sexta-feira, 31 de janeiro de 2020





"Ninguém morre a subir uma montanha,                     morre-se a descer a montanha...!"

João Vieira Almeida
(Projecto Kilawmanjaro)


IDEIAS DE UMA NOITE, IDEIAS DE UMA VIDA...


Quando alguém invade a nossa zona de conforto e de expectativa em relação à vida e nos vem desafiar para pensarmos no lado obscuro e negro da condição humana, das duas uma, ou está a armar-se em paladino teórico de uma obscura verdade sobre a existência neste mundo-cão ou, caso mais raro mas de maior genuinidade, está a lançar-nos à cara a experiência por que passou ao confrontar os limites da sanidade mental... E é preciso coragem para tal! É o caso de um advogado de sucesso, Pedro Vieira de Almeida, que de um momento para o outro e no auge da sua carreira entra em burn-out e cai numa profunda depressão. Sentiu, nas palavras do próprio ouvidas ontem na magnífica iniciativa da Fundação Gulbenkian "A Noite das Ideias", o lado mais negro e terrível do ser e a que ninguém está imune de um dia nele cair! 


Resignou-se? Não. Deixou-se vencer pelo desânimo? Não. Isolou-se do mundo? Não! Apenas mudou de paradigma e de vida, desafiou a montanha que o separava da vida que tivera, da vida que se lhe esvaíra por entre esta frenética e doida existência e lançou-se em busca da vida que precisava recuperar, embora uma vida  diferente, melhor, mais pura, mais gratificante... E sob conselho sábio e amigo propôs-se desafiar o  limite, o KILIMANJARO, a mítica montanha branca e mais alta de África, a 5895 metros de altitude mas, segundo palavras do próprio, de fácil escalada comparando com outras proeminentes montanhas que depois viria a enfrentar! E o limite imposto pelos mais básicos instintos de sobrevivência e o confronto com o limite da própria pessoa pode levar a um auto-conhecimento de enorme alcance e superação, até de uma grave depressão... Passados 10 anos desta primeira e traumática experiência, o Pedro hoje não quer outra coisa senão subir montanhas, talvez porque sempre que se "ganha" uma montanha uma pessoa cresce e se torna melhor, mais forte, mas nunca imune, por isso há que continuar a subir montanhas e a derrubar limites....

Kilimanjaro

E até para o ano, com novos desafios e novas ideias...


João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)


A MONTANHA POR ACHAR

A montanha por achar
Há-de ter, quando a encontrar,
Um templo aberto na pedra
Da encosta onde nada medra.

O santuário que tiver,
Quando o encontrar, há-de ser
Na montanha procurada
E na gruta ali achada.

A verdade, se ela existe,
Ver-se-á que só consiste
Na procura da verdade,
Porque a vida é só metade.


Fernando Pessoa
(Poesias inéditas)

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020



A MISTERIOSA ORIGEM DAS PALAVRAS - XII


NARANG, NARANDJA, PORTOKÁLI...


Durante quase 800 (!) anos grande parte da Península Ibérica, incluindo muito do actual Portugal, esteve sob o domínio árabe e essa influência é tão profunda em todos as áreas da sociedade que ainda hoje não deve haver um português que seja em que, nos cinco litros de sangue que lhe correm pelas veias, pelo menos um mililitro dele não seja de origem árabe! E somos, a par dos espanhóis, os europeus que ao longo da história mais partilhou sabedoria e cultura com o povo árabe e ainda bem que assim foi em muitos aspectos, veja-se, por singelo exemplo, o caso da laranja... 
Da Ásia, foram os muçulmanos que trouxeram para o sul da Península Ibérica plantas como a laranjeira-amarga e a alfarrobeira, por exemplo, árvores que tiveram e ainda têm hoje em dia impacto decisivo na economia do Algarve... Naquele tempo chamava-se NARANDJA à laranja (amarga), palavra árabe derivada de narang, termo persa de cuja região os muçulmanos tinham trazido a planta e que acabou por descambar no moderno português LARANJA! E foi preciso esperar pelo século XV e pela epopeia lusitana dos Descobrimentos para que chegassem à Europa muitas outras, desconhecidas e maravilhosas plantas oriundas da Ásia, como a laranjeira-doce que nos providencia a actual e deliciosa laranja pela manhã, ao almoço, ao lanche ou à ceia, antes... sempre que apetecer!


Foram, de facto, os Portugueses que trouxeram a actual LARANJA da Ásia e, com o reconhecido jeito para o negócio que nos é reconhecido, não tardou muito para que espalhássemos a laranja por uma Europa espantada e deliciada com as novidades que vinham do outro lado do mundo e sendo assim, não é surpreendente que aquele fruto delicioso e desconhecido tenha sido chamado de PORTOKÁLI pelos gregos, PORTOKALLI pelos albaneses ou PORTOCALE pelos romenos, por exemplo...
Assim, caro amigo, se um dia destes viajar por algum destes países, ou outros da mesma região e se vir atrapalhado porque lhe apetece uma suculenta laranja e não sabe como a pedir, arrisque e será porventura bem sucedido, aponte para o fruto e diga apenas mas orgulhosamente: PORTUGAL!


João Portugal
(Linguísta de Valmedo)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020



AS VELHINHAS FAKE NEWS... 


Agora que o que está na moda e que mais há por aí por este extraordinário mundo-cão são as fake news, de tal forma abundantes e rebuscadas que ficámos à nora sem saber se vivemos na realidade ou numa existência virtual, é de bom tom salientar que elas existem há muito e que não são uma invenção da rede digital, aliás veio-me mesmo agora à lembrança a mãe de todas elas, a mother-fucker fake news e que condicionou a minha vida durante algum tempo... 
Lembro-me bem que foi no largo diante da escola onde existia um secular eucalipto dos tempos dos nossos bisavós, corria o ano 76 ou 77 e andava eu adolescentemente a descer a rua, entretido a ler a revista amarelecida e gasta pelo tempo quando ouço ao meu lado o roncar inconfundível de uma V5, era o Aníbal Estica, vindo sabe-se lá de onde...
   - O que tás tu a ler, pá? - perguntou-me assim de sopetão em jeito provocador como era uso e costume enquanto rodava o manípulo do acelerador e mantinha a máquina aos soluços.
E eu, surpreso e com dificuldade em fazer-me ouvir pelo barulho da mota, só me ocorreu esticar o braço com a capa que mostrava uma rock star em pose enérgica e de guitarra em punho...
  - Olha, a SUZI 4! - exclamou ele, com ar surpreso. - Onde foste arranjar isso?
E eu, animado pelo interesse que tinha provocado num dos elementos mais velhos e respeitados da tribo da aldeia, lá fui contando que tinha sido a minha avó que ao fazer a limpeza na casa do tio Puseu para a recepção dos sobrinhos que estavam a chegar de França tinha encontrado a bela da revista perdida algures debaixo de um móvel, lá deixada certamente pelo primo Jorge que era todo para a frente não só em termos de música mas também de carros e mulheres parisienses... E eu, por acaso, perante aquele achado e constatando com emoção que lá estava a SUZI 4 na capa e também nas páginas interiores evitei à última da hora que aquela preciosidade fosse parar ao lixo! De resto, era só pelas fotografias porque aquilo era tudo em francês e eu da língua de Flaubert na altura apenas sabia dizer, como era comum e quase obrigatório para a idade, merci e nick nick avec moi...

SUZI 4, de cabedal e guitarra, aos 26!...

     - Sabes que ela já morreu? - devolveu-me ele assim do nada...
E como eu não tive resposta para lhe dar de tão gelado que fiquei ele tornou:
     - Morreu há uns anos por causa das drogas, é pena, até cantava bem... - e acelerando desandou dali a alta rotação deixando para trás um odor a borracha queimada.
 E eu, que ia em direcção ao adro da igreja ao encontro dos compinchas da lerpa ao rebuçado, pouco mais disse nesse dia devido ao choque. A Suzi 4 morreu? Custou-me acreditar, era a primeira vez que ouvia tal coisa mas não tinha razões para duvidar do Aníbal e depois naqueles tempos era normal não haver notícias ou então quando as havia elas chegavam com anos de atraso, daí ter ficado convicto durante muito tempo de que aquela heroína que fazia um coração adolescente acelerar já não existia, que desconsolo... E a partir daquela tarde, sempre que calhava ouvir no gira-discos o "Can the can" ou o "48 Crash", dava por mim a pensar na injustiça desta vida...
E então, um par de anos mais tarde e já na plena efervescência da descoberta das grandes bandas que me acompanham até hoje, e numa conversa de circunstância em que alguém lançou à baila a  Janis Joplin:  -"Aquela que morreu de overdose, tão a ver?"- eu tive a feliz ideia de responder - "Tal como a SUZI 4?" porque imediatamente não sei quantos pares de olhos se cravaram em mim de um modo acusador - "Estás a comparar a Janis com a Suzi 4?" - e eu que entretanto tinha descoberto a voz poderosa e única da Janis e que já não ligava muito à Suzi 4 ia responder quando alguém se antecipou e disse as palavras mágicas: "Além disso a SUZI 4 não morreu, ainda anda por aí..."
Escusado será dizer que fiquei contente por sair humilhado da conversa até porque ela mudou a minha vida, afinal a Suzi estava viva, afinal o Aníbal estava enganado, certamente num devaneio tinha-a confundido com a Joplin e a partir daquele momento deixei de ser tão crédulo em tudo o que se ouve! Ah, e a SUZI 4 ainda não se cansou de tocar por aí, em modo mais avozinha é certo e ao que parece vai lançar um novo álbum em Março próximo e ainda tem genica para espectáculos ao vivo, para comprovar basta ir, por exemplo, no próximo 8 de Maio ao Stadthalle de Zwickau na Alemanha... Para quem ressuscitou dos mortos é obra!

SUZI 4 aos 69!

João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)   

sábado, 25 de janeiro de 2020


BOA NOITE! VIMOS DE TORRES VEDRAS...


Convite amigo de última hora, expectativa de um espectáculo interessante e promessa de acabar a noite em assaltos carnavalescos lá rumei eu mais o Maurício, que até tem boa onda musical, até a um Cine-Teatro de Torres Vedras esgotado para um espectáculo único: a comemoração dos dez anos de existência de uma banda da terra, os ALBALUNA... E se até ontem deles nunca tinha ouvido falar e portanto completamente a leste do que iria ouvir, hoje sinto-me grato pela descoberta e mais convencido fiquei que às vezes é bom deixarmo-nos levar por marés desconhecidas e hoje sei que vou acompanhar a história de vida destes músicos sui generis...


Se alguém esperava que a ALBALUNA (lua branca) surgisse em palco em tons claros e luminosidade pardacenta desenganou-se com estrondo ao deparar-se com um quinteto masculino completamente trajado de preto e uma dupla feminina em tons vivos de carmim, enquanto as luzes  acompanham desenfreadamente o ritmo frenético da maior parte dos temas... E cedo se percebe que o mundo cabe naquele palco ao desfilarem nele incomuns e antigos instrumentos oriundos de zonas tão díspares como as ilhas britânicas dos celtas, Galiza, Grécia, Turquia, Índia, Afeganistão ou, claro Portugal: gaita-de foles transmontana e galega, flautas, violino, batuques e mais batuques, tambourbouzouki, rubab, oud, saz, lavta e por aí fora, e a explicação é bem simples ou não fosse Ruben Monteiro, o cérebro do projecto, formado em História e Arqueologia e com uma curiosidade inesgotável quanto às tradições musicais de ancestrais culturas que o levou a aprender a tocar aquela parafernália de instrumentos de cordas. Mas nenhum tem o impacto da sanfona medieval, imagem de marca dos ALBALUNA, uma espécie de violino alimentado por uma manivela mas cujas notas são criadas num teclado...

O homem e a sanfona...
     
Talvez mais conhecidos e reconhecidos no estrangeiro do que em Portugal ou na sua terra, fazem questão de não esconder as suas origens e a sua obra mesclada de folk, música medieval, rock progressivo e até ocasionalmente com laivos de heavy metal merece a descoberta e o desfrute começando, por exemplo, pelo "Nau dos Corvos", álbum de 2016.


E agora que ainda estou a ressacar do show, fecho os olhos e tenho a impressão que ontem onde eu estive de facto não foi no Cine-Teatro mas numa clareira de um bosque sagrado de carvalhos numa cerimónia de adoração aos deuses da natureza e do cosmos... E também por isso, amigos Albaluna, parabéns! E espero encontrar-vos mais vezes por aí...                                       
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       ALBALUNA LIVE



João Sem Dó
(Musicólogo de Valmedo)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020


TASCAS E ANTROS DE PRAZER - VI


A COSTELETA DO ANTUNES...


Entre Torres Vedras e a Lourinhã e dependendo do sentido, à entrada ou à saída de Campelos, existe um refúgio incontornável, um simpático e acolhedor antro de prazer competente em salvar perdidas almas em viagem depois das aventuras de talentosos desportistas: bacalhau cozido com batatas e grão à segunda, coelho com batata frita, arroz e ervilhas à terça, divinal cozido à portuguesa à quinta, bacalhau frito de cebolada e mão de vaca com grão à sexta, feijoada ao sábado e borrego ao domingo, que mais se pode pedir?  Bem, só se for os sempre disponíveis frango assado em carvão ou a famosíssima e generosa costeleta de novilho...


Atendimento rápido e simpático, uma salada de alface, tomate e cebola bem temperada que conforta o estômago, não há melhor entrada sei-o eu desde a primeira que fui ao ANTUNES, vindo de uma qualquer corrida ou excursão velocipédica a Montejunto, ali bem visível da varanda, e depois, ou potenciado pelo desgaste da aventura ou por sugestão hipnótica a priori, a costeleta é uma benção divina... Tinto da casa ou branco à pressão, que mais se pode querer, talvez melhor pensando um pudim caseiro de lamber as beiças! E tudo por um preço imbatível, tal qual a simpatia do Sr. Antunes e da Dona Augusta, coisa lógica ou não fosse este um antro de boa paixão lampiona, que é como dizer, gente boa e generosa!

O bacalhau frito de cebolada, para ciclistas...

E ainda, para quem não lhe apetecer o menu do dia, há sempre a tal costeleta...



João Ratão
(Chef de Valmedo)