quinta-feira, 27 de maio de 2021


AMARELO ATÉ QUANDO?


"Pelotão" de Nuno Vasa, 2017 - Rotunda do Arena, Torres Vedras

 Jean-Charles Forgeronne
Fotógrafo de Valmedo

domingo, 23 de maio de 2021

 

CRIATURAS DO SUBMUNDO

Já não pode um pobre fotógrafo sair à rua depois de meses de confinamento e embrenhar-se na natureza selvagem sem apanhar um valente susto, senão reparem naquilo com que me deparei em plena caminhada:


Pois é, estranhas criaturas estão emergindo das profundezas, será um sinal de que o fim deste mundo caótico está para breve?

Tenham muito cuidado, eles andam por aí!


Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

quinta-feira, 20 de maio de 2021

 


"Se algum dia a merda tiver algum valor então                       os pobres nascerão sem cu!"


Gabriel García Márquez

 

"Os grandes escritores são tão simpáticos, tão simples, não são nada cagões. A maior parte deles  tem humor.  Temos é de dar-lhes espaço." 

(António Lobo Antunes)

Lobo Antunes - Do Carmo Vieira, 2018




ANEDOTAS QUE PARECEM POEMAS - IX


CRÓNICA DE UMA NOITE DE NÚPCIAS ANUNCIADA...


Numa entrevista à Wookacontece confidencia António Lobo Antunes uma história verídica passada com Gabriel García Márquez, seu grande amigo e a quem reconhece como uma das pessoas com mais e bom humor que conheceu:

"A avó de Gabo, então um homem já feito e pelos 40 anos, mandou-o chamar.
   

  - Ó filho, os médicos dizem que eu estou muito doente e que estou a morrer. Eu não quero que me ponham ao lado do teu avô!
       - Mas porquê, avó? Viveu toda a vida com ele, foram felizes, está ali aquele retrato na parede...
       - O que é que tu achas daquele retrato? - pergunta-lhe a avó.
       - Olhe, se quer que seja franco, acho-o estranho porque foi tirado no dia a seguir ao casamento e o avô está sentado e a avó está de pé.
        - Vês? É por isso mesmo que eu não quero! O teu avô era um homem tão potente que no fim dessa noite nem ele se conseguia levantar nem eu me conseguia sentar. Já morreu há 16 anos, imagina a fome com que está!" 

 João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

quarta-feira, 19 de maio de 2021

 

VIAJAR LENDO COM OS OUVIDOS...

Na sessão dos Livros a Oeste que juntou as letras e os sons, ou seja, a literatura e a música, foi Rui Eduardo Paes quem iniciou as hostilidades ou não fosse ele um influente crítico musical que escreve sobre música desde os longínquos anos 80 até à actualidade numa longa viagem em que aborda a música não só como manifestação artística mas também sociológica, filosófica, económica e até política:

"Toda a manifestação artística é política! Vivemos em rede, não somos uma ilha, nada é uma ilha...

Depois João Carlos Callixto, investigador musical e autor de programas radiofónicos e televisivos como, por exemplo, o "Gramofone", no qual recupera memórias audiovisuais a partir do riquíssimo espólio do arquivo da RTP, viajou até ao passado ao chamar à baila um curioso caso:

"Aquela a que se chamou de canção ligeira é uma coisa muito vasta, veja-se o João Maria Tudela que em 1969 apareceu no Natal dos Hospitais a cantar "Cama 4, Sala 5", com letra de  Ary dos Santos e música de Nuno Nazareth Fernandes e que é um manifesto contra a guerra colonial ao contar a história de um soldado ferido internado no hospital... Consta que Ary dos Santos só foi convencido a fazer a letra porque a emissão era em directo, aí não havia censura. A carreira do Tudela acabou ali, seria proibido de actuar na RTP até Abril de 1975!"
  

E depois, Adolfo Luxúria Canibal, também homem de letras e poesia mas o único músico em palco revela uma viagem eternamente adiada:
"Quando comecei a escrever para os MÃO MORTA a ideia não ia além dumas férias em Berlim, dar uns concertos e regressar, nada mais que isso e escrevi para alemães em português e na altura tive a profunda consciência de que não interessava o que estava a dizer mas sim o som das palavras que entravam na música e que poderiam tocar alguma corda sensível de um público alérgico à língua portuguesa. A viagem acabou por não se realizar e só mais tarde dei importância ao significado das palavras ao contar histórias e narrativas..."   

O Jardim - MÃO MORTA                       

"Há tanto tempo que não me ocupo do jardim

A última vez estava frondoso

A buganvília a tingir-se de vermelho

Trepando o perfume inebriante

E as festas ao cair da tarde

Parece que foram há séculos

Noutra encarnação

Os meus amigos traziam as bebidas

E a jovialidade

O jardim enchia-se de gente, de beijos

Pelos cantos sôfregos de desejo

Inventamos planos de rebelião

Sonhos de transmutação

Passámos horas a inventar

Entre duas carícias

Surgiram ideias puras e inocentes

Como a nossa vontade de tudo abarcar

Era um frenesim constante

Faz-me pena agora

Olhar para ele

Para as suas sebes abandonadas

De ramos retorcidos jaz tombada a grande epícea

E uma enorme cratera

Substitui os belos canteiros de outrora.

Há tanto tempo que não me ocupo do jardim...

Há tanto tempo que não me ocupo do jardim...


(Adolfo Luxúria Canibal


João Vírgula
(Leitor de Valmedo)

segunda-feira, 17 de maio de 2021

 

OS DOENTES, OS LOUCOS E OS OUTROS...

 Afinal, e sob o mote da doença na literatura, que se poderia esperar duma conversa com três exímios oradores a não ser uma hora e picos de deleite cultural? Junte-se a Miguel Real, escritor e professor de Filosofia mas também ensaísta e destacando-se nesta área como autor da série das Novas Teorias (do Mal, do Pecado, da Felicidade e outros) 

"A doença é uma disfunção corporal (ou mental) e a literatura adora disfunções! Tudo o que é rotineiro, o quotidiano absolutamente normalizado pode aparecer mas como pano de fundo, o centro é sempre a disfunção. O amor, por exemplo, é uma disfunção. E a doença, como disfunção, torna-se uma narrativa literária!" 

Fernando Pinto do Amaral, poeta, crítico literário e professor universitário, alguém que após 4 anos de curso de Medicina abandonou as ciências pelas letras não só por falta de vocação mas porque finalmente ganhou a coragem de enfrentar o destino familiar (o pai era médico) e que hoje, pé lá e pé cá, sente-se à vontade para dizer

"As pandemias são a defesa do planeta! Atenção: esta foi só um aviso, da próxima vez são três mil milhões que vão à vida!"

e por último, talvez por ser o mais jovem, Rogério Ribeiro, conterrâneo deste escriba e o único a enveredar por uma carreira científica, nomeadamente na área da investigação da diabetes. Paralelamente mergulhou a fundo e com paixão no universo da ficção científica, área em que para além de ter editado várias antologias e organizado eventos sobre o tema escreveu vários contos fantásticos

"A distopia, um mundo disfuncional, também é sinónimo de utilidade! As mulheres que escreveram outrora e que tinham a necessidade de pensar o mundo de uma forma completamente diferente utilizaram a doença e as pragas para criar um mundo sem homens, uma distopia que só era possível apresentar neste contexto porque de outra forma não seria possível falar sobre coisas que não eram na altura bem aceites..."



 E depois o Morales leu Ângelo de Lima, poeta louco internado em Rilhafoles:

"Pára-me de repente o pensamento

como que de repente refreado

na doida correria em que levado

ia em busca da paz, do esquecimento...

Pára surpreso, escrutador, atento,

como pára um cavalo alucinado

ante um abismo súbito rasgado...

Pára e fica-se e demora um momento.

Pára e fica na doida correria...

Pára à beira do abismo e se demora

e mergulha na noite escura e fria

Um olhar de aço que essa noite explora...

Mas a espora da dor do seu flanco estria 

e ele galga e prossegue sob a espora..."


João Vírgula
(Leitor de Valmedo)