sábado, 2 de fevereiro de 2019


A TOUPEIRA DE FEVEREIRO


VITÓRIA FORA, FUTURO EM CASA...



Se nas imediações da Luz a confusão era tanta que parecia ter chegado a hora do Apocalipse, imaginem então o ambiente que se vivia na sala onde se iria realizar a tão aguardada conferência de imprensa... Já não cabia nem mais uma mosca e muitos lá fora, sócios, populares, infiltrados e até jornalistas não creditados em busca de um furo, todos dariam a vida por uma metamorfose que os transformassem num pequeno insecto para ouvir e ver o grande acontecimento...
O pequeno auditório estava à pinha, jornalistas nervosos e demais em pulgas aguardavam ansiosamente pela entrada do palestrante, a famosa toupeira que só emergia das profundezas de mês a mês para opinar sobre a extraordinária e por vezes nebulosa saga do clube da águia...  E então algo de extraordinário aconteceu, arregalaram-se olhos, abriram-se desmesuradamente as bocas e petrificaram-se os corpos porque uma voz rouca e profunda se fez ouvir, vinda sabe-se lá de onde, e dizia ela:



"Acabei de construir a minha toca e parece-me que ficou bem. Do exterior, só se vê um grande buraco que, na realidade, não conduz a parte nenhuma, depois de dar uns passos, chocamos com rocha firme, não vou vangloriar-me de ter concebido esta artimanha intencionalmente, ela foi, antes, o que restou de uma das várias tentativas de construção infrutíferas, mas finalmente parece-me vantajoso deixar este buraco sem protecção. É certo que muitas artimanhas são tão subtis que se anulam a si próprias, sei isso melhor do que ninguém, e, sem dúvida, é temerário chamar a atenção, através deste buraco, para a possibilidade de haver aqui qualquer coisa que valha a pena investigar. Mas, quem pensa que sou medroso e que foi por medo que construí esta toca, não me conhece."  

Sem surpresa, um silêncio de morte instalou-se, mas que raio vem a ser isto, todos se interrogavam... E então a criatura, timidamente mas de ar confiante entrou sem hesitar e sentou-se... Virou a cabeça numa e noutra direcção, olhou para o tecto, inspirou e pousou o livro que trazia nas patas dianteiras. Esboçou aquilo que pareceu um sorriso para alguns mas que não passou de um esgar para outros e disse para o entrevistador ao seu lado:
    - Peço desculpa, vinha entretido com o grande KAFKA e o seu delicioso conto sobre a toupeira, está a ver, sobre alguém da minha espécie, compreende?
     O outro sorriu, um sorriso tímido é certo, e perguntou;
    - Então, amiga toupeira, que nos diz sobre aquilo que se passou no último mês? Foi-se o VITÓRIA, emancipou-se o LAGE, despachou-se o Ferreyra e o Castillo, não se comprou ninguém...


O futuro mora em casa...

 - Pois é - respondeu o bicho - e parece-me que o glorioso arriscou tudo nesta importante fase da sua vida, trocou as compras de inverno pela aposta nos jovens talentos da casa, despachou o amigo Rui que se tinha posto a jeito para tal, amigos como dantes, e apostou tudo em VITÓRIA FORA e FUTURO EM CASA, Félix, Jota, Ferro... E seria bom que a coisa começasse a resultar já amanhã em Alvalade com uma vitória fora porque uma boa intenção carece sempre de bons resultados!
  - Então concorda com esta estratégia?
  - Uma estratégia kafkiana, é certo, e em Março lhe responderei... - e a toupeira levantou-se devagar, lançou um último olhar sobre a plateia, inspirou de nariz levantado e abrindo o livro de Kafka que tinha ao colo, regressou para as profundezas deste mundo...


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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

"Os bébés de Cerny" - Praga

Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)


LENDAS E NARRATIVAS - IX


O FRANKENSTEIN JUDEU


Decorria o século XIII quando a comunidade judaica se instalou em Praga, num bairro atrofiado dentro de muralhas porque assim o exigia as leis de Roma que não permitiam que judeus e cristãos se misturassem. Apesar de sujeitos a muitas discriminações e encurralados no seu gueto, os judeus lograram alcançar grande prosperidade e desenvolver uma frenética vida intelectual até finais do século XIX, acabando então o bairro por cair na miséria e se tornar num assombrado emaranhado de ruelas tenebrosas e ruas escuras...



Na mais famosa lenda de Praga, por volta do século XVI terá o principal sábio e líder espiritual do gueto, o rabino LOEW, que também era filósofo, cientista e astrónomo, e utilizando os seus conhecimentos secretos e processos esotéricos associados à CABALA, criado a partir de um monte de barro o GOLEM, uma criatura bruta mas com imenso poder e que se tornou uma espécie de servo e protector do bairro, obedecendo apenas ao seu criador... Para lhe dar vida, o rabino tinha escrito na sua testa EMETH (verdade) e como a criatura não estava autorizada a trabalhar no Sabbath, todas as sextas-feiras à noite o sábio era obrigado a apagar a primeira letra e assim inactivar a criatura: METH (morte). Até que um dia, por esquecimento ou talvez não, o rabino esqueceu-se de apagar a tal letra o que desencadeou um ataque feroz da criatura que espalhou pânico e morte, levando os habitantes de Praga a prometer ao rabino o fim dos ataques aos judeus se ele destruísse o GOLEM, coisa que ele fez apagando todas as letras da testa da criatura, a qual se desfez naquilo que era ao princípio, um monte de barro...

A Sinagoga Velha-Nova - Casa do Golem

Consta que que isso não foi o fim do monstro, diz-se que ainda hoje os seus restos mortais repousam no sótão da Sinagoga Velha-Nova, fechado num quarto até ser ressuscitado novamente...


João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019


LIVROS 5 ESTRELAS - VII

CÃES, PESSOAS E OUTRAS BESTAS...


FRANZ KAFKA, que em vida apenas viu publicados neste mundo cão alguns contos em revistas literárias, deixou instruções ao seu amigo e testamenteiro literário Max Brod para que, após a sua morte, os seus manuscritos fossem queimados.... Felizmente, Brod desobedeceu e a ele devemos a existência hoje de obras como "O Processo" ou "O Castelo" que figuram em qualquer lista de romances geniais que marcaram o curso da literatura, ambos curiosamente deixados inacabados por Kafka mas construídos e  depurados a partir de fragmentos e notas por Max. Se assim não tivesse acontecido, Kafka não teria sido entretanto considerado pelos seus pares como um dos mais importantes escritores do século XX, Auden não lhe teria chamado o Dante moderno enquanto Saramago não o teria reconhecido como uma das suas maiores influências... E já bastou que numa vida curta e atormentada, Kafka tenha ele próprio queimado 90% das coisas que escreveu, para além das centenas de manuscritos seus por publicar que Brod deixou e que param em parte incerta, talvez nos cofres de alguma secretária ou da família de uma das muitas amantes do escritor...
Uma pessoa que se metamorfoseia num insecto, um cão que se arma em detective e investiga as particularidades da vida canina, um macaco resgatado à selva e que se humaniza, um bicho que ocupa uma sinagoga e faz dela a sua casa, uma toupeira refugiada na sua toca, chacais, ratos cantadores e outros bichos curiosos, eis os protagonistas do Bestiário de Kafka, uma colecção de contos que transforma a vida numa parábola e a realidade num sonho, histórias que exorcizam os pesadelos e nos devolvem à tranquila simplicidade dos dias que o autor não teve, todos eles corporizam o próprio Kafka que, descontente com a sua pele humana e com o seu finito mundo de Praga, se rasga e liberta de peles e carapaças para assumir outras formas, abrindo a janela de uma consciência  cósmica superior e infinita...

Ponte Carlos - Praga

João Vírgula
(Leitor de Valmedo)



"«Ah», disse o rato, «cada dia que passa, o mundo vai ficando mais estreito. No princípio, era tão vasto que eu tinha medo, continuei a correr e fiquei contente por finalmente ver, lá longe, muros à direita e à esquerda, mas estes extensos muros aproximam-se tão rapidamente um do outro que eu me vejo confinado já ao último compartimento, e ali, ao canto, está a ratoeira para onde corro.»
«Só tens de mudar de direcção», disse o gato e devorou-o.


Franz Kafka - "Fábula breve"

terça-feira, 29 de janeiro de 2019


ENCONTROS IMEDIATOS COM ESCRITORES - II


FRANZ KAFKA

Poucos escritores se podem identificar tanto com um lugar como Kafka e PRAGA, cidade onde nasceu, onde viveu toda a vida e onde morreu, numa relação tão intensa e estranha que saltava de um ápice da paixão ao ódio, da exaltação à depressão, tal qual as suas histórias sem enredo nem heróis que narram o absurdo da existência... Quem se perder pelo antigo bairro judeu de Praga, o Josefov, acabará fatalmente por encontrar o nosso herói numa pequena praça, e onde poderia ser senão ali, pertinho da casa onde morou, das sinagogas e do famoso cemitério, por entre ruelas intrincadas e vielas outrora escuras que serpenteavam desde a Praça da Cidade Velha e a celebérrima Ponte Carlos, na fronteira entre o que era o gueto opressor e a cidade livre dos sonhos, sob o signo da corrente libertadora do Moldava...

Franz Kafka - por Jaroslav Róna

KAFKA, que despudoradamente nem sequer se arvorou em herói defensor das causas judias, ele, judeu antes de tudo mas um apátrida e um desenraizado deste mundo, e depois uma mente atormentada, é certo, mas livre de qualquer apego a ideologias políticas ou sociais, tem a coragem de gritar a um mundo esquizofrénico: "O que é que tenho em comum com os judeus? Nem sequer tenho nada em comum comigo próprio."
Fantasista, bizarro, esquisito, de um ténue mas dilacerante humor, corajoso ao expôr as suas mais profundas misérias interiores ao ponto de se ridicularizar, Kafka abriu-se qual caixa de Pandora de tal forma que os seus conhecedores e amigos de então diziam que ele vivia por detrás de uma parede de vidro... 

E ali vem ele, às cavalitas de uma enorme e vazia personagem, uma estrutura sem cabeça nem mãos nem pés, apenas um fato suspenso, alegoria da dupla existência  do ser humano, entre o mundo material e o mundo espiritual, entre o ego e a essência;  tal qual a curiosa personagem que fez passear por Praga aos ombros de alguém no seu juvenil conto "Descrição de uma luta", alguém ao mesmo tempo frágil e inseguro quanto ufano e triunfal,  o nosso escritor, ainda desconhecedor de que muito tempo depois iria mudaria os paradigmas da escrita universal e dos significados, nem sequer repara em nós, o seu olhar sobrevoa-nos, desprendido do solo, fixo num horizonte longínquo ...
Hoje, kafkiano significa algo ilógico, estranho, absurdo, incompreensível, e, afinal de contas, quantos escritores se tornaram importantes ao ponto de se tornarem adjectivos? Pois é, kafkianamente, muito poucos...


João Pena Seca
(Escritor de Valmedo)