segunda-feira, 25 de agosto de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXII

LAPAS SOBRE LAPAS

"Lapas" - Jean-Charles Forgeronne
Pode soar a lapalissada mas só para quem conhece, quem não souber que a povoação foi erigida sobre extensas galerias de grutas é que pode não achar óbvio terem-lhe dado o nome de LAPAS... E também pode acontecer, como já testemunhei, que haja quem desconheça o significado abrangente de lapa, pois bem, e excluindo a vertente zoológica que nos levaria aos apreciados moluscos, para esses aqui fica a definição segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa: "grande pedra ou laje que, ressaltando de um rochedo, forma abrigo; denominação dada a cavidades ou grutas que aparecem nas encostas das rochas". Ora bem, a antiquíssima aldeia de LAPAS, encostada à sede do concelho, Torres Novas, tem o seu casario espraiado pela margem esquerda do rio Almonda e aqui entra a primeira curiosidade: o Almonda, embora pequeno na sua extensão, apenas 30 quilómetros desde uma encosta da Serra de Aire até ao Tejo, é o rio com o maior caudal na nascente em toda a Europa!



"Olhos cavernosos" - Jean-Charles Forgeronne

E o rio Almonda é também o grande responsável pela segunda curiosidade e que é, claro, a de estarmos perante uma aldeia secular edificada sobre um labiríntico complexo de grutas com mais de 400 metros de extensão! As Grutas de Lapas, à semelhança de outras da região, foram sendo escavadas desde há cerca de dois milhões de anos em tufos calcários associados aos terraços fluviais do rio... A antiguidade do cenário é atestada pela descoberta feita em 1935, a apenas duas centenas de metros da entrada das grutas, de uma necrópole pré-histórica datada do IV milénio a.C, tendo aí sido recolhidos, entre outros artefactos, pedra lascada, pedra polida e cerâmica!

"Labirinto" - Jean-Charles Forgeronne

A origem e a utilização das grutas, embora continuem envoltas em mistério, deram origem a várias teorias e há quem afirme que foram primeiramente um abrigo dos povos pré-históricos, outros dizem que os cristãos primitivos aí se refugiavam durante a ocupação romana e há até quem ateste que também os mouros por ali andaram... Consensual é a sua utilização como importante pedreira já que o tufo calcário, devido à sua porosidade e à facilidade com que era cortado e trabalhado, foi utilizado na região e desde a era romana até meados do século XX na construção civil, como atesta a sua utilização na vila romana de Cardilium, na muralha fernandina do castelo de Torres Novas e em muitas casas de habitação e muros por aqui espalhados...  

"Mortos por cima dos vivos" - Jean-Charles Forgeronne

E claro, estando o casario velho da aldeia de Lapas construído sobre as grutas, em qualquer obra ou escavação que se faça lá se encontra mais um anexo subterrâneo, não admira pois que muitos moradores tenham aproveitado a "sua" parte de gruta para guardar o gado ou até como adega... E de facto é como disse em 1745 Luís Montês Matoso e se lê logo à entrada: por ali "andão os mortos por sima dos vivos"; é que mesmo por cima, e é literalmente por cima da entrada da gruta, estão casas anexas à igreja e ao cemitério... E foi mesmo por essa entrada, e esta é a terceira curiosidade, que no dia 28 de Dezembro de 1968 ali entrou Zeca Afonso para dar um concerto clandestino, consta que a gruta não chegou para tanto visitante mas o certo é que não se encontraria melhor refúgio, os maus lá por cima e os outros por baixo... 

João Parte-Pedra
(Geólogo de Valmedo)

sábado, 16 de agosto de 2025

 
E COMO VER O MUNDO-CÃO SEM CAPAS?

Reconheço, pode não passar de uma mania como outra qualquer mas geralmente e quando a normalidade dos dias assim o permite, uma das primeiras coisas que faço quando acordo ou quando a insónia me ataca é navegar pelas capas dos jornais que os sítios internéticos vão disponibilizando, infelizmente quase sempre a conta-gotas... Não sei quantas vezes foi através de uma capa de jornal e ao acordar que fui confrontado com um acontecimento extraordinário que ocorrera enquanto estava prisioneiro dos braços de Hipnos, mas a sensação que me assalta ao desvendar as primeiras capas do dia é a mesma que teria se estivesse estado fechado na escuridão durante uma noite inteira e então abrisse uma janela para a luz do mundo-cão, para a realidade... 


"A última i"

Posso até não aprofundar muitas das chamadas de atenção de uma capa mas também já me aconteceu ir comprar o jornal porque algo me interessou deveras, pode ser uma capa normal sem grande impacto mas também pode ser uma capa que é uma autêntica obra de arte, uma capa de jornal (ou revista), para além de seduzir o leitor para a compra da publicação pode moldar opiniões, influenciar pensamentos, criar discussões e por vezes algumas tornam-se até inestimáveis testemunhos históricos...  
E agora o mundo das capas está muito mais pobre, desapareceu o i, um reflexo afinal da crise que infesta o jornalismo, melhor, o verdadeiro jornalismo, porque o outro "jornalismo", o de plástico, ao serviço de interesses económicos e políticos, esse vai de vento em pompa com notícias cada vez mais plastificadas...
Obrigado i, pelas notícias e pelas capas... 

João Cacha
(Jornalista de Valmedo)

sexta-feira, 15 de agosto de 2025


INCRÍVEL HENDRIX, INCRÍVEL ALMADENSE 

De facto, o que é incrível é só agora eu ter conhecido o INCRÍVEL ALMADENSE! E imagino o desperdício, tantas devem ter sido as suas gloriosas noites que perdi, mas enfim, nem vale a pena tentar encontrar razões para tanto desencontro mas um dia haveria de acontecer e como se diz por aí acertadamente mais vale tarde do que nunca... Em boa hora chegou o desafio do amigo Andarilho, também ele com ganas de conhecer o mítico espaço e depois de bem aconchegados pelo "Velho Kurica" lá fomos à aventura que nem leões...

"Incrível Almadense" - Jean-Charles Forgeronne

O CINE INCRÍVEL, na zona velha de Almada, tem uma história de 100 anos de existência, foi inaugurado em 1925 e fica situado mesmo ao lado do edifício da sua proprietária, a Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, esta fundada em 1848! A icónica sala de espectáculos começou por albergar peças de teatro, depois também cinema e mais tarde concertos de música, tendo por lá passado nos anos 80 muito boa gente dos primórdios do rock português, como os Xutos&Pontapés e os UHF... Talvez por isso ficou conhecido desde então para muita gente como o Rock Rendez-vous da margem sul...

"Memorabilia" - Jean-Charles Forgeronne

Espaço incontornável da cultura de Almada e da margem sul, o CINE INCRÍVEL tem tido uma existência conturbada, chegou a encerrar portas e a entrar em lastimável estado de abandono mas valeu-lhe a intervenção da Associação Alma Danada que em 2012 o salvou do desastre ao assumir a sua gestão... E hoje, apesar de alguns contratempos, ali acontecem inúmeros concertos, desde bandas de garagem a nomes consagrados da música portuguesa, desde sessões semanais de jazz a bandas de tributo, muito se passa por ali, felizmente... 

"Hendrix reencarnado" - Jean-Charles Forgeronne

E por ali passou há dias o Jimmy Hendrix, com mestria bem reencarnado na guitarra de Tiago Maia e muito bem secundado por Ricardo Dikk no baixo e Rui Reis na bateria, e depois de um belo serão é inevitável um regresso para breve, afinal o Incrível merece muitas mais visitas...

"Almada Velha" - Jean-Charles Forgeronne

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

 
UMA VOLTINHA POR... - IV

"Chafariz das Cinco Bicas" - Jean-Charles Forgeronne

... Caldas da Rainha! Ou melhor, pela zona histórica das Caldas... É um pequeno mas muito rico passeio e que começa junto ao Chafariz das Cinco Bicas, datado de 1749 e o mais imponente dos três chafarizes mandados construir por D. João V para abastecimento de água à população... E porque estamos a falar de água numa terra de artes, mesmo atrás do chafariz, na área hospitalar mas de acesso público, encontra-se o "Jardim da Água", obra do ilustre ceramista Ferreira da Silva, merecedora duma visita... Desce-se um pouco, meia dúzia de passos e já é possível contemplar a icónica Praça da Fruta, desde o século XV um dos mais famosos mercados de rua de Portugal, com os seus toldos coloridos e bancas recheadas com a melhor fruta e os melhores legumes que se podem encontrar... Toda a gente ali desemboca, sejam os caldenses clientes diários ou forasteiros que vão de passagem para o trabalho ou turistas, consta até que excursões da terceira idade têm como ponto de paragem obrigatório este mercado de uma singular atmosfera...


"Praça da Fruta" - Jean-Charles Forgeronne

Depois de passar pelo mercado, se estiver num dia de sorte, pode em qualquer travessa ou esquina ser surpreendido ao cruzar-se com um dos pavões que habitam o Parque D. Carlos e que têm como passatempo preferido um passeio matinal pelas redondezas...

"Passeio matinal" - Jean-Charles Forgeronne

Ou então também pode ser surpreendido por uma chuva de chapéus coloridos, parece que é moda, há-os agora por todo o lado de norte a sul, mas estes aqui das Caldas, como não poderia deixar de ser, são diferentes, se olhar com atenção irá reparar que todos aqueles chapéus são machos, todos eles têm o seu caralhinho pendurado...

"Caralhinhos pendurados" - Jean-Charles Forgeronne

Depois da irreverência artística deixada para trás é inevitável não dar por si onde a história desta cidade começou, em pleno largo do Hospital Termal, considerado o hospital termal mais antigo do mundo, mandado construir pela Rainha D. Leonor em 1485... Não esqueça de contornar o edifício do hospital e contemplar a belíssima Capela da Nossa Senhora do Pópulo, se tiver sorte de a encontrar aberta não hesite, entre e deixe-se relaxar, irá encontrar alguma paz espiritual e vigor para o resto da jornada...   

"Nossa Senhora do Pópulo" - Jean-Charles Forgeronne

E agora que o calor aperta é hora de passear ou simplesmente descansar nas sombras do Parque D. Carlos, ou então se para aí estiver desperto ainda pode visitar o Museu José Malhoa, e a visita, garanto-lhe, vai valer a pena...

"Parque D. Carlos" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)
 
 
O MUNDO-CÃO PELO OLHO DO ARTISTA - III

"Capela Nossa Senhora do Pópulo", aguarela, Museu José Malhoa - António Vitorino

"Capela Nossa Senhora do Pópulo" - Jean-Charles Forgeronne, 2025

terça-feira, 12 de agosto de 2025


 ANTIDEPRESSIVO NATURAL...

Andamos tão ocupados nesta existência caótica e depressiva que não temos nem tempo nem cabeça para repararmos nas coisas mais simples desta vida, muitas vezes também elas as mais belas, e no entanto a natureza tem a todo o momento surpresas para nos deslumbrar, basta dar o primeiro pequeno passo e esperar que aconteça, a recompensa espera por nós...

"Ballerina Alien"- Jean-Charles Forgeronne

Noite de insónia, manhã gloriosa? Embora raro por vezes acontece, chego à praia de Vale de Frades, deserta, ainda meio mundo-cão dorme, entretanto da outra metade muitos já se encontram submersos pelo trânsito caótico a caminho do rotineiro trabalho e a maior parte já mergulhou a fundo nos braços lascivos e alienantes das redes sociais... E eu por aqui, em plena maré vazia, só eu, areal e o oceano! Bem, parece que afinal não estou sozinho, de tanto recuar o mar deixou curiosos despojos... 

"O couraçado" - Jean-Charles Forgeronne

De tanto empinar o nariz para absorver os cheiros a mar quase que tropeçava numa estranha criatura que parecia dançar para mim, uma bailarina alienígena sem dúvida, talvez vinda de Sirius, a estrela mais brilhante da noite e para onde se alinham as pirâmides egípcias... Dou um passo para o lado para me desviar da criatura dançante e quase piso outro ser de outro mundo, um bicho couraçado que tenta fugir às arrecuas e que não tem ar de querer fazer amizade... 

"Ioga estelar" - Jean-Charles Forgeronne

Parece que passei um portal e que entrei noutra dimensão e ao deparar com uma família de peludas estrelas fazendo ioga à beira da água sinto-me num mundo paralelo tão diferente daquele de onde vim há pouco e onde não entram stresses mentais, nem rotinas doentias e castradoras, nem guerras, nem políticos aberrantes, nem desportos fúteis e alienantes, nem pessoas mesquinhas, nem doenças terríveis, nem ameaças de desgraças, nem religiões absurdas...

"O Vigilante" - Jean-Charles Forgeronne

E então tenho a certeza que estou a ser observado, instintivamente olho em volta à procura da nave que deve estar por ali algures e de onde deve ter saído toda esta estranha vida, é que diante de mim tenho agora uma estranha bola de espinhos e onde descortino um olho que me olha com ar ameaçador, que sabe se a enviar dados sobre mim para o planeta de onde veio... 

"O planeta verde" - Jean-Charles Forgeronne

Só não consegui vislumbrar quem me atingiu com o raio verde, o tal da lenda de Verne, talvez dissimulado atrás de uma rocha, o certo é que fui assaltado por uma espécie de tontura, uma sensação de êxtase e quando recuperei e abri os olhos vi que estava noutro local da galáxia, estava num planeta verde... 
E pronto, sempre chega a hora de regressar ao mundo antigo mas agora, depois deste antidepressivo que me purificou a alma, já vou contando as luas para a próxima evasão...   

João Atemboró
(Naturalista de Valmedo)

sexta-feira, 8 de agosto de 2025


 VIAGEM A UM MUNDO PARALELO...


Em 1976 escrevia LOUISE WEISS, jornalista e política francesa, defensora dos valores europeus e assumida feminista:

"Por causa da rapidez com que a sociedade tem mudado neste nosso século, os mais velhos e os mais novos, que coexistem no espaço, já não coexistem no tempo. Andam pelas mesmas ruas, dormem debaixo do mesmo tecto, mas, por causa da acção da memória, vivem em planetas diferentes."
(in "Mémoires d'une Européenne")


Hoje, passados 49 anos, quase quase meio-século, esta leitura do mundo-cão é mais real do que nunca, basta substituir "memória" por "tecnologia digital"! Hoje velhos e novos vivem em mundos paralelos, só que pelo caminho, à velocidade da luz, vai-se perdendo a memória, e sem memória do que fomos e do que construímos não há chão nem sabedoria nem valores, o abismo fica perto...

João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)

terça-feira, 5 de agosto de 2025

 
TIRADAS DO GÉNIO - VII

APENAS UM DIA DE MAU GÉNIO

Era apenas mais um daqueles dias em que o genial e temido Professor Vitorino Nemésio estava com os azeites e em que numa prova oral de Cultura Portuguesa teve em sortes de lhe calhar pela frente um aluno que tinha sido seminarista e conhecido como um marrão a sério:
- Que espectáculos viu o senhor ultimamente? - começou Nemésio...
O aluno, surpreso, respondeu:
- Ultimamente não vi nenhum...
- Nenhum? Vá-se embora!
E chumbou-o.

                                                                   (Baseado em "Anedotas do Nemésio", Arnaldo Saraiva, 2016)


João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)

domingo, 3 de agosto de 2025

"Flamengos abaixo...", Faial

 Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

"O ilhéu e o cão", Museu das Lajes do Pico - Foto:Jean-Charles Forgeronne

 
SCRIMSHAW, UM PASSATEMPO ARTÍSTICO...

Scrimshaw é uma palavra da língua inglesa que designa a arte de entalhe, gravação e pintura em marfim, especialmente em dentes e ossos de mandíbula de cachalote... Esta arte começou por ser realizada a bordo das barcas baleeiras americanas que dominaram a caça à baleia a nível mundial entre 1820 e 1880, época em que o mundo era iluminado a óleo de baleia e as máquinas da Revolução Industrial exigiam quantidades astronómicas de lubrificante; ora, os homens que eram contratados, muitas vezes à força, passavam muito tempo em alto mar, chegavam a andar 4(!) anos embarcados, e sem nada para fazer os mais dotados iam dando asas às sua criatividade... 

"Museu das Lajes do Pico" - Jean-Charles Forgeronne

E os camponeses açorianos que eram contratados pelos americanos e que se revelaram, nas palavras de Herman Melville em "Moby Dick", os melhores caçadores de baleias, também se tornaram exímios artistas na arte do scrimshaw e originando depois uma indústria de artesanato com grande procura a partir do século XX e onde despontaram grandes artistas como por exemplo Frank Barcelos, terceirense da Praia da Vitória mas radicado na América desde cedo e que chegou a ser considerado o maior artista mundial desta arte no seu tempo... 

"Museu das Lajes do Pico" - Jean-Charles Forgeronne

A arte parece em declínio, já Barcelos avisava em entrevista ao Público em 1990, pouco tempo depois do fim da caça à baleia no arquipélago, que a actividade estava a morrer nos Açores, "um moço no Faial, um rapazito na Praia, um faroleiro de São Miguel que fazia coisas bonitas - não sei se morreu - e mais uns poucos"... E hoje, pondo de parte o mercado paralelo de cópias em massa sintética, o verdadeiro e genuíno scrimshaw parece confinado apenas aos museus ou a colecções particulares, valendo as obras originais dos antigos artistas verdadeiras fortunas... 

"Museu do Peter's" - Jean-Charles Forgeronne

João Plástico
(Artista de Valmedo)

sábado, 2 de agosto de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LXI

QUANDO NEPTUNO ESTEVE NA HORTA...

Entre o meio-dia e as quatro da tarde do dia 15 de Fevereiro de 1986 abateu-se sobre os Açores e especialmente sobre a Horta a maior tempestade do século XX, atingindo o vento 250 Kms/h, a altura das ondas era de 15 a 20 metros e a altura da rebentação chegou aos 60 metros... Quem nesse sábado andou pela baía de Porto Pim a fotografar o acontecimento foi José Henrique Azevedo, filho do Peter e actual gestor do estabelecimento, e quando dois anos mais tarde ao querer mostrar com mais facilidade aos iatistas a dimensão da tempestade e ao passar duas fotografias de diapositivo a papel algo de extraordinário se revelou...



Foi até um empregado do café que ao ver Azevedo de volta das imagens reparou que no momento em que foi tirada uma das fotografias se tinha formado na rebentação da onda uma figura humana, reconhecendo-se o cabelo, os olhos, o nariz, a boca e a barba, só poderia então e a propósito chamar-se-lhe Neptuno, o deus dos mares... O deus parece até estar descansando ou apenas observando, deitado e de cabeça recostada numa das vertentes do Monte da Guia, como se não fosse nada com ele... Foi um momento para a história...

Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

"Arte na Horta" - Jean-Charles Forgeronne

 

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

 
CURIOSIDADES DO MUNDO-CÃO - LX

O ÚLTIMO CONCERTO DE JAQUES BREL

Nos registos oficiais consta que o último concerto de Jacques Brel ocorreu a 16 de Maio de 1967, no Coliseu de Roubaix, perante uma assistência de 250 espectadores, mas isso não corresponde à verdade pois no dia 12 de Setembro de 1974, o artista, fazendo escala na Horta durante a sua volta ao mundo a bordo do seu veleiro e já doente, ainda cantou para os vinte e oito clientes do Peter's naquela noite! O acontecimento ficou gravado na memória dos presentes e o seu testemunho perdura no tempo...

"Ouvindo Brel no Peter´s" - Jean-Charles Forgeronne

"Azevedo (...) dirigiu-se a um iatista francês versado em algum português, comunicou-lhe que estava ali um artista de dimensão universal e pediu-lhe para perguntar a Brel se podia interpretar uma canção, ali, para todos.
Ao ouvir o pedido, Brel ficou sério, quase melancólico.
Foi para fugir a estas solicitações que havia abandonado os palcos. Para não ter de voltar a trabalhar nas fábricas de cartão do espectáculo.
Todos os iatistas voltaram a olhar para o Grand Jacques e, fazendo o exercício de lhe retirar os adereços, reconheceram-no.
Percebendo a sua hesitação, ergueram as canecas para o incentivar. Brel olhou para eles e sentiu ali um ambiente desinteressado, de uma pureza boémia, uma fraternidade de lobos do mar.
Pediu uma viola."

in "Como um marinheiro partirei", Nuno Costa Santos


"Jacques Brel" - Museu de Scrimshaw, Peter´s - Jean-Charles Forgeronne

"Amsterdam" é a música que todos os dias se ouve quando o Peter's fecha portas por apenas algumas horas, e que melhor homenagem poderia ser feita ao artista-marinheiro? E aí eu arrepio-me um pouco e não é devido à brisa que se levanta do canal, tenho um calafrio porque a primeira vez que ouvi essa extraordinária canção e depois durante muito tempo foi numa versão do saudoso David Bowie, ainda adolescente eu era, e só muitos anos mais tarde descobri o arrepiante original...

                                                                                           Amsterdam - Jacques Brel
João Sem-Dó
(Musicólogo de Valmedo)
 
LIVROS 5 ESTRELAS - XLI

UMA VOLTA A MUITOS MUNDOS...

Foi um autêntico golpe de sorte o modo como descobri este extraordinário livro, talvez aquela sorte pela qual anseiam os marinheiros quanto enfrentam os perigos e desafiam a morte, foi um acaso tão singular que a partir desse momento comecei a ser um pouco menos céptico em relação à existência de um algoritmo superior e misterioso que condicione as nossas escolhas e o nosso percurso de vida, coisas que afinal talvez não dominemos assim tão bem como julgamos... Numa manhã quente de Outubro de 2024 e aos esses pelo esquisito trânsito da A8 íamos a caminho do aeroporto para apanhar o avião para a Terceira quando decido num impulso mudar de estação de rádio, passo da Antena 3 para a Antena 1, "por causa da informação de trânsito", justifico-me à N., e depois de sossegado por não haver acidentes nem transtornos de maior no acesso à grande urbe já o meu indicador se preparava para voltar a mudar quando ouço o pivot do programa dizer: "A seguir, na Zona VIP, João Gobern traz-nos uma história maravilhosa e um livro sobre os Açores, não é João?"...
- "Olha a coincidência! - lembro-me de ter exclamado - Nós em viagem para a Terceira e esta coisa sobre os Açores... 
O resto foi uma grande e maravilhosa descoberta que influenciaria e nortearia, passado quase um ano depois, a nossa exploração da Horta e do Faial em busca de sinais da passagem de Brel pelos Açores e tudo graças àquele mágico segundo em que mudei de posto, se não o tivesse feito o meu mundo e a minha vida não seriam os mesmos, seriam decididamente mais pobres pois quer o livro quer a fantástica vida de Brel me passariam ao largo ...

"O Askoy II" - Fonte: Google

Nuno Costa Santos chamou a esta obra "Como um marinheiro partirei", o primeiro verso da primeira canção do primeiro álbum de JACQUES BREL, de 1954, "Comme un marin je partirai", e como um romancista, um biógrafo e um repórter partiu ele, a partir de um antigo recorte de jornal, em busca da história da passagem da grande lenda da música do século passado pelos seus Açores... Brel, no auge da carreira e com apenas 38 anos, cansado de um ritmo de actuações extenuante, tinha-se surpreendentemente afastado do mundo do espectáculo e decidira dar uma volta ao mundo no seu veleiro Askoy II, com passagem pelos Açores... O resto é história e histórias para ler neste livro, de preferência ouvindo em fundo as magistrais canções do marinheiro...

"Captain Brel - Foto: www.boatsnews.com

João Vírgula
(Leitor de Valmedo"