sexta-feira, 9 de agosto de 2019



"Assim, em média, num mês prenso duas toneladas de livros, mas, para encontrar forças para este meu bendito trabalho, nestes trinta e cinco anos devo ter bebido tanta cerveja que encheria uma piscina de cinquenta metros ou um conjunto de tanques para coroas de Natal... Assim tornei-me sábio contra a minha própria vontade..."

in "Uma solidão demasiado ruidosa", Bohumil Hrabal



"Praga" - Jean-Charles Forgeronne 


LIVROS 5 ESTRELAS - XV


A SOLIDÃO NUM MUNDO SEM LIVROS...


Um génio desconhecido! Não fosse a mão amiga do João Andarilho a emprestar-me este pequeno grande livro e bem poderia acontecer eu finar-me um dia destes sem ter desfrutado desta pérola... São pouco mais de cem páginas mas valem muitas mais porque é raro encontrar tanta coisa em tão poucas palavras, numa frase ou num parágrafo pode concentrar-se o mundo inteiro, o real e o imaginário, como numa amálgama saída da prensa do trágico herói da história, tudo ligado por ironia e sarcasmo desarmantes... "Uma solidão demasiado ruidosa", publicado por Bohumil Hrabal em 1976, após a era de repressão soviética na Checoslováquia e em que o próprio autor foi considerado proscrito e viu as suas obras proibidas durante anos, é uma maravilhosa homenagem aos livros. O herói trabalha na cave de um depósito de reciclagem em Praga aonde lhe chegam toneladas e toneladas de papeis e livros para a destruição mas, antes de os colocar na sua prensa, ele não resiste a folhear os livros, a conhecê-los e a achá-los a coisa mais importante da sua vida; assim, salva aqueles que pode e leva-os para casa, aos outros abre-os na página favorita ou na imagem mais bela e com eles forra os pacotes prensados, as suas obras de arte afinal...



Mas o progresso vai alterar tudo, não só a vida do nosso herói na cave mas também a do mundo lá em cima... Crítico, incómodo, divertido, surreal, original, esta obra contribuiu para que Hrabal fosse considerado no seu país um seguidor de Kafka e eleito como um dos melhores escritores do século XX... 

"(...) e eu, como que atingido por um raio, humilhado, numa situação de grande stress, compreendi de repente, com o corpo e com a alma, que já nunca mais seria capaz de me adaptar, que estava na mesma situação dos monges de alguns mosteiros quando souberam que Copérnico descobrira leis cósmicas diferentes daquelas que eram válidas até ali - que a Terra já não era o centro do universo, que era ao contrário -, e esses monges suicidavam-se colectivamente, porque não saberiam imaginar um mundo diferente daquele em que tinham vivido até então. (...) E aí é que se me toldaram os olhos: eu que, durante trinta e cinco anos, tinha empacotado textos velhos, eu que não podia viver sem a surpresa de a cada momento poder pescar, no papel repelente, um belo livro como prémio, então eu havia de ir empacotar papel branco, inumanamente imaculado?" 

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

sábado, 3 de agosto de 2019

"Sons na Areia 2019" - Capitão Fausto

ESCRITO NA PAREDE - 


"(...)
Ficar, partir
Não ter, decidir
Guardar, ouvir
Eu não me posso mais.

Ficar com o tempo a dobrar
Sair com seja quem for
Passar a noite a brincar
Cavar buraco maior
Cantar a minha tristeza
E achar que vou ficar bem
Não se pode tar sempre bem."


"Sempre bem" (excerto), "A invenção do dia claro", 2019
CAPITÃO FAUSTO 



"Tristeza boa" - Jean-Charles Forgeronne


EFEMÉRIDE # 61

AS MARAVILHOSAS CABEÇAS FALANTES...


40 anos! E parece que foi ontem... Pode parecer piroso, e talvez o seja mesmo, mas arrisco dizer que o tempo é definitivamente uma coisa muito relativa, como é então possível terem passado quatro décadas sobre aquele momento em que fui comprar o "FEAR OF MUSIC" à velhinha loja de discos da velhinha Rua Almirante Reis, em Torres Novas, com os bolsos recheados com os escudos amealhados na colheita do figo preto, espaço de que não me recordo do nome e que não passava de um simples e esconso corredor que abria num balcão recheado de capas das últimas novidades e não só, antro especial que era conhecido então por ter sempre aqueles discos alternativos de que todos gostávamos e comentávamos em animadas conversas durante os intervalos das aulas... E se não houvesse encomendava-se, uma fnac muito à frente do seu tempo! Mas do que me lembro e bem é que foi graças ao Mourão, colega de turma e craque de andebol com tiques musicais interessantes que cheguei aos TALKINGS HEADS, ele que morava paredes meias com a garagem dos Claras onde eu apanhava a camioneta da carreira para casa ao fim do dia, e num desses dias, após animada conversa sobre música e bandas, dou comigo em casa do Mourão a ouvir o "Psicho Killer", novidade então e grande orgulho dele... E de facto convenceu, fiquei apanhado pelas cabeças falantes, embora só mais tarde tenha comprado os seus discos e bebido a sua magia até à última gota!

Editado a 3 de Agosto de 1979

E que deslumbre foi chegar a casa e colocar o 33 rotações na aparelhagem, delícia de som, algo muito à frente do seu tempo, chamassem-lhe o que quisessem, punk electrónico ou new wave, não interessava a onda, era apenas um som genial! E aquela incrível sequência de "Cities", "Life during Wartime", Memories can't wait", muda o disco para o para o lado B (sim, era preciso mudar o disco para o lado B, às vezes parecia que eram duas obras distintas, a A e a B) e depois "Air" logo seguida da minha favorita, "Heaven", era demais para uma mente conturbada e irrequieta de quinze anos de pouca maturação! E foi aí que ouvi pela primeira vez que o céu é um sítio onde nada acontece! E se puder levar algumas coisas comigo para o céu ou para o inferno, quem sabe, por poucas que sejam, levarei então o "Fear of Music"!


João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)