segunda-feira, 10 de agosto de 2020

 

CURIOSIDADES DO MUNDO CÃO - XXVI


A BONDADE, A BELEZA E O RESTO...


E ali estava eu, no cimo do Monte Crasto, com o cocoruto da Serra do Buçaco a espreitar por entre as ramadas das árvores e sob um já quente sol de Agosto, a ler aquelas brancas palavras bem arrumadinhas nas tabuinhas escuras já gastas pelo tempo e aquilo pareceu-me algo familiar, invadiu-me a sensação que já tinha lido aquilo noutra altura, talvez noutra vida, em qualquer lugar perdido por aí, mas como outras paragens me demandavam lá segui caminho depois do retrato feito embora dando voltas à cabeça tentando avivar a memória... 

"Ao Viandante" - Monte Crasto - Jean-Charles Forgeronne

E claro que mais tarde, lá para o final do dia, veio-me finalmente à lembrança que já tinha lido aquele mesmo poema em pleno Castelo de São Jorge, era de um tal Veiga Simões, conhecido como o poeta arganilense, mas além disso ilustre diplomata, político, investigador, jornalista e escritor e que em Maio de 1914 escreveu um poema chamado "Ao Viandante", ao que parece para uma festa escolar e que se tornaria décadas mais tarde um símbolo das comemorações do Dia da Árvore e depois do Dia Mundial da Floresta ao ser reproduzido e instalado por inúmeros jardins públicos, matas nacionais e locais com árvores notáveis...  Não sei há quantos anos estará o poema ali na Anadia mas certo é que em 1959 já tinha sido adaptado como legenda obrigatória em todos os parques públicos do Uruguai, estendendo-se depois por todas as Américas... E percebe-se porquê, bastam dois minutos de atenciosa e tranquila leitura... 


Cartaz 1970

Ao Viandante

Tu que passas e ergues para mim o teu braço,                                                antes que me faças mal, olha-me bem.                                                              Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de Inverno;                                          Eu sou a sombra amiga que tu encontras                                                            quando caminhas sob o sol de Agosto;                                                                E os meus frutos são a frescura apetitosa                                                            que te sacia a sede nos caminhos.                                                                        Eu sou a trave amiga da tua casa,                                                                        a tábua da tua mesa, a cama em que tu nasceste e descansas                              e o lenho do teu barco...                                                                                      Eu sou o cabo da tua enxada, a porta da tua morada,                                          o madeiro do teu berço e o aconchego do teu próprio caixão.                            Eu sou o pão da Bondade e a flor da Beleza...                                                    Tu que passas, olha-me bem... não me faças mal!

Veiga Simões, Arganil, 1914    


João Palmilha
(Viajante de Valmedo)   

domingo, 9 de agosto de 2020

"Janelas do Tempo" - Jean-Charles Forgeronne
 

 

 

O PAÍS DAS GLORIOSAS MOTORIZADAS...


Não me ocorreu melhor para fazer da hora matinal que tinha que passar na Anadia enquanto esperava que a Maria Nana se despachasse da consulta de fisioterapia do que explorar a cidade de carro, numa voltinha lenta e tranquila que mais parecia uma ronda policial atenta a todos os pormenores, aos edifícios, à orgânica da terra e das pessoas... E ainda bem que não matei o tempo nem a curiosidade dentro do carro ou naquela pastelaria famosa que serve umas arrufadas divinais, é que depois de constatar que a Anadia está muito bem servida de equipamentos sociais, desportivos e culturais, de fazer inveja a muita urbe de maior dimensão, e depois de ter desenferrujado as pernas num pequeno passeio pela mata do Monte Crasto, o ponto mais alto da cidade e de onde se avista ao longe o cume e o ondulado da Serra do Buçaco,  ao descer pela encosta poente que morre nos Arcos dou de caras com umas sedutoras ruínas, e se há coisa a que eu não resisto são umas ruínas interessantes, gosto de ler a história que elas nos contam... Mas ali, parado no semáforo mesmo ao lado e protegendo os olhos do sol que já apertava, foi inevitável a sensação de que estava à beira de algo com muito significado histórico, não só pela dimensão dos edifícios mas especialmente por um emblema que me chamou a atenção, estampado de velho numa das paredes mas ainda bem vivo, e eu que ia tentando dar significado àquilo que tinha diante dos olhos tinha puxado inconscientemente pela memória, interrogava-me e não queria acreditar, seria mesmo aquela a famosa fábrica das motorizadas de antigamente?

"A casa da V5" - Jean-Charles Forgeronne

E assim, de repente e por acaso aquela manhã solarenga na Anadia viria a revelar-se inesquecível porque ali estava eu, agora certo de que aquelas eram as instalações fabris onde tinham sido produzidas as famosas V5, defronte da demonstração cabal e inequívoca da relatividade einsteiniana do tempo e do espaço, é que tinham bastado umas centenas de metros corridos desde a cidade para que eu me sentisse agora a viajar a uma velocidade louca pelo tempo, de repente era eu um rapazinho adolescente, num país completamente diferente, estranho até, em que especialmente nas comunidades rurais eram raras as pessoas que possuíam automóvel, na minha terra então só existiam três carros: o de praça, no qual as pessoas iam à vila em dia de mercado ou para tratar de qualquer assunto e que também me serviu um dia de ambulância, o do dono da mercearia e café, e claro, o do mais abastado lavrador da zona, de resto andava tudo de motorizada, jovem, velho, casais, famílias inteiras, elas eram as Casal, as Vilar, as Famel, as Zundapp e claro as V5 da Sachs, contribuindo para uma importante indústria de produção nacional que obteve sucesso entre as décadas 50 e 90 do passado século e que ia escondendo o estado miserável da nação...


"Outrora esplendor" - Jean-Charles Forgeronne

Nunca tive motorizada, ao contrário da maior parte dos meus amigos de infância e adolescência, apenas uma bicicleta jeitosa que também me levava a qualquer lado, ainda hoje não ando de moto nem sequer penso algum dia converter-me em motard, não estou para aí virado mas tenho gosto e simpatia pelos veículos motorizados de duas rodas ou não tivesse eu andado à pendura das V5 do Belmiro, ele e eu éramos os craques lá da terra e íamos jogar a todo o lado por qualquer emblema que nos oferecesse a oportunidade e um pequeno petisco no fim, fosse em torneios oficiais ou não ou apenas em disputas amigáveis, até chegamos a envergar as camisolas sem números dos solteiros de terras alheias em disputas fratricidas contra os casados que eram em maior número... E claro, sempre a cavalo da vermelha V5, chuteiras ao pescoço e gadelha ao vento que naquele tempo capacete só atrapalhava, e que agradáveis eram as voltas que dávamos, tranquilamente porque o meu amigo Belmiro era um rapaz tranquilo e andava regra geral devagar e em segurança apesar daquela máquina, se ele quisesse, poder atingir os 120 Km/hora! Mas um dia memorável em que por uma esquecida razão a minha viagem de regresso não foi à boleia do Belmiro mas do Vítor dos Resgais, ele que também tinha uma V5 e fama de acelera, tínhamos ido jogar ao Alqueidão da Serra, borrei-me todo a descer a Serra de Aire e por várias vezes senti que aquela seria a minha última viagem tal a velocidade e as travagens mesmo em cima das curvas a que fui sujeito... Ainda hoje penso que aquele foi um dos dias mais importantes da minha vida, é que quando me apeei cambaleante da mota experimentei a mais intensa e verdadeira sensação de alívio como poucas vezes senti até hoje... Mesmo assim, voltaria agora a andar de V5, hoje um artigo de colecção que pode valer uma fortuna...



João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

sábado, 8 de agosto de 2020

 

ESCRITO NA PAREDE - IX


BUÇACO AO FUNDO...

Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

segunda-feira, 3 de agosto de 2020


"A amizade duplica as alegrias e divide as tristezas"


Fiquei fascinado ao dar de caras com estas curiosas palavras de Francis Bacon, filósofo, cientista, ensaísta e político, sábio considerado o fundador da ciência moderna, é que elas juntam os dois mundos do seu autor, a ciência através das operações matemáticas e a filosofia através dos sentimentos... E então inevitavelmente lembrei-me do meu grande amigo João Algoritmo, matemático, cabalista e investigador de Valmedo, conhecido pela sua revolucionária teoria de que tudo nesta vida pode ser representado através de números e fórmulas matemáticas, e então ousei desafiá-lo a expressar matematicamente a afirmação de Bacon e eis a sua resposta que recebi passado um par de dias e que transcrevo com a devida vénia, legenda incluída: 



  - sendo f' o símbolo de derivado de... (ou em função de...)

  - sendo t o símbolo do somatório das tristezas...

  - sendo ! o símbolo da alegria, já que o ponto de exclamação deriva da palavra latina que significa  alegria, Io...

   - sendo   o símbolo da amizade na medida em que, para além de um 8 deitado, significa o infinito e estabelece a eternidade do afecto entre amigos...


Assim, pode ler-se a equação matemática acima como:


"Ainda que feito num oito, se partilhares as tuas tristezas isso equivale a dobrares as tuas alegrias e ainda aumentas a amizade"


João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)

domingo, 2 de agosto de 2020


À ESPERA DOS AMIGOS DE PENICHE... 


Em Julho de 1380, passam agora 640 anos, uma frota de 48 navios entrava no Tejo com 3000 soldados ingleses a bordo, cavaleiros e archeiros veteranos da Guerra dos Cem Anos que vinham com o intuito de ajudar o rei D. Fernando na guerra contra Castela... O rei, ao que parece formoso mas um desastre como estratega político e chefe militar, cedo se arrependeu pois assim que chegaram a terra aqueles seus supostos aliados logo se comportaram como os mais sanguinários inimigos, por onde passavam deixavam um rasto de morte e destruição: matavam a eito, roubavam, comiam a bem ou a mal o que lhes apetecesse, destruíam, para além de violar as mulheres que encontravam pelo caminho...  
Tentou D. Fernando emendar a mão ao enviar o contingente inglês para o Alentejo com a missão de defender a fronteira mas aí a sorte não foi melhor, imediatamente os ingleses voltaram ao mesmo, atacando e pilhando Borba, Monsaraz e Redondo e torturando o povo para que este lhe dissesse onde se escondiam os mantimentos! O desmando inglês foi de tal ordem e a insatisfação do país era tal que D. Fernando, aquele de quem Camões disse "Um fraco rei faz fraca a forte gente", preferiu fazer a paz com Castela, afinal guerra ou paz com os espanhóis era tudo igual para ele pois levou o país à miséria ao sujeitá-lo a três desastrosas guerras apenas por interesse pessoal e ainda por cima o corno, ao morrer com 38 anos de idade e ao não deixar varões que lhe sucedessem ao trono, a última obra que deixou foram mais dois anos de crise e mais guerra... 


"D. Fernando pedindo auxílio a Eduardo III" - Jean Wavrin

A memória é tão curta e a história dá tantas e estranhas voltas que passados apenas 6 anos sobre estes tristes acontecimentos, em 1386, um Portugal decerto vítima de Alzheimer iria renovar a Aliança Anglo-Portuguesa de 1373 através do Tratado de Windsor, curiosamente o tratado de amizade e cooperação diplomática mais antigo do mundo e que parece continuar em vigor hoje em dia, tendo sido selado com o casamento de D. João I, então recém eleito rei de Portugal, e D. Filipa de Lencastre... Para que serve esse tratado poder-se-á perguntar se atentarmos nas provas das "boas" relações de amizade entre os dois países, como aconteceu dois séculos depois da sua assinatura, em 1589, quando na praia da Consolação, à beirinha de PENICHE, desembarcaram 6500 soldados ingleses e que faziam parte de um exército de vinte mil homens que vinham sob o comando do famoso Francis Drake apoiar D. António do Crato na conquista do trono... E enquanto Drake, ao largo de Cascais, com os seus impacientes navios aguardava que as forças terrestres vindas de Peniche cercassem Lisboa para avançar, essas tropas inglesas iam avançando lentamente porque, como dois séculos antes, iam saqueando, destruindo e violando as terras de Atouguia da Baleia, Lourinhã, Torres Vedras e Loures... 


"Consolação" - Jean-Charles Forgeronne

Enquanto isso, dentro da cerca de Lisboa, os apoiantes do prior do Crato interrogavam-se: "Mas afinal que se passa com os nossos amigos de Peniche? Quando chegam eles?"  
Pois bem, esses amigos nunca chegaram, mais atacados pela peste do que por batalha daqui abalaram de rabo entre as pernas sem prestar para nada! São até hoje e para sempre serão afinal os amigos de Peniche, falsos amigos como Judas! E hoje em dia, ainda Portugal, novamente padecendo de Alzheimer, suspira pelos turistas mal comportados daquelas ilhas miseráveis, é que se diz que de Espanha "nem bom vento nem bom casamento" então da velha Albion só se pode concluir que dali virá "nenhuma amizade e muita tempestade!"... Raios os partam, diria Camões...
E já agora, digo eu, que nunca mais fiquemos à espera da ajuda destes merdosos amigos de Peniche!


João Alembradura
(Historiador de Valmedo)