quarta-feira, 8 de maio de 2019



Cérebro - Exposição "Mais vasto que o Céu" - Gulbenkian  (Foto: Jean-Charles Forgeronne)


"O Cérebro - é mais amplo do que o Céu-
Pois - colocai-os lado a lado - 
Um o outro irá conter
Facilmente - e a Vós também -

O Cérebro é mais fundo do que o Mar -
Pois - considerai-os - Azul e Azul -
Um o outro irá absorver -
Como as Esponjas - à Água - fazem -

O Cérebro é apenas o peso de Deus -
Pois - Pesai-os - Grama a Grama -
E eles só irão diferir - se tal acontecer -
Como a Sílaba do Som -"

Emily Dickinson
in "Esta é a minha carta ao mundo e outros poemas"

(Tradução: Cecília Rego Pinheiro)

terça-feira, 7 de maio de 2019



EM MAIO, SÃO FAVAS CONTADAS NO PRATO...


A FAVA é rica em proteínas, vitamina C, hidratos de carbono, ferro e outros minerais; além disso, o seu altíssimo teor em fibra faz desta leguminosa um poderoso aliado no combate ao colesterol e um excelente regulador do trato intestinal! Existirão melhores razões para neste mês de Maio ir à fava e apreciá-la das mais diversas maneiras?
Claro que nisto das favas não há meio termo, ou se adora ou se detesta, ou se pode comê-las ou não, e se for a primeira vez que o comensal as experimenta convém primeiro saber terá deficit na enzima G6PD (Glucose-6-fosfato-desidrogenase) porque nesse caso iria pagar as favas bem caro, é que poderia, em caso de consumo excessivo, ser vítima de uma anemia hemolítica aguda, o chamado favismo que nalguns casos pode ser fatal...
Mas pronto, chegado aqui e depois de apenas os amantes da fava continuarem a seguir-me, aqui vai um petisco para alegrar o mês de Maio, agora que as favas estão grandinhas e viçosas...

    
FAVAS AVINAGRADAS À VALMEDO

Ingredientes:
                         - favas recém-descascadas (1 Kg)
                         - 1 cebola roxa 
                         - 2 dentes de alho
                         - azeite q.b
                         - vinagre balsâmico (3 c.s)
                         - massa pimentão (1 c.s)
                         - caril (1 c.c)
                         - tomate seco a gosto
                         - sal e pimenta q.b
                         - salsa e coentros a gosto
                         - rama de alho francês


Cozedura das favas
A parte mais importante  desta iguaria é a cozedura das favas, devem elas ser cozidas durante 5 minutos em água fervente temperada de sal à qual se juntaram algumas ramas de alho francês (aquela parte verde que normalmente se despreza); de seguida transferir as favas para um recipiente com água fria e algumas pedras de gelo para interromper a sua cozedura e deixá-las "ao ponto";
Já com as favas no recipiente que irá à mesa, juntar a cebola e os alhos bem picadinhos, regar com azeite e vinagre balsâmico, juntar a massa de pimentão e o caril, temperar com sal e pimenta e, finalmente, juntar a salsa, os coentros e o tomate seco picados.
Misturar muito bem e levar marinar no frigorífico por 30 minutos.
Servir como entrada ou como acompanhamento; hoje, por Valmedo, acompanhou uns rojões...
Bom apetite. 


         





João Ratão
(Chef de Valmedo)          

domingo, 5 de maio de 2019

E porque hoje o dia é da mãe...


"MATERNIDADE" - BOTERO, Lisboa

Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

sábado, 4 de maio de 2019


A TOUPEIRA DE MAIO


A SÍNDROME PERHAT E AS TOUPEIRICES  DE MAIO...


À hora combinada, que nisso a TOUPEIRA não falha, começo por ver primeiro duas espalmadas patas a apoiarem-se nas bordas do buraco e logo atrás, num incessante movimento de radar, vislumbro os bigodes da criatura... Mas depois nada, passam alguns segundos que pareceram horas, ouve-se um grunhido e só depois, lentamente, hesitantemente, surge a cabeça do bicho de olhar míope...
  - Então, Dona Toupeira, estavas receosa de vir cá acima?
A rainha das cavernas não disse nada, limitou-se a fazer um gesto para me calar enquanto virava o focinho para um lado e para o outro, para a frente e para trás... Então percebi, escutava os sinais do universo...
- Com medo não, meu amigo, mas muito desconfiada! E cada vez mais, os inimigos trabalham na sombra dia e noite para evitar a reconquista e recorrendo a todos os meios para desestabilizar...
  - Estás a referir-te à coacção sobre a arbitragem?
  - Claro e não só, há por aí muita azia pela forma como as coisas nos têm corrido bem, afinal no mês de Abril a equipa venceu as 4 finais para a Liga, incluindo a goleada em Braga onde muitos perigos espreitavam!
  - Então, não estás a exagerar? Afinal dependemos só de nós próprios!
  - Aí é que estás enganado, dependemos também da sorte e do azar, dependemos dos erros alheios e estamos sujeitos a toupeirices, manobras subterrâneas comuns nestas fases decisivas do campeonato! E depois a euforia, meu amigo, é o nosso pior inimigo... Já vejo muita gente a lançar foguetes e só temo que, pela sua juventude, a equipa se deixe deslumbrar na praia... E depois sabes como é no mês de Maio, já o povo diz desde que o mundo existe que às vezes quando menos se espera acontece a borrasca, o que por um lado pode ser um bom sinal pois como diz o ditado "em Maio verás a água com que regarás", mas por outro, nunca fiando! Entendes? 


Perhat ainda confiante...

 - Cara toupeira, agora que falas nisso, da  tal nefasta euforia, fazes-me lembrar o meu amigo Cláudio PEHRAT que num ápice passa da euforia à mais vil depressão, tudo está bem agora e daqui a um minuto o mundo desaba-lhe na cabeça!
   - Olha só, é o SÍNDROME PERHAT, muito conhecido e debatido há séculos entre nós, toupeiras...
    - Sabes que o rapaz estava super-confiante para o jogo de Braga e até começou a ver o jogo mas depois, quando as coisas não estavam de feição e o glorioso se viu a perder aí vai ele, desliga tudo, fecha-me a porta e isola-se do mundo!
     - É mesmo isso, connosco acontece o mesmo, mergulhamos no mundo subterrâneo e só cá vimos acima quando cheiramos que este mundo cão tem boas sensações para oferecer! É o Síndrome Pehrat...
   - Mas depois, acordando para a realidade, quando o meu amigo Cláudio repara que o glorioso deu a volta à questão e começou a enfiar bolas que nunca mais acabava, lá vem ele provocar, impante, aliviado, feliz...
    - É isso mesmo, tal qual!
    - Mas estamos para aqui a filosofar e o tempo escasseia e ainda não me disseste as tuas previsões para este lindo mês de Maio, toupeira... O que aconselhas ao Bruno Lage e aos jogadores?
     - Mais do que tácticas ou opções, neste momento, chegados aqui, o segredo está no balneário, todos juntos, unidos, irmanados, jogue quem jogar e brilhe quem o conseguir, é a EQUIPA que interessa e mesmo que as coisas comecem por correr mal em qualquer uma das 3 finais que faltam há que nunca perder a confiança, a fé na reconquista e depois, o segredo também está no apoio dos adeptos, incomparável em todo o mundo e que tem o condão de levar o grupo às costas até à glória como já o demonstrou vezes sem conta no passado!
     

  - Bem, foi a tua última aparição no mundo-cão, agradeço a tua colaboração e, quem sabe, até a uma próxima...
    - O gosto foi meu e tanto assim foi que prometo voltar uma última vez se houver festa no Marquês! E já agora, se isso acontecer, promete que levas contigo à festa o amigo Perhat, estou ansioso por conhecê-lo e aprender mais umas coisas sobre estas toupeirices!
    - Combinado!


28666  

sexta-feira, 3 de maio de 2019


O ROBOT, O TRABALHO E O FUTURO...


Quando em 1920 KAREL KAPEK criou o termo ROBOT estaria longe de imaginar que iria ser uma das palavras mais visionárias de sempre e que, como nenhuma outra, à medida que a humanidade galga futuro vai ganhando importância e peso na consciência colectiva da humanidade, seja a nível ficcional, científico, filosófico, social ou prático...
Na sua peça "R.U.R Robots Universais de Russum", o escritor, dramaturgo, tradutor e jornalista checo inventa o termo robot a partir da palavra ROBOTA, a qual, nos idiomas eslavos, significa trabalho forçado, escravo... Na história, Russum é um brilhante cientista que descobre uma substância que lhe permite a construção de humanoides, os tais robots, obedientes e aptos para realizar todo o trabalho físico!



E como a ficção, científica e não só, se antecipa muitas vezes à realidade, apetece perguntar por onde andam os robots no dia de hoje, passados 99 anos... Bem, sabe-se que numa das encostas do Monte Fuji, no Japão, uma fábrica aí instalada fabrica todos os meses 5000(!) robots industriais, eles cortam, soldam, montam, pintam e, por exemplo, não se queixam nas linhas de montagem de automóveis... Consta também que numa fábrica de uma multinacional holandesa trabalham lá mais de 100(!) robots que produzem mais de 15 milhões de máquinas de barbear anualmente; nessa mesma fábrica, apenas 9 trabalhadores são humanos! As consolas Xbox, os computadores da HP e os IPhone são fabricados por uma empresa que tem ao seu dispor 40 mil (!) robots; o objectivo dos seus gestores é automatizar a breve prazo toda a estrutura! Muitos outros exemplos haverá mas fiquemos por agora com os avisos dos especialistas na área: o Fórum Económico Mundial prevê que os robots irão eliminar 5 milhões de postos de trabalho na próxima meia dúzia de anos e a consultora McKinsey prevê que quase metade das actividades feitas por pessoas mediante pagamento podem já hoje ser desempenhadas pela tecnologia robótica; há até quem vá mais longe e afirme despudoradamente que daqui a 25 anos as máquinas poderão desempenhar qualquer trabalho!  Depois da razia que os computadores fizeram no mercado de trabalho nas últimas décadas aí vem o anunciado apocalipse!
     
Robot NAO (Instituto Superior Técnico) - Foto: Jean-Charles Forgeronne

Que futuro então para as pessoas num mundo sem trabalho? Como sobreviver? Certamente que não será a ideia peregrina do Rendimento Mínimo Universal que resolverá o problema até porque, para além de ser mínimo, tem comprometido o seu financiamento por parte dos governos, sem trabalho não há impostos e sem estes não há dinheiro para soluções sociais... É tempo de os decisores mundiais trabalharem no assunto, mas sem recurso a máquinas, apenas com a cabeça!

João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)

quarta-feira, 1 de maio de 2019





"No princípio, o trabalho nasceu da tortura,    hoje a tortura nasce muitas vezes do trabalho!"

Yuehan Kaluosi
(Filósofo Taoísta de Valmedo)

EFEMÉRIDE # 59


A TORTURA DO TRABALHO!


"No princípio o trabalho nasceu da tortura e hoje a tortura nasce do trabalho!"! 
  - Como explicas esta tua afirmação polémica, meu caro amigo Yuehan Kaluosi, filósofo taoísta de Valmedo?
   - Bem, meu caro João, tu melhor do que ninguém saberás entendê-la, como emérito linguísta que és, mas aqui vai: a palavra TRABALHO, em português e noutras línguas, deriva do termo latino TRIPALIUM, o qual designava um instrumento de tortura onde eram supliciados os escravos na sociedade imperial da Antiga Roma... Literalmente, o tripálio, também assim designado, era constituído por 3 (tri) estacas ou paus (palus) cravados no chão e aos quais eram amarrados as pobres criaturas para serem "tripagliadas", ou seja, trabalhadas, torturadas! Mas não eram só os escravos que eram "trabalhados", outros cidadãos incumpridores, por exemplo os que não pagavam as suas dívidas ou os seus impostos, também mereciam tal tratamento...
   - Queres tu ver, Yuehan, que com o crédito mal-parado que por aí vai ainda se ressuscita o maldito tripalium?
    - Nunca se sabe, basta pensares na escravidão de muita gente que trabalha!


TRIPALIUM

De facto, amigos, a visão esclavagista, torturante e deprimente do trabalho que ressalta das palavras do Yuehan ganham sentido quando atentámos que de tripalium derivaram a lusitana trabalho, a espanhola trabajo, a francesa travail ou a italiana travaglio, embora esta última hoje se aplique apenas ao "trabalho de parto", o trabalho comum por terras italianas é descrito por laboro, antes originário do latim labor que significa fadiga ou cansaço e que, curiosamente,  também deu origem ao labor inglês... Mas, por exemplo, na língua britânica, WORK já deriva do gaélico wikran que significa perseguição e também a palavra alemã para trabalho, ARBEIT, deriva de outra palavra germânica, arba, que significa escravo! E tudo ganha sentido se tivermos em conta que na Antiguidade só os escravos trabalhavam e que ser escravo era sinónimo de ser posse de alguém, ter um dono, não ser livre... E hoje, somos realmente livres, apetece perguntar?


O trabalho pode então ser encarado apenas como uma tortura, apenas um meio para que as pessoas possam ganhar um salário para sobreviver... E aí está o busílis, não se aplicará a todos mas a muitíssimos, o salário é tão bastas vezes tão miserável que se torna numa tortura! E não é irónico que, da mesma forma que ao aplicar sal numa ferida tem como consequência aumentar a dor, tratar o trabalho com salários miseráveis só pode resultar no aumento da revolta?
E porque hoje é o dia do trabalhador convém lembrar que neste preciso momento muitos milhões de pessoas estão a ser torturadas com trabalho, eu, por exemplo, sou uma delas, iniciei agora mesmo neste feriado o meu turno! E já ouço algumas vozes a resmungar coisas do tipo "a pior tortura é não ter trabalho", mas isso é bastante redutor, não acham?

João Portugal
(Linguísta de Valmedo)