quarta-feira, 8 de maio de 2024

 

ESCRITO NA PAREDE - XXXII


LEVAR A CIDADE CONNOSCO


As cidades nunca são as mesmas quando a elas regressamos passados anos e mesmo aquelas que aparentemente se mantêm iguais, sem grandes crescimentos ou construções, a cada visita são diferentes aos nossos olhos, nem que seja devido à saudade e aos afectos... Duas décadas depois regressei a Málaga e a primeira impressão foi avassaladora, muito mais prédios, muito mais trânsito, caótico na verdade, e muito mais pessoas, especialmente turistas trazidos aos magotes pelos monstruosos navios de cruzeiro... Para recuperar a "minha" Málaga de outrora sou então obrigado a demandar o seu coração histórico pois é aí que o tempo se mantém quase inalterado, fecho os olhos e ao abri-los na praça da catedral ou numa ruela estreita dos bairros antigos ou num qualquer jardim tanto se poderia estar a viver o dia de hoje ou outro de há vinte anos atrás, essa sim é a cidade que se leva connosco e que trazemos quando regressamos...
E é precisamente isso que nos diz um verso escrito literalmente numa parede escondida de Málaga e a que nenhum viajante pode ficar indiferente: 


"Não acharás outra terra nem outro mar. A cidade irá sempre contigo" - Foto- J.C.Forgeronne

E as cidades, tal como os livros e os poemas levam-nos a outros lugares, a outras cidades, a outros livros e a outros poemas, numa infinita viagem por este mundo-cão, e ali, olhando aquela singelo escrito na parede, viajei até outras cidades que carrego dentro de mim, algumas delas sem sequer lá ter estado, por exemplo a Alexandria de Lawrence Durrel:

A CIDADE

Dizes: vou partir
Para outras terras, para outros mares
Para uma cidade tão bela
Como esta nunca foi nem pode ser
Esta cidade onde a cada passo se aperta
O nó corredio: coração sepultado na tumba de um corpo,
Coração inútil, gasto, quanto tempo ainda
Será preciso ficar confinado entre as paredes
Das ruelas de um espírito banal?
Para onde quer que olhe
Só vejo sombras ruínas da minha vida.
Tantos anos vividos, desperdiçados
Tantos anos perdidos.
Não existe outra terra, meu amigo, nem outro mar,
Porque a cidade irá atrás de ti; as mesmas ruas
Cruzam sem fim as mesmas ruas; os mesmos
Subúrbios do espírito passam da juventude à velhice,
E tu perderás os teus dentes e os teus cabelos
Dentro da mesma casa. A cidade é uma armadilha.
Só este porto te espera,
E nenhum navio te levará onde não podes.
Ah! então não vês que te desgraçaste neste lugar miserável?

Cavafis

(Tradução de Daniel Gonçalves) em "Justine", de Lawrence Durrel


"Málaga" - Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha

(Viajante de Valmedo)

quinta-feira, 2 de maio de 2024

"El Perro y la ventana"

 Jean-Charles Forgeronne

(Fotógrafo de Valmedo)

 

ESCRITO NA PAREDE - XXXI

EL AMOR DE LOS POETAS ANDALUCES


Muito antes de por Verona ter acontecido a mais famosa história de amor deste mundo-cão também Córdoba teve o seu Romeu e a sua Julieta, ele Ibn Zaydum e ela a princesa Wallada, dois grandes poetas do século XI... Como convém, foi uma história de amor intenso e trágico, para além de proibido já que a princesa pertencia a um clã rival e segundo a lenda tudo se complicou quando Wallada descobriu uma traição do amado com uma escrava; a coisa não ficou nada fácil para Zaydum já que, pelos vistos, para além dos dotes literários a princesa tinha carácter rebelde, era uma mulher corajosa e ousada que terá chegado até a desafiar as regras sociais dos imãs, uma autêntica feminista à época e a sua vingança chegou de duas formas: primeiro encheu os seus poemas de censuras ao amado e depois, não satisfeita, iniciou uma relação amorosa com um inimigo do poeta... Zaydum bem tentou ser perdoado mas depois de muito sofrimento não teve outro remédio que sair de Córdoba e exilar-se em Sevilha, onde acabaria os seus dias, já a princesa consta que nunca chegou a casar...




Quem se perder pelas ruas de Córdoba pode encontrar, no lugar onde outrora estavam situados os banhos da antiga fortaleza mourisca e no sítio exacto onde eles declararam o seu amor um ao outro, o Monumento dos Amantes, onde duas mãos se procuram e quase se tocam e onde se pode ler em bom castelhano e em árabe os poemas que trocaram:

"Tenho ciúme dos meus olhos,                     "Teu amor me tornou famoso entre as gentes,
de mim toda, de ti,                                         por ti se preocupam meu coração e pensamento;
do teu tempo e lugar,                                     quando te ausentas nada me pode consolar
meu ciúme não cessará..."                            e quando chegas todo o mundo está presente."
Wallada                                                         Ibn Zaydum


João Palmilha

(Viajante de Valmedo)

 

AO SABOR DE UM SALMOREJO


De vez em quando olha-se o Guadalquivir que a custo arranja caminho por entre as ilhotas de vegetação e atravessa-se a ponte romana o mais lentamente possível de modo a abarcar os contornos centenários do casco histórico e no seu final duas opções se oferecem ao viajante: ou vira à direita e continua fluindo em ritmo desprendido ao longo do Paseo de la Ribera, embalado pelos aromas que já se desprendem das esplanadas e pelo voo das aves ao longo das margens do rio, ou então segue em frente e mergulha a fundo em séculos de história de uma cidade que outrora foi visigoda, mourisca, judia ou cristã e que agora é tudo isso ao mesmo tempo... 


"Córdoba vista da ponte" - Jean-Charles Forgeronne

Não faltam visitas obrigatórias em Córdoba, à cabeça de todas a deslumbrante mesquita-catedral, seguida da sinagoga para que não surjam invejas religiosas e depois, claro, pelo templo romano... Então para quem for apreciador de templos religiosos está no sítio certo, para além da catedral pode percorrer o circuito das 12 Igrejas Fernandinas da cidade, por entre  relíquias e devoção...


"Pátio cordobés" - Jean-Charles Forgeronne


Mas o encanto de Córdoba não se restringe aos monumentos ou aos palácios, as suas ruas, as suas pequenas praças escondidas e os seus afamados pátios chegavam só por si para encher a alma, tudo semeado de buganvílias e flores como a Calleja de las Flores ou a estreita Calleja del Pañuelo ou então de histórias e lendas como aquelas arrepiantes da Calle de las Cabezas... Não se admire também, amigo viajante, se der de caras com desesperados apelos à tranquilidade e ao descanso que essa coisa de se viver num sítio pejado noite e dia de turistas não deve ser pêra doce...


"Derecho al descanso" - Jean-Charles Forgeronne

Por entre tantas voltas a dar é certo o estômago dar horas, tal como o relógio da Plaza de las Tendillas que o faz ao som de uma guitarra, e então nada melhor do que abancar numa esplanada da Plaza de la Corredera, a única praça central rectangular de toda a Andalúzia, e saciar os sentidos com um imperdível salmorejo cordobés, tão macio e saboroso que não há palavras para o descrever...


"Salmorejo cordobés"- Jean-Charles Forgeronne

João Palmilha

(Viajante de Valmedo)

terça-feira, 30 de abril de 2024

 

QUANDO A BELEZA UNE...


Que seja a maior mesquita do Ocidente, assim o pediu Abdr-ar-Rahman I, o fundador do emirato independente de Córdoba, e assim se lhe fez a vontade... Embora pouco atraente vista de fora, austera até, o que não estranha para quem sabe que segundo a tradição islâmica o luxo e a ostentação devem remeter-se ao privado e não a exposições públicas, exactamente ao contrário dos costumes europeus e especialmente da Igreja Católica, mas quando nela se entra a respiração pára, o batimento cardíaco acelera e o espírito orgasma tanta é a beleza que esmaga os sentidos...
Somos engolidos por uma floresta de 856 (!) colunas que sustentam arcos em ferradura que por sua vez sustentam outra série de arcos, muitas delas originárias do templo visigodo que existia no local e outras ainda recuperadas aos tempos romanos da cidade, formando-se um autêntico labirinto de deleite visual...





E tal como os muçulmanos respeitaram o que já existia também os cristãos, aquando da conquista da cidade em 1236 por Fernando III de Leão e Castela, surpreendentemente o fizeram apesar da sua tradicional prática de arrasar tudo o que não é conforme a sua fé; certamente que  até tinham essa intenção de arrasar a mesquita para aí construir uma faustosa igreja mas ao entrar no templo devem ter ficado esmagados pela beleza daquele lugar e perderam a coragem de destruir algo tão especial, um verdadeiro milagre...




Construiu-se uma catedral sim, graças aos deuses, mas em harmonia, respeito e união, num diálogo religioso, arquitectónico e cultural único a nível mundial... A catedral-mesquita de Córdoba, hoje oficialmente baptizada como Catedral de Nuestra Señora de la Assuncíon é Monumento Nacional desde 1882, Património Mundial desde 1984 e em 2014 a Unesco declarou-a Bem de Valor Universal Excepcional...



                                                                                                                              (Fotos: Jean-Charles Forgeronne)

João Palmilha

(Viajante de Valmedo)

domingo, 28 de abril de 2024

 

A FANTÁSTICA ODISSEIA DO MELRO


Alboacém Ali ibn Nafi era de origem persa e nasceu por Bagdade em 789 e em boa hora se tornou aluno de Almanci, um famoso professor de música da corte que mais tarde o aconselharia e ajudaria a fugir antes que algo de terrível lhe acontecesse devido às invejas sobre a sua voz absolutamente única e excepcional, especialmente depois de ter ganho um concurso musical na corte e de ter despoletado ainda mais invejas e o desejo de vingança por parte do segundo classificado e então não lhe restou outra solução senão desalvorar dali para fora para salvar a pele e a família...
Ajudado financeiramente pelo seu professor fugiu primeiro para o Egipto onde aproveitou o tempo aí passado para estudar a música popular local mas, não satisfeito, envia uma carta à corte de Córdoba oferecendo os seus serviços e acaba por ser admitido. O seu impacto em Córdoba é de tal ordem que aí, devido à sua voz celestial e à sua tez escura lhe chamam ZIRYIAB, o MELRO... 




Virtuoso do alaúde, Ziryab revolucionou o instrumento ao adicionar-lhe uma corda extra e assim alcançando outros cambiantes melódicos que ensinava no conservatório que fundou e onde, para além da aprendizagem de vários instrumentos, dava aulas de canto... Mas não era só na música que o melro brilhava, tornou-se também uma estrela em várias outras áreas, seja na etiqueta social ao introduzir o uso de copos de cristal em vez dos pesados e antiquados copos de ouro e prata, na gastronomia ao introduzir a sopa como o primeiro prato de uma refeição, seguido de um prato de peixe ou carne e terminando com uma sobremesa, no vestuário ao aconselhar roupa branca para o verão e ainda no que respeita à beleza feminina abriu um salão de beleza onde se fazia depilação e instituiu novos penteados, nomeadamente as franjas... Ziryab foi uma autêntica estrela, um génio que determinava a moda, era a Córdoba e não a Paris ou Londres que as damas de Navarra ou Barcelona encomendavam os seus vestidos...  
Só é pena não ter deixado a receita para a longevidade, ele que viveu 98 anos...


João Alembradura

(Historiador de Valmedo)

 

CÓRDOBA, A ILUMINADA


Em 711 um exército de sarracenos e berberes do Norte de África vieram por aí acima e trouxeram a sua cultura e a sua arte para a Península Ibérica, especialmente para o al-Andaluz, território que assim designaram em homenagem aos seus antigos senhores, os Vândalos... Hoje Andaluzia, o al-Andaluz, foi então um centro de sabedoria e um mundo à parte senão repare-se que, no século X, enquanto em Londres não havia um único candeeiro de iluminação pública as ruas de Córdoba eram iluminadas e pavimentadas! No inverno as casas eram aquecidas por condutas de ar quente construídas sob os mosaicos que revestiam o chão enquanto que no verão, para arrefecimento, empregava-se o mármore nas varandas e contruíam-se jardins repletos de tanques e cascatas artificiais, tudo rodeado pelo perfume e pelas sombras proporcionadas por pomares de pessegueiros, laranjeiras e romãzeiras...



"Pátio de los Naranjos" - Jean-Charles Forgeronne

Há mais de mil atrás Córdoba era uma das mais povoadas cidades do mundo, viviam dentro das suas muralhas 800000 pessoas, existiam 130000 casas, 80 escolas com ensino gratuito, 900 banhos, 100 hospitais e outras tantas bibliotecas, para além de 300 mesquitas! Ao mesmo tempo, "a estrela que ilumina o mundo ocidental", como alguém lhe chamou, era um dos principais centros de erudição que recebia então estudantes e curiosos de França e Inglaterra que vinham aprender medicina, ciência e filosofia com sábios muçulmanos, judeus e cristãos, de entre os quais se salientavam, por exemplo, Averrois, filósofo e médico, e Maimônides, filósofo... 


"Maimônides à porta de casa" - Jean-Charles Forgeronne


João Palmilha

(Viajante de Valmedo)