segunda-feira, 20 de abril de 2020


EFEMÉRIDE # 71


A GUERRA, O DESPORTO E A PAZ...


Passam hoje exactamente 100 anos sobre o início dos VII JOGOS OLÍMPICOS da era moderna, realizados em 1920 na cidade de ANTUÉRPIA, naquela que foi a vários níveis uma das edições mais importantes da história do Olimpismo... Mas primeiro convém alertar para dois pormenores aquele leitor atento que olhou com reparo para o cartaz oficial do evento e que pode ficar muito confundido e até ganhar ganas de colocar em causa a idoneidade deste escriba e a seriedade das coisas que para aqui vai botando, o nome da cidade e a data: primeiro, ANVERS é o nome gaulês para Antuérpia, coisa surreal num país artificial que nem deveria existir porque a Flandres tem tudo a ver com os Países Baixos e nada a ver com a Valónia francesa linguísticamente dominante até há poucos anos e, segundo e não menos importante, apesar da cerimónia de abertura ter ocorrido apenas a 14 de Agosto, as competições iniciaram-se de facto a 20 de Abril e a conta-gotas desenrolaram-se durante 5 meses devido às singularidades da época...


Embora a Europa ainda fumegasse por entre as ruínas da I Guerra Mundial, o barão PIERRE DE COUBERTIN, então presidente do Comité Olímpico, entendeu que apesar das circunstâncias era crucial que os Jogos se realizassem sob pena de se perder de vez o espírito olímpico uma vez que a edição anterior agendada para Berlim já não se tinha realizado em 1916 devido ao conflito... E nunca uma decisão do Comité teve um carácter tão político como essa de atribuir a ANTUÉRPIA a organização da sétima olimpíada, é que ela tinha sido inicialmente atribuída a Budapeste mas o papel da Hungria na guerra levou à mudança para a Bélgica, atitude que também homenageava um país neutro mas bastante massacrado pelo eixo do mal... E para além da Hungria, pelas mesmas razões, também a Alemanha, a Áustria, a Bulgária e a Turquia não foram convidados para o evento! A Rússia também não participou mas por outra razão, é que ainda estava cambaleante e a tentar organizar-se após a sua famosa revolução proletária... Tempos agitados aqueles! 

"Cerimónia de Abertura" - Antuérpia, 1920

É então para uma Bélgica parcialmente destruída e mergulhada numa grave crise económica e social que vão convergir 2626 atletas em representação de 29 países, dos quais 165 eram mulheres e 14 eram portugueses, naquela que era a segunda participação lusitana... Foram também os JOGOS DO IMPROVISO,  do nada e embora com outras preocupações sociais para resolver os belgas lá construíram em 7 meses um estádio olímpico com capacidade para 35000 espectadores, embora precário e com deficiências estruturais, as bancadas eram de madeira e a pista, de tão irregular, sempre que chovia naquele agreste clima  flamengo ficava inutilizável e obrigava à interrupção das competições... Não admira, portanto, que a coisa precisasse de 5 longos meses para se desenrolar, mas outro mérito ganha a organização se atentarmos que naquele tempo o transporte era difícil e lento e também não havia estruturas de alojamento e, só como exemplo, a comitiva que inaugurou a participação olímpica brasileira demorou mais de um mês a chegar a ANTUÉRPIA e esteve mesmo em risco de não chegar a tempo, a viagem de barco demorou tanto que ao passar pela Madeira os brasileiros tiveram que arrepiar caminho e mudar de planos, foram até Lisboa e daí seguiram também lentamente de comboio até à Bélgica, sobressalto que valeria a pena pois seriam recompensados com uma medalha de ouro na disciplina de tiro.... Também não havia aldeia olímpica ou hotéis suficientes, muitos atletas tiveram que ser hospedados por famílias bem intencionadas nas suas próprias casas! 

"Primeira Bandeira Olímpica" - Museu Olímpico - Lausanne - Suiça 

Quanto a marcas os Jogos de Antuérpia foram evidentemente muito fraquinhos, não só os atletas presentes não se apresentaram na desejável forma por natural falta de condições de treino como muitos dos melhores tinham morrido em combate, mas apesar disso haveria de sobressair Paavo Nurmi, o "finlandês voador", aquele que se tornaria num dos maiores fundistas de sempre... Mas noutros aspectos as VII OLIMPÍADAS foram brilhantes e únicas, pela primeira vez foi hasteada a bandeira olímpica idealizada em Paris por Coubertin em 1914 e apresentada em Alexandria e que com os seus anéis entrelaçados sob fundo branco queria significar a cooperação e fraternidade entre os cinco continentes; também foi em Antuérpia que pela primeira vez foi feita a libertação de pombos simbolizando a paz universal e ainda também pela primeira vez o esgrimista, jogador de pólo aquático e belga Victor Boin leu o juramento olímpico dos atletas...
Por tudo isso e por tudo o mais valeu a pena...


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quinta-feira, 9 de abril de 2020

"NELLO & PATRASCHE" - Batist Vermeulen, Antuérpia

Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)
"ODE TO THE PIG" - Jantien Mook, Antuérpia


Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)


LADRÕES, CÃES, PORCOS E DIAMANTES...


Existem por aí muitos gatunos, montes de larápios, carradas de ladrõezecos e patifes então são às pargas, mas LADRÕES a sério contam-se pelos dedos de uma mão e parecem estar em vias de extinção! Reconheço, tenho um enorme fraquinho, uma admiração mesmo por um verdadeiro ladrão, não um qualquer vulgar criminoso que usa da violência tantas vezes gratuita ou da fragilidade alheia para roubar porque a sua estupidez é tanta que não lhe permite sobreviver sem ser à custa do património alheio mas sim aquela personagem encantadora, alguém deveras muito inteligente, culto, eticamente responsável, muitas vezes de gosto refinado e de alto sentido estético, respeitador e até com alto sentido de justiça porque escolhe as suas vitimas, ou seja, não rouba por roubar, às vezes nem precisa de roubar mas arrisca roubar apenas aqueles que merecem ser roubados, como os bancos que representam os agiotas deste mundo-cão, outras instituições poderosas e mafiosas que representam o sistema, os ricalhaços que já nasceram ricos e que nunca fizeram por merecer essa sorte ou ainda os museus que são o repositório de obras de arte únicas e inacessíveis ao comum dos mortais, um fruto proibido mais do que apetecível, tudo muitas vezes apenas pelo desafio de ludibriar as mais tecnológicas barreiras de segurança e alcançar a glória do assalto impensável... Claro que o saque é fundamental para a sobrevivência de um bom ladrão mas muitas vezes isso não é o mais importante, o que conta e muito é o feito, a proeza de ter executado um roubo magistral e numa carreira de sucesso um bom ladrão apenas precisa de fazer dois ou três assaltos na vida inteira, lembrem-se da arte do Thomas Crown! Alguém assegura de mão beijada que, por mais estratégia de segurança que exista, seja impossível assaltar seja o que for? Eu não arriscaria, porque uma outra característica essencial de um bom ladrão é a imaginação, e imaginado tudo pode acontecer... Haverá por acaso algum realizador que resista à tentação de filmar uma historia de aventuras e desventuras de um bom ladrão? E que melhor sitio para encontrar tanto ladrõezecos de baixa estirpe como ladrões de alto calibre do que ANTUÉRPIA, a capital mundial do diamante? Aqui vão dois exemplos, começando pelos broncos:

No ano 2000 Guy Ritchie escreveu e realizou "SNATCH - PORCOS e DIAMANTES", uma frenética e hilariante comédia em que três grupos de vilões tentam recuperar um diamante de 84 quilates e valor incalculável que tinha sido roubado a um judeu de Antuérpia, e à medida que a história se desenrola num ambiente de violência e cenas caricatas vamos ficando convencidos de que a personagem mais inteligente de todas é mesmo um CÃO que chia, interpretado por DOG... Para além da grande interpretação do então ainda jovem Brad Pitt que consegue não dizer uma única palavra de inglês que se perceba, o filme vale por uma das primeiras aparições do agora consagrado Jason Statham, pelo carisma emprestado pelo profícuo Benicio Del Toro e pela banda sonora onde se podem ouvir os Stranglers, os Oasis, a Madonna, claro que ela não poderia faltar, e especialmente os Massive Attack com "Angel"... E ao contrário de muitos outros filmes que servem de entretenimento momentâneo e depois passam rapidamente à história e em que até nos esquecemos muitas vezes do principio ou do fim do enredo, SNATCH escapa a esse destino porque ninguém depois de ver o filme vai olhar para um porco da mesma maneira, é que fica-se a saber a melhor forma que há de nos desfazermos de um cadáver e pela boca de um expert na matéria, Côco de Tijolo, terrível e sanguinário bandido que dava um curioso destino às suas vítimas: com elas alimentava os seus PORCOS! E ele explica, qual manual de boas práticas assassinas, como se deve proceder:

"Primeiro dividir o corpo em 6 pedaços, rapar a cabeça das vítimas e tirar-lhes os dentes por duas razões: facilita a digestão dos suínos e evita que apareça depois qualquer vestígio comprometedor na porcaria da pocilga; muito importante é que antes de serem alimentados, os porcos devem passar fome nos dias anteriores para aguçar o apetite e pronto, é vê-los a comer ossos que nem manteiga... Para o processo ser rápido e eficiente convém ter 16 porcos, eles tratam de um corpo de 90Kg em  8 minutos pois cada um deles come 1 Kg de carne por minuto! Segundo Côco de Tijolo, é daí que vem a expressão ganancioso que nem um porco!"


O ar de quem tem 84 quilates na mão...

Quem provavelmente viu o filme para aprender os truques ou não cometer erros crassos foram os elementos da quadrilha italiana que em 2003 executou aquele que é até hoje considerado "O Assalto do Século", o maior roubo de joías alguma vez conseguido e avaliado em mais de 100 milhões de euros em diamantes, ouro e  joalharia que desapareceram dos cofres do Centro de Diamantes de Antuérpia... Os larápios acabaram por ser descobertos tempos depois mas grande parte do saque continua desaparecido!


O segundo exemplo e que trata das aventuras de um bom e sofisticado ladrão chama-se "O ÚLTIMO DIAMANTE", é um filme franco-belga de 2014 e da autoria de Éric Barbier, interpetado por Yvan Attal e pela belíssima Bérénice Bejo... Conta a história de um ladrão de cofres em liberdade condicional que planeia um assalto muito especial, a obra de uma vida, nada menos do que roubar o lendário diamante FLORENTIN aquando da sua exposição em Antuérpia, só que para isso precisa de dar a volta a uma especialista em diamantes e responsável pela guarda da jóia, o resto é ver e desfrutar...  E ficamos a saber que o FLORENTIN existe mesmo e que é um dos mais célebres diamantes da história, é proveniente da índia, é amarelo-claro e tem 137 quilates! Ficam aqui os dados que podem ser úteis a quem se cruzar com ele, é que a pedra está há muito desaparecida, ninguém sabe do seu paradeiro...




A bela Júlia atravessando a mais bela estação de comboios...

João Película
(Cinéfilo de Valmedo)

quarta-feira, 8 de abril de 2020


A MISTERIOSA ORIGEM DAS PALAVRAS - XIV


QUEM FOI O PRIMEIRO LARÁPIO?


É de facto misteriosa a origem da palavra LARÁPIO porque a coisa não é consensual, senão vejamos, a coisa ficou séria quando o mui prestigiado filólogo brasileiro Antenor Nascentes, no seu "Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa", roubou a explicação apresentada muitos anos antes por Arthur Resende numa obra intitulada "Phrases e Curiosidades Latinas" e que reza assim:

Havia em Roma um pretor, ou seja, um magistrado, um funcionário público com autoridade, hoje chamar-se-ia doutor, e que se chamava Lucius Antonius Rufus Appius e que assinava como L.A.R. Appius, mas acontece que a criatura não era lá muito honesta pois decidia  sempre sentenças favoráveis a quem lhe pagasse mais, se vivesse nos dias de hoje não passaria de mais um entre os muitos corruptos que por aí vegetam, mas enfim, tornou-se célebre porque o povo passou a chamar de larappius  a todo aquele que agia com desonestidade!  Assim, a crer nesta bela história, o primeiro larápio terá sido mesmo Larappius!


Mas acontece que muita gente especialista torce o nariz a esta tese por não existir qualquer referência histórica sobre a existência desse tal pretor, mas por outro lado também não conseguem arranjar outra e melhor explicação porque simplesmente não a há! Terá sido uma invenção popular ardilosa que pegou, como muitas outras? Não se sabe, o certo é que à falta de melhor esta é uma bela origem para a palavra e disso também desconfiou o criticado Nascentes ao dizer que "se não é verdade, parece..."!

João Portugal
(Linguísta de Valmedo) 

domingo, 5 de abril de 2020



O INVENTOR, O LAPIDADOR E O CURIOSO...



"Van Berken" - Antuérpia
Dois mil anos depois de os hindus terem começado a usar o DIAMANTE em bruto como talismã após terem ficado fascinados com o seu brilho e durabilidade e crendo que a pedra era mística e que tinha o poder de os proteger do mal, em 1447 era lido pelas ruas de uma ANTUÉRPIA ainda sem o esplendor que viria a alcançar posteriormente um decreto que avisava o povo para os diamantes falsos que por ali proliferavam, testemunho de que a cidade era já um pólo importante no comercio de diamantes, que de resto era comum a toda a Flandres e Países Baixos, desde Brugges a Amesterdão e desde então até aos tempos modernos como podemos constatar nas crónicas de viagens de Ramalho Ortigão do início do século passado:

"A indústria mais rica - e bem assim a mais característica da Holanda - é a da lapidação de diamantes nas oficinas de Amesterdão. O comércio dos diamantes atinge nesta cidade a soma anual de dezoito mil contos de réis e fornece trabalho a dez mil pessoas. (...) A indústria dos diamantes é quase exclusivamente exercida em Amesterdão por judeus de origem portuguesa."      

(in Holanda, 1894)


Prato de Polimento
Mas a conjugação de uma série extraordinária de acontecimentos, uns de origem natural e outros talvez não, faria de Antuérpia, desde o século XV até aos dias de hoje o centro do mundo dos diamantes, a começar pela infelicidade que se abateu em 1503 sobre a próspera Brugges, ela que era até então o principal porto de entrada de mercadorias na Flandres: a cidade, situada apenas a 20 quilómetros do Mar do Norte, deste ficou isolada devido ao assoreamento do canal Zwin! Com essa contrariedade ganhou e muito Antuérpia, não só para aí se mudou de Brugges a Feitoria Portuguesa da Flandres como também o seu porto começou a receber as especiarias portuguesas que vinham da Índia, os tecidos ingleses e os metais alemães, atraindo também os banqueiros que foram tornando a cidade rica, feliz e imparável na sua confiança, até hoje... E pormenor importante, com os navios portugueses também chegavam da Ásia carregamentos de diamantes, aumentando a oferta de matéria-prima para uma indústria que sofreria um impressionante e decisivo impulso em 1456 com a invenção de LUDEWICK VAN BERKEN, o scaif,  uma engenhosa roda (ou prato) de polimento que embebida numa mistura de pó-de-diamante e azeite tornou possível alargar muito o número de facetas do diamante e através de um corte mais rápido e muito mais preciso!

Andarilho analisando a gema...

VAN BERKEN
, curiosamente nascido na rival Brugges, com a sua invenção que tornava os diamantes muito mais complexos, belos e autênticas peças de joalharia, mudou para sempre a indústria e de repente começaram a chegar a Antuérpia artesãos de todas as cortes da Europa, curiosos e ávidos de aprenderem a nova e maravilhosa técnica... Hoje Van Berken, misticamente protegido por um anjo, está imortalizado em Antuérpia numa estátua em que segura um pequenino diamante numa mão, talvez aquela pedrinha com que mudou o destino da cidade! Calcula-se que hoje em dia 84% dos diamantes brutos do mundo inteiro passem por Antuérpia e só no famoso bairro dos diamantes, o Diamond Quarter, concentram-se 380 oficinas que trabalham para 1700 empresas e por onde labutam quase 4000 zelosos especialistas entre corretores, comerciantes e lapidadores de diamantes de 70(!) nacionalidades diferentes, tudo junto aglutinando mais de 30000 empregos e representando 15% das exportações belgas para fora da Europa...



"Diamond Quarter... at Sabbath!" - Antuérpia

E agora, quando deixar esta jóia de terra para trás e regressar à Lusitânia, a primeira coisa que farei é pegar no meu grande amigo João Andarilho e pôr o parlatório em dia, ele que para além de possuir para aí umas sete costelas angolanas é também maratonista, blogger e, acima de tudo para o que interessa aqui, foi durante largos anos lapidador de diamantes na antiga e saudosa DIALAP - Sociedade Portuguesa de Lapidação de Diamantes -, um segredo que teve largo tempo escondido... E se até aqui as nossas conversas sobre diamantes foram rápidas e de circunstância, embora interessantes, agora que vou daqui com o bichinho da curiosidade vamos ter muito que conversar e talvez, quem sabe, a ele que nunca esteve em Antuérpia, lhe venha a ser insustentável a leveza da certeza que tem que vir cá um dia ao centro de um mundo que lhe diz tanto... Talvez aproveite para vir cá fazer a próxima maratona e simultâneamente descobrir mais coisas sobre os diamantes e muitos outros segredos que a cidade tem para desvendar, quanto a mim, cujas pernas já não aguentam tanto sacrifício, nem me importaria muito de cá voltar e servir apenas de guia turístico! 

O tangue do Andarilho

João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

quinta-feira, 2 de abril de 2020



FLAMENGOS, PORTUGUESES E MARRANOS...


Se o meu comboio vinha cheio e se todos os outros que vejo chegar também vêem a abarrotar então não surpreende que as ruas de ANTUÉRPIA estejam fervilhantes de gente, especialmente neste quilómetro e meio de larga avenida pedonal que vai desde a estação até ao centro histórico, são famílias inteiras com cão incluído, grupos de malta nova a pigarrear com energia e alto volume aquela língua que me soa estranhíssima porque contêm muitos "erres" e trejeitos de boca, magotes de pares de donzelas carregando sacos de compras numa mão enquanto que com a outra vão apontando para as montras mais um possível investimento, o burburinho da multidão que avança devagar só é abafado por música que se ouve ao longe e então, tal qual nos filmes, no derradeiro instante do último segundo consigo desviar-me sem elegância e com atrapalhação de uma apressada e elegante ciclista que ainda teve tempo de me lançar um olhar que deveria conter três ou quatro elogiosos termos flamengos tipo dom, gek ou outros ainda mais simpáticos que ainda não aprendi... E apesar de só a ter visto de relance reconheci de imediato aquela mesma jovem que tinha dobrado a bicicleta à minha frente no comboio e enquanto eu abria os braços para pedir explicações já ela desaparecia ao fundo. E ali fiquei especado um par de minutos, pensando se o incidente teria sido uma mera coincidência ou se faria parte de uma conspiração para me eliminar até que, com embaraço, conclui que se tivesse sido abalroado a culpa seria minha porque só então notei eu que já vinha há muito caminhando distraído numa ciclovia berrantemente pintada de vermelho e só me restou chamar a mim próprio em voz alta e traduzido em bom português o que a moça me tinha dito com o olhar, estúpido, maluco e outras coisas que não devo dizer aqui!


Desfile de rua

E a meio da MEIERSTRASS, que traduzido do flamenco significa "a rua mais importante" (meir -maior; strass - rua) e que ganha evidente lógica porque é aí que se concentra o comércio do centro da De Metropool, ou seja, a metrópole, como assim gostam de chamar à sua cidade os sinjoren, assim auto-intitulados os habitantes de Antuérpia a partir do respeitoso tratamento senõr atribuído aos nobres espanhóis que governaram a cidade durante o século XVII, desfaz-se o enigma da origem daquela música de fundo que há muito tempo me chegava aos ouvidos: era um desfile de moda improvisado em plena rua! E tudo ganhou sentido então, para além do monopólio dos diamantes e de ter um dos maiores portos do mundo Antuérpia é também conhecida desde os anos 80 por albergar conceituados designers e por ser hoje em dia um dos pólos da moda mundial...


"Grote Markt", a praça central...

Desfile terminado, entre aplausos e agradecimentos, avanço para o verdadeiro centro histórico e de impulso tomo como atalho uma rua mais tranquila, mais espaçosa e com menos turba, pináculos da Onze-Lieve-Vrouwekathedraal à vista, ou seja, a Catedral da Nossa Senhora para quem obviamente não percebeu nada, ou seja ainda, a Notre-Dame lá do sítio, quando, qual trombeta soando dos céus, ouço um dueto de corações apaixonados declamando juras de amor na língua de Camões, esperava eu tudo menos encontrar amantes lusitanos entrelaçados num  meloso weekend  à portuguesa a milhares de quilómetros de distância da pátria de Damião de Góis...
Mas depois, passado o espanto, relembro as palavras de Ramalho de Ortigão em "As Farpas":

"Em Antuérpia e em Bruges honrosos documentos lembram ainda numerosos e ilustres portugueses que aí residiram, uns como nossos feitores em Antuérpia, outros como representantes da sua família e da sua pátria junto da duquesa Isabel, em Bruges."


"Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha e da Flandres" - Van Eyck

E de facto, se os portugueses contribuíram inicial e decisivamente para o desenvolvimento económico de ANTUÉRPIA isso o devem a Dona Isabel, única filha de D. João I e Filipa de Lencastre e que sendo ínclitamente casada com o duque da Borgonha e da Flandres usou da sua diplomacia para se tornar um influente pilar nos negócios lusitanos pela Flandres, de tal forma que ficou conhecida como "A Grande Dama"...
Então os comerciantes portugueses foram especialmente privilegiados em todos os negócios, decretaram-se feitorias em Bruges e depois em Antuérpia de tal forma que os negociantes portugueses por essa altura aí detinham 112 casas de comércio!, Mas El-Rei D. Manuel, o tal venturoso ou bronco, depende da perspectiva, sabe-se lá e escolha-se, apesar de ter nas suas mãos o monopólio das indianas especiarias, pimenta, açafrão, gengibre ou canela, lembro-me agora, trata de enviar para a Feitoria Portuguesa da Flandres tudo aquilo que vinha das Índias, nem sequer a mercadoria era desembarcada em Lisboa, ala que se faz tarde! Em troca recebia tecidos, pratas e outras quinquilharias para adornar palácios e calar os nobres corruptos da corte.... Não satisfeito ainda consegue, o venturoso, tomar a medida mais estúpida da história da humanidade, lusitana e não só, porque refém da maldita igreja católica decidiu expulsar os  nossos judeus de Portugal, os MARRANOS, eles que eram talvez os únicos incorruptos duma sociedade suja e que tinham o método, a disciplina e a esperteza no comércio e negócio.... O certo é que esses mesmos judeus de origem portuguesa incrementaram por Antuérpia o negócio dos diamantes, o negócio das especiarias e o negócio de tudo o que vinha das Índias descobertas por um tal Vasco da Gama... Não me admira, portanto, que se fale ainda tanto português pela Flandres... E entretanto, Portugal vem definhando desde então às mãos de imbecis e corruptos, desde que se esgotou o ouro do Brasil....




João Alembradura
(Historiador de Valmedo)