte para mais de 20 000! Se o papel dos santos e das santas é interferir junto de Deus por nós, singelas criaturas pecadoras, e porque Deus é único, imagine-se a burocracia que não será lá pelas esferas celestiais e então percebe-se porque Deus, sem mãos a medir, parece tão ausente deste mundo, é que, com tanto santo a atazanar-lhe o juízo e rogando-lhe aos ouvidos com intermináveis pedidos e desejos dos beatos que vegetam neste alucinado planeta, percebe-se o porquê de parecer que ele não existe sequer, é que ninguém, nem mesmo uma divindade, aguenta com tanta solicitação! Deus deve ter fechado há muito o escritório e ter-se-á porventura ausentado para parte incerta para não endoidecer de vez com aquilo que criou...! 



Mas ao menos há uma coisa boa no que respeita aos santos, é que os há para todos os gostos e para todos os dias do ano, e a populaça adora (e bem) homenageá-los com grandiosos festejos de comer e beber à fartazana, bailar até cair de cú e esquecer por uns dias as agruras da vida! Especialmente no Verão a coisa aperta, todos os sagrados fins-de-semana têm festa mas, e ainda bem, cada vez mais outros festejos ocorrem na época baixa porque isto de festejar tem de ser o ano inteiro...


O pecado da gula...

Na ATALAIA, terra marítima e de pescadores, houve o bom gosto e o bom senso de escolher como santidade a homenagear a Nossa Senhora da Guia, padroeira de navegantes e homens do mar, e vai daí nasceu uma coisa séria, uma das maiores festas da Península Ibérica em que se homenageia tudo aquilo que o mar nos dá... E este ano, eu que sou um pecador de créditos firmados, festejei de forma sublime com uns maravilhosos mexilhões de entrada e uma feijoada do mar ... divinal! E confesso, se não for pelo estômago não terei as portas do céu abertas...




E depois, no final, quando tentamos encontrar o sítio onde estacionamos a viatura, ainda temos um bónus surpreendente, uma obra de arte em pleno beco... Nada melhor para finalizar uma santa noite!


Algures na Atalaia...

E como Atalaias há muitas, felizmente, acaba uma festa da Atalaia e logo começa outra festa na Atalaia...


João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)

quarta-feira, 4 de setembro de 2019


A MONSTRUOSA CARAVELA DA PRAIA DOS FRADES...


Amigos, acabei de receber do meu compincha e fotógrafo Jean-Charles-Forgeronne uma mensagem e várias fotografias anexadas em que, questionava ele, que raio se passa, já não pode uma criatura levantar-se cedo e caminhar pela praia ainda deserta ansiando desfrutar desta dádiva da natureza em estado puro? Que raio é isto, que coisa esquisita colocaram aqui neste areal imaculado? Devo ficar preocupado? Ou devo continuar a minha caminhada como se nada fosse? Isto parece um monstro, dizia ele...




Assim que olhei para as fotos vi imediatamente que o monstro a que ele se referia era uma CARAVELA-PORTUGUESA, não um daqueles fantásticos navios que os portugueses usaram há séculos na sua diáspora marítima  mas sim uma gelatinosa e curiosa criatura da família das alforrecas que convém conhecer... De nome científico Physalia physalis, que é como quem diz "Bexiga bexigosa", ou não se traduzisse o grego physalia num bom português como bexiga, e vai daí a coisa até ganha algum nexo porque a criatura apresenta uma espécie de "balão" ou bexiga que, insuflado de gás, lhe serve de flutuador.... Sim, porque a criatura, o tal monstro de aspecto gelatinoso, passa a vida a flutuar na superfície dos oceanos ao sabor das marés e dos ventos!




Na realidade, esta criatura gelatinosa é uma colónia constituída por centenas ou milhares de organismos e com funções diferenciadas, umas no tal flutuador que pode ser azul, lilás ou rosa como no caso deste exemplar, e por tentáculos azuis que podem chegar aos 30(!) metros de comprimento e onde reside a sua ameaça porque são constituídos por células venenosas para pequenos peixes que são o seu alimento e urticantes para os humanos que, em contacto com a pele, podem provocar graves danos desde queimaduras até ao terceiro grau a dor, inchaço e alergias em certas pessoas que podem ser sérias! Por, isso, num contacto imediato de 2º grau, é bom dar de frosques e alertar, se possível, os outros frequentadores da praia e as autoridades marítimas...




Já agora, alcunhou-se esta criatura de CARAVELA-PORTUGUESA porque, parece, o seu flutuador apresenta semelhanças com as velas lusitanas que equipavam as caravelas dos Descobrimentos... E também não se preocupem, quando contactei o Forgeronne já ele estava a milhas, decerto num lugar mais seguro.....


João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

terça-feira, 3 de setembro de 2019


"Inês" - ColorBlind  (Tamara Alves e Oze Arv.)-  Moledo


E DO CALHAU BROTA A BELEZA...


A manhã ia a meio mas não se via vivalma pelas ruas do Moledo, apenas um gato e dois irritantes cães vadios que ladraram à minha passagem deram sinal de vida naquele sábado que já cumpria com o calor prometido... Virei junto ao clube e aproveitei para tirar uma foto ao mural dos ColorBlind, calhou bem porque assim arranjei uma auto-desculpa para recuperar um pouco, é que embora o ritmo da corrida tivesse sido lento até então e muitas vezes assim era para poder admirar novamente as obras por ali espalhadas e às vezes escondidas, o certo é que as pernas acusavam o desgaste da falta de forma e de terem que carregar com algum peso a mais, já não falando da idade que também vai pesando um pouquito mais... E então, quando já delineava o percurso final até ao carro, lá do alto e por detrás do moinho do Pantónio começou o barulho, uma mistura de frenéticas pancadas com o estridente som de uma ferramenta eléctrica e então voltou-me o ânimo ao imaginar que poderia ser alguém a fazer escultura ao vivo como tinha lido ali no cartaz ao lado a anunciar o CALHAU#1... Subi até ao moinho e vi uma nuvem de pó que engolia um vulto de branco que de rebarbadora na mão lutava contra um enorme calhau, e de tão concentrado que estava na sua hercúlea tarefa nem deu pela minha aproximação. Quando parou a irritante ferramenta e se preparava para a pousar no andaime, António da Cunha, o artista em questão, olhou para minha direcção e aí aproveitei:
  

António Cunha e a gestação da sua obra...

    - Bom dia! Posso tirar uma foto ao artista trabalhando?
Ele pousou a pesada ferramenta com alívio, levantou os óculos e tirando a máscara respondeu numa voz simpática:
   - Bom dia! Claro que sim...
Apontei a câmara e lá tirei o desejado retrato e não me ocorreu mais nada para dizer a não ser:
   - Então quando fica a coisa pronta?
   - Oh! Ainda falta muito! Nem sei se estará concluída ainda durante a mostra de arte, vamos a ver...
Olhei em volta e disse:
   - Bem, fica num belo sítio...
   - Pois, eu também acho mas parece que a ideia é levarem-na depois lá para baixo, para o centro...
   - Bem, no centro também não ficará mal!
   - Pois, mas no centro há já muita coisa e depois a atenção das pessoas dispersa-se um pouco enquanto que aqui...
E eu percebi que ele se referia ao síndrome do museu, do qual eu também por vezes padeço, especialmente naquelas colecções com demasiadas peças, uma pessoa passada meia hora já viu tanta coisa que vai deixando de prestar muita atenção ao que ainda falta ver e depois olha com menos vagar e começa a ficar deserto por terminar a visita...
   - Já agora, sabe o que é? - perguntou o artista apontando para o calhau atrás de si.
   - Não, apenas li no programa que o senhor e mais alguém estariam por aqui a criar a obra ao vivo...
   - Pois vou-lhe mostrar. - e retirou dentro daquilo que promete vir a ser um cálice uma pequena peça que à distância a que eu estava e pela coroa visível me pareceu ser um busto de uma rainha, Inês convenci-me logo...
    - Está prometido que virei no próximo fim-de-semana ver o resultado final...
    - Vamos a ver...
E despedi-me com um aceno, já tinha roubado tempo demais no seu acto de criação. Mais tarde arrependi-me de não ter perguntado mais coisas, afinal sai dali sem saber se aquilo era apenas um molde e depois aquela cabeça seria maior em tamanho, onde se encaixaria naquele cálice, etc, e agora só resta ir espreitar mais umas vezes e depois desfrutar a obra acabada.


António da Cunha e a obra em gestação...

Um pouco mais à frente, ao virar da rua, deparei-me com o atelier de outra artista, a Clara Ribeiro, ausente na altura e que espero encontrar numa próxima visita.


Atelier da artista ausente...

E enquanto a arte vai nascendo a pouco e pouco, brotando dos calhaus em tempo real, pode-se aproveitar para admirar as obras que por Moledo já lá vivem há anos e outras que, possivelmente ainda inacabadas, carecem de informação em relação à sua autoria, como é o caso das pinturas em plena pedra das casas, algumas delas em ruínas...


"Padeira e a sua fornada"


João Plástico
(Artista de Valmedo)

domingo, 1 de setembro de 2019



A HISTÓRICA ALDEIA DA ARTE...


Eternamente ligada aos amores clandestinos e fogosos de PEDRO e INÊS, a dramática paixão que para sempre ficou incrustada no imaginário colectivo lusitano, a aldeia do MOLEDO soube reinventar-se e ir mais além do que resignar-se a ser um mero local onde algo de histórico aconteceu e, melhor ainda, sem renegar esse passado histórico mas antes colando-o a uma abordagem artística variada... 
Tudo começou com uma parceria entre a aldeia do Moledo e a Faculdade de Belas -Artes da Universidade de Lisboa e que culminou num projecto que durante quatro anos trouxe alunos-escultores à aldeia para aqui criarem esculturas alusivas à temática de Pedro e Inês, e o resultado está à vista para quem se deixar envolver pelo ambiente único da aldeia e descobrir, onde menos espera, arte!


"Juízo Final" - Francisco Cid

Por exemplo, à beira do caminho pode deparar-se com uma confrontação, Pedro e Inês, modelados em técnica mista assentes em dois grandes calhaus paralelepipédicos arrancados ao Planalto das Cezaredas, parecem justificar-se um ao outro, num juízo final, quando se encontraram após a morte, ou então estarão eles a pedir explicações, quem sabe, que isto da relação entre homem e mulher nem sempre é cristalino e que pode amiúde dar voltas que nem visto...




Mas a forte ligação do Moledo à arte não se ficou por este protocolo, e ainda bem, é sinal que há vontade, visão e empenho, e assim acabou de se dar início ao CALHAU#1, uma mostra de arte que  muito para além da temática histórica de Pedro e Inês e durante dois fins-de-semana proporciona workshops de escrita criativa, teatro, desenho, música, gastronomia e, claro, actividades de arte urbana e escultura ao vivo!
Benvindos ao MOLEDO, a aldeia da arte...


 João Plástico
(Artista de Valmedo)